<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342</id><updated>2011-10-19T02:57:58.951-07:00</updated><category term='Universo: Aera'/><category term='Universo: Grande Floresta'/><category term='Universo: Zemi'/><category term='Universo: Outros'/><category term='Resenhas'/><category term='Artigos'/><category term='Contos Reunidos'/><category term='Universo: Pena da Fênix'/><category term='Universo: Kate Whitehill'/><title type='text'>Eisoptron</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>DanielFolador</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12052168755551551359</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sn2PcB1vKeI/AAAAAAAAAC8/_lEL3rRf5GY/S220/P1170002.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>31</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342.post-1883735312048177337</id><published>2011-10-18T13:54:00.000-07:00</published><updated>2011-10-18T13:56:34.057-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Universo: Aera'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos Reunidos'/><title type='text'>[Conto] Alma de Fogo</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: x-small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/12/conto-as-luas-de-zemi-parte-vii.html"&gt;← Postagem anterior&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: 11pt; text-align: justify;"&gt;Voltando à ativa, primeiro conto deste ano! Decidi, finalmente, tentar conciliar o trabalho e  o mestrado com a escrita. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A idéia era escrever, até a meia-noite do dia seguinte, um conto com até 500 palavras com o tema 'fogo'. Pra variar, escrevi quase o limite. Agradecimentos à Rita Maria, pelo incentivo e apoio!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o/&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;_________________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/-pAni2TzmcVo/Tp3mfRsFO5I/AAAAAAAAAOw/7TumE-PLn24/s1600/fire+forest+drama+Wallpaper__yvt2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="480" src="http://1.bp.blogspot.com/-pAni2TzmcVo/Tp3mfRsFO5I/AAAAAAAAAOw/7TumE-PLn24/s640/fire+forest+drama+Wallpaper__yvt2.jpg" width="640" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;(do universo de Aera, o mundo dos Deuses Ventos)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;A deusa do vento ardia de desejo, e fecundou as nuvens de tempestade com o brilho do relâmpago. O raio se precipitou contra a grande Copaíba, que tombou ferida, mergulhando na escuridão da noite da selva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do corpo da árvore morta, uma chama ardeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A fada-centelha ergueu o rosto para as copas escuras. O ar fresco da noite deu-lhe oxigênio para beber, e a vida trouxe-lhe a fome, fome de recém-nascido. Avançou sobre o ninho com ferocidade, e em poucos minutos cresceu, consumiu a árvore morta e se ergueu. O corpo tomou forma, voluptuosa forma feminina, de seios fartos e curvas ardentes como o calor que irradiava. Nuvens rugiam no céu, mas nenhuma gota ameaçava a liberdade da jovem fada de fogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saltou entre as árvores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por onde passava, seu corpo se alastrava, lambia as árvores e estalava os galhos secos. Galgava as colinas e crescia conforme caminhava, inflando com a floresta ardendo em seu seio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A deusa do vento estava furiosa, espalhava o fogo. Os animais pressentiram a desgraça do incêndio e correram de seus ninhos. As fadas-arbusto fugiram desesperadas, descendo os vales rumo ao abrigo dos rios. Os homens das matas soaram o alerta, abandonando suas casas-árvores. O vento urrava e espalhava as chamas, trovões roncavam, e foi com desesperado alívio que a floresta viu as primeiras gotas caírem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tempestade tomou todo o céu. A fada de fogo, agora adulta e poderosa para resistir à chuva, ainda se alimentava da selva, espalhando suas filhas, suas chamas. Feriu-lhe o orgulho descobrir que seu toque murchava a vida do seres, que sua caminhada desesperava plantas e sua presença afugentava animais. Irou-se. Estendeu os braços, agora gigantescos, e abraçou a floresta que a rejeitava. Ordenou às filhas que se espalhassem e honrassem o chamado da mãe-vento. Tornou-se tão grande que quando se ergueu, seu vulto tocava as nuvens de chuva. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tempestade ganhou força, derramando-se sobre as árvores e sobre a fada-incêndio, e finalmente iniciou sua oposição ao fogo. Sentindo o beijo gelado da chuva, a fada tentou atacar as nuvens, mas o vento, antes maternal, açoitou-a com chibatas de água, sangrando suas costas com sangue-fumaça. Ela chorou labaredas vermelhas, repreendida pela própria mãe que a incentivara. A fumaça empoçou negra no céu, e o fogo diminuía. A fada-incêndio viu suas filhas, mais frágeis, murcharem e se extinguirem, enquanto seu próprio corpo enrugava e diminuía.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Envelhecia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O frio aumentou e seu corpo desmanchou-se em focos menores, que logo foram vencidos pela tempestade. Diminuiu, perdeu o vigor, e quando encolheu até ser escondida pelas copas queimadas, pensou com tristeza na sua curta vida, nas filhas perdidas, na rejeição da mãe. Pensou no repúdio da floresta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com um suspiro de angústia, extinguiu-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A deusa do vento estava triste, e velou com chuva branda a morte da filha. Dias depois, ela sopraria as cinzas do incêndio, dando espaço para que os brotos das novas árvores crescessem, honrando a memória de sua mãe-fogo, que matou e morreu para que pudessem viver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;________________________&lt;br /&gt;Imagem retirada de &lt;a href="http://www.scenicreflections.com/download/530267/fire_forest_drama_Wallpaper/"&gt;scenicreflections.com&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2502613120236415342-1883735312048177337?l=eisoptron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/1883735312048177337/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2011/10/conto-alma-de-fogo.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/1883735312048177337'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/1883735312048177337'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2011/10/conto-alma-de-fogo.html' title='[Conto] Alma de Fogo'/><author><name>DanielFolador</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12052168755551551359</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sn2PcB1vKeI/AAAAAAAAAC8/_lEL3rRf5GY/S220/P1170002.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/-pAni2TzmcVo/Tp3mfRsFO5I/AAAAAAAAAOw/7TumE-PLn24/s72-c/fire+forest+drama+Wallpaper__yvt2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342.post-3887347714929890958</id><published>2010-12-19T08:37:00.000-08:00</published><updated>2011-10-18T13:58:35.124-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Universo: Zemi'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos Reunidos'/><title type='text'>[Conto] As Luas de Zemi (parte VII)</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: x-small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-vi.html"&gt;← Postagem anterior&lt;/a&gt; &lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2011/10/conto-alma-de-fogo.html"&gt;Próxima postagem →&lt;/a&gt;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: 11pt; text-align: justify;"&gt;Última parte e conclusão da história. Espero que gostem de lê-la tanto quanto gostei de escrevê-la, nas atribulações de uma viagem de intercâmbio um ano atrás, escrita entre o trabalho na supermercado e as viagens com os amigos. Queria agradecer à Strix pelo tema e à Ana Carol pela idéia da brincadeira, e à qualquer pessoa que teve a coragem de acompanhar a história até aqui. De longe esse é meu conto mais longo, mas espero que não o menos interessante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até a próxima!&lt;br /&gt;&lt;ul&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/09/conto-as-luas-de-zemi-parte-i.html"&gt;Parte I - Nas magens de sal&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/09/conto-as-luas-de-zemi-parte-2.html"&gt;Parte II - A floresta de água&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-iii.html"&gt;Parte III - O totem para Lum&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-iv.html"&gt;Parte IV - O Pólo&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-v.html"&gt;Parte V - A biblioteca de Ushan&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-vi.html"&gt;Parte VI - A fúria de Rafael&amp;nbsp;&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/12/conto-as-luas-de-zemi-parte-vii.html"&gt;Parte VII - Alex &lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;/div&gt;_________________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TQ40lIv8tuI/AAAAAAAAAOg/AjJ_yqANXt0/s1600/barcos-10-2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="480" src="http://4.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TQ40lIv8tuI/AAAAAAAAAOg/AjJ_yqANXt0/s640/barcos-10-2.jpg" width="640" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: 11pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;6. Alex&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A partir de então, o arquivo memória de Zero se torna confuso, com flashes de imagens do fundo do mar e do céu noturno. O relógio e calendário interno foram comprometidos, não sendo possível determinar por quanto tempo o flutuang vagou perdido no oceano. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia ainda uma última gravação, impecavelmente nítida depois das horas de estática. A vista era do porto de Villa, nas pedras do cais, num dia claro sem eclipses. O rosto engraçado de Quinan observava Zero de perto, e disse alguma coisa que os sensores sonoros do flutuang não puderam captar. Então acenou o adeus à moda dos mukai, e partiu para o mar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zero livrou-se do traje aquático e, flutuando com o mínimo de bateria de que dispunha e o mínimo de orientação que extraiu de seu computador, encontrou sua casa, sua família. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resto Alex sabia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era a centésima vez que relia o arquivo de memória do flutuang da irmã, e conhecia cada detalhe. Zero interrompeu a transmissão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ A pr4visã0 lun4r para as pr0ximas h0r4s é de bom tempo – disse. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Lu1z na5ceu essa noite, terem0s m4is tr3s dias de vent0s favoráv3is – disse um outro flutuang, o seu flutuang, um autômato cúbico com o mesmo tamanho de Zero. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Obrigado, Nulo – respondeu Alex. Se deixasse o cabelo crescer até a cintura, lembraria muito a irmã mais velha, o mesmo sorriso, o mesmo olhar. Ele ergueu a mão contra a luz da cabine, observando o estranho sangue rubro que desenhava sua pele. Isso ele não podia ver, mas milhares de hemo-robôs trilhavam seu sistema circulatório, distribuindo energia, nutrientes, e restaurando feridas cinco vezes mais rápido do que sangue comum. A cura que sua irmã arriscou tanto para conseguir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passaram-se dois anos, e agora Alex era um zeman adulto. O arquivo-memória de Zero sobre o continente perdido do Pólo e a notícia de sua milagrosa recuperação tornaram-no famoso. Em dois anos, Alex se tornou um grande navegador, e agora liderava uma expedição de cinco navios em direção ao Pólo, como capitão do Strix, o maior navio explorador que Villa jamais construiu. Mas não buscava apenas o Pólo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Qual a direção agora, Zero? – perguntou ele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ A sude5te daqu1. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um zeman não sobrevive muito tempo sem seu flutuang, nem o flutuang sobrevive à morte de seu dono, há menos que a ligação seja cortada com antecedência. Nesse caso, o autômato sobrevive, e, embora seja mais difícil, o zeman também pode conseguir. E Adriana tinha o sangue do Pólo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alex checou mais uma vez a bússola interna de Zero, que indicava a direção onde sua antiga dona se encontrava. Se tivesse morrido, a bússola jamais funcionaria. Adriana estava viva, e Alex esquadrinharia todo o Mar Interno atrás dela. O Pólo podia esperar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Claro, Zero passou dias, talvez meses sob o oceano, à deriva e desorientado. Talvez sua bússola interna não esteja apontando para Adriana; talvez sequer estivesse funcionando. Não se podia confiar nesses mecanismos uma vez que a ligação psico-cibernética tenha sido interrompida. Talvez toda a viagem de resgate seja um engano, uma esperança idiota e improvável. Talvez. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas então, toda a viagem de Adriana até o Pólo não passou de um grande e estúpida esperança improvável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;________________________&lt;br /&gt;Imagem retirada e alterada de &lt;a href="http://www.zezao.com/papeis-de-parede/barcos/barcos-10-5481.html"&gt;zezao.com&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2502613120236415342-3887347714929890958?l=eisoptron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/3887347714929890958/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/12/conto-as-luas-de-zemi-parte-vii.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/3887347714929890958'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/3887347714929890958'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/12/conto-as-luas-de-zemi-parte-vii.html' title='[Conto] As Luas de Zemi (parte VII)'/><author><name>DanielFolador</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12052168755551551359</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sn2PcB1vKeI/AAAAAAAAAC8/_lEL3rRf5GY/S220/P1170002.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TQ40lIv8tuI/AAAAAAAAAOg/AjJ_yqANXt0/s72-c/barcos-10-2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342.post-1021265499596693311</id><published>2010-11-17T17:07:00.000-08:00</published><updated>2010-12-19T08:44:59.287-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Universo: Zemi'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos Reunidos'/><title type='text'>[Conto] As Luas de Zemi (parte VI)</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: x-small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-v.html"&gt;← Postagem anterior&lt;/a&gt; &lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/12/conto-as-luas-de-zemi-parte-vii.html"&gt;Próxima postagem →&lt;/a&gt;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: 11pt; text-align: justify;"&gt;Penúltima parte!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zero e Adriana zarpam de Ushan, o lendário pólo do planeta, carregando a esperança de Alex. Mas a rota traçada por A-L-C continha um erro, obrigando os dois a enfrentarem o mais terrível obstáculo de toda a viagem. Que todas as luas os protejam...&lt;br /&gt;&lt;ul&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/09/conto-as-luas-de-zemi-parte-i.html"&gt;Parte I - Nas magens de sal&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/09/conto-as-luas-de-zemi-parte-2.html"&gt;Parte II - A floresta de água&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-iii.html"&gt;Parte III - O totem para Lum&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-iv.html"&gt;Parte IV - O Pólo&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-v.html"&gt;Parte V - A biblioteca de Ushan&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-vi.html"&gt;Parte VI - A fúria de Rafael&amp;nbsp;&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/12/conto-as-luas-de-zemi-parte-vii.html"&gt;Parte VII - Alex &lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;/div&gt;_________________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TO0WfE9Es_I/AAAAAAAAAOI/GAkW42CRqww/s1600/The_perfect_storm_by_frenzoalot.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="352" src="http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TO0WfE9Es_I/AAAAAAAAAOI/GAkW42CRqww/s640/The_perfect_storm_by_frenzoalot.jpg" width="640" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: 11pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;6. A fúria de Rafael&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nuvens cobriram o céu conforme avançavam, quando ultrapassaram os grandes criori e o Pólo se tornava uma linha no horizonte, e então um ponto, e então nada. Zero manejava os controles do barco, e Adriana arrumava as cápsulas de trenós que ganhara para atravessar o Recife. O dia estava cinzento, mas o espírito da zeman estava brilhante como uma grande lua no céu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A manhã passou rápido. Ao meio-dia, Zero avistou a ilha citada por A-&lt;br /&gt;L-C, e tomaram a direita. Havia recifes de corais perto da baía, mas todos foram facilmente evitados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então, o barco deu uma guinada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma forte corrente arrastou-os para longe da ilha, e mesmo os motores não puderam com ela. O vento tomou-os despreparados, quase virando o barco, e entre gritos desesperados subiram as velas, mas foram afastados da terra firme, do abrigo. Zero, preocupado, checou o a previsão lunar: Rafael nasceria naquela noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram jogados para um mar turbulento, quase um redemoinho, que tornava impossível manejar o barco. As correntes pareciam todas convergir para aquele ponto, e nem motor nem vento lograva tirá-los dali. Perderam horas preciosas tentando, lutando com os lemes, exaurindo os motores, mas estavam presos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Trê5 h0ras p4r4 o na5c1mento de Raf4el! – gritou Zero, enquanto Adriana tentava os motores uma vez mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Rafael! Tem certeza que seguimos a rota correta?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Sim, Dr1, for4m as p4lavr45 de A-L-C, mas d3ver1amos s3r c4pa2es de atr4car na ilha! E5s3 mar não p3rmit3 que nos movamos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ E se nadarmos até lá? – perguntou ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O flutuang calculou a distância com sua visão aguda, e balançou o corpo negativamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Sã0 doi5 kilo-tés4ari de distânc14 – disse – não conseguiríamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nuvens cobriram o céu, escurecendo ainda mais o final do dia. O oeste estava nublado quando o sol se aproximou do horizonte, a mar estava negro como Bruno, e os ventos tornavam-se mais fortes. A pequena embarcação começou a se agitar mais nas águas turbulentas, porém ainda não apresentavam perigo, ainda não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriana tinha lágrimas nos olhos, as primeiras de sua vida adulta. Temia muito, não só por sua vida, mas por seu irmão. Se ela perecesse no mar, Alex também morreria, e ela estava tão perto, tão próxima de salvá-lo. Zero avaliava sua ansiedade, e nunca registrara na dona uma preocupação tão grande. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há relatos de navios que sobreviveram ao nascimento da lua da tempestade, mas eram poucos, e a maioria passou por grande dificuldade ou perdera uma boa parte de sua tripulação. Embora sobreviver não fosse impossível, ninguém navega os mares nas noites de Rafael.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passaram as últimas horas esperando, na escuridão que se tornou o mar, ouvindo o som do vento e o barulho das ondas. As nuvens eram tão grossas que encobriam todas as luas. Só podiam esperar, e quem sabe a tempestade não os tirasse daquele ponto morto do oceano e os permitisse atracar antes que fosse muito tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Menos de uma hora para o nascimento da lua cor de vinho. Adriana amarrara-se fortemente ao mastro principal, com duas, três cordas, a ela e a Zero. Ela obrigou o flutuang a pôr o traje aquático, e se certificou de que este não fosse sair de qualquer maneira. Vestiu sua mochila e cobriu-a com muitos mantos impermeáveis, e dentro dela, colocara todas as cápsulas de proteínas, as cápsulas de trenós, a faca elétrica, duas mudas de roupa e a ampola de metal com o sangue sintético. O barco balançava mais forte agora, e em pouco tempo...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rafael nasceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vento soprou forte, e o barco girou sobre si mesmo várias vezes. O mar escuro agitou-se contra o céu cinzento, e gigantes de água se ergueram do oceano, e jogaram com o barco para todos os lados. As ondas eram absurdas, fazendo o barco deslizar de grandes alturas e se chocar contra as ondas contrárias, para cima e para baixo, com violência. O som do vento e do mar era ensurdecedor, mas o trovão que se seguiu rugiu mais alto. Grossas gotas de chuva atacaram dos céus, e os relâmpagos iluminaram as nuvens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriana gritava para Zero ajudá-la com o leme, para segurar as amarras, e, logo, para se segurarem. Nem ela ouvia o som de sua própria voz, e agora o barco estava incontrolável, e tudo o que faziam era se segurar às cordas e ao mastro. O barco então subiu, subiu alto, muito alto, e então sentiram como não houvesse mar nem ondas, apenas o vento e a chuva. Subiram por muito tempo, e então sentiram a gravidade zero. Solto em queda livre, o barco despencou. Caíram inúmeros tésari de altura, por um tempo que pareceu uma eternidade, segurando-se com força na amurada do barco. E então, sem aviso, um impacto violento lançou Adriana e Zero contra o chão metálico do convés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um outro relâmpago, e agora parecia que o céu descera ao mar, e navegavam entre nuvens de chuva e ondas salgadas. Adriana abraçava Zero, a perna recém-quebrada latejando com o frio e com a dor; o sangue da têmpora sendo lavado pela água. O barco agora gingava de um lado para o outro, e cada vez mais relâmpagos fulgiam entre as nuvens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um raio caiu no mar ao lado deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o trovão que o seguiu foi tão forte quanto o som do mundo desabando. O pulso e as caudas de Adriana doíam com a força que fazia para se manter presa, já que várias das cordas com as quais se amarrara se romperam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A escuridão ficou tão profunda que não se viam nem uns aos outros, e o barulho era tão constante que não havia diferença de sons, tudo era um grande rugido que ecoava do céu às profundezas do mar. O mundo só existia durante a rápida luz dos relâmpagos, para então apagar de volta ao caos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriana estava de olhos fechados agora, agarrada com seu flutuang, mas Zero estava de leitores ópticos ligados, atento para adiantar o próximo impacto, o próxima onda. E então, pela segunda vez ele não sabe se foi um erro de seu processamento de dados, ou se uma ilusão causada pelo medo e pela admiração, se o que viu realmente era o que vira, ou apenas fruto de códigos mal compilados em seu computador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi por um breve segundo, quando um relâmpago iluminou todo o céu. De uma ponta à outra, adornada por raios inquietos e nuvens de chuva, uma colossal serpente sobrevoou o mar, tão grande que ocupava todo o campo da visão e ainda assim não se via o fim ou início. Sua pele era azul, tão escura que podia ser violeta, e possuía garras do tamanho daquele barco. Uma delas era de metal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então o relâmpago se foi, e com ele se foi a imagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um trovão soou mais forte. O barco desceu muito, deslizando sobre uma colina de água, e então, pela primeira vez, pareceu parar de se mover.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriana abriu os olhos. Havia chuva e nuvens negras, e ondas negras, e tudo o que enxergou foi o rosto-monitor de Zero, brilhando pouco na escuridão reinante, de dentro do traje aquático. Um relâmpago brilhou sob as nuvens, e então ela viu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma onda que se estendia do oceano ao zênite, tão larga quanto uma muralha, tão alta quanto uma montanha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ ZERO! – gritaram seus pensamentos – Zero! Uma onda enorme! O barco vai ser engolido, você está me ouvindo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ S1m, Dri!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Não vamos conseguir – gritava ela – seremos tragados para o fundo do oceano! Não vamos conseguir! – gritava em desespero. Mas então, seus olhos encheram-se de um estranho propósito – Zero, ouça com atenção! Encha seu compartimento de água com o sangue sintético! Encha-o agora! – e passou-lhe a ampola de metal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Ma5, Dri!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ AGORA!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O flutuang sugou todo o sangue para dentro de si, enquanto o barco se inclinava cada vez mais, cada vez mais alto. Quando Adriana se certificou de que a ampola estava vazia, segurou um mecanismo nas costas de Zero e outro em sua nuca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Entregue isso para o meu irmão, Zerinho – sorriu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O flutuang então entendeu, mas era tarde demais, e a conexão psico-cibernética foi cortada. Logo depois, o mundo caiu sobre eles, e tudo saiu do ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;________________________&lt;br /&gt;Imagem retirada do deviantart, autor: &lt;a href="http://frenzoalot.deviantart.com/art/The-perfect-storm-75539473?q=boost%3Apopular+in%3Adigitalart+sea+storm&amp;amp;qo=118"&gt;frenzoalot&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2502613120236415342-1021265499596693311?l=eisoptron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/1021265499596693311/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-vi.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/1021265499596693311'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/1021265499596693311'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-vi.html' title='[Conto] As Luas de Zemi (parte VI)'/><author><name>DanielFolador</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12052168755551551359</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sn2PcB1vKeI/AAAAAAAAAC8/_lEL3rRf5GY/S220/P1170002.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TO0WfE9Es_I/AAAAAAAAAOI/GAkW42CRqww/s72-c/The_perfect_storm_by_frenzoalot.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342.post-5466303364195504407</id><published>2010-11-16T12:46:00.000-08:00</published><updated>2010-12-19T08:40:08.867-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Universo: Zemi'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos Reunidos'/><title type='text'>[Conto] As Luas de Zemi (parte V)</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: x-small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-iv.html"&gt;← Postagem anterior&lt;/a&gt; &lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-vi.html"&gt;Próxima postagem →&lt;/a&gt;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: 11pt; text-align: justify;"&gt;A quinta de sete partes!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto Adriana é tratada, Zero descobre parte da história perdida de Zemi. Os segredos do Pólo estão finalmente ao alcance dos dois, e a tão procurada cura para Alex nunca esteve tão próxima!&lt;br /&gt;&lt;ul&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/09/conto-as-luas-de-zemi-parte-i.html"&gt;Parte I - Nas magens de sal&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/09/conto-as-luas-de-zemi-parte-2.html"&gt;Parte II - A floresta de água&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-iii.html"&gt;Parte III - O totem para Lum&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-iv.html"&gt;Parte IV - O Pólo&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-v.html"&gt;Parte V - A biblioteca de Ushan&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-vi.html"&gt;Parte VI - A fúria de Rafael&amp;nbsp;&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/12/conto-as-luas-de-zemi-parte-vii.html"&gt;Parte VII - Alex &lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;/div&gt;_________________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TOLuJ5nt8iI/AAAAAAAAAOE/MdP5TLAZG2A/s1600/Futuristic_Library_by_gregmks-2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="640" src="http://2.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TOLuJ5nt8iI/AAAAAAAAAOE/MdP5TLAZG2A/s640/Futuristic_Library_by_gregmks-2.jpg" width="499" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: 11pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;5. A biblioteca de Ushan &lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há seis milênios atrás, os zemani eram um povo primitivo. Viviam nas florestas e nos campos, em tribos e algumas poucas e raras cidades. E então vieram os homens da Terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vieram em navios voadores, gigantes feitos de luz e metal, e ensinaram aos zemani muitas das coisas que sabiam. Ensinaram sua língua. Desceram em muitos lugares, por toda a Zemi, e mostraram aos zemani sua tecnologia e o seu conhecimento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os anos passaram, os zemani evoluíram. Possuíam uma deficiência natural na síntese de proteínas e certos nutrientes, então os homens da Terra construíram robôs para eles, simbiontes para completarem seu corpo, e esse foi o nascimento dos flutuanghi. A expectativa de vida zeman triplicou e a qualidade de sua saúde aumentou muito. Espalharam-se pelo planeta, organizaram-se em nações, culturas. Cresceram. Os homens continuaram ajudando, mas cada vez menos naves chegavam. O ambiente de Zemi era hostil para a raça humana, que não podia respirar de seu ar, e não podiam ter filhos; a água do planeta os tornara estéreis.  E então, sem aviso prévio nem explicação alguma, as visitas cessaram. Todo o contato com a Terra foi perdido, e, sem poderem se reproduzir, ao fim de um século não havia mais humanos em Zemi. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ushan, localizado no pólo do planeta, o único habitável – o outro era um grande oceano sem ilhas – foi a nação que mais cresceu. Foi ali que aterrissara a primeira nave humana, e ali se tornou o principal posto de aterrissagem terrestre. Quando as naves da Terra pararam de pousar no resto do planeta, continuaram ainda por longo tempo a pousar em Ushan, antes de cessarem de vez. A nação estava geologicamente isolada do resto de Zemi pelo grande recife de sal que circundava o oceano. Por isso, quando as demais nações foram, ao longo dos anos, perdendo o conhecimento de que dispunham em guerras e em registros ineficientes, Ushan ainda florescia em tecnologia, evoluindo separada do planeta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois mil e quinhentos anos se passaram, e então Ushan não era mais do que uma lenda no resto de Zemi. Os ushanianos eram um povo reservado, desencorajavam a travessia do Recife e desfrutavam de seu isolamento para evoluir e crescer em conhecimento. Ergueram bibliotecas, sistemas de armazenamento de dados, abriram escolas e laboratórios. Desenvolveram a tecnologia da luz lunar muito antes do resto do planeta sonhar com ela, e usavam também a luz do sol de Zemi para gerar energia. Eram avançados em filosofia e ciência, e os poucos que decidiam conhecer o resto do planeta espalharam por lá histórias sobre suas descobertas e maravilhas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais cinco séculos se passaram, e então veio a tragédia. A medicina de Ushan era avançada, desenvolveu curas para muitas de doenças através da manipulação genética. Mutavam vírus para atuarem como agentes curadores, mas a última pesquisa foi um desastre: os efeitos colaterais foram inesperados, e um simples vazamento no laboratório contaminou o ar de toda Ushan, infectando todos os zemani com um vírus sem cura. Milhões morreram. O vírus deteriorava o sistema nervoso com incrível rapidez e, em apenas dez dias, metade dos ushanianos havia perecido. Um mês depois do vazamento, Ushan era uma nação fantasma. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia aqueles que sobreviveram, que moravam nos limites da nação com o mar. Talvez a maresia do Mar Interno impedisse o vírus de agir, ou talvez alguns zemani fossem naturalmente imunes, mas a razão não importava: os que sobreviveram ao desastre de Ushan não permaneceram no continente. Cada um, com os meios de que dispunham, atravessou o Recife que limitava o mar, e conheceu o resto do planeta. Encontraram um povo pobre em conhecimento, e lhes ensinaram o pouco que guardaram de Ushan. Esses foram os Grandes Sábios de três mil anos atrás, que trouxeram sabedoria para as nações de Zemi. E o nome de Ushan foi esquecido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os anos passaram, e com eles passaram os últimos ushanianos, e agora não havia Ushan, mas sim o Pólo. E havia histórias maravilhosas do que existiria por lá, histórias trazidas pelas eras atrás pelos Sábios, de uma sociedade avançada, de máquinas voadoras e máquinas de tele-transporte, de uma saúde tão trabalhada que faria um zeman viver por duzentos anos. E de fato, muitos dos Sábios viveram por longo tempo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então começaram as expedições ao Pólo, mas a falta de tecnologia para atravessar os recifes foi o algoz de muitas viagens, e a falta de conhecimento do Mar Interno a desgraça de outras. Poucos exploradores puderam retornar, e todos sem êxito de chegar ao lendário continente. Mas, sim, houve aqueles que atingiram as praias de legendária Ushan. Foram vinte e sete ao todo, desde o desastre biológico, apenas vinte e sete que tocaram as praias frias do Pólo, desde três mil anos atrás. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os oito primeiros foram os sobreviventes de uma expedição fracassada, que exploraram o continente sem nunca encontrar zemani algum, tentaram voltar para casa e encontram a morte nos recifes do Mar Interno. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O nono chegou ao Pólo e conheceu seus segredos, mas foi tomado por louco quando retornou para a sua nação, e hoje ninguém lembra o seu nome. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O décimo chegou num navio com outros doze. Eram guerreiros nômades, e quando desvendaram os segredos do Pólo, o líder assassinou seus seguidores, de modo a ser o único a retornar para Zemi. Tornou-se um grande guerreiro, líder de exércitos, e ficou tão famoso que até hoje se lembram do nome de Heitor, o Terrível. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vigésimo terceiro chegou ao Pólo, conheceu seus segredos e decidiu ficar, levando a vida como um cientista, e ajudou a desenvolver grande parte dos projetos inacabados dos ushanianos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vigésimo quarto era um líder em sua nação, mas que perdeu seus tripulantes numa tempestade de Rafael. Chegou ao Pólo com a ajuda de um mukai, e quando retornou para Zemi, sua saúde e vigor o tornaram o soberano de duzentas nações. Esse foi Vinícius, o Rei-imperador. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vigésimo quinto foi o mukai que o acompanhou, e na época seu nome era Takezo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vigésimo sexto foi Thiago, e o vigésimo sétimo o seu melhor amigo, enterrado nas praias do Pólo sem nunca saber que pisou no continente lendário. Thiago era um historiador-cientista cuja vontade de retornar morrera com seu amigo. Assim como o vigésimo terceiro, decidiu ficar. E isso foi há cento e trinta e um anos atrás.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: 11pt; text-align: center;"&gt;***&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: 11pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Zero terminou de avaliar os dados que foram inseridos em seu disco rígido pelo zeman de óculos redondos. Uma parte importantíssima da história zeman, perdida no tempo e esquecida pelo povo, corria em seus circuitos. Então Zemi foi uma colônia de outro planeta? Colonizado por uma raça alienígena quando a civilização zeman era primitiva, quando os flutuanghi não eram mais do que projetos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thiago olhava para ele através de seus óculos grossos – sim, Zero sabia que aquele zeman encurvado e de caudas finas era Thiago, o último visitante do Pólo antes deles: vira sua foto no arquivo recém computado. Mas se isso fosse verdade ele deveria ter pelo menos cento e cinqüenta anos, uma idade absurda para um zeman; ao observá-lo, porém, não se diria que tivesse mais de cinqüenta, salvo pelos cabelos completamente brancos. Ele olhava para Zero, deixando que o flutuang absorvesse tudo antes de voltar a falar, que avaliasse cada dado, que questionasse. Atrás deles, Adriana jazia suspensa numa redoma de vidro preenchida com soro, ligada a fios e hastes metálicas. Pequenos braços robóticos operavam seu braço e suas costas, consertando os ossos, costurando a pele e fechando as feridas, numa velocidade que surpreenderia o melhor flutuang cirurgião. Estavam numa gigantesca sala de piso de metal, de paredes e teto de metal, com estantes cheias de livros e tubos de ensaios, e caixas de remédios e instrumentos cirúrgicos; a versão ultratecnológica de um hospital zeman. O flutuang de Thiago – uma pirâmide flutuante de muitos tentapodes, com um único monóculo por olho e uma superfície tão lustrosa que refletia com intensidade a luz forte das lâmpadas da sala – cuidava de Adriana, apertando botões e puxando alavancas, vez por outra voltando seu olho vítreo para o dono e para Zero. Seu nome era Delta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ El4 v4i ficar bem? – ecoou a voz de Zero no salão vazio, cujo único som até então era o dos robôs-médicos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thiago cruzou os braços atrás das costas, sua voz vigorosa como a de um adolescente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Bem? Ela vai ficar melhor, meu caro flutuang, melhor. Um braço quebrado e um ferimento na pele são simples para a medicina ushaniana, e ainda vamos tratá-la com o segredo de Ushan, que tornou seus habitantes tão prósperos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ T1bi4 restaurada e fer1m3nto fech4do – informou Delta, numa agradável voz feminina, do fundo da sala – In1ciar 1njeçã0 de h3mo-autômatos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma seringa surgiu nas mãos robóticas dentro da redoma de vidro, carregada com um líquido vermelho. Então, sem aviso, mergulharam a agulha no braço da zeman e esvaziaram seu conteúdo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Não! Esp3rem! Que e5tão fazend0? – gritou Zero. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Ap3nas uma injeçã0 de sangue sintét1co, a obr4-pr1ma da med1cina ush4niana! – informou Delta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Acalme-se, pequeno – Thiago colocou a mão sobre Zero – Juro por todo o conhecimento de Ushan, de que não vamos fazer-lhe mal algum – o timbre da voz era jovem, mas soou sereno como a de um senhor de idade – Venha, em poucos minutos ela estará acordada. Quero que conheça seu cirurgião. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E dizendo isso, conduziu Zero para um corredor bem iluminado, deixando a sala médica para trás. O flutuang vez por outra voltava os olhos para a dona, hesitante, até perdê-la de vista nos intricados corredores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegaram a uma grande ala, com estantes cheias de livros, drivers de disquetes e CDs, e nas paredes entradas para todo tipo de cabos e fios. Livros de papel disputavam seu lugar com os armazenadores virtuais, com os bancos de dados de computadores e até com livros virtuais e holográficos. Atravessaram grandes alas como essa, que se conectavam umas as outra, até chegarem à maior de todas, onde não havia estantes, apenas uma grande coluna central cheia de luzes trabalhando, e um grande monitor que contornava toda a face da coluna. No monitor, números digitados em profusão, códigos e linguagem de programação, escrita compilada e apagada num tempo tão rápido que nem o computador de Zero pôde registrar. Ali, Thiago parou, voltou-se para o grande computador-coluna, e disse: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Este é Zero, A-L-C. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns cálculos do monitor pausaram, outros ignoraram Thiago. Uma voz ecoou por toda a sala, grave e metálica, não alta, mas agradavelmente audível. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ B3nvindo, Zer0, à Bi8liotec4 Central de Ush4n. Eu sou A-L-C, o c0mputador que gov3rna seus 4rquiv0s. Meu5 sensor3s j4 est4vam c1entes de sua pres3nça ante5 m3smo de atracarem, e pr3par3i a su4 estad1a par4 o cas0 de 4lc4nçar3m esse c0mplexo. Th1ago mant3m os ANA func1on4ndo, mas n3m tod0s os forasteiros conclu3m a rotina de 4tivação, que nã0 s0u 4utor1z4do a des4tiv4r. Parab3ns por alc4nçarem Ush4n. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A seqüência de zeros e uns e códigos esmaeceu na tela por um breve momento, e então reapareceram. Os olhos do monitor-face de Zero piscaram por um momento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Qu3m o con5truiu? – perguntou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thiago sorriu, por que esperava a pergunta, e se deliciaria com a perplexidade da reação à resposta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Fu1 conc3bido dur4nte a construç4o da bibliot3ca, quand0 ainda havi4 ushanianos aqui. Op3ro à pr3cisamente tr3s m1l duz3ntos e tr1nta e se7e anos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A boca de Zero, se ele tivesse uma, teria caído. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Voc3 está func1onando por m4is de tr3s milênios?! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Houv3ram atual1zações 3nquant0 hav1am ushan14nos vivos, emb0ra a e55ência não tenha s1do alter4da. P0r tr3s milêni0s venh0 operando a Bibli0teca Central, e p4rte da cidad3 s0b meu5 c1rcuitos. Organiz0 dad0s e des3nvolv0 o5 cálculos e proj3tos deixados in4cabados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ E o v1rus? – perguntou o flutuang – Não há m4is r15co algum? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ O víru5 pereceu cerc4 de cem ano5 dep01s do d35astre, emb0ra tenha d3ixad0 a t3rr4 in4bitada. Mas n40 se pre0cupe, houve3r4m outro5 vis1tan7es e n3nhum apr3s3nt0u s1ntom4s. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ E você di55e que e55a terra est4 inabitada... Nã0 há z3man algum m0rando n3sse cont1nente? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Tod4 a civil1zação z3man qu3 aqui v1v1a foi 3xtinta ou fugiu. Thiago e a 5ua d0na são 05 ún1cos zem4ni em tod0 o c0nt1nente, ou p3lo menos p0r tod4 a área que p0sso esc4near. O r3sto são ru1nas de c1dades e de l4borat0rios. M3smos os espécimes an1m4is for4m ab4nd0nados à pr0pr1a sorte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ 0s michilizzii selvagens!.. – chiou Zero. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Sim – respondeu Thiago – são os netos dos netos dos netos dos michilizzii domésticos de Ushan, que se readaptaram ao ambiente natural. São os únicos michilizzii selvagens já conhecidos – e sorriu – Há uma dúzia de trabalhos sobre o tema na biblioteca, desenvolvidos por A-L-C. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Um m0m3nt0... – disse o supercomputador, e após uma breve pausa, continuou – 5ua dona ser4 lib3rada em exato5 d0is m1nutos. Retorn3m à s4la cirúr9ica.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: 11pt; text-align: center;"&gt;***&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: 11pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Houve um baque, e o som de alavancas mecânicas e água fluindo ecoou na cabeça de Adriana. Logo ela estava tossindo para respirar de novo, a água escorrendo por seu corpo até desaparecer sob seus pés. Sentiu seu corpo ser içado e deixado em chão seco, e a luz ardeu seus olhos. Ficara na câmara médica por quatro horas seguidas, e a desorientação a fez tropeçar e cair. Tentou aparar a queda com o braço direito, antes de se lembrar que estava ferido, e esperou pela dor do impacto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não houve dor. O braço que deveria estar quebrado segurou seu corpo com eficiência, mas o susto a fez cair sentada. Não havia mais o ferimento, tampouco nas costas, apenas a mais leve das cicatrizes que ela jamais vira. E não sentia o cansaço nem a tensão dos últimos dias, estava disposta para repetir toda a viagem, nadaria todo o caminho de volta se pudesse! Sim, estava no Pólo! Sua mente se iluminou quando se lembrou. O Pólo, a terra lendária, sua esperança, a esperança de seu irmão! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alex! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se levantou com a urgência de sua missão, no mesmo momento em que entravam na sala Zero, um zeman de cabelos brancos e seu flutuang. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Zero! Zerinho! – tentou andar, e quase caiu de novo. Havia alguma diferente em seu corpo, formigando em seu sangue. O flutuang voou para seus braços – Onde você esteve? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele estava polido novamente, com o mesmo brilho de quando deixaram Villa, e as avarias da viagem haviam sido reparadas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Olá, Adriana, eu sou Thiago – disse o zeman, que embora tivesse cabelos totalmente brancos, não parecia de todo velho – Gostaria de saber como está se sentindo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ ...olá – respondeu ela, depois de um tempo e finalmente se levantando – Eu conheço você. Você esteve em meu sonho, você e seu amigo. Você era mais jovem e... – e então ela se lembrou de tudo o que sonhara, que era o vídeo-arquivo inserido no disco rígido de Zero. Lembrou-se do nome de Ushan, do desastre biológico, das naves terrestres. Lembrou-se do arquivo com os dados de cada um dos vinte e sete únicos visitantes do continente desde o desastre, lembrou-se do rosto terrível de Heitor, do manto púrpura de Vinícius e do corpo jovem de Quinan, que era Takezo, e de como notou a falta do seu sistema circulatório vermelho. E tudo o que aconteceu nas últimas quatro horas, ali na biblioteca, Adriana de repente soube, à medida que Zero transmitia seus arquivos de memória. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tudo não durou dois segundos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Vocês injetaram alguma coisa em mim! – gritou ela, repentinamente – Sim, eu sinto agora, meu corpo formigando por dentro. O que vocês fizeram comigo? O que era aquele líquido vermelho?! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Calma, calma, criança – disse Thiago – O que colocamos em seu sangue é a obra-prima da tecnologia e medicina de Ushan, o segredo que tornou Heitor e Vinícius tão famosos, o mesmo que fizeram os Grandes Sábios tão vigorosos, e o mesmo que me permitiu viver por cento e sessenta e três anos, quando nossa raça mal sobrevive aos cem. Os ushanianos eram tão avançados que já tinham desenvolvido essa tecnologia há três milênios, e A-L-C a atualizou com o passar do tempo, com o avanço de suas próprias pesquisas. O que injetamos em você foram hemo-autômatos, robôs cujas peças medem no máximo um milionésimo de mili-tésar. Nano-robôs. Eles interagem com as células sanguíneas, aumentando nossa capacidade de cicatrização e regeneração, aumentando nossa distribuição de energia e nutrientes, e assim nosso vigor físico. Funcionam também como anticorpos poderosos, eliminando muitas doenças, e ainda, operam nas demais células do corpo impedindo que envelheçam normalmente, o que permite dobrar nossa expectativa de vida! O que injetamos em você foi muito mais que um remédio, foi um presente de reis! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriana ergueu a mão contra a luz, e viu seus vasos sanguíneos, agora levemente rubros, por sobre sua pele esverdeada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ E vocês injetaram a mesma coisa em Vinícius, e Heitor? E em Quinan? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Quinan? – perguntou Thiago. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Digo, Takezo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ S1m – respondeu uma voz que ecoou por toda a sala, a voz de A-L-C – Eu e os autôm4tos qu3 a1nda op3ram nes54 cidade cuidamos d3l35, e injetamos n4no-robôs em suas artéri4s. Heit0r as5a55inou seus companheiros dep01s dis50, para ser o ún1c0 a p055uir o s3gr3do, ante5 de p4rtir. E anos depois inj3tam0s os nano-r0bôs em V1nícius e 3m seu companh3iro mukai, o prim31ro teste em cr1atur4s nã0-zem4ni. Inf3lizmente ele part1u com Vin1ciu5 n4 ép0ca, e não s4b3mos 4s c0nsequ3ncias da 0peraçã0. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Eu encontrei Takezo – disse Adriana – Ele me ajudou a chegar aqui. Trouxe-me parte do caminho e nos ensinou o restante. Não estava plenamente são, louco eu diria, mas sabia de inúmeras coisas e parece ter viajado por muitos lugares. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Takezo está vivo! – gritou Thiago, erguendo as mãos em surpresa – É verdade, Adriana? É verdade? Se é verdade... quantos anos ele tinha na época em que chegou aqui, A-L-C? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Era um e5péc1me muk4i de quinze an05 – respondeu o supercomputador. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ E o império de Vinícius foi erguido há exatamente 491, então... Takezo tem hoje 506 anos! Cinco séculos! Isso é mais do que qualquer zeman tratado com nano-robôs jamais viveu! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Prov4velmente algum4 reaç40 inesperada 3ntr3 os hemo-au7ômatos e 45 células muk41 – respondeu A-L-C – V0u abr1r um4 0bserv4ção sobre o c4so, par4 futuras pesqu1sas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ E a loucura? – exclamou Thiago – Você acha que é um efeito colateral dos hemo-robôs, ou foi causado por sua idade excessivamente avançada? A-L-C, se conseguirmos descobrir a causa dessa longevidade, e produzi-la experimentalmente, poderemos elevar a eficiência do sangue sintético exponencialmente! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Af1rmativo! Os dad0s f0ram anot4dos para fu7ura refer3ncia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E iniciaram um debate científico sobre as implicâncias da descoberta, esquecidos de Adriana e Zero. Delta, a flutuang de Thiago, disse-lhes: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ A bibl1ot3ca possui inúm3r45 pesqu1sas em andament0, e Thi4g0 participa de mut1tas d3l4s. Faz c3nt0 e trinta e um anos que v1v3mos c0m0 pesquisadores aqu1. V0cês não tem idé14 do quanto d3sc0nhecem. A-L-C e Thiago prepararam su4s acomod4çõe5, v0cês t3rã0 b4stante tempo par4 c0nhecer a bibliotec4, 4s p3squisa5 3m and4ment0, a floresta de Us, os c4mpo5 de Shumi, as ru1nas das c1dad3s... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Não! – gritou repentinamente Adriana, e Delta, A-L-C e Thiago se calaram – Quer dizer, desculpem, desculpem mesmo, mas não temos tempo. Viemos ao Pólo com uma missão muito importante, urgente, e devemos partir logo. Eu realmente estou admirada com o quanto esse lugar pode oferecer, e ainda não consigo acreditar que grande parte da história perdida do planeta está arquivada no banco de memória do meu flutuang, mas eu vim com um único objetivo, e preciso concluí-lo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O autômato e o supercomputador nada disseram. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Mas – perguntou Thiago – Então o que a fez atravessar os Recifes e viajar todo o Mar Interno até Ushan? Depois de tantos dias de viagem, chegando aqui ferida e cansada, já quer partir? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Meu irmão – disse a zeman – está morrendo. Os médicos de minha cidade não lhe dão mais que alguns meses de vida, um ano se tivermos sorte. Ele contraiu uma doença ainda sem cura, e as lendas da tecnologia e da medicina super avançada do Pólo me lançaram nessa viagem. Só vim por isso, e é por isso que preciso voltar. Vocês desenvolveram os nano-robôs há mais de três mil anos, quando nossas nações só foram dominar parte dessa tecnologia há um século atrás, e que mesmo assim, esse conhecimento se perdeu nos escombros das nações de Sicuro e Radrak. Vocês com certeza tem a cura para o meu irmão – e dizendo isso, ajoelhou-se e cruzou uma mão sobre a outra, na atitude villana de total súplica – Por favor, me ajudem a salvar Alex. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Delta olhou com seu único olho para Thiago, que estava desconcertado. Os anos que passara sozinho o fizeram se esquecer como se portar com pessoas, e agora não sabia o que dizer. Adriana continuou ajoelhada, esperando uma resposta, e Zero flutuava ao seu lado, em atitude reverente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Bem, é, tudo bem – disse por fim, corando suas bochechas levemente enrugadas – Vamos ver o que o seu irmão tem. Encontraremos alguma coisa na biblioteca.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: 11pt; text-align: center;"&gt;***&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: 11pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;A doença da sede não era desconhecida pelos vastos arquivos médicos da grande biblioteca, apesar de demorarem a encontrá-la por esse nome: os cientistas ushanianos a chamavam de xirodermose. E o remédio não foi surpresa: os eficientes hemo-autômatos também atuavam como a cura perfeita. Funcionavam como antivírus potentes, destruindo as cápsulas protéicas do vírus, impedindo que se reproduzisse. Logo o corpo produziria novas células epidérmicas, e em menos de uma semana voltaria a se hidratar sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriana e Zero passariam a noite na biblioteca, e partiriam cedo. A-L-C preparara uma embarcação para eles, do levíssimo hexa-alumínio, com motores lunar e solar. Podia viajar muito mais rápido que a embarcação na qual vieram, e era prática para um zeman e flutuang manejarem. Ainda, levariam dezenas de cápsulas de proteínas, e pão fresco, e roupas para atravessar os Recifes – para ela e para Zero. Não podiam estar mais preparados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thiago usou todos os argumentos disponíveis para fazê-la esperar mais alguns dias, havia tanta coisa que ela podia aprender, conhecer, e levar para as demais nações. Ele era um amante do conhecimento, um historiador-cientista, e sabia o quanto o conhecimento de Ushan avançaria Zemi. Mas Adriana simplesmente se recusava a gastar uma hora a mais. Partiria com o nascer do sol, e não mudaria de opinião. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A-L-C explicou-lhes a rota que deveriam tomar. Seguiriam ao sul, durante toda a manhã, e quando chegasse o meio-dia, avistariam uma ilha. Deveriam tomar a direita dela – e nesse ponto, Zero não tinha certeza se foi um erro de armazenamento, se seu arquivo de memória se corrompeu, ou se A-L-C tinha a informação errada. Ele só sabe que, se tivessem tomado a esquerda, se tivessem escolhido essa direção, todo o desastre seria evitado. Ele releria a informação de A-L-C centenas e centenas de vezes mais tarde, culpando a si mesmo pelo que aconteceu. Talvez ainda estivessem todos bem, se não tivessem tomado a direita – e então atracar na ilha até o dia seguinte, quando a maré estiver favorável, e continuar até o sul, para os mares navegáveis, até o Recife. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a noite veio. Adriana ganhara roupas novas, um vestido ushaniano que lhe caía tão bem que Thiago corava apenas em olhar para ela. Conversavam numa sacada de pedra e metal, sob o vento fresco do início da noite e sobre as copas das árvores na grande planície lá embaixo. Estrelas brilhavam entre as muitas luas – duzentas e oito aquela noite, contou Zero – e Adriana via Rita e Maria brilhando bem acima deles. As luas ali tinham uma órbita diferente, algumas passando bem ao largo do céu, longe do zênite. A gigantesca lua laranja de Heitor acabara de nascer, e Vinícius fulgia já a meio caminho. Os dois que um dia estiveram no Pólo, senhores do segredo do sangue milagroso. Agora ela também era uma, e quase não acreditava que o poder de Heitor e Vinícius corria em seu sangue. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thiago estava encurvado em sua cadeira, com um manto grosso de frio. O ar de sua boca soltava uma pequena neblina. Falavam de deuses. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Eu vi o arquivo da história perdida de Zemi – dizia Adriana – É realmente tudo verdade? Digo, somos mesmo uma colônia de uma raça alienígena? Foram os humanos quem conceberam os flutuanghi e não o engenho do poderoso Zem? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Histórias... – disse Thiago – Os deuses foram criados para preencher o que os zemani não lembram, e explicar o que não entendem. Há pesquisas aqui sobre a origem dos deuses, atualizadas por cada visitante. Há indícios de que Zem foi na verdade o primeiro zeman bem sucedido em interagir com um flutuang, que Ae era na verdade um grande supercomputador. Que Lum era uma deusa antiga da tempestade, anterior à chegada dos humanos, inspirada nas sider-serpentes elétricas que habitam o oceano Índigo. Que Ur era um deus menor dos céus e das nuvens, que evoluiu para o pai de todas as luas quando a astronomia se tornou uma ciência reconhecidamente importante pelas nações. Que o deus-animal Iuam nasceu entre as nações das florestas, pois representava o equilíbrio entre o progresso e o ambiente, matéria vital para a sobrevivência daquelas nações. Que Yr surgiu quando os exércitos precisavam de um deus a quem orar pedindo vitórias. E posso listar muitas outras das prováveis origens para os muitos dos outros deuses. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela baixou os olhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Eles não existem, então – sua voz soava frustrada, como uma criança que descobre as mentiras dos pais – As histórias da criação, das invenções de Zem, das viagens de Ur, das metamorfoses de Iuam, são apenas histórias, não são? Então... em que acreditar? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Acredite na mente zeman – respondeu Thiago – Você não sabe o quanto de conhecimento temos armazenado aqui, Adriana. Podemos reconstruir todas as nações, revolucionar a vida de todos os zemani. Alguém precisa espalhar esse conhecimento, mas não posso deixar Ushan. Você realmente não quer ficar mais uns dias? O tanto que você pode ajudar sua nação! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Desculpa – ela ergueu os olhos para ele, convicta – Preciso mesmo ir. Preciso entregar isso aqui para meu irmão – disse ela, mostrando uma ampola cheia do sangue sintético. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thiago não sabia argumentar contra aquilo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Sim, é, desculpe. Então... você ainda acredita nos deuses? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Não sei. A idéia do deuses é reconfortante, enquanto pensar que somos apenas o fruto de uma colonização tecnológica me assusta, e me frustra. O que você segue? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ O conhecimento. Quero conhecer tudo o que puder ser conhecido, aprender tudo o que puder ser aprendido. Estou muito interessado na longevidade do mukai tratado com sangue sintético, preciso estudar isso mais a fundo, aumentar meu tempo por aqui – e sorriu, consciente de sua própria idade – Não devo viver muitos anos mais, talvez uma ou duas décadas. Por isso vou pesquisar o efeito dos hemo-autômatos nas células mukai, e fico muito grato pela informação que você me trouxe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ E estou muito contente com a cura do meu irmão, você não faz idéia. O Pólo era apenas uma lenda, mal acredito que realmente encontrei esse continente. Gostaria de voltar aqui outra vez, quando tudo estiver resolvido – e sorriu – Alex vai gostar daqui. Bem, acho que vou agora, para acordar cedo amanhã. Acho que essa noite não orarei para lua alguma – disse ela, com um sorriso triste. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thiago se sentiu mal por roubar os deuses da jovem, mas sentia que era seu dever instruir, esclarecer. Despediu-se dela com um sorriso bobo, e talvez ele nunca saiba que a verdadeira razão que o fazia insistir para que ela ficasse era a companhia; ficara tempo demais sozinho. O frio espetava suas juntas, e decidiu ir dormir também. Estava velho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia raiou com uma aurora azul espetacular, pintando o céu até o zênite, empalidecendo as luas e apagando as estrelas. Thiago, Delta e um avatar de A-L-C os acompanharam até a embarcação. Zero carregou as informações de como manejá-la e pilotá-la, e as passaria para Adriana. Ela levou alguns dos vestidos ushanianos – presente de Thiago – e agora estava bela em um traje de viagem, que a protegia do frio e da insolação. Ainda, A-L-C dera um traje aquático para Zero, que permitia que o flutuang imergisse e nadasse sem dificuldade. Agradeceram e se despediram dos três, e zarparam para a viagem de volta, para o desastre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;________________________&lt;br /&gt;Imagem retirada e alterada do deviantart, autor: &lt;a href="http://gregmks.deviantart.com/art/Futuristic-Library-148340896?q=boost%3Apopular+in%3Adigitalart+library&amp;amp;qo=70"&gt;gregmks&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2502613120236415342-5466303364195504407?l=eisoptron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/5466303364195504407/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-v.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/5466303364195504407'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/5466303364195504407'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-v.html' title='[Conto] As Luas de Zemi (parte V)'/><author><name>DanielFolador</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12052168755551551359</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sn2PcB1vKeI/AAAAAAAAAC8/_lEL3rRf5GY/S220/P1170002.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TOLuJ5nt8iI/AAAAAAAAAOE/MdP5TLAZG2A/s72-c/Futuristic_Library_by_gregmks-2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342.post-7123754386869692625</id><published>2010-11-09T15:52:00.000-08:00</published><updated>2010-12-19T08:39:51.302-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Universo: Zemi'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos Reunidos'/><title type='text'>[Conto] As Luas de Zemi (parte IV)</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: x-small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-iii.html"&gt;← Postagem anterior&lt;/a&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-v.html"&gt; Próxima postagem →&lt;/a&gt;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: 11pt; text-align: justify;"&gt;Pra quem está chegando agora: no final do ano passado (2009), uma &lt;a href="http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=3444976397373229026"&gt;colega&lt;/a&gt; da comunidade do orkut &lt;a href="http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=946312"&gt;Escritores de Fantasia e FC&lt;/a&gt; sugeriu um amigo oculto diferente: os presentes seriam contos. Cada um pediria um tipo de história, e deveríamos escrever o conto para quem tirássemos. Bem, tirei a &lt;a href="http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=16850118372008154239"&gt;Strix&lt;/a&gt;, que pediu um conto onde deveria constar o nome dos membros da comunidade. O resultado foi este conto, onde fiz o possível para encaixar todo mundo que participou e mais um pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espero que gostem. A quarta de sete partes o/&lt;br /&gt;&lt;ul&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/09/conto-as-luas-de-zemi-parte-i.html"&gt;Parte I - Nas magens de sal&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/09/conto-as-luas-de-zemi-parte-2.html"&gt;Parte II - A floresta de água&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-iii.html"&gt;Parte III - O totem para Lum&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-iv.html"&gt;Parte IV - O Pólo&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-v.html"&gt;Parte V - A biblioteca de Ushan&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-vi.html"&gt;Parte VI - A fúria de Rafael&amp;nbsp;&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/12/conto-as-luas-de-zemi-parte-vii.html"&gt;Parte VII - Alex &lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;/div&gt;_________________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TNnmr4gkF0I/AAAAAAAAAOA/eNkpvH31Y2g/s1600/Ruins_Matte_by_Panuniverse.png" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="603" src="http://2.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TNnmr4gkF0I/AAAAAAAAAOA/eNkpvH31Y2g/s640/Ruins_Matte_by_Panuniverse.png" width="640" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: 11pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;4. O Pólo &lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cirilo era um exímio cavaleiro. Aprendera a cavalgar desde pequeno, na fazendo de seu pai, e crescera em habilidade tanto quanto crescera em idade. Tornou-se logo um mensageiro do exército da nação, um dos mais rápidos e definitivamente o mais confiável. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diferente dos demais cavaleiros, Cirilo não aceitava trocar de montaria. Em suas missões, montava o mesmo michilizzi que montara desde a juventude, e pretendia montá-lo até o final de sua vida – já que os michilizzii vivem praticamente o mesmo tempo que um zeman. Para quem quer que perguntasse o motivo, ele respondia com sinceridade: Ricardo era seu melhor amigo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não são poucos os estudos sobre a inteligência dos michilizzii, e embora são raros os cientistas que os classificam como uma raça racional, nenhum nega que estejam próximos de serem. Tratam-se de coelhos de montaria, grandes o bastante para sustentar dois zemani adultos, com três pares de orelhas e três pares de pernas. Sua audição, sua velocidade e sua inteligência estão entre as mais altas dos animais de Zemi. E até dizem que compreendem a fala. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ricardo era um michilizzi de pelo castanho, com uma cicatriz na terceira orelha direita – resultado do ataque de um javali-arame – e patas rajadas de pêlo pálido, como se estivessem constantemente sujas de lama branca. Fora dado de presente para Cirilo quando também era jovem, e cresceram juntos, e seguiria o dono por qualquer caminho sem hesitar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cirilo tinha trinta e três anos quando Ur apareceu para ele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era uma noite de trezentas luas, e o mensageiro caminhava distraído pelos campos de seu pai, descansando de sua última missão com Ricardo e seu flutuang. Havia névoa naquela hora da noite, embora não houvesse nuvens, e o deus-céu emergiu de dentro delas como se a elas pertencesse. Quando o viu, Cirilo soube quem ele era. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o deus lhe contou a que viera. Fizera uma aposta com os quatro ventos, que se gabavam irritantemente de sua velocidade, que encontraria uma criatura tão ou mais veloz do que eles. E por isso convidava Cirilo para provar que estava certo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cirilo teve medo, medo de ser perseguido pelos ventos se ganhasse, e medo de ser punido se perdesse. Ur jurou pelas luas que os protegeria, e então, honrado com o pedido, o cavaleiro aceitou a tarefa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite da corrida era uma noite de quinhentas luas. Cirilo guiou Ricardo para as planícies de Maranganha, onde encontrou quatro figuras de corpo de nuvens e asas nos pés. Ao nascer de Bruno, largaram. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Percorreram toda a extensão das planícies, até a borda da nação. Atravessaram a fronteira, cruzaram o deserto de Itatá, onde Ricardo chamuscou seu pêlo, e subiram e desceram as montanhas além. A corrida foi muita intensa, e durou toda a noite; exigiu muito de Cirilo e o dobro de Ricardo. Por fim, quando o sol nascia, chegaram às margens do mar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ricardo tombou exausto sobre as águas transparentes, enquanto Cirilo olhou preocupado para trás, procurando os ventos, mas eles já estavam do seu lado. O sol saudou o empate. Triste por não ter ganhado, mas contentíssimo por ter provado sua velocidade, Cirilo chamou pelo amigo, mas Ricardo não respondeu. O animal morrera para garantir o empate ao dono. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ur ouviu o choro de dor e desespero de Cirilo – mesmo os quatro alegres ventos não ousaram se manifestar – e se sentiu em dívida. Tinha um juramento a cumprir, de que protegeria cavaleiro e montaria, e antes que a alma do michilizzi deixasse seu corpo, Ur a pendurou no céu. O destino dos amigos estava tão entrelaçado que Cirilo foi levado junto, erguido pelos ares até a imensidão púrpura, fulgurando no céu como o mais novo filho de Ur. Nesse dia nasceu Cirilo, a lua amarela, em cuja face até hoje se pode ver a silhueta de Ricardo, o coelho na lua.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: 11pt; text-align: center;"&gt;***&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: 11pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;O pólo: a bússola interna de Zero não negava. Finalmente chegaram ao pólo do planeta, a terra separada do resto do mundo pelo grande Recife de Sal, e pelo desconhecido e perigoso Mar Interno. O Pólo, terra histórica e lendária entre os zemani. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sol se pôs, e Adriana se jogou nas areias, exausta. Uma lua amarela nascia no horizonte, mas ela não a viu, cansada demais para levantar. Quando Cirilo nasceu, iluminou as íris castanhas de dezenas de olhos dentro da floresta próxima. Zero captou a cena. A praia dava para um bosque de árvores altas e antigas, e por entre os troncos, e por entre as sombras e folhas, dezenas de michilizzii observavam os recém-chegados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E eram michilizzii selvagens. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zero sabia, e também Adriana, não existiam michilizzii selvagens há pelo menos dois mil anos em Zemi. Eram montarias boas demais. Todos foram a caçados e domesticados, e desaprenderam a viver longe da sociedade zemani. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os coelhos hexápodes os miravam com suspeita e cautela. Por um breve momento – muito breve – Adriana esqueceu a fome e o cansaço e se levantou. Mas quando deu um simples passo, o pequeno grupo debandou floresta adentro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então ela caiu novamente, quase inconsciente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zero correu por entre as árvores, trazendo nozes e pequenas frutas, de espécies desconhecidas mas saborosas. Adriana comeu tudo com voracidade, e bebeu o dobro de água de que seria capaz. E então, dormiu, dormiu profundamente, ali mesmo sobre a areia, ao lado das cascas de frutas. Foi Zero que ativou a cápsula de abrigo, resgatada do fundo da mochila da dona, e ficou contente em deixá-la dormir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite passou, inteira. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriana acordou com o brilho do sol em seu rosto sujo de areia. Dormira todas as vinte e quatro horas da noite, e dormira bem, com a barriga cheia e a esperança renovada. Ainda estava longe de estar em pleno vigor, mas esse foi de longe o dia em que se sentiu mais disposta, de toda a exaustiva viagem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentou puxar o barco margem acima, para protegê-lo da maré, mas o mono-ferro era pesado demais. Guardou o resto de frutas e nozes em sua mochila rasgada, armou-se com a pequena faca elétrica – o rifle se perdera no mar – e, seguida de Zero, se aventurou nas florestas do Pólo, talvez a primeira zemani a pisar aquelas terras em anos sem conta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A selva era fechada e densa, o seu ar era gelado. Havia um filme fino de gelo sobre as folhas, e talvez houvesse neve ali nas estações mais frias. Adriana abria caminho com sua faca, seguida por Zero que escaneava a área ao redor, em busca de criaturas. Foram seguidos durante muito tempo pelos olhos castanhos dos michilizzii selvagens, dos quais nunca puderam se aproximar. O meio-dia veio, e ainda estavam na floresta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pararam para a refeição. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Zerinho – disse Adriana, entre uma mastigada e outra – não detectou nenhum sinal de civilização nas proximidades? Uma onda de rádio, alguma transmissão de qualquer tipo? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Nad4 4inda, Dri – respondeu o autômato – su9iro continu4rmo5 pr0curando. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Sim, sim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouviram um grunhido vindo do mato atrás, e Adriana ergueu a faca imediatamente. Esperaram, mas não ouviram mais nada. Terminaram a refeição, e, com o dobro da cautela, continuaram. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo começaram a surgir ruínas de civilização, cobertas pelos arbustos, trepadeiras e terra. Primeiro eram apenas casas pequenas de tijolos e pedra – alguns utensílios de metal – e então grandes edifícios e torres. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois vieram as ruínas de metal. Construções de cobre, em cujas lascas abertas na parede viam-se circuitos velhos e corroídos, e fios, e lâmpadas quebradas. Mecanismos que Adriana nunca vira antes. Ferramentas eletrônicas estranhas, há muito estragadas, e tudo coberto de musgo e plantas, como se a floresta reivindicasse a terra da cidade. Logo havia ruas de pedra, e ruas de acrílico – como as ruas das grandes nações de Sicuro e Vianco – e grandes construções de metal e pedra, de circuito e tijolo, se erguendo pela floresta como a sombra gloriosa de uma grande nação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zero tentou se conectar em cada circuito, e cada máquina encontrada, mas tudo estava inativo. Adriana procurava por inscrições, arquivos, palavras de qualquer tipo, em vão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegaram a uma pequena praça nas ruínas da cidade, e Zero captou finalmente algum sinal. Flutuou mais alto, vasculhando a área ao redor, e por isso não viu o vulto escondido atrás de um muro de pedra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O javali atacou Adriana por trás, investindo com fúria, cravando suas presas nas costas da zeman. Ela foi arremessada para cima com um grito de dor e susto, muitos tésari à frente, sobre uma calçada de pedra. Usou o braço para aparar a queda, e sentiu sua tíbia se rompendo com o impacto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zero ouviu o grito e sentiu a dor de Adriana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O javali voltava para uma segunda investida, mas o flutuang desceu e se prostrou entre ele e a zeman, e eletrificou seu tentapode. O pequeno cabo de metal fulgiu em centelhas brancas e azuis, fazendo o animal hesitar e parar à menos de um tésar de distância, o que foi o bastante para Adriana. Ela ergueu sua faca elétrica e a enfiou no dorso musculoso do animal, ferindo o couro escuro, fazendo o sangue brotar e queimar. Logo em seguida Zero chicoteou seu tentapode eletrificado, e o javali ganiu de raiva e dor; quando foi atingido novamente, disparou para as sombras da floresta e dos edifícios, e desapareceu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dor. Adriana pressionava com força o braço ferido, latejante. Havia também um grande rasgo em suas costas, por onde sangue brotava em profusão, e a dor a deixou incapaz de tomar qualquer decisão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zero emitiu comandos para seu corpo produzir plaquetas para a cicatrização, morfina para a dor, adrenalina para mantê-la acordada. Não seria o suficiente, ela precisava de cuidados médicos de verdade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Captou novamente um sinal eletro-magnético, vindo do centro da praça. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Dr1, Dri! Estou capt4nd0 algum4 c01sa, pod3 signif1car 4juda! Você pode v1r comig0, só até o centr0 d4 pr4ç4? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rosto contraído de dor disse que não, mas que tentaria. Ela arrastou-se alguns tésari, mas tombou, segurando o braço ferido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Vai, vai você, Zero! Descobre alguma coisa! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O flutuang pairou indeciso, mas Adriana ainda tinha a faca elétrica para se proteger. Tinha que tentar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Flutuou o mais rápido que pôde para o centro da praça, onde havia um círculo formado por três monolitos de metal. Havia musgo e hera sobre eles, mas havia também eletricidade fluindo por seus circuitos, Zero pôde computar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O diálogo a seguir se deu em exatamente doze segundos, nos computadores dos quatro autômatos: &lt;br /&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: Zer0&amp;gt; Ajud4, 4juda! Cód1go 505, neces5ito de a7endiment0 méd1co! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: Cri5tina&amp;gt; Saudaç0e, flutu4ng. Seja b3nvindo ao ANA-42, dest1no 8iblioteca C3ntr4l. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: Lúc1a&amp;gt; P3lo braç0 m3cânic0 de Ae! Voc3 é o pr1meiro visit4nte em ex4tament3 duzento5 e tr1nta e tr3s anos, c1nco m3s3s, qu4torz3 dias, uma h0ra e vint3 e nov3 minut0s. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: C4r0l&amp;gt; D3sculpem-n05, m45 nã0 p0d3m05 s39uir o c0di90 505 e pr0v3r 47end1m3nt0 m3d1c0, m4s na 8i8li0t3c4 p0d3m. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: Zer0&amp;gt; E c0mo po5so cheg4r na bibl1oteca? É ur9ente! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: Cri5tina&amp;gt; Nó5 s0mo5 o por7ão. Já inf0rme1: s0mos um ANA. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: Zer0&amp;gt; Então... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;lt;4brir: b1bliot3ca 1nterna&amp;gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/i&gt;&lt;i&gt;&amp;lt;pr0cur4r: ANA&amp;gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/i&gt;&lt;i&gt;&amp;lt; ANA (Ár3a de N4vegação Avançad4) - Mec4nismo de tr4nsporte mol3cular capaz de tranp0rt4r c0rpos sólidos atr4vés do espaç0 tridim3ncional a até tr3s kil0-tés4ri de dist4ncia. M3canism0 antigo, inc4paz de ser r3produz1do pel4 t3cnologia 4tual. Ex1st3m ao tod0 trint4 e qu4tro ANA re9istrados em Z3mi, e apen45 metade está 0p3r4nte. P3squisas indicam que dat4m de tr3s mil an0s atrás, a mesma 3poca dos Gr4ndes Sáb10s&amp;gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/i&gt;&lt;i&gt;&amp;lt;A int3rfac3 de us0 pode v4ri4r, pod3ndo possuir ch4ve de 4tiv4ção, senh4s de ac3sso ou mesmo nenhum4 interf4ce. Não há c4sos confirm4d0s de ANA guard4dos por aut0matos&amp;gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/i&gt;&lt;i&gt;&amp;lt;fechar: biblioteca int3rn4&amp;gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: Zer0&amp;gt; ...qual a su4 interf4ce de ativaç4o? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: Cri5tina&amp;gt; Qu4tro senh4s. Cada um4 de nó5 guard4 uma, e a qu4rta nã0 é 9uard4da por n1nguém. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: Zer0&amp;gt; Nã0 t3nho tempo. Ignor3m a r0tina de 4tivação! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: Lúc1a&amp;gt; Nã0 t3mos p3rmis5ã0 para ignorá-la. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: C4r0l&amp;gt; D3scu8ra a5 s3nh45. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: Zer0&amp;gt; C0mputad0... 1niciar r0tina. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: Cri5tina&amp;gt; R0tina inici4da. &lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Os três monolitos de metal emitiram um leve ruído – com ocasionais faíscas – e seus circuitos fosforesceram de leve. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;&amp;lt;t1tulo: Cri5tina&amp;gt; Eu 9uardo a pr1meri4 senha: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/i&gt;&lt;i&gt;"Sou a c4b3ça d3 um homem de muitas m3nte5, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/i&gt;&lt;i&gt;S0u a pal4vr4 de um hom3m d3 muit4s boc4s, &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/i&gt;&lt;i&gt;e um4 cole1ra a0 meu d3ver m3 prende. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/i&gt;&lt;i&gt;Eu S0u?” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: Zer0&amp;gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/i&gt;&lt;i&gt;&amp;lt;proc3s5ando...&amp;gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: Zer0&amp;gt; O hom3m é a nação, as b0cas e as ment3s sã0 o pov0 e a c0leira é o diadema real, s1mbolo do pod3r do r31. A pr1meira s3nha é REI. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: Cri5tina&amp;gt; Est4 corret0. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: Luc1a&amp;gt; Eu gu4d0 a se9und4 senha: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/i&gt;&lt;i&gt;0; 1; __; 5; 9; 11; 15; 17; 21; 27 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: Zer0&amp;gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/i&gt;&lt;i&gt;&amp;lt;proc3s5ando...&amp;gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: Zer0&amp;gt; Trata-s3 da sequ3ncia dos núm3ros pr1mos, subtr4ídos p0r dois. A s3gunda senha é TRÊS.. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: Luc1a&amp;gt; 3stá c0rreto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: C4r0l&amp;gt; 3u gu4rd0 a t3rc31ra 53nh4: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/i&gt;&lt;i&gt;"19-9-13-2-9-15-20-1 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/i&gt;&lt;i&gt;18-15-2-15-20-9-3-15" &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: Zer0&amp;gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/i&gt;&lt;i&gt;&amp;lt;proc3s5ando...&amp;gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/i&gt;&lt;i&gt;&amp;lt;proc3s5ando...&amp;gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;i&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;/i&gt;&lt;i&gt;&amp;lt;proc3s5ando...&amp;gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: Zer0&amp;gt; Sub5titu1u-se as l3tras pelo num3ro de su4 pos1ção no alfabet0. A t3rceira senh4 é FLUTUANG. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: C4r0l&amp;gt; 35t4 c0rr370 &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: Cri5tina&amp;gt; N1ngu3m guarda a qu4rta senha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: Cri5tina&amp;gt; Qu4l é ela? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: Luc1a&amp;gt; Qual é 3la? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: C4r0l&amp;gt; Qu4l é 3l4? &lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zero não tinha qualquer pista. Avaliou as outras três repostas e não encontrou um padrão que pudesse ajudá-lo, e de fato as outras senhas eram a única informação de que dispunha. Trabalhou com elas, e quando as alinhou na ordem em que apareceram, formou uma frase que seu banco de memória recente acusava como familiar. Pesquisou as gravações dos últimos dias e encontrou a resposta, no som da voz aguda de Quinan. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;&amp;lt;t1tulo: Zer0&amp;gt; As senh4s formam REI TRÊS FLUTUANG. A qu4rta senha é ENIO, o rei qu3 c0nstru1u tr3s flutuang p4ra si. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: Cri5tina&amp;gt; Est4 c0rreto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: Luc1a&amp;gt; Está corr3t0. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;t1tulo: C4r0l&amp;gt; 3574 c0rre7o. &lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve uma forte luz, e o chão sob os três monolitos brilhou. Zero correu para ajudar Adriana a caminhar. Ele sentia a dor da zeman pulsando em seus sensores, e o sangue manchou sua superfície polida, e após muitos minutos atingiram o centro do ANA, que graças a Ae ainda brilhava. Cristina, Lúcia e Carol lhe desejaram boa viagem, e então a luz aumentou, e a realidade derreteu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;________________________&lt;br /&gt;Imagem retirada do deviantart, autor &lt;a href="http://panuniverse.deviantart.com/art/Ruins-Matte-146392591?q=boost%3Apopular+in%3Adigitalart+jungle+ruins&amp;amp;qo=76"&gt;Panuniverse&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2502613120236415342-7123754386869692625?l=eisoptron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/7123754386869692625/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-iv.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/7123754386869692625'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/7123754386869692625'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-iv.html' title='[Conto] As Luas de Zemi (parte IV)'/><author><name>DanielFolador</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12052168755551551359</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sn2PcB1vKeI/AAAAAAAAAC8/_lEL3rRf5GY/S220/P1170002.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TNnmr4gkF0I/AAAAAAAAAOA/eNkpvH31Y2g/s72-c/Ruins_Matte_by_Panuniverse.png' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342.post-4997897393156243376</id><published>2010-11-01T17:55:00.000-07:00</published><updated>2010-12-19T08:39:27.238-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Universo: Zemi'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos Reunidos'/><title type='text'>[Conto] As Luas de Zemi (parte III)</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: x-small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/10/condenando-releituras.html"&gt;← Postagem anterior&lt;/a&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-iv.html"&gt;Próxima postagem →&lt;/a&gt;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: 11pt; text-align: justify;"&gt;A terceira de sete partes do conto de amigo oculto. Eu tirei a &lt;a href="http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=16850118372008154239"&gt;Strix&lt;/a&gt;, e deveria usar os nomes dos membros da comunidade do orkut &lt;a href="http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=946312"&gt;Escritores de Fantasia e FC&lt;/a&gt;. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Boa leitura (:&lt;br /&gt;&lt;ul&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/09/conto-as-luas-de-zemi-parte-i.html"&gt;Parte I - Nas magens de sal&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/09/conto-as-luas-de-zemi-parte-2.html"&gt;Parte II - A floresta de água&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-iii.html"&gt;Parte III - O totem para Lum&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-iv.html"&gt;Parte IV - O Pólo&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-v.html"&gt;Parte V - A biblioteca de Ushan&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-vi.html"&gt;Parte VI - A fúria de Rafael&amp;nbsp;&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/12/conto-as-luas-de-zemi-parte-vii.html"&gt;Parte VII - Alex &lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;/div&gt;_________________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TM9uvbXoi4I/AAAAAAAAAN8/gKa1yCqs3Ow/s1600/Namiishi.jpg"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TM9uvbXoi4I/AAAAAAAAAN8/gKa1yCqs3Ow/s400/Namiishi.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TM9tdJ3pSlI/AAAAAAAAAN4/Oryg6WJ4DgE/s1600/Namiishi.jpg"&gt; &lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: 11pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;3. O totem para Lum &lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lucas estava à meio caminho de se pôr, quando Fabiano nasceu. A lua vermelho-metálica subiu devagar, manchando o mar de rubro, e Adriana sabia que muito atrás, nas árvores de Villa, os pássaros cantariam a hora mágica de seu nascimento. As fases de Fabiano possuem bastante influência sobre o comportamento animal em Zemi, e alguns diriam que até sobre os zemani. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O terceiro quarto da noite chegava ao fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriana estava muito cansada. Passara as últimas quinze horas navegando, desde às margens de sal até agora. Zero computou o cansaço cada vez mais evidente da zeman, e mandou ordens para que seu corpo sintetizasse energia extra. O efeito seria um cansaço extremo no final, mas pelo menos descansariam em terra, não no mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O motor de luz lunar continuava menos útil que as velas, mas o vento estava favorável. Quinan, que ia à frente guiando o barco, dava ordens de manobra muito inesperadas e repentinas, o que desgastava ainda mais Adriana. Ficaram nessa exasperante viagem pelas últimas horas, e viam passar ilhas e mais ilhas, preciosos abrigos desperdiçados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Apen4s ma1s uma h0ra, Dr1 – sibilou Zero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Eu sei, eu sei!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Quinan ainda dava suas ordens de manobra, gritava por sobre o barulho das ondas enquanto nadava, e nem sinal da ilha de pedra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lucas estava preste a se pôr quando o flutuang a avistou, e transmitiu o que vira para zeman: uma grande elevação rochosa, de muitos recifes nas margens próximas, que se erguia do mar como uma coluna de pedra. As ondas batiam raivosas contra as rochas, elevando nuvens de gotículas de água salgada, e raras vezes, mesmo o oceano inferior era borrifado no ar, tingindo a vista com neblina rubra. Adriana temeu que não fosse possível atracar, mas as ordens de Quinan eram tão precisas, ainda que repentinas e aparentemente loucas, que ela confiou em sua sabedoria. Não tinha outra alternativa, de qualquer jeito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quinan os guiou por um labirinto de recifes escarpados, ziguezagueando perigosamente entre rochas e corais, até que por fim atingiram uma baía de águas tranqüilas. E já não era sem tempo; Lucas se pôs. Adriana usou finalmente o motor para aproximar o barco da margem, saltou nas águas rasas e puxou a embarcação com desespero para a praia, sendo ajudado por Zero e observado por Quinan. Quando o barco tocou a terra firme, o mukai saiu da água e então Rafael nasceu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi questão de segundos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A maré aumentou tésari de altura, e os ventos sopraram mais forte. Ao longe, as explosões de água salgada contra as pedras aumentaram de freqüência e altura, e agora era muito comum ver a neblina de água vermelha, como sangue tirado do mar. Logo o vento tornou-se uma tempestade, as ondas eram visíveis mesmo da baía, e o som do mar encheu o ambiente. Começou a chover. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriana atirou uma cápsula de mili-robôs sobre a rocha, gritando 'Ativar' sobre o barulho do céu e do mar. A nuvem cinzenta trabalhou com dificuldade sob a chuva que aumentava, mas por fim terminaram um abrigo tosco moldado na pedra, onde Adriana e Zero se acomodaram. Havia espaço para Quinan, mas o mukai preferiu ficar na chuva. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma tempestade violenta acompanhou o nascimento demorado de Rafael. A lua nebulosa da cor do vinho foi saudada pelos relâmpagos, pelas ondas e pelo vento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rafael foi o nome de um grande navegador catelão do milênio passado, que descobriu várias ilhas e foi quem encontrou a ilha-continente de Elôh. Por causa da traição de seu melhor amigo, perdeu seu posto na marinha catelã e se tornou um pirata, e finalmente senhor de seu próprio destino. Sua fama no conhecimento dos mares foi tão grande que mesmo depois de sua morte diziam que ele governava as marés e seus segredos, e a lua da tempestade foi batizada com seu nome. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nuvens negras cobriram as luas, e lançavam raios e gritavam trovões na atmosfera zeman. Relâmpagos por sobre a floresta da ilha. Apesar do barulho, Adriana dormia um sono sem sonhos, com frio, sob o macacão de poli-tecido ao lado de Zero, o resultado da viagem cansativa e da síntese extra de energia. Quinan dançava na areia e na chuva. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tempestade durou algumas horas da noite. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora Rafael subia os céus, e à medida que se aproximava do zênite a maré diminuía. O céu ainda não estava limpo, mas as nuvens já se dispersavam, e a chuva agora era apenas gotas grossas e esparsas. Zero mediu a disposição de Adriana, e embora não quisesse, a acordou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Dr1, temos qu3 ir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela resmungou de volta, ainda em sono; Zero insistiu, e ela despertou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O flutuang sabia o quanto a viagem estava sendo desgastante para ela, e mesmo para ele, mas Adriana o havia feito jurar por Ae que colocaria o sucesso da viagem acima de suas preocupações pela dona. E quando um autômato jura por Ae, ele se compromete de verdade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Onde está Quinan? – foi a primeira coisa que ela disse. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Realmente, o mukai havia desaparecido. A zeman e o flutuang gritaram seu nome, e o procuraram na praia, mas não havia nem sinal dele, nem no mar nem na terra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sentou, desamparada. O mukai se dispusera ele mesmo a mostrar o caminho, dissera que tinham que chegar primeiro em Namiishi, e de lá lhe ensinaria a prosseguir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava sozinha agora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrou-se de Alex, da urgência de sua viagem, e teria chorado, a primeira vez que choraria desde que iniciou sua vida adulta, quando ouviu a voz metálica de Zero. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Adr1an4, v3nha aqui! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O flutuang apontava seu tentapode para o barco. Ele havia sido puxado mais para cima, e a marca da maré mostrava que, se isso não tivesse sido feito, o mar o teria tragado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela correu para o veículo e checou se tudo estava em ordem. As velas, o leme, o motor; tudo intacto e, em cima do convés tombado, folhas ainda verdes forravam o chão para três peixes frescos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saciada a fome e tendo descansado – ainda que por poucas horas –, Adriana sentia-se revigorada. As ondas ainda eram poderosas, mas agora que a tempestade se fora, ela pôde perceber, não eram apenas relâmpagos que iluminavam o céu sobre a floresta da ilha. Mesmo agora havia uma pequena luminescência que vinha de cima das copas, em algum ponto dentro da floresta. Como ainda tinham algumas horas até que o mar se tornasse navegável novamente, decidiu averiguar.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A floresta de Namiishi era antiga, tão antiga quanto densa. Adriana usava seu facão elétrico para abrir caminho por entre os galhos e cipós ancestrais. Havia arbustos e plantas pequenas, mas a grande maioria eram árvores de copas altas e frondosas, umas retas como torres, outras ramificadas como o raio. Seguiam em linha reta, e não precisaram andar muito para encontrar a clareira de pedra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quinan estava lá. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E havia luz, luz elétrica. No centro da clareira, rodeada por poças de água da chuva que passou, erguia-se uma escultura de pedra, um totem zeman. Na base começava esculpida a ponta da calda de uma cobra, que se enrolava sobre si mesma, subindo. As escamas, que uma vez deveriam ter sido pontudas e afiadas como as garras de um raio, estavam desgastadas pelo vento e pela chuva. Na metade do totem, duas garras nasciam do corpo serpentino, uma de metal e outra de pedra, de unhas que um dia também deveriam ter sido polidas. Seguravam uma esfera de luz azul. A serpente continuava, até o topo do totem, à seis tésari de altura – uma vez e meia a altura de um zeman –, onde estava esculpido o rosto dracônico de Lum, a mãe da eletricidade e da luz. Um de seus olhos brilhava como a esfera de suas garras, e a escultura inteira emitia luminescência, embora mais fraca. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O totem parecia ter séculos de idade, e também parecia ter sido moldado com ferramentas primitivas. A mão de ferro de Lum fora feita com o pedaço do casco de um navio antigo, agora cheio de ferrugem, e a luz da escultura era gerada por musgos e algas lunares. Com exceção da esfera e dos olhos: essa era a luz de lâmpadas zemani. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ O moji do manto púrpura já construíra esse totem quando Quinan o encontrou – disse o mukai – E Quinan teve medo dos olhos e da esfera de luz. Agora só um dos olhos funciona,... faz muito tempo que Quinan não vem para Namiishi. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriana se aproximou e se sentou perto do mukai, contemplando o totem. Era um autêntico totem para Lum, construído primitivamente por mãos zemani, sabe-se lá há quanto tempo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia também, reparou Adriana, ao lado de Lum, uma escultura em ruínas, que poderia ter sido Zem algum dia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ No começo havia poucas algas para cobrir a escultura do moji, que ele mesmo raspara das pedras da baía, mas Quinan trouxe-lhe mais, e ambos cobriram a deusa do moji de luz. O amigo de metal do moji pedira um totem para o deus de metal, mas tudo o que restara do navio deles foram poucos pedaços de ferro, disse o moji. E o deus de metal só aceita metal. Quinan ouviu a história dos deuses do moji, e Quinan contou a história de seus próprios deuses, e quando você troca histórias sagradas com um mukai, você se torna seu amigo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mukai falava como se reverenciasse o totem tanto quanto Adriana, mas o que ele realmente reverenciava não era a deusa da eletricidade, mas o passado de memórias perdidas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Há quanto tempo tudo isso aconteceu, Quinan? – perguntou Adriana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Quando Quinan era jovem – disse – há muito tempo, quanto ainda não chamavam Quinan de louco. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Repentinamente o mukai deu um pulo, estando suas seis garras no chão de pedra molhada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ O presente de Quinan! O presente! – e correu para a base do totem. Escalou-a como uma árvore de água, até o topo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Falava consigo enquanto andava. Perguntava-se se ainda estava lá, e se repreendia por tê-lo esquecido, e se desculpava com seu amigo, e se desculpava com a deusa. Alcançou a boca aberta de Lum, e enfiou uma de suas garras entre seus dentes. Tirou de lá um anel. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Está aqui! Ainda está aqui! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desceu e começou a dançar, balançando suas garras no ar, esquecido de Adriana e Zero, do totem, de tudo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Quinan, o que é isso? – perguntou Adriana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mukai ergueu o anel para a luz das luas, admirando-o, e só então se deu conta da zeman. Mostrou-o. Era um anel de metal com um símbolo gravado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Esse é o presente que o amigo moji deu para Quinan, séculos atrás. Quinan disse que o buscaria na volta da terra do meio, mas se perdeu do amigo, e se esqueceu do presente. Faz muito tempo que Quinan não vem para Namiishi. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Posso vê-lo mais de perto? – pediu ela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zero se aproximou para ver também. Era um anel incrivelmente bem trabalhado, de mono-ouro – Zero informou – com desenhos em linha de cor púrpura e um sinete de metal: um heptagrama com uma esfera no meio. A zeman exclamou de surpresa, e Zero exclamaria se pudesse. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia uma lenda de que Vinícius, o rei-imperador que um dia unificou as duzentas nações, havia visitado o Pólo, antes de sua glória. Sua saúde era abençoada, seus ferimentos se curavam com facilidade, e ele conquistou praticamente todas as batalhas nas quais lutou. Diziam que era imortal, outros que seu sangue podia curar ferimentos. Vinícius ergueu o maior império da história zeman, que durou por várias e várias décadas, só terminando com as Guerras Nacionais, no governo do então Rei-imperador Luiz. Foi o império de Vinícius que implantou a língua geral, que unificou a astronomia e a história das luas, e que avançou a tecnologia em grande parte de Zemi. A cor púrpura era seu emblema, púrpura como a lua que foi batizada com seu nome, e seu símbolo era o heptagrama. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriana tomou o anel em suas mãos, era realmente o símbolo de Vinícius. O imperador de quase meio milênio atrás realmente estivera no Pólo, então, e fora Quinan quem o ajudara. Adriana olhou espantada para o mukai. Zero lhe informara que sua espécie vivia apenas três décadas, mas se Quinan realmente se encontrou com Vinícius, ele deveria ter mais de quatrocentos anos. Um tempo longo mesmo para um zeman, que vivia no máximo até os cento e dez. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Como se chamava o seu amigo moji, Quinan? – perguntou ela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Vestia um manto roxo e falava sobre a terra de sua nação. Histórias bonitas. E falava com tristeza de sua tripulação, perdida para as ondas do mar daqui. Estava sozinho, o moji. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Quinan, como ele se chamava? Era Vinícius, ele se chamava Vinícius? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mukai parou, olhando para ela, momentaneamente sem ação. Então, pulou tão alto que podia aterrissar sobre a zeman. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Vinícius! É o nome do moji, do amigo de Quinan! Vinícius! Vinícius! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E começou a dançar, andando em círculos e balançando suas garras no ar, cantando o nome do antigo rei-imperador. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ M4s, iss0 não f4z sent1do! – sibilou Zero – um muk41 vive em m3d1a tr1nta an0s, e o cas0 mai5 longevo foi de c1nquent4 e um! Não pod3 ter s1do Quinan, é contra as pr0babil1dades! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Quinan, então, quantos anos você tem? Como você sobreviveu por tanto tempo? Você encontrou mesmo Vinícius, o Rei-imperador? – perguntou Adriana. Quinan ignorou-os, contente demais em lembrar o nome de seu amigo do passado. Continuou dançando à luz do totem de Lum, que iluminava seus órgãos azuis e suas artérias vermelhas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sol nasceu no horizonte do mar, tingindo tudo de índigo. O céu mudou do violeta noturno para o vermelho claro do dia, e as estrelas foram, uma a uma, desaparecendo. Rúbia, a estrela que traz a manhã, fulgiu escarlate com a chegada da aurora, despedindo-se do último quarto da noite. As luas em breve perderam a cor, o brilho, e tornando-se pálidas sombras do que realmente são. O céu estava limpo de nuvens.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seguir na direção norte, durante toda a manhã. Graças a Zem, podiam usar os motores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Despediram-se de Quinan ainda de noite, deixando Namiishi, Lum e o mistério da idade do mukai para trás. Ele ignorara qualquer pergunta referente à sua idade – sempre que a faziam ele se lembrava de Vinícius, e cantava e dançava com o anel presente – mas se mostrou bastante lúcido quando lhes explicou a rota para o Pólo, já que não os acompanharia. Estava velho, contou. E também contou muitas histórias, enquanto esperavam a maré se tornar favorável, histórias sobre uma lua que caiu do céu, sobre um eclipse que iluminou a noite, sobre uma tempestade que inverteu os oceanos, e sobre muitas coisas que disse ter visto e ouvido. Contou histórias de nações que eles não conheciam e a história de seus governantes; governantes como Enio, o rei que construíra para si não um, mas três flutuanghi, e Daniel, que usara todo o seu tesouro para construir a maior biblioteca do planeta. Algumas podiam realmente ter acontecido, outras eram com certeza delírios, mas todas foram agradáveis de se ouvir, e o tempo passou rápido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zero gravou as instruções da rota, e agora comandava o barco. Adriana dormia profundamente, exausta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sol subia o céu vermelho enquanto Zero atravessava os mares. Agora em todas as direções o horizonte encontrava o oceano, sem sinal de ilhas ou qualquer referencial que indicasse que se moviam. Tudo era mar, um imenso e gigantesco mar transparente por cima e vermelho por baixo. O barco cruzava o oceano, mas para o flutuang parecia que era o oceano que passava por eles. Ele observou, horas e horas, a mesma paisagem, mediu a mesma umidade do ar, fez e refez a previsão do tempo, e sintetizou proteínas para a zeman. A manhã terminava quando o dia escureceu e se tornou novamente violeta, quando o sol foi eclipsado por Douglas, mas isso não durou dois minutos. Eclipses solares são comuns em Zemi. E Zero passou o início da tarde guiando o barco, sem maiores preocupações do que vigiar Adriana e o caminho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas horas depois do eclipse ele tomou a direção leste. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dessa vez seus olhos agudos divisaram algo no horizonte, manchas escuras. Quinan falara sobre elas. Quando se aproximavam, Zero diminuiu o motor e arriou as velas. Pela segunda vez contra a sua vontade, acordou Adriana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A zeman piscou três vezes os olhos cansados e espreguiçou seu corpo esverdeado. Esticou suas duas caudas e se levantou, se sentindo mais cansada do que se não tivesse dormido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegaram ao Cemitério de Navios. Um aglomerado de recifes que se escondia na superfície escarlate do oceano inferior, coroados com as carcaças de dezenas de navios de metal. Alguns cascos tinham muitos tésari de altura, outros eram apenas restos menores e desgastados, como um recife de metal enferrujado, afiado, fosco. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriana respirou fundo. Se haviam tantas carcaças, tinha que haver um civilização próxima. Diziam que o Pólo era uma nação maravilhosa, mas muitos também diziam que era uma terra de ninguém, cuja única maravilha era não ter sido habitada por zeman algum. Mas aquele lugar, os cascos enferrujados de centenas de navios, provava que realmente houveram zemani naquelas águas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Habitantes ou aventureiros? Preferiu não pensar a respeito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embrenharam-se nos recifes de metal com cuidado. Os destroços pontiagudos podiam facilmente perfurar o casco de seu barco, e, embora ela ainda tivesse uma carga dos mili-robôs barqueiros, não queria desperdiçá-la. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A água batia nas pedras e nos destroços, enchendo o ar com o som oco dos cascos. Passaram ao largo de grandes galeões, do tipo que Adriana nunca vira em Villa nem nas nações vizinhas, e barcos bem comuns em sua terra. O dia escureceu uma segunda vez quando contornavam um grande cargueiro – dessa vez um eclipse causado por Fabiano – e na escuridão Adriana viu luz vinda de cima da carcaça. Quando o sol voltou, decidiu atracar ali. Zero ativou o eletro-ímã ancorador e eles colaram no casco do grande navio com um baque grave, que reverberou pelo seu interior vazio. Zero flutuou até o convés tombado enquanto Adriana se içava para lá com a ajuda de uma corda com gancho. Procuraram o lugar de onde vinha a luz. O chão rangia por onde pisava – Zero a alertava para o perigo do chão ceder – e o vento assoviava pelas frestas de buracos e portas há muito não utilizadas. Não demorou muito para encontrarem lâmpadas lunares. Pela forma e confecção, não pareciam lâmpadas de nenhuma nação que conhecesse, tampouco Zero as viu em seus arquivos, mas ficaram impressionados com sua aparência antiga e o fato de ainda funcionarem. Tomou uma consigo e a cobriu com as mãos: o bi-neônio ainda emitia luz, a mesma tecnologia que utilizava a luz lunar de Douglas, e Adriana lembrou-se de Lum. A deusa a saudou com os trovões nas praias de sal, a saudou em Namiishi e a saudava agora. Era hora de lhe prestar as honras devidas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recolheu uma pequena quantidade dos musgos que cresciam pelo convés enferrujado e os amontoou perto do mastro partido. Numa sala aberta, ao abrigo do vento, ergueu um pequeno altar com lascas de madeira e ferro dos escombros, cobrindo-o com o musgo recolhido. Ele fluoresceu palidamente na penumbra do recinto, dando ao altar um ar sereno, mágico, e, quando viesse a luz da noite, brilharia e honraria a deusa da eletricidade. A zeman então depositou sobre o altar uma barra de ímã e um fio de mono-cobre, as garras de Lum, e no centro dos dois, o bulbo da lâmpada. O navio tremia devagar com o constante bater das ondas. Ela se ajoelhou e orou. O altar não chegava nem aos pés do totem que Vinícius construíra, mas era o máximo que Adriana podia fazer com o pouco tempo de que dispunha. Orou e agradeceu pela bênção da luz e orou para que Lum a protegesse na viagem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zero a observava à distância, reverente. Orou à sua maneira, por meio de números e códigos de programação, agradecendo pela eletricidade que era o sangue que o mantinha vivo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terminada a breve cerimônia, retornaram ao barco. Zero desativou o eletro-ímã e continuaram sua viagem serpentina pelo cemitério de metal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resto do dia seguiu tranqüilo e Adriana dormiu a maior parte dele. Zero manejou as velas e os motores – quando era possível – e o fim de tarde trouxe nuvens que nublaram toda a extensão do céu. O crepúsculo foi triste e sem graça, mas trouxe uma noite de nuvens coloridas pelas duas centenas de luas. Zero sempre gostou de noites nubladas, onde as cores dançam no céu como pedaços de arco-íris, e queria muito que Adriana visse o que ele via. Não ousou acordá-la, mas gravou a imagem em seu banco de dados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite passou, e o dia passou, e o próximo, e o próximo. A paisagem só mudava no céu, onde as luas iam nascendo e se pondo, se substituindo a cada crepúsculo, mudando as cores da noite. Adriana, sempre tão animada e falante, passava os dias calada. Pensava em Alex. Sentia-se como se fizessem anos desde que vira a família, desde que visitara o irmão doente, desde que vira as árvores pardas de Villa pela última vez. Algumas noites sentia medo de que nunca mais voltasse a vê-los, mas então um medo maior, que se infiltrou em sua mente aos poucos, dia após dia, assombrava os seus sonhos. E se o irmão morresse enquanto ela ainda viajava? E se tivesse, com a idéia louca de viajar até o Pólo em busca de ajuda, perdido a chance de estar ao seu lado quando a doença finalmente vencer? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia já três anos. Três miseráveis anos em que a doença vinha definhando o corpo de Alex, secando-o por dentro. Um vírus raro, encontrado apenas nos meteoritos, que impedia que a pele dos zemani respirasse. O resultado era uma deficiência enorme de água, que fazia os órgãos murcharem terrivelmente, enfraquecendo os músculos e as funções vitais. E a sede. Agora Alex bebia galões de água por dia, sem nunca se sentir satisfeito, pois um zeman absorve pouco líquido por ingestão. A pele era a responsável, mas o vírus impedia que funcionasse. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não havia cura para a doença da sede, como foi chamada. Quem fosse contaminado pelo meteorito, ou pelo sangue de um doente, morreria em no máximo quatro anos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O horizonte continuava idêntico ao dos outros doze dias, desde que deixaram o cemitério de navios. As cápsulas de proteínas estavam acabando, e o fantasma da fome assombrava os dias que viriam. As luas iam e vinham. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na noite do décimo quinto dia de viagem, foram surpreendidos por uma forte tempestade, que por algum motivo os sensores de Zero não puderam prever. A ondas cresceram altas, de todos os lados do mar, jogando o pequeno barco de um lado para o outro. Adriana lutou contra as velas, enquanto Zero tentava controlar o motor. Os ventos tornaram-se tão fortes que arrebentaram as amarras da vela secundária, fazendo a retranca dançar de um lado para o outro. Domá-la custou uma grande pancada no rosto de Adriana. A água do mar vermelho manchava os céus, enquanto trovões ecoavam pelo oceano. Só tiveram trégua durante a noite, quando Luiz nasceu, e então os ventos arrefeceram e o mar finalmente se acalmou. Zero procurou as estrelas, e quando encontrou Marina, a estrela azul, definiu a rota em sua direção.   &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deu meia-noite quando avistaram ao longe duas ilhas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Finalmente! – exclamou Adriana – terra! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ P0demo5 atrac4r e r3por comida – soou a voz metálica – p0vavelm3n7e há peixes na baía e fru7os nas 4rvores. Poderemo5 repor energ14 por algun5 d145. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Por um quarto de noite, apenas – disse ela – Não temos tempo, Zero. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Ma5 voc3 precisa de5can5ar, Dr1! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Alex também precisa, mas a doença não permitiu ainda. Ele já sofre há três anos, nossa viagem não é nada comparada à dele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zero ia rebater, mas desistiu. Adriana podia ser muito teimosa, e no que se referia à Alex, ainda mais. Zero estava presente – sempre esteve presente – quando ela fugiu das restrições dos pais e, secretamente, jurou no templo de Zem que iniciaria e completaria a viagem. Estava muito preocupado com a saúde da dona, não acostumada com provações desse tipo, mas ele mesmo tinha seus próprios juramentos a cumprir. Pensou em Ae, e orou por proteção. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Algum4s h0ras, ent40. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atracaram na ilha da esquerda, como Quinan havia dito que fizera com Vinícius. Ali havia frutas e nozes, com as quais Adriana encheu os compartimentos de comida do barco, e uns poucos peixes, que ela comeu ali mesmo. Luiz descrevia sua rota ziguezagueante no céu, às vezes eclipsando uma outra lua, às vezes sendo eclipsado, parecendo que se chocaria com algum dos outros satélites. Dizem que, apesar de ser tão grande quanto Lucas ou Fabiano, sua densidade era bastante inferior, o que fazia com sua órbita sofresse influência gravitacional das demais luas, tornando-a bastante irregular. Ficaria no céu por mais dois ou três dias, e manteria as tempestades longe enquanto brilhasse. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Consertaram o barco e Adriana finalmente poliu Zero, pois já não suportava mais aquela ferrugem laranja. Removeu a casca irregular com uma pedra-lixa e lustrou a superfície do flutuang o melhor que pôde. Ainda não pôde produzir o brilho azulado de que tanto gostava, mas a aparência ficara exponencialmente melhor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zarparam pouco antes do fim do terceiro quarto da noite, tendo descansado apenas por cinco horas e meia. Apesar das nuvens, podia-se ver que o grande Heitor se punha, afugentado pelo nascimento de uma pequena lua azul, no outro horizonte. Saudaram Davi, sinal de boa sorte. Havia poucas luas no céu – cento e três, segundo Zero – e não eram luas muito brilhantes. Uma noite escura. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Navegaram. As horas passaram por eles como passavam as águas do mar. Em certo momento, perto da aurora, uma leve cerração elevou-se das águas, uma neblina fria que mergulhou a noite zeman numa escuridão pouco habitual. Mesmo os olhos de Zero não podiam ver mais do que vinte tésari de distância, e então navegaram com calma. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriana tentava ler o céu, quando um vulto se ergueu nas neblinas. Um vulto esguio, serpentino, que se elevou do mar, há muitos tésari de altura acima da vela principal. Nesse momento a aurora manchava o céu, a luz entrava na noite, e por um breve momento, o jogo de luz e sombras e o cansaço enganaram a mente de Adriana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Lum...? – sussurrou, admirada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um rugido agudo preencheu os ares. A claridade aumentava, e Zero emitiu o sinal de perigo pouco antes de sussurrar desesperado na mente de Adriana: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ S1der-serpent3! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os olhos zemani se arregalaram, a adrenalina elevou-se em seu sangue. Zero correu a desligar os motores, e ela correu a dobrar as velas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um outro rugido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O sol nascia, mas a neblina ainda podia escondê-los, rezava Adriana. O vulto deslocou-se no mar, e teria passado por eles, e os teria ignorado, se o vento não dissipasse o que restava da cerração. Eles viram a sider-serpente, e ela os viu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O corpo era de um cinza escuro, ainda assim brilhante no sol da manhã, com escamas finíssimas de mono-ferro. Emergia da superfície do mar superior, vindo das profundezas do oceano vermelho mais abaixo, e se elevava na direção ao céu. Seus olhos brilhavam como estrelas, e a carne metálica refulgiu nos primeiros raios do sol, cegando Adriana por um breve momento. Zero ainda olhava para cima quando a cabeça crocodiliana avançou, a boca aberta, os dentes de metal à mostra. Puxou a dona com toda a força de seu tentapode e se jogaram no mar. O som do impacto os seguiu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriana caiu desajeitada nas águas transparentes, sendo empurrada pela onda que se formou quando a sider-serpente atacou. Nadou desesperada para voltar à superfície, pensando em sua vida, em Zero, no barco e em Alex. Emergiu junto com destroços da embarcação, seguida por grandes bolhas, pedaços de corda e cápsulas de proteína. Agarrou-se à retranca, que boiava próxima, e procurou desesperada pelo simbionte robótico. Não ousou gritar, mas seus pensamentos equivaliam a um, berrando o nome de Zero em sinais psico-cibernéticos. Havia névoa, e agora apenas o som de ondas e bolhas enchia o ar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O flutuang pairava há alguns tésari, pouco acima da superfície do mar, fazendo força para se manter longe da água. Exauria suas reservas de energia para se manter flutuando – não fora projetado para atravessar líquidos – e logo cairia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriana nadou veloz até onde ele estava, e se sua mochila não tivesse emergido naquele exato momento, sua viagem teria terminado ali. Com sua cauda ela a pescou e arrancou de lá o macacão de poli-tecido, e com ele fez uma bolsa impermeável para o flutuang; meteu-o lá dentro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A conversa a seguir se deu em seus pensamentos: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;_ E agora, Zero, e agora? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ T3mos que encontr4r o recife onde a serp3n73 vive – respondeu ele – Voc3 4inda tem a c4psul4 de mili-r0bôs barque1ros? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Sim, tenho sim, claro! Mas, e se ela voltar, que faremos? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ V0cê sab3, sid3r-serpent3s se alim3n7am de rochas ferru9inosas, não de c4rn3. El4 só queria o barc0. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Sim, eu sei, eu sei. Esses bichos colecionam metal em seus ninhos. Mas, não há nenhuma chance dela voltar? Nenhuma? E se... – Adriana hesitou antes de completar o pensamento – e se ela voltar pra te levar? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Qu3 Lum, Z3m, Ur e Ae nos pr0tejam, Dr1. &lt;/i&gt;&lt;br /&gt;Avançaram como puderam pela névoa, Adriana usando suas caudas e pernas para nadar, enquanto se mantinha firme à Zero, à mochila e à retranca de penta-alumínio. Os minutos que passaram nadando, temendo que a sider-serpente retornasse, custaram a passar, quando finalmente Zero captou o som de ondas se chocando contra pedras. A neblina baixava à medida que o sol subia, e logo puderam ver os recifes de pedra vermelha escura, não tão distantes. Para não serem arremessados contra elas, Adriana meteu a mão no bolso de seu cinto, retirou a cápsula de mili-robôs, e a arremessou sobre o recife, gritando o comando de ativação. A nuvem granuliforme logo surgiu, cavando e trabalhando as pedras de mono-ferro. Logo uma réplica do barco anterior se ergueu, embora lhe faltasse o motor e o eletro-ímã ancorador, e seus mastros não tivessem vela alguma. E então a nuvem de robôs, ao invés de retornar para a cápsula, se dispersou, tornando-se estática, morta, e finalmente afundou no mar. O barco escorregou por sobre as pedras e caiu no água, mergulhando bastante o casco. Por um segundo pareceu que ia afundar, mas então o empuxo o sustentou. Adriana largou a retranca, nadou com Zero até a embarcação e a escalou. A neblina se dispersara, eram alvos fáceis caso a sider-serpente voltasse à superfície. Ela tirou uma faca elétrica da mochila e algumas cordas, e com o macacão confeccionou velas toscas. Zero a ajudou a amarrá-las nos mastros, e quando o vento soprou, viram com alegria que suportavam sua força. Deixaram aquelas águas, e a serpente não os incomodou mais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O novo barco navegava devagar, quase se arrastava em comparação ao anterior. O mono-ferro era muito mais denso que o penta-alumínio, e a falta do motor retardava ainda mais a urgente viagem. Ainda assim, o encontro com a sider-serpente pôde ser considerado apenas um susto. Havia várias histórias de naufrágios terríveis causados pelas criaturas amantes de metal, que tragavam navios inteiros para o fundo do mar, juntamente com seus tripulantes. Sua carne metálica as tornavam bastante resistentes aos rifles e aos arpões, um perigo dos altos mares. Navegavam devagar, mas pelo menos ainda navegavam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais dias passaram, e agora viam grandes montanhas de gelo boiando nas superfícies dos mares, os chamados criori, que nasciam desde muito abaixo do mar inferior até muito acima do superior. O ar tornou-se frio, fazendo a respiração de Adriana nublar. Passou frio e passou fome, quando as cápsulas de proteínas, as poucas que mantinha na mochila, acabaram. Os dias agora eram uma sucessão de nasceres do sol, cada vez mais longos, cada vez mais frios. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na tarde do décimo sexto dia de viagem no barco de mono-ferro, o quarto dia sem comida, Zero avistou terra. Uma terra de florestas altas, campos largos e praias pardas, uma terra que se estendia no horizonte, muito mais larga que qualquer ilha. Quando atracaram, ambos souberam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;________________________&lt;br /&gt;Imagem alterada do autor &lt;a href="http://no-nox.deviantart.com/art/Big-Thunder-Mountain-158720601?q=boost%3Apopular+in%3Adigitalart+thunder&amp;amp;qo=78"&gt;no-nox&lt;/a&gt;, no Deviantart&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2502613120236415342-4997897393156243376?l=eisoptron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/4997897393156243376/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-iii.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/4997897393156243376'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/4997897393156243376'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-iii.html' title='[Conto] As Luas de Zemi (parte III)'/><author><name>DanielFolador</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12052168755551551359</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sn2PcB1vKeI/AAAAAAAAAC8/_lEL3rRf5GY/S220/P1170002.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TM9uvbXoi4I/AAAAAAAAAN8/gKa1yCqs3Ow/s72-c/Namiishi.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342.post-2282880276014652302</id><published>2010-10-15T15:52:00.000-07:00</published><updated>2010-11-01T17:57:07.764-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Artigos'/><title type='text'>Condenando releituras</title><content type='html'>&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt; &lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/10/postagem-especial.html"&gt;← Postagem anterior&lt;/a&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-iii.html"&gt;Próxima postagem →&lt;/a&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; font-family: Verdana,sans-serif; text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TLjNrfApMDI/AAAAAAAAAN0/ib2hVhzc_Yo/s1600/zumbis.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="400" src="http://4.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TLjNrfApMDI/AAAAAAAAAN0/ib2hVhzc_Yo/s400/zumbis.jpg" width="266" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Bem, eu postaria a terceira parte do conto &lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/09/conto-as-luas-de-zemi-parte-i.html"&gt;As Luas de Zemi&lt;/a&gt;, mas um artigo da revista Época online me incomodou tanto que resolvi escrever o meu próprio a respeito. Trata-se das releituras de clássicos (tais quais os gêneros da Ficção Alternativa e Mashups), que se tornaram tão comuns depois do sucesso de Orgulho, Preconceito e Zumbis (foto acima), releitura do clássico de Jane Austen, Orgulho e Preconceito.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Discordo sobremaneira do artigo &lt;a href="http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI177254-15230,00-PRAGA+DE+LETRAS.html"&gt;Praga de Letras&lt;/a&gt;, de Luís Antônio Giron. Nele, o autor crucifica quatro autores brasileiros que aderiram à onda, ao (re)lançarem clássicos brasileiros permeados de temas da cultura pop, como vampiros, mutantes e extra-terrestres. E assim, comete o grande equívoco de seu argumento: passa a criticar as obras e a comparar sua qualidade com a dos originais. Giron confunde obra e gênero, acaba condenando toda a Ficção Alternativa e os Mashups por causa de obras - segundo ele - sem qualidade.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Arte vem do latim &lt;i&gt;Ars&lt;/i&gt;, "técnica", "habilidade em determidado trabalho" (tradução livre &lt;a href="http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus%3Atext%3A1999.04.0060%3Aentry%3Dars&amp;amp;highlight=art"&gt;daqui&lt;/a&gt;). Arte é técnica, não tema. Releituras sempre existiram, e nem por isso são menos do que os trabalhos em que foram baseados. Ora, Romeu e Julieta é a mesma história de Píramo e Tisbe, e eu poderia citar tantas mais. O fato de ser uma releitura não desmerece a obra, somente a obra em si pode fazê-lo. O que Giron faz é criticar os quatro livros, e nada mais.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Em determinado momento, o autor se pergunta: &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;ul&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;i&gt;"Será que algum professor vai se levantar para protestar contra essas  barbaridades? Eu gostaria de que a Academia Brasileira de Letras se  manifestasse oficialmente contra esses crimes lesa-arte."&lt;/i&gt;&lt;/span&gt; &lt;/ul&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Até entendo a sua postura. Incomoda ver uma obra de arte da qual muito se gosta ser alterada. Se a alteração não mantiver a qualidade, tanto pior. Mas, ainda assim, defendo com vigor a liberdade da Arte e dos Artistas de falarem sobre o que bem quiserem. Imagine se Romeu e Julieta tivesse sido proibido...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;_____________________________________________________________&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Uma observação: liberdade artística, sim, desde que não se ataquem os direitos autorais - nenhuma das obras supracitadas o faz.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Para saber mais sobre releituras, Ficção Alternativa e Mash-ups, leia o artigo da &lt;a href="http://fceafins.aolimiar.com.br/"&gt;Ana Cristina&lt;/a&gt;.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2502613120236415342-2282880276014652302?l=eisoptron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/2282880276014652302/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/10/condenando-releituras.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/2282880276014652302'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/2282880276014652302'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/10/condenando-releituras.html' title='Condenando releituras'/><author><name>DanielFolador</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12052168755551551359</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sn2PcB1vKeI/AAAAAAAAAC8/_lEL3rRf5GY/S220/P1170002.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TLjNrfApMDI/AAAAAAAAAN0/ib2hVhzc_Yo/s72-c/zumbis.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342.post-71637323169095806</id><published>2010-10-05T20:00:00.000-07:00</published><updated>2010-10-15T16:15:08.738-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Artigos'/><title type='text'>Postagem especial</title><content type='html'>&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt; &lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/09/conto-as-luas-de-zemi-parte-2.html"&gt;← Postagem anterior&lt;/a&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/10/condenando-releituras.html"&gt;Próxima postagem →&lt;/a&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: small;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Bem, tenho um comunicado a fazer. Recebi esse email de uma leitora e, bem, digamos que uma lâmpada do meu quarto resolveu queimar logo depois que li. EXATAMENTE quando terminei de ler.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: small;"&gt;Não tive como não postar isso aqui. Tirem suas conclusões:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: small;"&gt;_____________________________________________________________________&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;“Olá,&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt; Meu nome é Bruna e tenho dezesseis anos. Gosto de trocar mensagens, conhecer pessoas pela Internet e adorei seu blog. Por isso, escolhi você para ser meu novo amigo. Eu acredito que vamos nos dar muito bem. E para isso acontecer, poste esse email no seu blog. Torça para ter sete comentários, ou então você terá MUITO azar.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt; Se não postar? Vai ser muito pior. Mas você não faria isso.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt; Você não recusaria o pedido de uma morta, né?”&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;i&gt; &lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;_____________________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Não sou nenhum idiota. Depois de ver o vídeo, vão entender. E POR FAVOR, COMENTEM!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;object height="420" width="510"&gt;&lt;param name="trailer_fiat2" value="http://www.youtube.com/v/KMH55anGw_g"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="wmode" value="transparent"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/Q-nqzPihkMI" type="application/x-shockwave-flash" wmode="transparent" width="510" height="420"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="color: black;"&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2502613120236415342-71637323169095806?l=eisoptron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/71637323169095806/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/10/postagem-especial.html#comment-form' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/71637323169095806'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/71637323169095806'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/10/postagem-especial.html' title='Postagem especial'/><author><name>DanielFolador</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12052168755551551359</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sn2PcB1vKeI/AAAAAAAAAC8/_lEL3rRf5GY/S220/P1170002.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342.post-1179774426228757682</id><published>2010-09-14T20:20:00.000-07:00</published><updated>2010-12-19T08:39:00.427-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Universo: Zemi'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos Reunidos'/><title type='text'>[Conto] As Luas de Zemi (parte II)</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/09/conto-as-luas-de-zemi-parte-i.html"&gt;← Postagem anterior&lt;/a&gt; &lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/10/postagem-especial.html"&gt;Próxima postagem →&lt;/a&gt;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: 11pt; text-align: justify;"&gt;A segunda parte do conto presente para &lt;a href="http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=16850118372008154239"&gt;Strix&lt;/a&gt;, onde deveriam aparecer os nomes dos membros da comunidade &lt;a href="http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=946312"&gt;Escritores de Fantasia e FC&lt;/a&gt;. Espero que gostem o/&lt;br /&gt;&lt;ul&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/09/conto-as-luas-de-zemi-parte-i.html"&gt;Parte I - Nas magens de sal&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/09/conto-as-luas-de-zemi-parte-2.html"&gt;Parte II - A floresta de água&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-iii.html"&gt;Parte III - O totem para Lum&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-iv.html"&gt;Parte IV - O Pólo&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-v.html"&gt;Parte V - A biblioteca de Ushan&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-vi.html"&gt;Parte VI - A fúria de Rafael&amp;nbsp;&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/12/conto-as-luas-de-zemi-parte-vii.html"&gt;Parte VII - Alex &lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;/div&gt;_________________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; font-family: Verdana,sans-serif; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TJA7aul95KI/AAAAAAAAANg/8ee4MoThcGw/s1600/blue_forest031.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="300" src="http://2.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TJA7aul95KI/AAAAAAAAANg/8ee4MoThcGw/s400/blue_forest031.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: 11pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;2. A floresta de água &lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O planeta Zemi possui a extraordinária quantia de mil luas, de tamanhos, cores e órbitas variadas, todas batizadas com o nome de um proeminente personagem da história zeman. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Douglas, a lua dourada, foi um grande cientista do século passado, inventor da tecnologia da luz lunar. Seus estudos permitiram a evolução dos flutuanghi, quando se gastava muito com suas baterias pouco eficientes, e elevou o padrão de vida zeman. O motor de Adriana usava a mesma tecnologia, absorvendo energia da luz da lua dourada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vinícius, a pequena lua púrpura, foi o rei-imperador que uma vez unificou as duzentas nações, e desenvolveu a arte, a ciência, a filosofia e a astronomia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Felipe, a meia-lua cinzenta, foi o patriarca da nação Villa, quase mil anos atrás. E havia muitas e muitas outras. O céu da noite zeman nunca possuía menos de uma centena de luas, e havia dias, embora raros, em que metade do seu total ocupava o céu. As luas tinham um papel muito importante no planeta, afetando o clima, as marés e – no raro caso de Heitor – mesmo a tectonia zeman. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lucas, a lua verde, finalmente atingiu o zênite, trazendo vento fresco. Uma onda passou gentilmente pelo fundo da embarcação, espirrando um pouco da água transparente do oceano superior de Zemi. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriana fixou o olhar em Rita e Maria. Dirigiam-se para nordeste, para onde Zero avistara a ilha, e de lá descobririam a melhor rota para o próximo passo. Não era a melhor maneira de se navegar, mas era a mais segura. Checou com Zero a previsão do tempo para as próximas horas, e a única ressalva era encontrarem terra firme antes do último quarto da noite, quando a fase crescente de Rafael nasceria. E então, Adriana não queria estar nem perto do mar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O oceano inferior ondulava devagar, com suas águas rubras, quase dez tésari abaixo do primeiro. A diferença de densidade impedia que ambos os oceanos se misturassem, havendo um mar superior, límpido e transparente, e um mar inferior, de águas vermelhas, onde a verdadeira vida marinha se encontrava. Às vezes o dorso de um cetáceo podia ser visto na superfície escarlate, mais abaixo, ou pelo menos Adriana rezava para que fosse um cetáceo. A voz metálica de zero – monstr0s terr1v3is­ – ainda ecoava em sua mente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi quando o barco deu uma guinada para a direita. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriana correu para o leme do motor e puxou, mas o barco não obedeceu. Foram pegos por uma corrente marinha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Zero! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O flutuang captou sua linha de pensamento, enrolou rapidamente seu tentapode no cabo do leme e ajudou a puxar, mas a corrente era muito poderosa. Adriana viu, nervosa, quando a ilha passou por eles, como o casco de uma tartaruga gigante, fugindo, ficando para trás. E quase foi arremessada para o mar quando a corrente mudou de direção, e então Zero levantou o leme da água. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ É inút1l, v4mos quebr4-l0 se con7inuarmo5 – disse. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O barco parou de balançar quando ele fez isso, e Adriana sentou-se, exausta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Mas, e a ilha Zero? Para onde vamos agora? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram arrastados para o norte. O flutuang elevou-se no ar um tésar de altura e observou em volta. Em todo o horizonte atrás havia a linha branca do Recife; à esquerda deles e longe, a ilha; e na direção que tomavam, nada visível. Enviou o que via para a mente de Adriana. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Nad4 num r410 de dez kil0-tés4ri – disse ele – Poder3mos util1z4r os vento5. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Você acha que ele nos tiraria da corrente? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ P0uco pr0vável – computou – Mas no55a al7ernat1va é esper4r... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Entendi. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desdobraram as velas vermelhas – a cor de Villa – e uma lufada de ar inclinou o barco levemente. Agora se dirigiam um pouco mais para noroeste, mais precisamente a 35,1º à esquerda do Pólo – informou Zero. Adriana manobrava as velas, tentando não se manter muito longe da direção correta, enquanto o flutuang checava, a cada cinco minutos, a existência de ilhas. Encontrou algumas, mas foram incapazes de sair da corrente, e as viram ficar para trás. Já passava da metade do segundo quarto da noite, quando Zero transmitiu uma imagem curiosa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algo elevava-se acima da superfície do oceano superior, algo que cintilava na luz das luas. Uma análise mais minuciosa revelou serem vários corpos translúcidos, robustos como o tronco de uma árvore, com galhos que dançavam no ar em ritmos próprios. Eram membros tentaculóides, que ondulavam desde a base até a extremidade, variando de cores do azul ao violeta, nunca estáticos. Anêmonas. Zero transmitiu a informação para a mente de Adriana tão logo chegou a tal conclusão. O que viam era um pequeno bosque de anêmonas, árvores de água da superfície do mar. Fixavam seus troncos sobre colchões de bulbos de ar, que as mantinham flutuando enquanto suas raízes desciam fundo nas sombras vermelhas do mar inferior. Havia ainda um enxame de lucíolos sobre as copas, insetos luminescentes que indicavam haver vida sob os galhos translúcidos. Quando a floresta se tornou visível para o olho nu de Adriana, a corrente diminuiu, e desapareceu. Estavam livres para navegar novamente, mas não havia nada mais à vista. Até as grandes falésias do Recife se tornaram apenas uma pálida linha no horizonte atrás. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lucas eclipsou parte de Douglas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desceram e ligaram o motor. Estavam há menos de seis tésari da floresta quando Adriana o desligou e deixou o barco deslizar. As anêmonas eram maiores do que imaginava. Já lera muito sobre elas, mas era a primeira vez que via as árvores de água ao vivo. Os bulbos de ar da base eram quase do tamanho de seu barco, como imensas rochas, e – embora houvessem anêmonas de variados tamanhos – o tronco de muitas delas exigiria cinco ou seis zemani para abraçá-lo completamente. Os galhos-tentáculos estavam muito acima de sua cabeça, irradiando do tronco azulado, e por toda parte haviam lucíolos, que fosforesciam nas sombras como poeira brilhante. O aglomerado não era intransponível, absolutamente: havia várias trilhas de água por entre os troncos e bulbos. Pequenos crustáceos vírides habitavam sobre os bulbos, mas sob seu próprio risco: Adriana sabia que as raízes das Anêmonas buscavam peixes lá embaixo, e não se importariam de almoçar uma pequena cloro-lagosta para variar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ E então?... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ A corr3nte p4rec3 se dis5ipar ness4 re9ião, Dr1. É mu1to provav3l que por tod4 a fl0r3st4 não haja corren7e, ou entã0 nem m3smo haver1a uma flor3sta. Pod3rem0s usá-l4 como um p0nto neutr0, e checar a 3xistênc1a de ilhas de suas fr0nt31ras. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Certo, façamos isso. Algum risco? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Pequenos p31xes e crustác30s p0dem v1ver sob um4 flor3st4 de água, p0uc0 m41s que isso. Apena5 não toqu3 n05 galh0s-tent4cul0s: pod3m queim4r sua pele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Entendido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zero embrulhou as velas com seu tentapode, enquanto Adriana remava vagarosamente por entre os bulbos de ar. Era escuro dentro da floresta, apesar das copas translúcidas. Havia anêmonas pequenas sobre os grande bulbos, menores que Adriana, que balançavam seus galhos humildemente para cima. Os galhos servem para absorver nitrogênio do atmosfera, e se agitam para fazer correr o ar quando o vento é pouco. A zeman acariciou algumas com seu remo – eram pegajosos. Zero flutuava sobre os bulbos para encontrar trilhas, guiando Adriana. Logo a floresta ficou tão densa que as luas por trás das copas eram leves borrões coloridos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zero flutuou para longe do barco novamente, mas dessa vez demorou a voltar. Adriana recebeu seu sinal de alerta antes mesmo que ele retornasse. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Zero, que houve? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Há s3r3s na fl0resta! – sibilou ele, puxando ela para que se abaixasse. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esperaram alguns segundos, quando ouviram o barulho de algo grande – grande! – se arrastando pelos bulbos. Adriana abraçou Zero, que chiava preocupado, ela mesma fazendo esforço para manter a respiração calma. Então, o tronco das anêmonas mais próximas vergaram – e elas eram imensas! – dando passagem a uma assombrosa criatura. Um longo rabo, largo como o tronco de uma anêmona, se estendia do corpo até muito atrás, se perdendo entre bulbos de ar e arbustos de água. Sustentava uma carapaça irregular, de sob a qual nasciam vários membros tentaculiformes. Tudo translúcido como água. Da carapaça nasciam seis tentáculos finos, que possuíam cada qual uma esfera negra na ponta, muito similares a olhos. Eram seguidos por quatro grandes garras crustáceas, duas de cada lado, igualmente translúcidas mas perigosamente sólidas. Balançavam no ar, recolhidas. A criatura lembrava uma lagosta distorcida pela imaginação de um contador de histórias, e ainda lembrava uma água-viva com garras. Seus órgãos pulsavam dentro de seu corpo transparente; via-se seu coração e seus vasos sanguíneos, e muitos de seus órgãos vitais, azuis ou sem cor, flutuando imersos em seu interior gelatinoso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os olhos rastrearam a região ao redor e se fixarem no barco de penta-alumínio. Avistaram Adriana, e houve um momento de tensão quando ele avançou um ou dois tésari. Suas garras eram do tamanho do barco, reparou a zeman. E ele rugiu devagar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriana ergueu assustada um rifle securiano. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Não se a aproxime! – gritou, enquanto abraçava Zero com força. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A criatura rugiu de novo, e dessa vez, ela pode perceber, o som formava sílabas. Um terceiro rugido, e finalmente pôde ouvir: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ S-e-t-t-a-i. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ O quê? – exclamou, intrigada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Settai – rugiu ele, pela quarta vez. Não era na verdade um rugido, mas uma voz demasiadamente rouca e arrastada, que lembrava uma onda se chocando contra as pedras do litoral. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Ele diz "bem vinda" – disse uma voz muito mais articulada, apesar do sotaque estranho, que usava o dialeto da nação Vianco. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Quem, quem está aí? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surgiu então uma outra criatura, descendo pelo tronco de uma das grandes anêmonas.  Tinha uma carapaça oval e achatada, da metade do tamanho do barco de Adriana, do qual nasciam seis garras de crustáceo de pouco mais de um tésar de comprimento. Na parte da frente, dois pequenos olhos negros. O corpo era rajado com diferentes tons de azul e também era translúcido. Também viam-se seus órgãos, mas, diferente da primeira criatura, seus vasos sanguíneos eram de um vermelho vivo, que se destacava do resto azulado do corpo. As garras beliscavam o tronco gelatinoso da anêmona conforme andava, o que o permitia que escalasse a árvore sem grande dificuldade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois animais eram muito diferentes, e ainda assim, muito parecidos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Ele diz "bem-vinda", não em sua língua, mas na nossa. Nakamura-sama não fala sua língua, mas Quinan-san sim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Quinan-san é o seu nome? – perguntou Adriana, abaixando a arma mas mantendo a posição defensiva. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Sim. Já fui outros, em outras épocas, mas hoje sou Quinan-san; amigos me chamam Quinan. Este é Nakamura-sama – disse, apontando para a grande lagosta-água-viva – Habitamos esta floresta, que chamamos de Uekigahara. Tu és moji? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Moji? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Moji, o povo de outros mares. Assim que nosso povo os chama. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Seu povo? O que vocês são? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quinan calou-se por um tempo. Andou alguns passos para baixo e repousou sobre os bulbos de ar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Houve um moji que foi parar em Namiishi, a ilha de pedra – disse ele – não muito longe daqui. Estava sozinho. Ofertou seu sangue aos deuses de aço e luz dos moji, mas não recebeu ajuda. Eu cheguei. Era um moji homem, de cabelos preto-azuis como os seus, mas curtos como os olhos de Quinan. Vestia um manto púrpura e uma lança bonita, e me ameaçou como tu me ameaças agora. Ele estava com fome e perdido. Cacei peixes para ele e ele me ensinou sua língua, a primeira vez que aprendi a língua moji. Houve outras vezes, é verdade, e cada vez a língua estava diferente, mas a memória de Quinan é boa. A língua moji muda muito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Quinan lhe trouxe comida mas exigiu pagamento, na nossa moeda. O moji então lhe contou sua história, de todos os moji que vieram com ele, e que agora era só ele. Gostei da história. Fomos amigos. Ajudei a construir seu barco, mas o moji não queria voltar para a terra dos moji, não, ele queria ir para frente. Para a terra do meio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fez uma pausa, como se lembrasse de algo que aconteceu há muito tempo atrás, ou como se procurasse com quais palavras continuaria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Quinan conhece os mares daqui como conhece as luas do céu – continuou – era jovem e ajudou o moji a navegar. Houve grandes ondas, fortes ventos, e quando o gelo caiu do céu, Quinan achou que o moji morreria. Mas chegaram em segurança na terra do meio. E foi assim que e os dois voltaram de lá diferentes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantou-se do bulbo de ar e deu a história por encerrada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Terra do meio? – perguntou Adriana, temporariamente esquecida da situação atual, cercada por duas criaturas perigosas em uma floresta estranha. Quinan não pareceu ouvir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Bonito amigo que a moji tem no braço. É seu? – a criatura tentou se aproximar alguns passos, mas Adriana ergueu seu rifle e ele parou. Nakamura também recuou um pouco, e Adriana se sentiu aliviada por descobrir que eles a temiam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Sim, é meu. Eu o chamo de Zero – e uma esperança se abriu na mente dela – Você poderia me responder, senhor Quinan, onde fica essa terra do meio? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Que terra do meio? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ A da história. Onde fica? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Que história? A moji fala engraçado, você tem o sotaque do povo de Villa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Villa? Você conhece Villa? Já atravessou o Recife então! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Foi numa noite de Lucas também, como hoje. A lua verde brilhava nas ondas do mar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ A noite em que esteve em Villa? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ A noite em que cheguei à terra do meio. O moji estava exausto, e Quinan também, mas eram amigos e continuaram em frente. Quinan seguiu o moji para onde ele queria ir, porque ele contou histórias incríveis sobre a terra do meio. Eu devia o moji pelas histórias, e o segui até o fim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nakamura falou alguma coisa na língua deles, mas Quinan retrucou na língua de Adriana. Depois voltou-se para ela e disse algo em sua própria língua, que ela não entendeu, e se calou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela estava se cansando dessa conversa sem sentido, mas tinha ainda que perguntar algo, uma coisa que havia tocado fundo suas esperanças. Sabia-se por lendas que era no meio do Mar Interno, o mar limitado pelo Recife de Sal, onde ficava a maravilhosa terra do Pólo. Então tinha que perguntar: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Essa terra do meio é o Pólo do planeta? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas Quinan não respondeu. Ao invés disso, começou um diálogo com Nakamura em sua própria língua. Ela perguntou novamente, mas os dois a ignoraram. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ A memória de Quinan-sama é como um ninho de sider-serpente: você pode encontrar coisas incríveis lá, mas nunca o que você procura. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A nova voz vinha de trás de um bulbo de ar, e dali veio nadando uma outra criatura como eles, mas de novo, diferente. Era maior que Quinan, grande como o barco, e também translúcido como uma água-viva. Tinha um casco redondo, como uma carapaça, de sob a qual nasciam seis tentáculos finos e inquietos, e uma cabeça escura, de onde brotavam duas antenas igualmente escuras. Poderia haver olhos ali, mas era impossível distinguir o rosto. E estava perto demais para deixar Adriana tranqüila. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Afaste-se! – gritou ela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A nova criatura nadou ao redor do barco, deixando a zeman perigosamente encurralada entre os três. Nadou e se aproximou mais, erguendo-se da superfície da água. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Eu ser Mushi-san – disse ele, com o mesmo sotaque de Quinan, mas sem a mesma habilidade na língua – Nós três habitar essa floresta. Quinan-sama já habitava aqui antes de Nakamura e mim, e mesmo naquela época ele já ser louco. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Mushi-kun! – gritou Quinan, de repente – Conversávamos aqui, Nakamura e eu, e ele não concorda comigo. Quantas luas você acha que tem no céu de Zemi? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Sen – disse Mushi-san, sem nem pensar duas vezes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Kure-ji, kure-ji! Você está louco! – respondeu Quinan – Louco. Não ouça Mushi-kun, moji-chan, ele está mais cego que um tubarão-morcego. Eu estou dizendo, filha, existem mil e uma luas, não apenas mil. Você pode me dizer que, se vigiarmos os céus por todo o ano e contarmos as luas todas as noites, contaremos mil luas. É o que todos dizem. Mas, é claro, a milésima primeira lua não brilha e é da cor do céu, e por isso ninguém pode vê-la. O que não quer dizer que não esteja lá, em todas as noites de inverno, escondida. Mas só no inverno. Acho que ela não gosta das outras estações, ou, talvez goste do frio. Ah, quem sabe – e ele passou a sussurrar, como se fosse contar um segredo – não é ela quem traz o inverno? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E rodou sobre si mesmo e voltou-se para Kamagura, com quem recomeçou seu diálogo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mushi deu uma gargalhada, que lembrava o grito das gaivotas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Ah! Eu não disse? – falou – O velho Quinan-sama é louco, e muitas coisas que ele dizer são loucuras – e riu de novo, não um riso de deboche, mais um riso de contentamento – Eu gostar de Quinan-sama. Ele falar muitas loucuras, mas há coisas que ele saber – e coisas improváveis, moji-chan – que vão te deixar admirada. Foi ele quem me ensinou sua língua, e me ensinou a história de muitas luas, e sobre a terra dos moji. Tu ser a primeira moji que eu ver, não existem muitos de vocês desse lado do recife. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ O que... o que vocês são? – perguntou por fim a zeman. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Somos mukai – respondeu Mushi-san – o povo dos mares. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriana já lera algo sobre eles, uma das poucas raças racionais de Zemi, mas nada realmente relevante lhe veio à memória. Em outras palavras, não se lembrava se eram perigosos. Precisava ganhar tempo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Se todos vocês são mukai, porque são tão diferentes? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Essa ser a essência dos mukai – disse Mushi-san – Somos filhos do Mar e do Caos, nossos deuses. Cada mukai ser único, e ainda assim somos semelhantes. E vocês moji? Quais ser seus deuses? Diga, como ser a terra dos moji? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Os muk4i sã0 cel3n7erados rac10nais de 4natom1a var1ável que hab1tam os mar3s. Po5suem linguagem e cultura pr0pr1as, se al1mentam de 4lg4s e inseto5 do mar e vivem c3rc4 de tr1nta e qu4tro an0s" – ecoou a voz de Zero na mente de Adriana, através da ligação psico-cibernética que havia entre os dois. A zeman respirou aliviada, não eram carnívoros, mas embora as criaturas não representassem perigo imediato, ainda assim o tamanho de Nakamura a intimidava. Abaixou a arma, mas não a desarmou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Eu me chamo Adriana, e esse é Zero – disse, soltando o flutuang de seu braço – Que as luas brilhem sobre nosso encontro. Nossos deuses são Ae, o deus de ferro; Ur, o deus-céu, pai das luas e das estrelas; Lum, a deusa-serpente, mãe da eletricidade; e Zem, o progresso, nosso pai. Nossa terra está há dias de caminhada e navegação daqui, do outro lado do Recife de Sal, muito, muito longe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Bem... – continuou ela – Respondi a sua pergunta, Mushi-san, então por favor responda a minha: a terra do meio, o lugar que Quinan já visitou, é o Pólo do planeta? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Ele falar que sim – disse – mas eu duvidar, moji-chan. Oque suas histórias ter de fantásticas, ter de improváveis. Um mukai vê no máximo quarenta passagens de ano, mas ele afirma ter visto mais de uma centena. Não dê ouvidos a tudo o que ele falar. Quinan-sama é louco. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Tão louco quanto a órbita de Luiz, e que ainda assim traz bom tempo – Quinan emergiu de repente de seu diálogo com Nakamura, inesperadamente lúcido – O velho Quinan já encontrou muitos moji que tentaram ir para a terra do meio, mas nenhum deles ouviu Quinan. As correntes daqui são traiçoeiras, te prendem com garras de pedra e te fazem dançar para onde elas quiserem. Apenas o moji do manto púrpura, o primeiro amigo de Quinan, confiou nele, e ambos chegaram ao Pólo – concluiu, pinçando um lucíolo em pleno ar e levando-o à boca. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ O Pólo? Então, você conhece o caminho? – perguntou a menina. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Para onde? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Para o Pólo! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Isso depende...  – Quinan cruzou as garras, e franziu as sobrancelhas, como se pensasse – Você diz, o caminho para chegar lá? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ E por acaso existe outro? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Existem muitos caminhos, e todos levam para algum lugar. Bem, alguns te levam para o fundo do mar, é verdade, mas esses com certeza moji-chan não gostaria de conhecer, não é verdade? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parecia que a conversa não levaria a lugar nenhum, mas Adriana precisava extrair aquela informação do mukai. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ É claro – resolveu respondeu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Bem, existe o caminho que rodeia essa floresta e retorna ao Recife de Sal, existe o caminho que leva para a ilha submersa, e um muito parecido que leva para recifes perigosos. Existe um caminho que leva para a ilha Namiryu, e um que leva para Kasaishima. Um que visita duas grandes florestas de água de nomes há muito esquecidos, e um que termina no Mar Calmo, de onde é impossível navegar de volta. Existe o caminho que passa por monstros perigosos, mas esse Quinan nunca trilhou. Existe uma dúzia que não levam a lugar nenhum, e uma dezena que leva para muito, muito longe, onde Quinan nunca foi. Ainda, existem uns muitos que o deixam livre para navegar, e, por fim, existe um ou dois que levam para a Terra do Meio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Esses! Você os conhece? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, ao invés de responder, Quinan começou a cantarolar uma música baixinho, em sua própria língua, voltou-se para o lado, como se Adriana nem estivesse ali, e começou a caminhar em círculos e cantar mais alto, balançando suas garras. Nakurama-sama balançou e emitiu um som forte, que fez vibrar as anêmonas ao redor; a sua versão de uma risada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mushi-san se aproximou mais, ondulando seus tentáculos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Como eu dizer, moji-chan, nunca achar o que se procura. Mas, por que você quer ir tanto para a terra do meio? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rosto de Adriana tornou-se sombrio como uma noite de apenas cem luas. Por quê? Por que ela desejava ir tanto para o Pólo? A resposta morreu em sua garganta antes mesmo de pensar em dizê-la. Não queria dizer que era sua única alternativa, depois de ter tentado exaustivamente tantas outras. Não queria dizer que teve que usar sua liberdade de zeman adulta para ignorar o apelo desesperado dos pais. Por fim, não queria dizer que era a única esperança do seu irmão, porque era verdade. A triste verdade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao invés disso, calou-se, e seu silêncio falou mais que seus pensamentos. Mesmo o mukai entendeu, e se calou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Eu preciso muito encontrar o Pólo – disse ela, por fim, e sua voz saiu mais firme do que esperava. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Sinto muito, moji-chan, mas eu não saber o caminho, e dificilmente Quinan-sama vá dizê-lo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma estrela morreu nos olhos da zeman, mas uma outra brilhou logo em seguida no rosto escuro de Mushi-san. Ele disse: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Eu saber como te ajudar! Conte-nos uma história, moji-chan. Essa é a moeda mukai. Quinan-sama te contou uma, você o deve. Conte-nos uma história para pagá-lo de volta! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mukai disse aquilo com tanto entusiasmo que pareceu ser um tipo de esperança. Zero computou o aumento da ansiedade de Adriana, e vasculhou em seu banco de memória por uma boa história. Mas Adriana estava confiante, e antes que ele terminasse a pesquisa respondeu que já sabia o que contaria. A mesma que embalara seus sonhos de criança, transmitiu para Zero. O flutuang se censurou – à maneira dos flutuanghi – por não ter se lembrado antes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Vou contar a história de Davi, a lua azul – disse ela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mushi-san afastou-se um pouco e repousou sobre um grande bulbo de ar. Ao ouvir o que Adriana disse, Quinan interrompeu seu diálogo com o grande mukai, disse alguma coisa em sua língua e sentou-se ao lado de Mushi-san. Mesmo Nakamura-sama se aproximou, envergando ainda mais as anêmonas, que ondularam seus galhos-tentáculos como se reclamassem. Adriana começou: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ A pequena nação de Moricz foi atacada certa vez por Heitor, o Bárbaro. Dizem que ele era tão poderoso que cinqüenta guerreiros morreram apenas para lhe deixar uma cicatriz na testa, a mesma cicatriz que vemos na face de sua lua; e que ele venceu, sozinho, um exército de duzentos homens. Diziam que seus ferimentos fechavam tão logo fossem abertos, e que era tão forte que podia lutar o dia inteiro sem parar para descansar ou comer. Sua fama cresceu por toda Zemi, e ele reuniu muitos renegados como seus guerreiros. Formou um pequeno exército. Seu flutuang era gigantesco, do tamanho de um zeman adulto, com duas placas rotatórias do impenetrável tri-carbono acopladas. Era chamado Muralha, porque era o escudo impenetrável de Heitor. As nações o temiam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Dezenas de cidades foram destruídas por sua pilhagem, e então foi a vez das nações. Catelan foi a primeira. Disseram que a morte de seu regente foi tão terrível que nenhum poeta ousa falar sobre ela, nem nenhuma canção foi jamais composta, nem há detalhe algum nos arquivos. A nação simplesmente ruiu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Depois de Catelan, os reis e senhores fizeram acordos com o bárbaro, e ele cresceu em riqueza e poder. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Um dia, Davi, o Senhor de Moricz, cansado dos altos tributos e do jugo de Heitor, desfez sua aliança e desafiou o bárbaro para a guerra. Muita gente fugiu daquela nação quando ouviram que Heitor marchava contra ela, e poucos restaram para lutar por seu senhor. Era tarde para voltar atrás. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"O Senhor de Moricz marchou com seus poucos homens, e nas fronteiras da nação, no fatídico dia da batalha, o pouco exército moricziano debandou à simples visão do estandarte laranja, deixando Davi sozinho, e os homens de Heitor riram, e gritaram, e exaltaram o poder de seu senhor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"De um lado, Heitor e seus duzentos homens, do outro, Davi e seu flutuang, armado apenas com sua lança. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Heitor sorriu e avançou, a espada elétrica em punho, sozinho. As placas de Muralha giravam incrivelmente velozes, protegendo o flanco e a vanguarda de seu dono. Seria uma vitória fácil. Davi ergueu sua lança, na posição do lanceiro, e esperou. Um século inteiro pareceu passar enquanto Heitor investia pelo campo de batalha, e durante todo esse tempo Davi esperou, sem mexer nem um músculo, nem um fio de cabelo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finalmente, quando o bárbaro estava a apenas três passos, o Senhor de Moricz largou sua arma e mergulhou fundo as mãos na areia. Puxou de lá um rifle moricziano poderoso, o que eles chamam de Cérberus, ignorou Heitor e cravou o cano no flutuang inimigo. Atirou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"O Cérberus é um rifle de três canos, longo como as caudas de um zeman, que mesmo com o passar das décadas não precisou de grandes aprimoramentos. À distância sua bala pode penetrar uma placa de bi-carbono, mas à queima-roupa atravessa até o tetra-carbono. Muralha chiou, soltou fogo e fagulhas, e caiu inerte. Heitor cuspiu água e sangue, no mesmo instante que sua espada elétrica atravessava o corpo de Davi. O Senhor de Moricz caiu por terra, mas levou consigo parte da vida de Heitor. Um zeman não sobrevive muito tempo sem um flutuang. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Então a corneta de batalha do exército moricziano soou, e surgiram de trás das colinas todos os guerreiros que a nação possuía. Eles honraram seu senhor, que planejara dar sua vida por uma chance de vitória. Caíram sobre os bárbaros e foram, finalmente, vitoriosos. Esse foi o fim de Heitor, o Terrível, mas seu nome será para sempre lembrado – e ainda temido – na forma da gigantesca lua laranja. Mas também, até hoje as nações se lembram do sacrifício de Davi, o Senhor de Moricz, que entregou sua vida por um tiro fatal no flutuang inimigo. Essa é a história do sacrifício de Davi, a lua azul. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"E toda vez que Davi nasce num horizonte, Heitor se põe no outro." &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Houve um silêncio depois que Adriana terminou, um silêncio quebrado apenas pelo flutuar de Zero e pelo som do mar. A moeda dos mukai é uma história, mas quem decide o seu valor é o ouvinte. Quinan conhecia a história de muitas das mil luas, e as ensinou para Mushi-san e Nakamura-sama, mas a história de Davi ele não conhecia. E foi assim que Adriana deixou a floresta de água e partiu para Namiishi, a ilha de pedra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_________________________________________________________________&lt;br /&gt;Imagem retirada do site &lt;a href="http://www.shiftedreality.com/"&gt;shiftedreality.com&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2502613120236415342-1179774426228757682?l=eisoptron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/1179774426228757682/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/09/conto-as-luas-de-zemi-parte-2.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/1179774426228757682'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/1179774426228757682'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/09/conto-as-luas-de-zemi-parte-2.html' title='[Conto] As Luas de Zemi (parte II)'/><author><name>DanielFolador</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12052168755551551359</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sn2PcB1vKeI/AAAAAAAAAC8/_lEL3rRf5GY/S220/P1170002.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TJA7aul95KI/AAAAAAAAANg/8ee4MoThcGw/s72-c/blue_forest031.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342.post-3102445795923907661</id><published>2010-09-14T19:48:00.000-07:00</published><updated>2010-12-19T08:38:31.350-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Universo: Zemi'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos Reunidos'/><title type='text'>[Conto] As Luas de Zemi (parte I)</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/09/conto-o-sonho-do-pantano.html"&gt;← Postagem anterior&lt;/a&gt; &lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/09/conto-as-luas-de-zemi-parte-2.html"&gt;Próxima postagem →&lt;/a&gt;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: 11pt; text-align: justify;"&gt;Bem, não gosto muito de dividir um conto em vários, mas esse aqui era impossível de ser postado inteiro. É o conto que fiz pro amigo oculto da &lt;a href="http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=946312"&gt;Escritores de Fantasia e FC&lt;/a&gt;, comunidade a que devo muito. No jogo, cada pessoa pediria um presente - um conto - e o amigo sorteado deveria escrevê-lo. A minha amiga oculta foi a &lt;a href="http://www.orkut.com.br/Main#Profile?uid=16850118372008154239"&gt;Strix&lt;/a&gt;, que pediu um conto onde aparecesse os nomes dos membros da comunidade. Usei os nomes de todos os participantes, de um jeito ou de outro, e mais alguns com participação especial. Era pra ser Ficção Científica, mas pendeu muito pra fantasia. Segue abaixo a primeira de sete partes, e espero que gostem o/&lt;br /&gt;&lt;ul&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/09/conto-as-luas-de-zemi-parte-i.html"&gt;Parte I - Nas magens de sal&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/09/conto-as-luas-de-zemi-parte-2.html"&gt;Parte II - A floresta de água&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-iii.html"&gt;Parte III - O totem para Lum&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-iv.html"&gt;Parte IV - O Pólo&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-v.html"&gt;Parte V - A biblioteca de Ushan&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/11/conto-as-luas-de-zemi-parte-vi.html"&gt;Parte VI - A fúria de Rafael&amp;nbsp;&lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;li&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/12/conto-as-luas-de-zemi-parte-vii.html"&gt;Parte VII - Alex &lt;/a&gt;&lt;/li&gt;&lt;/ul&gt;&lt;/div&gt;________________________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TJA3sNNmzOI/AAAAAAAAANY/nXUbuRUb4hg/s1600/Solar_System_by_Holly6669666.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="332" src="http://1.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TJA3sNNmzOI/AAAAAAAAANY/nXUbuRUb4hg/s400/Solar_System_by_Holly6669666.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; font-size: 11pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;1. Nas margens de sal &lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lucas nascia no horizonte, nebuloso. Seu verde brilhante se destacava contra o céu violeta escuro da noite do planeta. O satélite juntou-se veloz às centenas de outras luas que povoavam a abóbada celeste, de variadas cores e brilhos, como pequenas esferas penduradas na imensidão púrpura. Nasceu rápido, como era de seu feitio, tão rápido quanto a carreira de um michilizzi, e se prostrou ao lado de Bruno, a lua escura. À noroeste um relâmpago iluminou o céu, mas era uma tempestade distante, e o mar estava calmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Ch3g4m05, Adr1an4 – soou a voz metálica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A jovem zeman deixou-se cair nas areias salgadas do recife, arfando, exausta mas contente. Largou as cordas da pequena carroça que a custo puxava e observou a linha do horizonte, onde finalmente via o mar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A boca estava seca, os pés doendo, as mãos rachando com a desidratação. Foram quatro dias de caminhada pelo deserto de sal rochoso, cento e quarenta e quatro horas atravessando o grande vale de pedras brancas que é o Recife de Sal, e por pouco achou que não conseguiriam. Estava exausta, mas pôde exibir um sorriso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Chegamos – repetiu ela, saboreando o som da palavra. Não haviam chegado definitivamente, é claro. Tinham apenas atravessado ao primeiro obstáculo da viagem, sobrevivido a uma tempestade de sal, perdido o caminhão flutuador para os ventos corrosivos e puxado uma carroça durante os últimos dois dias viagem. Havia ainda uma grande jornada pelo desconhecido Mar Interno até o pólo do planeta, mas cruzar os traiçoeiros recifes já merecia uma medalha. De mono-ouro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ M3u c0mpu7ador c0nf1rma n0ss4 r0ta, estam05 apenas à 27,3º da dir3çã0 corr3ta. Dev3m0s n0s diri9ir... par4 lá – Zero apontou seu pequeno tentapode de aço para um ponto distante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A zeman o observou com pena. Os ventos salgados haviam corroído a superfície do pequeno flutuang de metal, dando-lhe uma cor alaranjada e fosca, bem diferente da superfície azulada e bem polida que tinha quando deixaram Villa. Fora construído para Adriana quando ela ainda desenvolvia os últimos espectros da visão, e a tinha acompanhado desde então, até mesmo quando já deveria ter sido trocado. Adriana simplesmente se recusava a construir um novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Villa era comum que mesmo bebês ganhassem flutuanghi, mas esses eram mecanismos simples e que serviam na maior parte do tempo como babás, e que seriam trocados tão logo a criança atingisse os nove anos – a idade normal para se ganhar um. Adriana não quis desativá-lo, mas não poderia viver com um flutuang de bebê. Foi difícil, mas ela atualizou Zero peça a peça, reprogramou sua ligação psico-cibernética e instalou os programas complexos. Ainda era ligeiramente mais lento do que um flutuang comum, claro, mas era seu flutuang, e para ela isso bastava. Seu irmão mais novo, Alex, para a dor de cabeça dos pais, parecia seguir a mesma teimosia da irmã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A jovem perdeu o sorriso quando se lembrou de Alex.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantou-se e limpou a areia branca do seu macacão de poli-tecido, exclusivo para resistir aos ventos cáusticos do Recife. Pensou, chateada, que poderiam ter feito um para Zero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Bem, então vamos logo. Tou morrendo de sede! Zerinho, você pode filtrar a água do mar pra mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ S1m.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto o flutuang se dirigia para o mar, Adriana iniciou os preparativos da jornada. Desvencilhou-se da mochila que trazia e se sentou numa pedra de sal; tirou os óculos de borracha e esfregou os olhos cansados. Tirou a touca de poli-tecido que protegia os cabelos, uma longa cabeleira tão azul que parecia negra, e os dividiu em três longas tranças. A touca, apesar de necessária para cruzar o recife, era pouco prática; guardou-a na mochila. Despiu-se por completo, sentindo com alívio sua pele respirar novamente; guardou o macacão na mochila e tirou de lá um leve traje de viagem. Quando terminou com o cabelo, amarrou uma trança em cada pulso, e uma em volta na cintura, como era o costume villano. Tirou do bolso uma minúscula cápsula de metal e dirigiu-se para a pequena carroça de penta-alumínio que arrastara nos últimos dias da viagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua superfície também estava corroída, mas pelo menos o carregamento estava intacto: um motor movido a luz lunar e um eltro-ímã ancorador. Desamarrou-os e os separou da carroça. Afastou-se e jogou a cápsula de metal sobre ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Ativar – disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com um estampido alto a cápsula liberou uma nuvem de areia fina que se espalhou sobre a carroça como neblina pesada, movendo-se como se tivesse vida. Aos poucos, começou a corroer o chassi de penta-alumínio, enquanto alguma coisa crescia no centro da névoa. A neblina granuliforme ganhou velocidade, e não demorou muito para os mili-robôs transformarem a antiga carroça de carga em um barco de metal, com sete tésari de comprimento por quatro de largura, com um pequeno mastro, um leme e um remo. Então, com outro estampido, a pequena nuvem de robôs retornou para a cápsula, que rolou sobre o convés recém construído. Adriana apanhou-a e a guardou. Só tinha mais uma carga, apenas mais uma oportunidade para usar os mili-robôs, que então se tornariam inúteis como a areia de sal onde pisava. Tinha que guardá-la com cuidado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era engraçado como há apenas pouco mais de cem anos a sociedade zeman tinha o conhecimento para fabricar robôs até menores que os mili-robôs, e dezenas de vezes mais eficientes. Um conhecimento que se perdeu junto com as nações de Sicuro e Radrak, tragadas pela terra no último grande terremoto de Zemi. Heitor, a imensa meia lua parda, flutuava impune no quadrante sudeste do céu violeta. Agora exibia sua fase crescente, inofensiva, mas uma noite a cada 172 anos atingiria sua temível fase cheia, quando sua influência na tectonia de Zemi é tão poderosa que gera grandes abalos sísmicos por todo o planeta. Felizmente, estava a mais de meio século de voltar a acontecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zero flutuou de volta com seu compartimento cheio de água potável, exibindo um sorriso na tela de computador que era seu rosto. O flutuang tinha apenas um tésar de comprimento – 0,6 metros –, formado por dois cones de pontas arredondadas, mas seu compartimento, quando cheio, poderia suprir a necessidade de um zeman por quase três dias. A pele esverdeada dos zemani pode absorver a umidade do ar – e a atmosfera de Zemi é bastante úmida – o que dispensa a ingestão de grandes quantidades de líquido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriana tomou dois goles e se sentiu satisfeita pro resto da noite. Instalou o motor no barco recém construído, e iniciou sua refeição, um jantar frugal de frutas desidratadas e pão villano, enquanto Zero reabastecia sua bateria com a energia da luz amarelada de Douglas, a grande lua dourada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia uma mancha no horizonte, e segundo a visão aguda de Zero, tratava-se de uma ilha. Com uma embarcação pequena como a deles, viajar de ilha em ilha era a melhor estratégia de que dispunham, e afinal de contas, a geografia do Mar Interno era totalmente desconhecida.  Ali seria seu primeiro destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vento estava ameno, e acariciava o rosto suave da Zeman. Estrelas brilhavam entre os vazios de tantas luas, mas havia duas que chamavam a atenção de Adriana: Maria e Rita, as estrelas gêmeas, as únicas estáticas do céu zeman. Estavam sempre alinhadas na direção norte, como a seta de uma bússola; um guia para Adriana, para onde ela tinha que ir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;­_ Pr3ocup4da?... – perguntou Zero, ao computar a leve taquicardia da jovem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela esperou um pouco antes de responder:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Zero... Me passa o dossiê de novo, com tudo o que sabemos do Pólo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ S1m, clar0 - respondeu, e começou um pequeno discurso informativo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;'O grand3 Rec1fe de Sal que c1rcund4 o oceano norte de Zemi sep4r4 o Pól0 do resto do planeta. Há bo4tos de que f0i dali que vi3ram os Grandes Sá8ios, e que lá ex1ste uma socied4de avanç4da de grande t3cnologia. Mesmo ass1m, há p0uca inf0rm4ção do que há dep01s dos R3cife5.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;'A tecnol0gia para 4travessar os Recif3s com s3gur4nça só foi des3nvolvida há c3nto e ses5enta e o1to an0s, então t0dos os rel4tos qu3 af1rm4m terem alc4nçad0 o Mar 1ntern0 ante5 disso são duv1d0sos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;'Existem se7ent4 e tr3s resg1stros de expl0rações que falh4r4m em atr4v3s5ar o Recife, do2e d3 explorações qu3 apen45 atingiram e55as praias, qu4tro que af1rmam terem enc0ntrado ilh4s marav1lhosas – e monstr0s terr1v3is – no Mar Int3rn0, s3m terem alc4nçado o Pól0; e tr3zentas e se7e expediçõ3s que nunc4 retornaram.'&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Adriana engoliu um pedaço de pão, sem saboreá-lo.  Não disse mais nada, tampouco o fez Zero. Bruno se pôs no horizonte, encerrando o primeiro quarto da noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_________________________________________________________________&lt;br /&gt;Imagem retirada do Deviantart, autor &lt;a href="http://holly6669666.deviantart.com/"&gt;Holly6669666&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2502613120236415342-3102445795923907661?l=eisoptron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/3102445795923907661/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/09/conto-as-luas-de-zemi-parte-i.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/3102445795923907661'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/3102445795923907661'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/09/conto-as-luas-de-zemi-parte-i.html' title='[Conto] As Luas de Zemi (parte I)'/><author><name>DanielFolador</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12052168755551551359</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sn2PcB1vKeI/AAAAAAAAAC8/_lEL3rRf5GY/S220/P1170002.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TJA3sNNmzOI/AAAAAAAAANY/nXUbuRUb4hg/s72-c/Solar_System_by_Holly6669666.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342.post-4696552251803195814</id><published>2010-09-03T17:21:00.000-07:00</published><updated>2010-09-14T20:29:20.297-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Universo: Aera'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos Reunidos'/><title type='text'>[Conto] O Sonho do Pântano</title><content type='html'>&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt; 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text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TIGNg_V_BAI/AAAAAAAAAMg/5M8BtpK5vJU/s1600/Swamp_Dragon_by_Trevone.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="266" src="http://2.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TIGNg_V_BAI/AAAAAAAAAMg/5M8BtpK5vJU/s400/Swamp_Dragon_by_Trevone.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;(do universo de Aera, o mundo dos Deuses Ventos)&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;O pântano que nasce na face leste da Cordilheira Ete’d era muito extenso e muito antigo. Cobria facilmente centenas de estádios de uma ponta à outra, o que garantiria vários dias de caminhada por entre árvores retorcidas, terreno lamacento e toda sorte de insetos. Por isso muitos preferiam contorná-lo, se desejassem chegar ao outro lado, do que forçar passagem por seus brejais. E também por isso, seus habitantes ficaram por tanto tempo em paz. As fadas o chamavam de Tarlamo, e os outros seres aprenderam a chamá-lo assim. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Tarlamo tinha um sonho. Toda noite, quando suas árvores dormiam e seus animais repousavam, quando o único som era o dos sapos e dos insetos, o pântano suspirava um suspiro inaudível, olhava para o Céu, adormecia. E sonhava com os ares, com as nuvens e as ilhas voadoras do leste. Sonhava que podia voar, sim, galgar os ares, que podia ver a Cordilheira de cima, não mais de baixo, e sentir o vento forte das grandes altitudes. Sonhava com o ar, este sonho tão distante para um pântano de terra. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Mas, dizem, certa noite o vento ouviu seu sonho. Carregou-o em forma de prece ao grande Éolo Pai de Todos, que sempre dorme, e o sussurrou ao seu ouvido. Dormindo, o vento-pai gostou do que ouviu. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Estava decidido. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Naquela mesma noite, uma noite escura de lua nova, o sonho de Tarlamo nasceu. Começou devagar, como todo sonho que começa, apenas uma vontade, pequeno, para então ganhar força, ganhar tamanho, ganhar propósito. Naquela noite nasceu o sonho de Tarlamo, um dragão feito do pântano. Todos os seus habitantes ouviram o rugido de felicidade de Tarlamo-dragão, que nascia de seu próprio sonho, que era pântano e criatura. Feliz, Tarlamo estendeu as asas recém-nascidas, e voou por toda a noite. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;E então, quando as fadas-aurora desfraldaram suas asas alaranjadas no horizonte, ele pousou no meio de um grande lago e adormeceu. Pedra, raiz, terra e folha se desfizeram, retornando ao solo. Tarlamo-pântano acordou. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;As fadas-libélulas comentaram a novidade da noite aos homens dos brejais, que passaram a prestar homenagem ao dragão de musgo e raiz. Ergueram grandes totens escuros, esculpidos em braúna-do-pântano, e os espalharam por toda a extensão de Tarlamo. Fadas e animais prestavam reverência se viam tais totens, e não raro depositavam oferendas das mais variadas. Toda noite o pântano dormia, seu sonho nascia, visitava os totens e guardava seus presentes, fundo na lama. Tarlamo tornou-se guardião de si mesmo e de seus habitantes, todas as noites, até que nascesse o dia, quando acordava e a vida recomeçava. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&amp;lt;&amp;gt;&amp;lt;&amp;gt;&amp;lt;&amp;gt;  &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;  &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;– Pelo Vento Sul! – exclamou Ialarana, batendo rápido as asas com o susto. Seus olhos multifacetados refletiam, ao longe, dezenas de casas-árvore recém-plantadas, sobre as colinas da fronteira sul do pântano. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Pousou sobre uma folha de azaléia e coçou o pequeno queixo. Sem dúvida, homens de além-pântano se aproximavam. Se de passagem ou moradia fixa, não sabia dizer, mas era uma informação importante para o conselho da Cidade do Lago. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Uma aranha se moveu sorrateira pelo caule do arbusto, por trás da pequena fada-libélula. Saltou para frente, segundos depois de Ialarana ganhar o ar. Seus olhos viam em todas as direções. Mostrou a língua para a predadora, e se dirigiu para casa. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;A Cidade do Lago era um aglomerado de arbustos perto de um pequeno córrego que empoçava nas pedras. As fadas-libélula trançavam folhas secas nos galhos dessas plantas, construindo casulos que se espalhavam por toda a margem do laguinho. Na água, fadas-jovens, desprovidas de asas, caçavam peixes que levavam para suas casas sobre as pedras da margem. Num canto distante, afastado do lago e escondido por uma pequena depressão, havia um totem negro do tamanho de um braço humano, que exibia o dragão do pântano. Um presente dos homens dos brejais. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Logo quando chegou, Ialarana se dirigiu ao arbusto mais alto da cidade, onde estava o Casulo do Conselho. Pousou sobre a porta de entrada, ajeitou a roupa de folhas verdes e entrou. Um macho a saudou. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;– Ialarana, que os ventos a abençoem – suas asas eram esbranquiçadas, sinal de idade entre seu povo. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;– Que a Brisa da Graça sobre ti, Faenaú. Tenho notícias para o Conselho. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;O ancião coçou o queixo intrigado. Ouviu o que ela tinha a dizer, e decidiu reunir os demais. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;A questão foi amplamente debatida durante todo o dia; a vinda de homens de além-pântano era preocupante. Os homens dos brejais viviam bem entre as fadas, mas, salvo raros viajantes que passavam por Tarlamo, nada sabiam dos homens de fora. Batedores foram designados para vigiá-los, Ialarana entre eles, e, dia após dia, traziam a notícia do avanço dos homens. Avançavam algumas casas-árvores por semana, deixando secar as primeiras e plantando outras. Estudavam o terreno conforme avançavam, até pararem no limite dos brejos. Que queriam os forasteiros? &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;As fadas-de-lama tranqüilizavam os outros. Os lamaçais de Tarlamo eram por demais instáveis, não permitem que casas-árvores vinguem. Era por isso, disseram, que os homens dos brejais construíam suas casas sobre as pedras do pântano. E realmente os forasteiros não avançaram mais. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;E então a surpresa. Vindas de longe, chegaram ao acampamento máquinas estranhas, provavelmente alimentadas por magia. Os homens enterraram na lama suas grandes trombas de metal flexível, e vomitaram fumaça negra no ar. Fizeram isso por dois ou três dias, e então as desligaram. Plantaram então casas-árvore onde antes não era possível, e o acampamento continuou a avançar. Nenhuma notícia das fadas-de-lama. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Ialarana não entendia o que estava acontecendo, mas não gostava da fumaça escura dos homens de além-pântano. Que queriam eles? Fixar moradia em Tarlamo? E o que faziam ao brejo, para poderem plantar suas casas? Avançavam e avançavam, até que alcançaram as primeiras árvores. Quando as botaram abaixo, tudo ficou claro. Abriam caminho por Tarlamo. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Assustada, Ialarana voou para o Casulo do Conselho. Tinha que avisá-los! No caminho, mal reparou um enorme saco de tecido – enorme para o seu povo – cheio de sementes, que várias fadas-libélulas descarregavam. Urgente, encontrou Faenaú. Ele foi categórico: &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;– A Brisa da Fortuna nos trouxe os forasteiros, pequena. Ontem fomos ter com seus líderes, e não apenas nós, mas membros dos homens dos brejais, das moscafadas, do povo-sáurio e alguns outros. Os forasteiros vieram atravessar Tarlamo, e criar uma estrada permanente que ligue o norte e o sul. São ricos, Ialarana. Prometeram-nos paz, e pagaram a cada povo o seu tesouro, para que colaborássemos. Viu o saco de sementes na beira do lago? É um saco com mais de duzentas sementes de flor-de-mel! Com elas, criaremos hortas para atrair abelhas, teremos mantimentos garantidos por mais de cinco anos! &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;A Cidade estaria preservada, mas, e o pântano? Ialarana estava confusa. Assustava-lhe a idéia de ver seu lar dividido em dois. Deixou Faenaú sem dizer palavra. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Vagueou o dia inteiro, evitando se aproximar das estranhas máquinas e suas fumaças mal-cheirosas. Não caçou nem comeu nada aquele dia, estava sem ânimo. O sol se escondeu atrás de Ete’d, a grande cordilheira. Ela voou para perto das árvores derrubadas pelos forasteiros, pousou sobre uma folha próxima do chão e suspirou resignada. Foi quando ouviu uma voz. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Seus olhos vasculharam em centésimos de segundos a região ao redor, mas mesmo seus potentes olhos foram enganados pela escuridão. Demorou a entender que quem falava era um pedaço de barro, preso embaixo do tronco de árvore. Uma fada-de-lama. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;– Ei, ei! Ei você, pode me ouvir? &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;As fadas-de-lama são muito maiores do que uma fada-libélula, mas ainda assim atingem apenas trinta centímetros de altura. São feitas inteiramente de barro muito mole, que dança como se fosse escorrer, de forma quase humana e olhos feitos de sementes escuras. Mas o corpo dela estava quebradiço, rígido, isso não podia significar boa coisa. E estava presa. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;– Eu, aqui embaixo – disse, quase num sussurro. Era uma fêmea. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;– Eu te vi, sim. Está presa? &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;– É, estou!... Não posso sair. Ouça... &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;– Espere aqui, vou buscar ajuda. Sou muito pequena para te carregar. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;– Não! – ela ergueu a mão, chamando-a de volta – Não, não vá. Ouça, pequena, não tenho muito tempo. Meu corpo começou a endurecer, não há volta. Já estou há um dia sem água, um dia! É o meu fim... Pelo menos me ouça: tenho que avisar o grande dragão! Meu povo... eu preciso avisá-lo! &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;– Avisar o que, pelos ventos? E onde está o resto dos seus? &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Os olhos escuros derramaram uma gota de lama. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;– Eu sou a última. A última das fadas-de-lama dessa fronteira. Todos os demais secaram. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;– Como?! – Ialarana elevou os quatro braços em surpresa. Realmente, fazia tempo que não via ninguém do povo de lama. Estavam... mortos?! &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;– Os forasteiros – sussurrou a outra – estão drenando os brejos.  Todo o meu povo secou, encontrei seus corpos... Eu não estava lá quando aconteceu, não estava, quiseram os ventos me poupar para que pudesse avisar o grande Tarlamo... Eu encontrei seus corpos secos quando essa maldita árvore me prendeu, entre a madeira e o solo duro. Não posso me mexer, não posso nadar. Você tem que avisar ao grande dragão! Os forasteiros destruíram o meu povo! &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;– Mortos... – soluçou a pequena. Tinha amigos entre o povo de lama, e sentia o peso da notícia – Eu... Sim, avisarei! Mas, e você? O que posso fazer? &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;– Avisá-lo, apenas isso, pequena. Minha água está acabando. Antes que a lua nasça serei apenas um monte de terra. Prometa-me, por Noto, que avisará o grande dragão. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;– Prometo por todos os ventos – respondeu a fada-libélula. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;– Que a brisa da Graça te abençoe – ela sorriu um riso triste, e suspirou de alívio – Agora, vai, vai! Já é quase noite, o pântano já dorme, logo dragão nascerá. Vai! &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Ialarana deixou a pobre fada para trás, apressada. Não havia lágrimas em seus olhos – o seu povo não podia chorar – mas se pudesse teria encharcado seu pequeno vestido. Suas asas batiam velozes, dirigia-se ao totem da Cidade do Lago. Todas as noites Tarlamo-dragão visita os totens do pântano, precisava encontrá-lo antes que fosse embora! &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Ela sabia, sentira alguma coisa errada na fumaça negra das máquinas. Era a energia... As máquinas cuspiam a vida do povo de lama no ar. Piscou os olhos como se pudesse chorar. Lembrou de Faenaú, e do acordo selado por seu povo. Não podiam intervir, não podiam quebrar a lei. Mas Tarlamo podia, era seu dever proteger seus habitantes. Era o guardião de todos. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Voou veloz para a Cidade do Lago. O saco de sementes ainda estava lá, quase vazio agora, apenas vigiado por alguns guardiões. Ialarana voou para o totem e pousou diante da escultura, diante das oferendas. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Esperou. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Esperou muito, até a Lua atingir o zênite, mas nada de Tarlamo. Ela sentia sono... A falta de comida cobrava seu preço. Sentiu o pequeno estômago roncar, e pensou em pegar comida em casa. Mas... e se Tarlamo surgisse enquanto ela estava longe? Não, tinha que esperar. Logo ele estaria ali, logo. E a Lua descia o céu. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Um rufar pesado de asas. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Seu coração acelerou, ela nunca vira o grande dragão, conhecido apenas das histórias dos mais velhos. Temerosa, escondeu-se atrás de um arbusto. Logo uma grande sombra surgiu dos céus, balançando árvores e folhas, e pousou em frente ao totem. O grande dragão. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Seus músculos eram feitos de raízes e terra úmida, por vezes coberta de musgo jovem. Suas grandes garras – e eram imensas para Ialarana – eram de pedra escura e madeira afiada. Afundaram no solo mole quando Tarlamo pousou, fazendo parecer que seu corpo inteiro brotava do chão. Sua cabeça era larga, no alto de um grande pescoço de cavalo, e larga também era sua cauda, embora curta. Seus olhos eram negros como os lagos do pântano, e suas asas eram feitas de folhas sobrepostas e musgo. Pequenos arbustos nasciam de suas costas. Mesmo quando dragão, Tarlamo não deixava de ser pântano. Aproximou-se das oferendas, mas não as recolheu. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;– Ialarana, pequena fada, por que se esconde? – disse o dragão. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Surpresa, ela saiu poucos passos de seu esconderijo. Tarlamo-dragão era enorme. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;– E-eu tenho algo pra falar, senhor, algo... &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;– Calma pequena, não se assuste – a voz de Tarlamo era grave, e devagar como a água do pântano – Eu lhe conheço desde você que nasceu, eu sou o seu lar. Calma. Os arbustos me contaram onde você se escondeu. E não me chame de senhor, você mora em mim. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;– Senh... – ela recomeçou, batendo rápido as quatro asas – Grande Tarlamo, tenho algo urgente para lhe contar. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;– Sobre o povo de lama da fronteira Sul? – interrompeu ele – Perdi consciência do que acontece naquela fronteira, e há algum tempo não os vejo – Ele aproximou os grandes olhos da pequena fada-libélula. Havia um brilho distante naquelas pupilas escuras, quais vaga-lumes perdidos na imensidão da noite. Aproximou-se dela e falou devagar – Lembro de tê-la visto conversando com uma fada-de-lama, Kkakkatta, antes de dormir. O que conversaram? Onde estão os outros? &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Ialarana tremeu diante da notícia que deveria dar. Mas lembrou dos seus amigos, perdidos nos brejais drenados. Seus olhos tremeram. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;– Kkakkatta era a última fada-de-lama da fronteira sul. Os forasteiros estão drenando os brejos para abrir caminho pelo pântano! O povo de lama... Estão todos mortos, grande dragão. Todos mortos! &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Os olhos negros arregalaram-se em surpresa, e então de ira. Tarlamo-dragão ergueu a cabeça e rugiu alto, rugiu para todo o pântano ouvir. O chão tremeu, as árvores acordaram, pássaros revoaram assustados, insetos fugiram de seus lares, fadas despertaram surpresas. Nas tribos dos brejais, os homens levantaram de susto e aumentaram as oferendas de seus grandes totens. No acampamento, os homens saíram de suas casas-árvore, preocupados. O coração de Ialarana disparou cem vezes a velocidade usual, e o medo a paralisou. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;– Invasores! – rugiu ele – Invasores que ousam atacar meus habitantes! Foi por isso, por isso perdi a consciência da fronteira, meus brejos estão secos, o povo dali está morto. Basta. Basta! Tarlamo vai cobrar o seu preço. Pequena! – voltou-se para Ialarana, que a muito custo não saíra voando dali – Avisa seu povo. Eu sei da barganha que fizeram com os homens de fora, sei que muitos povos deram sua palavra em juramento. Eles traíram o povo de lama? &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;– Eles... não, claro que não! – sua voz era um farfalhar de folhas contra o trovão da voz de Tarlamo – Tenho certeza de que eles não sabiam disso, certeza! &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;O dragão fechou os grandes olhos, inspirou fundo e o vento agitou até as árvores mais grossas. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;– Os povos juraram pelos ventos sagrados que não iriam interferir no projeto dos homens, eu os ouvi durante o dia. Não posso pedir que quebrem um juramento sagrado. Se não traíram o povo de lama, o fizeram na ignorância. Então... só Tarlamo pode intervir. Pequena... o pântano é grato pelo aviso. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Ele estendeu as longas asas, que mal couberam entre as árvores, e levantou vôo. A pressão do vento quase arremessou Ialarana pelos ares. Quando o dragão sumiu no céu da noite, ela esqueceu o sono, esqueceu a fome, o cansaço. Voou para a fronteira. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&amp;lt;&amp;gt;&amp;lt;&amp;gt;&amp;lt;&amp;gt;  &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;  &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Tarlamo chegou rugindo trovão, pedra e lama. Confusão, gritaria, medo. Surgiram as tochas, luzes agitadas dançando na escuridão da noite. Os homens correram às armas, urgentes, alguma coisa atacava do céu, destruindo as máquinas, derrubando as casas. Acordaram seus feiticeiros. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;A canção escudo ecoou pelos brejais, elevando uma barreira plácida, translúcida no céu. Tarlamo vomitou ácido sobre o encantamento dos homens, que deslizou pela barreira e caiu inerte na fronteira do acampamento. Irado, mergulhou, rasgou o escudo com suas garras de pedra, entrou. Homens com lanças de madeira surgiram, e ele os quebrou, um a um, abrindo seus ventres, lançando-os longe. Urrou sua vitória. Mas vieram guerreiros com lanças e espadas de ferro frio, armas do Norte, e ele sentiu a dor do metal em sua carne de terra. Os feiticeiros cantaram, e às primeiras notas Tarlamo sentiu as raízes das árvores enredando-o, prendendo-o sob a mira dos homens. Suas árvores. Rugiu tão alto que acordou as pedras, e as raízes libertaram-se do encantamento. Livre, Tarlamo atacou com mais fúria. Logo o chão encheu-se de corpos e armas fendidas. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Ialarana via as luzes das tochas dançando na escuridão, e não demorou muito para que vários outros seres do pântano também surgissem na fronteira. Uma máquina explodiu numa nuvem púrpura, lançando magia e fumaça na noite. Eles observavam a luta dos homens contra o pântano, e seu lar estava ganhando. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Mas os forasteiros vieram preparados. Colunas de terra cresceram como braços gigantes e atacaram o dragão por todos os lados. Magia parda. Os homens usavam o próprio pântano para vencer o pântano. Os feiticeiros da terra dançaram sua dança marcial, elevaram pedras da lama e lançaram-nas contra Tarlamo. Os guerreiros se recompuseram, cercaram-no, arremessaram suas lanças. Logo a fera era toda espeto e terra fendida, sua delicada pele de musgo perfurada e seus ossos de raízes à mostra. Sangrava água. Os feiticeiros azuis voltaram, cantaram proteções para seus guerreiros. As garras de pedra e raiz se partiram contra os corpos encantados. Tarlamo urrava de dor, e todo o pântano tremia com ele. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Surgiu então um grande Mestre entre os feiticeiros pardos. Os músculos escurecidos com piche brilharam na luz da lua, os cabelos trançados com mel de abelha, os braços largos. Sua canção de guerra reverberou pelo chão lamacento e atingiu Tarlamo em cheio. Ele viu surgir em seu corpo a caligrafia vermelha brilhante, a mesma magia das âncoras rúnicas dos aeronavios do Leste. Seu corpo travou no espaço. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Tarlamo perdeu! Milhares de olhos observavam-no da fronteira das árvores, milhares de olhos viram o grande dragão de terra e musgo parar a meio golpe. Os homens cercaram-no, armas em punho, mas não atacaram. Os olhos escuros da fera injetaram-se de ira, a terra tremeu, mas nada aconteceu. Estava aprisionado. Então, o Mestre pardo se aproximou. Todas as criaturas do pântano seguraram a respiração, seus corações pararam por um breve segundo quando ele tocou a larga cabeça com a mão. Tarlamo fechou os olhos. Seu corpo de terra explodiu. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Choveu lama. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Os homens comemoraram a vitória sobre a besta, cuidaram de seus feridos. As criaturas do pântano ficaram ainda, ali, ouviram as cornetas fúnebres dos homens dos brejais. O sonho do pântano morreu, e uma parte de cada um de seus habitantes morreu com ele. Voltaram para as suas casas, tristes; animais, fadas e homens cantando juntos a canção de morte de Siroco. De luto, a Lua se cobriu nas nuvens. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&amp;lt;&amp;gt;&amp;lt;&amp;gt;&amp;lt;&amp;gt;  &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;  &lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;A estrada que liga as cidades das colinas com as florestas ao sul é a principal rota de mercadores e viajantes. Antes, diziam, era preciso contornar toda a região, o que levava a semanas de viagem desnecessária. Diziam também que os dois pântanos que nascem em cada lado da grande estrada já foram um só, mas só os mais velhos podem saber. A grande estrada ajudou o comércio entre os reinos, e é constantemente vigiada e mantida pelos regentes daquelas terras. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Pousada num totem velho e podre da Cidade do Lago, uma fada-libélula de asas muito brancas observa o tempo passar. É a mais velha conselheira da cidade, mas hoje não está presa às suas obrigações. É o aniversário de morte de Tarlamo-sonho. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Ialarana orava uma prece aos ventos, diante do Aei fúnebre. O ornamento, feito simplesmente de um galho fincado no chão e de uma tira de algodão amarrada, que dançava com o vento, servia para lembrar a passagem temporária da vida, e a perpetuidade da lembrança. Ela era a última do seu povo que vira a grande batalha. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Desde aquela noite, o pântano nunca mais foi o mesmo. A estrada secou os brejos por onde passava, e a vegetação se recolheu de cada lado. As fadas-de-lama remanescentes fugiram para longe dos drenos, o povo se dividiu. Não havia mais Tarlamo, mas dois pântanos, que aprenderam a viver em separado. Tarla, o pântano do oeste, e Lamo, o pântano do leste. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Ialarana terminou sua prece. Não sabia se um sonho tinha um corpo de vento no outro mundo, mas mesmo assim orava por ele. Desde aquela noite, ela sabia, o pântano nunca mais sonhou. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Mas os jovens aprenderam a viver no pântano de Tarla, e tão logo desenvolveram suas asas, organizaram grupos de comércio com os viajantes. A Cidade do Lago cresceu, quase o dobro do tamanho original, prosperou. Dizem que os ventos da mudança são tão inevitáveis quanto os ventos da morte. Deve ser verdade. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Ialarana foi pra casa. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Naquela noite, quando o sol se punha, os pântanos gêmeos suspiraram um suspiro inaudível, olharam para o céu do crepúsculo e adormeceram. Naquela noite, a primeira em decênios, tiveram um sonho de liberdade. E o vento os ouviu. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Quando a lua cheia iluminava o zênite nasceram Tarla-dragão e Lamo-dragão.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2502613120236415342-4696552251803195814?l=eisoptron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/4696552251803195814/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/09/conto-o-sonho-do-pantano.html#comment-form' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/4696552251803195814'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/4696552251803195814'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/09/conto-o-sonho-do-pantano.html' title='[Conto] O Sonho do Pântano'/><author><name>DanielFolador</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12052168755551551359</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sn2PcB1vKeI/AAAAAAAAAC8/_lEL3rRf5GY/S220/P1170002.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TIGNg_V_BAI/AAAAAAAAAMg/5M8BtpK5vJU/s72-c/Swamp_Dragon_by_Trevone.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342.post-2598130574694703924</id><published>2010-08-27T14:34:00.000-07:00</published><updated>2010-09-08T14:29:22.577-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos Reunidos'/><title type='text'>[Conto] O Primeiro Mago</title><content type='html'>&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt; &lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/08/conto-filha-da-tempestade.html"&gt;← Postagem anterior&lt;/a&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/09/conto-o-sonho-do-pantano.html"&gt;Próxima postagem →&lt;/a&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/THgu5SlY63I/AAAAAAAAAMA/kfL7QkQTb78/s1600/wallpaper_creation_universe.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="467" src="http://4.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/THgu5SlY63I/AAAAAAAAAMA/kfL7QkQTb78/s640/wallpaper_creation_universe.jpg" width="640" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Seu braço parou na metade do movimento, e logo o resto de seu corpo também foi aprisionado pelo feitiço. Yo’te’lev, o mago mais poderoso de todos os reinos, o descobridor e primeiro mestre da Magia, foi capturado. À sua frente estava Ag’te’mov, seu mais ávido pupilo, mal disfarçando um sorriso de êxtase. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Yo’te’lev não disse nada, nem podia, pois também a sua língua era vítima do encantamento. Sua incompreensão durou o tempo exato do pulsar de um vaga-lume-estrela, e então ele entendeu. Ag’te’mov, seu dedicado discípulo e preferido entre os atuais alunos, iria matá-lo. Desejoso de poder e impaciente como uma criança, o jovem tomaria o posto de Mestre dos Mestres à força, pela lei da guerra. Era exatamente essa arrogância que fez Yo’te’lev desqualificá-lo para o cargo de Grão-mago. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Mestre, ó, mestre! Nunca, em meus devaneios mais ousados, imaginei que seria tão fácil derrotá-lo! Essa é a prova da minha capacidade, a capacidade que você desprezou! Finalmente! Agora... Agora todos saberão do poder de Ag’te’mov, que venceu o Primeiro Mago em batalha! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jovem continuou a dizer mais, mas o velho ignorou as palavras vazias. Era chegada a hora. Depois de mais de três milênios, sua vida chegava ao fim. Yo’te’lev era sábio, mas todo o seu conhecimento era agora inútil: é impossível quebrar, sozinho, o Feitiço Imobilizador do Sétimo Arco. Ele sabia porque ele mesmo o criara, assim como criara mais de dois terços de todos os encantamentos conhecidos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma brisa triste afagou seu manto de seda-espelho, que refletia o brilho do sol poente. E então, sem o auxílio de qualquer encantamento, ele conseguiu ouvir todos os segredos escondidos no vento, em cada lufada de ar. As árvores do jardim dançaram, e Yo’te’lev teve a impressão de que as conhecia desde sempre, apesar de ter se mudado para a Escola de A’bra’niv havia poucos anos. De repente, o céu pareceu-lhe muito familiar, como um amigo que encontramos depois de muito tempo e do qual havíamos nos esquecido. A iminência da morte aguçava-lhe sentidos de tal maneira que nenhum de seus feitiços lograram fazer. Ag’te’mov gesticulava ainda, mas o que o velho mago descobria era maravilhoso demais para ele lhe desse atenção. O sol que se ia, a terra que seus pés paralisados pisavam, tudo lhe pareceu estranhamente parte de si, um desenho que fizera há muitos e muitos anos e do qual conhecia cada risco, cada traço, cada cor... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era a consciência da morte que lhe revelava tantos segredos e sensações? Não, havia algo mais... A brisa aumentou subitamente, a terra pulsou um tremor que apenas Yo’te’lev pôde sentir; por um átimo de segundo o sol fulgiu com mais clamor, e as nuvens rodaram mais devagar a roda do tempo. As sensações não vinham apenas dele, mas sim... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...do mundo! Era o inconsciente do mundo que lhe sussurrava tantos segredos e tantas lembranças. O mundo inteiro, tudo à sua volta parecia se alarmar com esse momento, seu derradeiro momento, e ele entendeu isso, mesmo que nada lhe fosse realmente dito, porque ele conhecia os sonhos das coisas melhor do que elas próprias. Mas como? De onde vinha tanto conhecimento? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um arrepio balançou seu corpo imobilizado com o poder de mil terremotos. Pela primeira vez em três milênios, a Verdade tocou sua mente, queimando como só a verdade pode queimar. Pela primeira vez em toda a sua vida – essa vida –, Yo’te’lev teve consciência de sua existência passada, antes de ser Yo’te’lev, antes da magia existir. Não, antes sequer do Mundo existir. Porque antes não havia mundo. Antes de tudo... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...estava flutuando no espaço escuro e brilhante da não-existência, desespero infinito dentro dele. Estava sozinho nessa versão da realidade, e sequer existia ainda uma realidade para se estar. Pareceu-lhe passar três eternidades inteiras antes que tivesse a idéia de preencher o vazio, o Seu vazio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Yo’te’lev, que então não era seu nome, começou a sonhar. Começou imaginando o vento, movendo e empurrando tudo o que viria depois. Imaginou a terra e a água, a luz e as cores. Seu sonho cresceu e tornou-se Mundo, e ele escreveu a história de cada ser que imaginou pra habitá-lo, e escreveu a história dos filhos destes seres, e dos filhos de seus filhos. O Mundo, as montanhas feitas de sombra de U’lu’mus, o Grande Mar. Tudo isso Yo’te’lev criara em sua mente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De onde ele mesmo viera, não sabia. Lembrava-se apenas de ter sido deixado no vazio por outros, que partiram para outros cantos, outros desdobramentos do universo. Há quanto tempo estava ali, sonhando? Devotava tanto da energia de sua mente para o Mundo, que finalmente, a sua própria energia esvaiu-se. E ele caiu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caiu no Mundo que criara. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A memória daí em diante era de Yo’te’lev, sua versão de si mesmo em seu próprio mundo. E então ele entendeu porque apenas ele pôde ver a Magia no início, apenas ele pôde entendê-la e manipulá-la. Ele não a descobrira; ela era parte de seus sonhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo isso passou pela mente do mago enquanto ainda o jovem Ag’te’mov retrucava. O pensamento pode correr rápido, mas o pensamento de um mago pode visitar todos os lugares do planeta durante uma batida de coração. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_... enfim, ex-mestre e prisioneiro, eu não pretendo apenas mantê-lo cativo. Eu vou matá-lo! – e os olhos de Yo’te’lev arregalaram-se neste exato momento, e Ag’te’mov interpretou errado o que ia no âmago do velho feiticeiro – Surpreso? – sorriu – É o que você merece por desprezar o meu poder. E vou usar o último feitiço que você me ensinou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jovem aprendiz ergueu os braços e desenhou símbolos no ar, e quando a luz púrpura do Feitiço da Morte começou a surgir, Yo’te’lev tentou desesperadamente romper o encantamento com a força física. Por que o que assustou o velho mago não era a sua morte. Esta seria um problema pequeno. Porque, se o Mundo, se o próprio Ag’te’mov era filho do filho de seu sonho, quando ele morresse, o mundo... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Pare com essa tolice, Ag’te’mov! – gritou o Primeiro Mago. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela primeira vez na história da magia, o Feitiço Imobilizador do Sétimo Arco foi rompido apenas com força dos músculos. Mas o corvo de luz púrpura já deixara as mãos do jovem, já cruzava o espaço entre mestre e aprendiz. Lágrimas saltaram dos olhos do velho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o corvo violeta roubou a alma de Yo’te’lev, tudo em volta brilhou em resposta, brilhou com tanta força, com tanto poder, que tudo se tornou luz. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Mundo de Yo’te’lev foi a estrela mais brilhante a se extinguir no vazio da não-existência. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[...] &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma consciência flutuava nas trevas do não-ser. E ela começou imaginando o vento, movendo e empurrando tudo o que viria depois...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2502613120236415342-2598130574694703924?l=eisoptron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/2598130574694703924/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/08/conto-o-primeiro-mago.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/2598130574694703924'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/2598130574694703924'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/08/conto-o-primeiro-mago.html' title='[Conto] O Primeiro Mago'/><author><name>DanielFolador</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12052168755551551359</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sn2PcB1vKeI/AAAAAAAAAC8/_lEL3rRf5GY/S220/P1170002.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/THgu5SlY63I/AAAAAAAAAMA/kfL7QkQTb78/s72-c/wallpaper_creation_universe.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342.post-781497051827044491</id><published>2010-08-22T07:51:00.000-07:00</published><updated>2010-11-02T07:27:09.454-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Universo: Aera'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos Reunidos'/><title type='text'>[Conto] A Filha da Tempestade</title><content type='html'>&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/08/conto-um-segredo-por-outro.html"&gt;← Postagem anterior&lt;/a&gt; &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/08/conto-o-primeiro-mago.html"&gt;Próxima postagem →&lt;/a&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; font-family: Verdana,sans-serif; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TGb3zCD2TwI/AAAAAAAAAL4/A7SnsqChSSM/s1600/Electrical+Storm.jpg" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img height="300" src="http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TGb3zCD2TwI/AAAAAAAAAL4/A7SnsqChSSM/s400/Electrical+Storm.jpg" width="400" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;(do universo de Aera, o mundo dos Deuses Ventos)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Se tivesse sido encontrada em qualquer outro dia, não haveria problema algum. Afinal, não era incomum encontrar um bebê nas praias amarelas de Badi. Dizia o povo que eram os filhos de uma fada do mar com um habitante da cidade, deixados para crescerem com os pais já que não sobreviveriam embaixo d’água. Mesmo se ninguém reclamasse a criança, muitas famílias se disporiam a adotá-la, já que os filhos do mar traziam boa sorte na pesca. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Mas aquele não foi um dia bom. Amanheceu escuro como um quarto sem janelas, com nuvens pesadas cobrindo o céu do horizonte do oceano até as às longas planícies do continente, atrás da cidade. Nenhum homem se aventurou no mar naquele dia, e durante toda a manhã trabalharam para manter seus barcos seguros, e reforçaram suas casas. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Começou com um trovão. E então toda a fúria do céu desceu sobre Badi. As ondas tornaram-se imensas, a chuva açoitava as casas e o vento arrancava seus telhados. Logo o quebra-mar foi vencido pelas vagas, as amarras arrebentaram e inúmeros barcos foram afundados ou lançados contra os recifes. Alguns tentaram salvá-los, e tiveram o mesmo destino. O vento tornou-se tão poderoso que arrancava as raízes das árvores; casas vieram abaixo pela força do ar e raios incendiaram outras. As chamas elevaram-se, mesmo com toda aquela chuva. Muitos desapareceram, ou tragados pelo mar que esmurrava as praias, ou carregados pelo poderoso vento. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;A tempestade durou o dia inteiro. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Os badianos só puderam descansar com o amanhecer do dia seguinte, e este foi um dia triste. Muitas famílias perderam suas posses, seus barcos, suas casas. Outras perderam seus amigos e familiares para a tempestade e para o mar. A cidade estava destruída e os prejuízos eram incontáveis. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Foi nesse dia que encontraram o cesto de palha na areia. Era ainda uma recém-nascida, como todos os filhos do mar encontrados na praia, humana em todos os aspectos, exceto pelos olhos cinzentos como as nuvens da chuva. Ninguém quis adotá-la. Um nascimento precedido pelo pior dos augúrios, no dia seguinte à pior das tempestades. Não a queriam, mas não podiam abandoná-la; isso traria a fúria da fada do mar e muita má-sorte para toda a cidade. Entretanto, não houve homem algum que a clamasse por filha, tampouco uma família que a desejasse. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;_ Eu cuido dela – disse uma voz austera. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Todos olharam para quem falara. Os traços firmes, as roupas surradas, o olhar resoluto. Ninguém repara que o Faroleiro estivera presente, não até aquele momento. Abriram caminho quando ele se dirigiu ao centro da multidão, onde os chefes da cidade estavam reunidos. Ninguém se opôs e foi com alívio que a cidade viu a menina ser finalmente adotada. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Foi criada sozinha pelo solitário guardião do farol, um ex-navegante dos céus. Muito diferente dos outros filhos do mar, a menina era tratada com medo e ódio por aqueles que perderam seus entes para os ventos. Aliás, não a chamavam filha do mar, como os outros. Chamavam-na filha da tempestade, e ela carregou isso consigo toda a sua vida. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&amp;lt;&amp;gt;&amp;lt;&amp;gt;&amp;lt;&amp;gt;  &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;_ O que ela pretende?! Diga! &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;O chicote estalou. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;As costas desnudas da prisioneira sangraram sangue-seiva, manchando sua pele esverdeada de marrom-vermelho. A meia-fada ocultou uma lágrima de orvalho, seus cabelos de pétalas rubras, seu orgulho, agora murchos. Mas não trairia a capitã. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Outro estalo. O sangue da fada toca o convés pela primeira vez, e o segundo em comando tenta acalmar o capitão. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;_ Im Jalal, senhor – disse, em voz baixa – Acho mais sensato comprarmos a ajuda dela. Se ela passar para o nosso lado, pode nos contar o segredo para derrotarmos... &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;_ Não temos tempo, imediato! – berrou o capitão do galeão real – Essa prostituta não vai se dobrar fácil, e enquanto falamos a tempestade se aproxima! Mas não perderemos esses piratas, não dessa vez! &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;As nuvens do quinto nível do céu estavam carregadas, negras, logo acima deles. O dia estava escuro como um fim de tarde, e era apenas meio-dia! Se não capturassem o aeronavio pirata rápido, logo a tempestade tornaria qualquer manobra impossível, arriscando inclusive os tripulantes da frota real. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Os dois galeões de Al-Mashur finalmente encurralaram o famoso Trovoada. Emboscados numa baía, entre recifes voadores e as falésias de Al-Tamim, os aeronautas piratas não tinham muita escolha. Ou avançavam por entre os recifes traiçoeiros – e uma mínima corrente de ar poderia fazê-los em pedaços – ou enfrentavam os inimigos. Num primeiro confronto, capturaram a pirata fada e perfuraram o casco do Trovoada com seus virotes. Agora, o aeronavio mantinha distância, imóvel na entrada dos perigosos rochedos. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;_ Dorara não vai forçar caminho pelos recifes! – vociferou o capitão da frota real – Aquela vadia tem um plano, e você sabe qual é! Diga! – e o chicote estalou mais uma vez nas costas de Abalia. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Um trovão ressoou perigosamente perto. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;_ Senhor, o aeronavio está com medo da tempestade – anunciou o timoneiro – Está travando o leme! &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;_ Pois então gire mais forte! Ou alcançamos aqueles demônios antes da chuva, ou caímos com eles! &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;O imediato olhou apreensivo para o céu, e um vento frio percorreu o convés do galeão. Eles não se arriscariam se aproximar; os galeões são difíceis de manobrar e se pegassem um vento desfavorável poderiam se chocar contras os rochedos. O Trovoada parara na entrada dos recifes, de costas ao inimigo, e não fazia mais movimento. O capitão era um louco em insistir na perseguição, pois se a tempestade começasse, o aeronavio pirata seria o primeiro a cair. O melhor que fariam era mantê-los naquela posição e procurar por abrigo, tão logo caíssem as primeiras gotas. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;O Trovoada estava numa posição perigosa, mas enquanto se mantivesse ali, eles não podiam se aproximar. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;_ O que ela pretende? Ganhar tempo?! – gritou Jalal para Abalia – Dorara não é estúpida, não vai se jogar no meio dos rochedos com esse tempo, então porque não nos ataca? &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Não importava quantas chibatadas levasse, Abalia nada dizia. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Na trigésima, Jalal perdeu a paciência. Largou o chicote, desembainhou sua espada e correu até a pirata. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Abalia o viu se aproximando com um brilho perigoso nos olhos. Ele a levantou pelos cabelos vermelhos e esbofeteou seu rosto. Carregou-a até a borda do navio e a dependurou com a cabeça para fora. Não havia tantas nuvens nos níveis abaixo, e ela pôde ver a face do continente, distante. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;_ Quantos estádios de altura? Quatro, cinco? Daria pra você morrer umas dez vezes antes de chegar ao chão – segurou a cabeça dela, forçando-a para fora. Sem forças, ela não lutava – Agora me diga, o que ela está esperando? &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Um outro trovão, e então um pingo grosso de água molhou a face surrada de Abalia. Nesse momento, ela pôde sorrir. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;_ A chuva – respondeu. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;_ CAPITÃO! – berrou o imediato – Dorara vai atacar! &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Tão logo caíram os primeiros pingos, o Trovoada manobrou e se voltou contra os galeões. Num repente, os piratas desfraldaram suas velas e o aeronavio remou com força suas membro-asas. O seu tamanho diminuto lhe conferiu velocidade, e ele ganhou metade da distância que os separava em poucos segundos. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Um barulho de explosão sacode o galeão de Jalal. Os piratas tinham pedra-de-fogo! A chuva torrencial que começou a cair impediu o incêndio, mas os ventos tornaram-se mais fortes e o barco foi jogado para o lado. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Homens correram para segurar as amarras, o timoneiro lutou com o leme, os armeiros prepararam as bestas de guerra. Virotes cruzam o ar e três cravam-se no casco do inimigo. O Trovoada soltou um uivo de dor, audível mesmo com a tempestade, mas não deixou de avançar. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Relâmpagos brilharam nas nuvens e raios riscavam os céus. Abalia, esquecida no convés com o início do ataque sorri mais uma vez, antes de procurar abrigo. Era agora, agora que iriam descobrir porque o chamavam Trovada. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;_ Arqueiros, preparar! – ordenou Jalal. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Outro relâmpago incendiou o céu, e acima do fogo, da fumaça e das flechas, uma mulher se aventurou no cesto da gávea do aeronavio pirata, com a destreza de quem escalava o farol de Badi todo dia para brincar. Os ventos são fortes e o barco dançava no ar; mas o Faroleiro a ensinou a não temer os céus. Ela se põe de pé e estende os braços para cima. Seus olhos faiscavam. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Jalal a vislumbrou nos segundos do relâmpago. O Trovoada agora estava exatamente entre os dois galeões, e no momento em que o céu se iluminou, Dorara olhou para o seu inimigo, e estendeu seus dedos em sua direção. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Os arqueiros retesaram seus arcos e no exato momento em que Jalal ia dar a ordem, a grande luz desceu do céu, veloz como nenhum vento; tomou convés, arqueiros, tudo. O raio foi tão poderoso que partiu o mastro, perfurou o convés e alcançou a quilha, a alma do aeronavio. O som que se seguiu foi o grito de morte do galeão, que fez eco ao trovão que ensurdeceu o céu. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;O corpo queimado de Jalal vacilou no ar quando o galeão tombou de lado, e caiu no abismo. Ainda havia tripulantes vivos, mas um aeronavio morto não pode flutuar. O galeão mergulhou e afundou, levando os gritos dos homens consigo. Antes, porém, um gancho com corda foi arremessado do casario até o Trovoada, e uma figura esguia se lançou logo depois. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Um outro relâmpago, um novo raio nas mãos de Dorara, e o segundo galeão ardeu em chamas. Os ventos o fizeram rodopiar e perder controle, e logo seus tripulantes esqueceram a batalha para salvar suas vidas. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;A tempestade forçava o Trovoada contra as falésias da ilha voadora, mas o braço forte do timoneiro e a boa sorte de sua capitã os guiaram até o abrigo abaixo da ilha, uma caverna longe da chuva e dos ventos perigosos. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;Os olhos dela ainda brilhavam como tochas. O cabelo esvoaçava incontrolável, e sua aparência emanava poder. Molhada pela chuva, ela caminhou até a jovem meia-fada, surrada e sangrando, prostrada no convés. Sorriu e estendeu-lhe a mão. Abalia não pôde conter as lágrimas de orvalho. &lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;_ Bem vinda de volta, aeronauta. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2502613120236415342-781497051827044491?l=eisoptron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/781497051827044491/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/08/conto-filha-da-tempestade.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/781497051827044491'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/781497051827044491'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/08/conto-filha-da-tempestade.html' title='[Conto] A Filha da Tempestade'/><author><name>DanielFolador</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12052168755551551359</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sn2PcB1vKeI/AAAAAAAAAC8/_lEL3rRf5GY/S220/P1170002.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TGb3zCD2TwI/AAAAAAAAAL4/A7SnsqChSSM/s72-c/Electrical+Storm.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342.post-2884551481698618709</id><published>2010-08-14T12:40:00.000-07:00</published><updated>2010-09-08T14:27:35.070-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Universo: Grande Floresta'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos Reunidos'/><title type='text'>[Conto] Um Segredo por Outro</title><content type='html'>&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt; &lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/05/resenha-paradigmas1.html"&gt;← Postagem anterior&lt;/a&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/08/conto-filha-da-tempestade.html"&gt;Próxima postagem →&lt;/a&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&amp;nbsp;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TGbxII-OQyI/AAAAAAAAALo/Sz-lnK6y45E/s1600/deer-cave+c%C3%B3pia.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="400" src="http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TGbxII-OQyI/AAAAAAAAALo/Sz-lnK6y45E/s400/deer-cave+c%C3%B3pia.jpg" width="342" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;(do universo da Grande Floresta) &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ta-Ijú escorregou e caiu com o rosto no chão de pedra e lama da caverna. A pressa o fazia desajeitado. Levantou-se rápido e prosseguiu com mais cuidado. A caverna tornava-se escura a cada passo, mas os olhos do clã Tatuna enxergavam melhor na ausência de luz. Era uma caverna alta, mais de terra do que de pedra, que entrava fundo na maior montanha do vale. Andou um tanto mais, subiu uma grande rocha e chegou onde queria: uma depressão escavada, tão grande que abrigaria facilmente cinco ocas de sua tribo. Estava cheia de galhos de árvores e tinha até árvores inteiras tombadas. Mergulhou no emaranhado de plantas ainda verdes e cavou seu caminho até o centro, a pele resistente dos homens de seu clã ignorando o açoite dos galhos. Foi com grande alegria e júbilo que encontrou o que procurava, aquilo que o lançou naquela empresa extremamente arriscada. Tomou-o em suas mãos com cuidado, e cavou rápido entre os galhos seu caminho de volta. Quando já encontrava a saída ouviu o som de pegadas fortes, e então largou a cautela e se lançou com velocidade para longe da caverna. O urro da fera ao descobrir-se roubada foi tão imponente que derrubou Ta-Ijú em plena carreira, fazendo-o tropeçar e lançar o valioso item vale abaixo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Não! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas agora era pela sua vida que ele corria, serpenteando entre as grandes árvores do vale Nhauje, para longe, para a sua aldeia, para o seu fracasso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;&amp;gt;&amp;lt;&amp;gt;&amp;lt;&amp;gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os homens que habitam o interior da serra na região oeste da Grande Floresta há muitos anos não conhecem a guerra. Sem o combate contra outras tribos, tiveram tempo para aperfeiçoar sua caça e sua arte, e se tornaram sábios entre os sábios da floresta. Ali habitam grandes guardiões da tradição e sacerdotes respeitados no culto aos deuses, que conhecem a história das tribos e todos os Grandes Chefes. Viajantes de várias nações vêm até o vale abençoado para ouvir de seu conhecimento, e por vezes os filhos dos Grandes Chefes são enviados para lá a fim de aprenderem a religião dos pais de seus pais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na fronteira da serra que guarda o vale habita outra tribo de homens, mas que não veneram o Grande Jaguar, criador dos céus. Esses são do clã Yatinga e servem ao espírito da montanha. O nome do vale abençoado, Nhauje – escudo de lama na língua morta – veio dos escudos usados por essa tribo, pintados com a lama do alto da serra. A tribo Yatinga é grande guerreira, e protegeu o vale por gerações sem conta contra as investidas dos clãs de fora, ávidos pelos segredos sagrados, principalmente contra a nação subterrânea de Tatuna, de quem sempre foram inimigos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jaó-Pyá sorriu. O ar noturno do vale o revigorava a cada lufada de vento, e ele podia dizer que sentia a pulsação da terra sob seus pés. As grandes árvores eram sombras na noite que se erguiam muito acima dele, de grossos troncos e frondosas folhas, e ele quase podia dizer que ouvia os seus sonhos. Realmente, Nhauje era um lugar abençoado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Jaó-Pyá, não pára ainda. Já andamos muito, é verdade, mas ainda devemos galgar três colinas antes de chegarmos lá. O grande caçador já cansa? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O outro saiu rápido de seu devaneio. Ganhou velocidade e logo alcançou o amigo. Não o chamavam Jaó-Pyá por acaso, tinha os pés mais velozes dentre todos os caçadores da tribo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Segue Ya-Eté de perto, pois apenas ele conhece o caminho – disse o feiticeiro – o mau espírito obscurece a trilha e engana o bravo, mas a magia de Ya-Eté pode levar até ele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jaó-Pyá o seguiu respeitoso. Conhecia a magia do amigo, já há três verões caminhavam juntos, e ele nunca vira feiticeiro igual. Ya-Eté não era da tribo dos homens de Jaguar, como ele, mas da tribo Yatinga da borda da serra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O feiticeiro parou de súbito. Agarrou um punhado de terra e folhas do chão e o esfregou na ponta de seu cajado. Inspirou fundo, e apontou para a nova direção que tomariam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ O mau espírito confunde a trilha – disse ele – mas com a magia de Ya-Eté e com a força de Jaó-Pyá, ele será destruído. E então, não mais as manadas fugirão do vale sagrado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Que o Grande Jaguar abençoe a habilidade de Ya-Eté – disse o caçador – A tribo de &lt;br /&gt;Jaó-Pyá teme a falta de caça, mas teme ainda mais ter de abandonar Nhauje. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Não! Tal pecado jamais será permitido. Não tema, amigo, pois pelo teu braço o mau espírito será morto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seguiram. Contornaram uma árvore tão grande que sua copa escura se confundia com o céu, e subiram entre os arbustos de mais uma colina. Um vento frio lambeu as costas nuas do caçador, e por um raro momento ele teve medo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Ya-Eté... – disse – Os mais velhos de minha tribo dizem que apenas os espíritos matam os espíritos, e que os homens podem apenas agradar-lhes ou afugentá-los. Como o caçador poderá enfrentar o espírito que ataca a caça do vale? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O feiticeiro não respondeu de imediato, ao invés disso pediu silêncio. Verificou a terra onde pisavam, e fungou o cheiro da mata. A magia ali era forte. Por um momento, então, a lua vacilou no céu, borrada como o ar quente sobre uma fogueira, e toda a floresta silenciou. Então ele viu a trilha secreta que nenhum olho pode ver, mas um trovão distante o tirou de seu transe, e ele estava de volta à floresta, com seus sons, com a mesma lua, e Jaó-Pyá esperando a resposta de sua pergunta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O velho suspirou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ A tribo de Jaó-Pyá está certa – disse – Os espíritos não podem ser enfrentados pelos homens, não sem auxílio igualmente espiritual. Não tema, amigo. Ya-Eté veio preparado, e dará ao bravo os meios para vencer a fera. Ya-Eté conhece o valor de Jaó-Pyá, lembra-te de que foi através de um sonho que os espíritos me contaram de ti. Segue o grande caçador, disseram, e então um terrível mal será evitado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Já há três verões me acompanhas, amigo. Será este o grande mal de que disseram os espíritos? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O outro sorriu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Esta é a grande certeza da vida de Ya-Eté. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminharam mais uma vez. O feiticeiro ajoelhou-se e tomou uma pedra branca do chão. Fechou os olhos, inspirou fundo. Novamente a floresta silenciou, como num sonho distante. Dessa vez até Jaó-Pyá percebeu, e ele também viu. Uma trilha muito bem cuidada, que não estava ali momentos antes, subindo a colina, serpenteando entre os arbustos e troncos das árvores. Dessa vez o transe não foi cortado, e puderam entrar no caminho. Não precisaram andar muito quando alcançaram a entrada da caverna. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro trovão ribombou, e a chuva começou a cair. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Agora, Jaó-Pyá, ajoelha – sibilou o feiticeiro – Tu entrarás no ninho do espírito, e precisas de proteção. Em breve serás capaz de executar o que ao homem não é permitido. Escuta; o que ouvires de Ya-Eté, agora, ele pede que esqueças. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Jaó-Pyá aceita. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O feiticeiro enfiou os dedos em sua bolsa de couro e um pigmento verde tingiu sua mão. Com ele, desenhou símbolos no rosto e peito de Jaó-Pyá, enquanto recitava: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Pelos poderes da terra e das sombras, Ya-Eté invoca a fraqueza. À água fria que pulsa no interior do solo, ele oferece o vigor; à rocha anciã que nunca viu a luz do sol, ele oferece a resistência; à mentira proferida mil vezes, Ya-Eté oferece o sangue da verdade... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jaó-Pyá nunca ouvira um encatamento proferido com tanta fúria. Por um momento a luz da lua, já pálida pelo véu do mau espírito, pareceu sumir. As estrelas se apagaram, o vento morreu. A tinta verde então não era tinta, mas sangue, frio como pedra do alto da serra. Um arrepio de morte passou por sua espinha, e ele se viu caindo ensangüentado e inerte no chão escuro, e uma risada de triunfo, aguda como uma águia, a ecoar pelo mundo. Viu as lágrimas de Jaó-Emi, seu amor secreto, lágrimas que embalavam seu corpo sem vida. Sentiu vontade de gritar, mas o arrepio passou, e estava novamente ajoelhado diante de Ya-Eté. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ ...pelo tremor que faz a terra dançar, pelo pó que já foi o corpo dos Grandes Chefes, Ya-Eté invoca a ruína! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O arrepio ameaçou voltar, mas não veio, e então Ya-Eté derramou óleo sobre a cabeça do caçador. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Que os espíritos da terra estejam contigo – sorriu ele. O fez se levantar e continuou – estás pronto. Vai, o espírito dorme agora, guarda a flecha e leva a lança. Crava-a no olho esquerdo da fera, crava-a fundo e volta vitorioso. O que quer que sintas de estranho no seu caminho, ignora! É a magia do espírito. Vai. Espero por ti. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jaó-Pyá levantou-se e iniciou sua caminhada, mas então se voltou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Ya-Eté, amigo, quando tudo estiver terminado, Jaó-Pyá tem um favor a te pedir. Por algumas luas ele guardou um segredo de ti, pois esse não dependia apenas da vontade do caçador, mas quando ele retornar de bom grado o revelará ao amigo. O favor que ele pede é que não se zangue com Jaó-Pyá. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Não há nada que possa zangar Ya-Eté vindo de ti – disse o feiticeiro – e mais: se voltares com o sangue do espírito ruim, Ya-Eté revelará o segredo que torna o clã Yatinga tão poderoso – sorriu – Agora, vai! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Um segredo por outro – sorriu Jaó-Pyá – Que o Grande Jaguar fique contigo – e entrou na caverna. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O feiticeiro disse ainda algo, mas ele já não pôde ouvir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;lt;&amp;gt;&amp;lt;&amp;gt;&amp;lt;&amp;gt;  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jaó-Pyá caminhou pelo chão de pedra e lama da caverna. Logo ficou difícil enxergar. E era uma caverna alta, tão alta quanto as copas do fundo do vale. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma sensação familiar balançou em sua mente, e ele teve ânsias de largar a arma e fugir para o vale. Mas lembrou-se das palavras de Ya-Eté e seguiu em frente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subiu um monte de pedra e encontrou uma grande depressão escavada no solo, cheia de sombras. Os olhos demoraram um pouco a se acostumar com o escuro, e então descobriu que as sombras eram galhos de árvores e árvores inteiras, jogados umas sobre as outras. Um ninho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subiu um grande tronco e divisou, ao longe, um vulto pálido no centro da depressão. Apertou a lança em seu punho e mergulhou no emaranhado de galhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ressonar do espírito fazia vibrar as folhas mortas e o chão do ninho. Em pouco tempo, ele alcançou o centro, subiu numa grande araucária tombada e finalmente vislumbrou seu inimigo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um lagarto enorme, maior que o maior tigre que Jaó-Pyá já vira. Seus olhos eram do tamanho da cabeça de um homem; seus dentes, pendurados na boca aberta, do tamanho do braço do caçador. A cabeça engoliria facilmente cinco guerreiros, a garra esmagaria duas ocas sem dificuldade. A cauda, que serpenteava entre os troncos caídos, tinha escamas tão espessas quando o tronco da jaqueira, e pareciam tão resistentes quanto uma pedra-de-luz. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo isso seu instinto de caçador lhe contou, mas havia algo mais. O corpo do espírito era branco como leite de cabra, pálido agora na escuridão da caverna, mas deveria refulgir como um espelho na luz do dia. Emanava uma sensação tão branda e tão familiar, que Jaó-Pyá achou difícil ser essa a fera que devorava as manadas e espantava a caça do vale sagrado. Não sabia porque, mas seus olhos ameaçaram chorar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É a magia do espírito, lembrou-se. Ele enganará o grande caçador, e então o devorará quando despertar. Jaó-Pyá ergueu a lança, e pela última vez teve vontade de desistir, mas não afrouxou a arma. Mirou o olho do inimigo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O urro de dor fez a terra tremer, e a montanha inteira reclamou de volta. Muitas árvores vergaram, os pássaros revoaram preocupados, os animais fugiram de seus abrigos. A fera gritou ainda mais uma vez, quando o caçador impelia a lança contra seu crânio, e novamente a montanha inteira rangeu de fúria. Um terceiro rugido, e então Ya-Eté ouviu o grito de dor de Jaó-Pyá. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então silêncio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A lua tornou-se real de novo; o véu foi destruído. Estava feito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Surgiu do interior da caverna, então, um corpo de homem, coberto em sangue e dor, se apoiando num pedaço de pau. Morria. O sangue fluía como rio e empoçava em seu caminho, a pele estava rasgada. Usava a lança quebrada para prosseguir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ O que aconteceu... – murmurava Jaó-Pyá, em dor – Ya-Eté, amigo, o que aconteceu? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A resposta foi uma risada de escárnio, e o caçador lembrou-se de sua visão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Quinze verões! – exclamou Ta-Ijú, pois este era o verdadeiro nome do feiticeiro – Por quinze verões perambulei pelo vale, ocultando meu nome, meu clã, meu orgulho. Demorei a encontrá-lo, filho da montanha, como demorei, e mesmo assim, levou-me três verões para fazer-te meu amigo, para ganhar tua confiança! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O caçador tremeu, antes de dor do que de entendimento, mas ainda não caiu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Jaó-Pyá não entende... – disse. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Devo-te um segredo, Jaó-Pyá, o segredo do poder da tribo Yatinga. Yatinga também é o nome do espírito da montanha, o grande lagarto branco que protege a tribo que o venera. Enquanto Yatinga viver, assim viverá a tribo de mesmo nome, e assim Nhauje viverá impenetrável. Há muitos verões o clã Tatuna guerrea contra essa tribo, e há muitos verões perdemos. Mas num ritual de dor e sangue, o grande espírito Tatuna veio a mim, e profetizou sobre o seu nascimento. Disse que o grande dragão branco só seria morto por seu próprio sangue. Há quinze verões tentei roubar um ovo do ninho, mas te perdi na fuga. Tu creceste como um homem entre os homens, hábil caçador e veloz quando toca o solo, porque és filho de um espírito da terra. Somente teu poder podia destruir tua mãe, e somente ela podia destruir-te. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu cacei as manadas e as afugentei com minha magia. O encantamento que a pouco proferi tornou-te fraco, vulnerável às garras de tua mãe. Agora ela está morta, e logo tu também morrerás, filho da montanha. Tua linhagem desaparecerá, e com ela, a proteção do vale. Os feiticeiros de Tatuna finalmente vencerão os Yatingas, tomaremos o vale e a tribo de Jaguar que habita nele, e seremos senhores de seu conhecimento e poder! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ta-Ijú continuou a falar, mas os sons emudeceram nos ouvidos de Jaó-Pyá. A luz sumiu de seus olhos, e, graças a Jaguar, a dor deixou o seu corpo. Iria agora para junto de sua mãe, a mãe que ele não conhecera e que ele mesmo matara. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de morrer, sua mente ainda se lembrou da promessa não cumprida, do segredo que devia. Seus olhos mortos choraram quando se lembrou da bela Jaó-Emi e de seu amor, proibido pelo amigo feiticeiro. Sorriu ainda um sorriso de esperança, quando se lembrou do filho ainda não nascido, gerado em segredo, sangue do seu sangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2502613120236415342-2884551481698618709?l=eisoptron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/2884551481698618709/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/08/conto-um-segredo-por-outro.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/2884551481698618709'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/2884551481698618709'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/08/conto-um-segredo-por-outro.html' title='[Conto] Um Segredo por Outro'/><author><name>DanielFolador</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12052168755551551359</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sn2PcB1vKeI/AAAAAAAAAC8/_lEL3rRf5GY/S220/P1170002.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TGbxII-OQyI/AAAAAAAAALo/Sz-lnK6y45E/s72-c/deer-cave+c%C3%B3pia.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342.post-4046279596965718005</id><published>2010-05-13T20:04:00.000-07:00</published><updated>2010-09-08T14:26:05.579-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Resenhas'/><title type='text'>[Resenha] Paradigmas1, parte I</title><content type='html'>&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt; &lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/04/lancamento-fiat-voluntas-tua-ii.html"&gt;← Postagem anterior&lt;/a&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/08/conto-um-segredo-por-outro.html"&gt;Próxima postagem →&lt;/a&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TIf_YrBHEsI/AAAAAAAAAM4/OZ70CsIzQtk/s1600/Paradigmas-1.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="400" src="http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TIf_YrBHEsI/AAAAAAAAAM4/OZ70CsIzQtk/s400/Paradigmas-1.jpg" width="273" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Uma resenha que estou devendo há algum tempo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, o livro é uma coletânea de 13 contos de fantasia e ficção científica, variando desde o&amp;nbsp;&lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Cyberpunk"&gt;cyberpunk&lt;/a&gt; à &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Fic%C3%A7%C3%A3o_hist%C3%B3rica"&gt;ficção histórica&lt;/a&gt;, com lendas rurais, urbanas e até uma passagem pelo &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/New_Weird"&gt;new weird&lt;/a&gt;. A idéia&amp;nbsp; era trazer contos que quebrassem com os paradigmas comuns, trazendo idéias novas e situações antes impensadas. O objetivo é fazer o leitor encontrar histórias diferentes, e posso dizer que a maioria dos contos cumpriu com seu dever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E gostaria de parabenizar os editores pelo formato do livro. A  idéia de quebrar os paradigmas na própria diagramação foi muito  interessante, e nos surpreende quando não encontramos o índice, ou vemos  o que seriam três introduções. A idéia ficou bastante agradável. E,  claro, o preço é bastante acessível. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abaixo, as resenhas dos primeiros 6 contos. As demais estão por vir.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;_______________________________________________________&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;MAI-NI Expressas - Richard Diegues&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Como o próprio autor colocou, um cyberpunk à latina. Segundo ele, seu conto buscou quebrar os paradigmas ao fazer a trama secundária aos personagens, e de fato, pouco ou nada se sabe sobre o que acontece ou vai acontecer. O foco da narrativa é Cid, um entregador do mais alto nível de entregadores da MAI-NI Expressas. Há ainda Glenda, outra entregadora, mas com certeza  a personagem mais presente depois de Cid é sua moto, a Shadow Runner, que pode sair do repouso até 1600 km/h em menos de um minuto.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O conto tem leves toques de humor e muita velocidade. Achei-o bem escrito, e é interessante a abordagem da internet: quando o usuário se pluga a realidade ao seu redor é remodelada , ele nunca deixa o espaço físico, mas vê, ouve e interage dentro de um espaço virtual.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O único ponto estranho do conto é quando os entregadores se reunem. Durante a leitura, somos induzidos a crer que o nível de entregador NI-6, o mais alto, difícil e trabalhoso de ser obter. Mas então, num bar escondido da estrada, vemos vários NI-6 e NI-5 bebendo juntos. A passagem pelo universo do conto é curta, seria interessante haver níveis menores de entregadores - até em maior quantidade - para justificar a raridade dos níveis altos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;_______________________________________________________&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Vento, seu fôlego. Mundo, seu coração - Jacques Barcia&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Na minha opinião, o melhor conto do livro. O texto é bem escrito e tem o êxito de fugir de nossa fantasia euro-ocidental. Jacques nos brinda com uma realidade alternativa baseada na mitologia, filosofia e religião hindu, um hindupunk, eu diria. A magia é lançada por monges balísticos, as cidades possuem usinas de &lt;i&gt;chi &lt;/i&gt;com canais de feng-shui, e um deus vingativo traz destruição. O universo foi muito bem construído, é uma pena que tenhamos que deixá-lo logo, já que é um conto é curto.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;É muito interessante o que Jacques veio mostrar: que há outras culturas e outras matérias com as quais podemos fazer literatura, não só o costumeiro capa-e-espada e fantasia medieval ocidental. Há uma gama de países e culturas que podem e devem ser utilizadas. Não desmereço os demais temas, mas&amp;nbsp; acredito que a literatura deva andar por todo o campo do estádio, e não se restringir à grande área. Que haja jogadores na zaga, mas que não faltem no meio-campo e ou no ataque.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;_______________________________________________________&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;Um forte desejo - M. D. Amado&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um conto que funde medo, sexo e mistério. O paradigma a ser quebrado pelo autor foi escrever na voz de uma mulher, mas confesso que achei certas passagens e falas muito masculinas. Um dos três contos da coletânea que foram ambientados em nosso próprio mundo, em nossa própria época.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sedução e terror: a idéia óbvia era um vampiro, tão em voga na literatura de hoje. Amado contornou o óbvio e criou seu próprio Terror, cumprindo com a proposta do livro. E o mistério é bem trabalhado, mesmo no final do conto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ponto fraco foi o último parágrafo. A narradora-personagem o escreve no presente, mas duvido que alguém possa escrever na situação dela naquele momento. Nesse ponto, o conto pecou por falta de verossimilhança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_______________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;b&gt;O Mendigo e o Dragão - Bruno Cobbi&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;O  &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/New_Weird"&gt;new weird&lt;/a&gt; do livro, pelo menos pelo que entendo do gênero. O conto junta tráfico de drogas,&amp;nbsp; corrupção, magia, combate armado e survival horror. O conto dono do parágrafo mais interessante e bem sacado do livro: a descrição, em português coloquial mesmo, das criaturas enfrentadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como o próprio autor ressalta, foi um belo desafio quebrar paradigmas utilizando justamente o ícone mais conhecido e utilizado das histórias da fantasia, o Dragão. Utilizou inclusive o tema do tesouro do dragão, conhecido de muitos rpgistas. A abordagem, no entanto, não peco por falta de origi nalidade!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ponto ruim que encontrei foi um tanto no desenrolar dos fatos, ou a maneira como o autor os dispôs. O conto é dividido em 6 partes: Prólogo, Parte1, Parte2, Interlúdio, Parte 3 e Epílogo.Os narradores mudam em cada parte, mostrando pontos de vista de diferentes personagens, em cenas distintas. É preciso um pouco de esforço para juntar as peças, principalmente com as informações tomadas por gírias e coloquialismos dos personagens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_______________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Una &lt;/b&gt;- Roberta Nunes&lt;br /&gt;Uma sacralização do prazer, por aí já uma quebra de tabus. Una é uma alienígena metamorfa cuja função é ensinar aos povos de todos os sistemas o &lt;i&gt;prazer pelo prazer&lt;/i&gt;. Os nomes foram um tanto alterados, mas vemos uma reescrita de uma história muito conhecida de todos, dessa vez na visão daquela que foi rejeitada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A autora utiliza um recurso de que gosto muito, o de comentar sobre coisas inexistentes como se fossem já conhecidas do leitor, não explicando, deixando os detalhes à cargo da imaginação do leitor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só torci o nariz para a 'forma original' do Renegado. Entendi que a idéia era justamente a referência à nossa cultura, mas conto se sairia muito bem sem essa 'forma original', não tão original assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_______________________________________________________&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Fogo de Artifício - Eric Novello&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;Uma fantasia urbana &lt;a href="http://en.wikipedia.org/wiki/Hardboiled"&gt;noir&lt;/a&gt; pautada num dos clássicos da literatura infantil, Alice, do &lt;a href="http://simple.wikipedia.org/wiki/Lewis_Carroll"&gt;Lewis Carroll&lt;/a&gt;. Fundiu-se a história infantil com violência e cenas eróticas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O protagonista é Ícaro, mago investigador do BEAST, Batalhão de Especial de Assuntos Sobrenaturais. O personagem é convincente, não um herói ingênuo; é bem humano em suas especulações e pensamentos. Os antagonistas: uma quadrilha que se inspira - se é que não o são - nos&amp;nbsp; personagens de Alice, sendo a própria Alice a assassina chefe. Atacam lojas de brinquedo e&amp;nbsp; tomam&amp;nbsp; a vidas de crianças. O que Alice quer é o corpo de Ícaro. E ele vai pagar pra ver...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2502613120236415342-4046279596965718005?l=eisoptron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/4046279596965718005/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/05/resenha-paradigmas1.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/4046279596965718005'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/4046279596965718005'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/05/resenha-paradigmas1.html' title='[Resenha] Paradigmas1, parte I'/><author><name>DanielFolador</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12052168755551551359</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sn2PcB1vKeI/AAAAAAAAAC8/_lEL3rRf5GY/S220/P1170002.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/TIf_YrBHEsI/AAAAAAAAAM4/OZ70CsIzQtk/s72-c/Paradigmas-1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342.post-3942648504050562660</id><published>2010-04-24T09:09:00.000-07:00</published><updated>2010-09-08T14:22:14.898-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Artigos'/><title type='text'>Lançamento! Fiat Voluntas Tua II</title><content type='html'>&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt; &lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/03/conto-sempre-noite.html"&gt;← Postagem anterior&lt;/a&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/05/resenha-paradigmas1.html"&gt;Próxima postagem →&lt;/a&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/S9MX_Gu3X7I/AAAAAAAAALE/ArMOEut2-x8/s1600/Sem+T%C3%ADtulo-3.jpg" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/S9MX_Gu3X7I/AAAAAAAAALE/ArMOEut2-x8/s400/Sem+T%C3%ADtulo-3.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;É com prazer que revivo o blog divulgando o lançamento da antologia FIAT VOLUNTAS TUA II, segundo trabalho do qual participo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um pedaço do release: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;A dicotomia presente em alguns de nossos atos mais cotidianos, personificada nas essências dos anjos e demônios, é o grande desafio dessa obra. Após uma bem-sucedida primeira compilação, a Editora Multifoco traz o segundo número da antologia 'Fiat Voluntas Tua'.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se na coletânea inicial os anjos assumiram o papel de protagonistas, chegou a hora e a vez de os demônios mostrarem sua versão. Nesta edição, foram selecionados 23 contos de 23 jovens autores que sempre se fascinaram pela dualidade desse tema.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;Tradução em latim de 'Seja Feita a Vossa Vontade', ela explora na verdade nossas mais profundas contradições. Mais do que uma compilação de contos de ficção, o livro nos transporta para questionamentos que nada mais são do que o espelho de nossas mentes e atitudes." &lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E que lugar melhor para falar de &lt;b&gt;espelhos &lt;/b&gt;do que o Eisoptron?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agradeço novamente ao editor Frodo Oliveira, e às organizadoras Monica Sicuro e Rúbia Cunha pela oportunidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O lançameto já ocorreu, e infelizmente não pude comparecer. Mas outros dois lançamentos ainda serão marcados, atualizo assim que for informado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os autores:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alex Bastos&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Alex Eduardo Lopes&lt;br /&gt;Andrey Ximenes&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Anna Amorim&lt;br /&gt;Armim Daniel Reichert&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Daniel Folador Rossi&lt;br /&gt;Duda Falcão&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Félix Maranganha&lt;br /&gt;Georgete Silen&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ieda Silva Castaldi&lt;br /&gt;Jones V. Gonçalves&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Juliana Neves&lt;br /&gt;Kleber Gustavo&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Lady&lt;br /&gt;Monica Sicuro&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mr. Sehsiw&lt;br /&gt;Pedro Moreno&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;                 Poli Gomes&lt;br /&gt;Rúbia Cunha&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;                  Ryan Vandresen Dacoregio&lt;br /&gt;Samuel J. Silva&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;              Sóira Celestino&lt;br /&gt;Thiago Felix&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Confiram o trailer do livro:&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;object height="420" width="510"&gt;&lt;param name="trailer_fiat2" value="http://www.youtube.com/v/KMH55anGw_g"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="wmode" value="transparent"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/KMH55anGw_g" type="application/x-shockwave-flash" wmode="transparent" width="510" height="420"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2502613120236415342-3942648504050562660?l=eisoptron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/3942648504050562660/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/04/lancamento-fiat-voluntas-tua-ii.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/3942648504050562660'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/3942648504050562660'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/04/lancamento-fiat-voluntas-tua-ii.html' title='Lançamento! Fiat Voluntas Tua II'/><author><name>DanielFolador</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12052168755551551359</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sn2PcB1vKeI/AAAAAAAAAC8/_lEL3rRf5GY/S220/P1170002.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/S9MX_Gu3X7I/AAAAAAAAALE/ArMOEut2-x8/s72-c/Sem+T%C3%ADtulo-3.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342.post-448311483382016632</id><published>2010-03-22T11:14:00.000-07:00</published><updated>2010-09-08T14:20:57.784-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Universo: Outros'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos Reunidos'/><title type='text'>[Conto] Sempre noite</title><content type='html'>&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt; &lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2009/11/resenha-o-misterio-da-estrela-stardust.html"&gt;← Postagem anterior&lt;/a&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/04/lancamento-fiat-voluntas-tua-ii.html"&gt;Próxima postagem →&lt;/a&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/S6ezeQO8oDI/AAAAAAAAAKo/4ODZUofmiDw/s1600-h/Sem+T%C3%ADtulo-2.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/S6ezeQO8oDI/AAAAAAAAAKo/4ODZUofmiDw/s320/Sem+T%C3%ADtulo-2.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Foi tudo culpa da internet.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou seria culpa dos próprios homens, que tornam em armas contra si mesmos tudo o que tocam? Bem, já não importa mais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Demorou algumas décadas, mas os sacerdotes do Culto da Estrela Escura finalmente reuniram, após considerável esforço, os sete artefatos e meio da Anti-luz. Claro que a internet foi uma ferramenta maravilhosa. O culto existia desde a dinastia Maurya na Índia, quando um asura escuro sussurrou os escuros preceitos para o sábio Shyamal, mas só reunira quatro dos artefatos nos seus dois milênios de existência. Mas veio a internet, e o culto pôde se expandir por quase todo o planeta, e em menos de vinte anos os últimos instrumentos foram encontrados. Talvez por isso, nem o homem nem os deuses puderam impedir a desgraça. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A proposta de Shyamal era audaciosa. Uma maneira de se libertar do ciclo da vida, um caminho alternativo que fugia das grandes provações de cada encarnação e atingia a iluminação facilmente. E parecia simples: bastava roubar a luz de todos os outros. Para tanto, proferia o Sábio, era preciso a união dos Artefatos da Anti-luz, cuja localização estava cifrada em um poema cantado para o sábio num sonho de uma noite sem lua. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O culto nunca foi muito popular, não até este século. Nunca passara das duas centenas de cultistas, que organizavam seus estranhos rituais nas sombras da sociedade, mas esse número saltou para os muitos milhares na era da informação. Quem não queria salvação fácil? A muitas mãos, o poema de Shyamal pôde ser mais rapidamente decifrado e a busca finalmente pôde chegar a termo. Num ano sem graça, no meio de um outono cinzento, encontraram o penúltimo artefato, no México. Uma faca de obsidiana que, segundo Shyamal, foi banhada doze vezes no sangue de Tezcatlipoca, quando este deixou de ser o sol do mundo. A descoberta pôs todos os cultistas em polvorosa, ansiando pela tão esperada libertação, o que fez com que apenas dois meses depois encontrassem o último, o meio artefato: um cajado was partido, enterrado sob as dunas escaldantes há 100 quilômetros do vale do Nilo, que, dizia-se, pertencera ao próprio Seth. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mundo não estava preparado para o que viria. No dia da união dos lendários instrumentos, numa remota província do interior da Índia, o Sol se pôs como durante toda a existência havia feito, mas não levantou mais. E o mundo apagou com ele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&amp;lt;&amp;gt;&amp;lt;&amp;gt;&amp;lt;&amp;gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;(em algum lugar do Brasil, três ou quatro meses depois) &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Todos nós fomos avisados – dizia a velha, sentada nas ruínas do que fora uma casa, ao redor de uma fogueira. Alguns dos presentes lhe davam ouvidos, outros sequer olhavam em seu rosto. Todos a odiavam – Fomos avisados sobre o dia da união. Nesse dia, o dia em que seriam reunidos todos os sete artefatos e meio, deveríamos fazer o que nos foi ensinado desde que entramos para o culto: deveríamos arrancar a nossa própria vida. Assim têm sido, desde os primeiros cultistas. Todos nós, no final, deveríamos arrancar o próprio sangue, para acorrentarmos nossa alma a este mundo e não reencarnar. Então, outro cultista receberia essa alma, carregando-a como parte de si. Quando este também se suicidasse, passaria o fardo para o seguinte, e assim em diante. Os sacerdotes mais graduados tinham dezenas de almas acorrentadas às suas... – a velha devaneou, seu olhar se perdendo no breu atrás da janela, passeando pelas sombras da Sempre Noite – Diziam que eles podiam se aconselhar com os cultistas do passado, para que levassem a tradição a bom termo, para a salvação de todos. Para a nossa salvação, devo corrigir. Foi nossa culpa, sim, nossa culpa. Nosso ritual roubou a Luz! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela baixou o rosto entre as mãos, chorando amargamente. Ninguém ousou consolá-la. Continuaram ali, olhando-a ou não, esperando que terminasse de contar o flagelo do mundo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Foi nossa culpa – continuou – Onde estão os outros cultistas, vocês perguntam. Eu sou a última, os rumores estão certos, sou a última. Não tive coragem de realizar o ritual final, de sacrificar minha vida. As almas que eu mesma carrego gritaram de horror no momento em que desviei o punhal de meu peito, porque sabiam, nunca mais seriam libertas, e esperaram tantos e tantos decênios para nada. Eu ouvi. Ouvi as muitas maldições que proferiram contra minha alma, senti o ódio que me dirigiram, o ódio por lhes roubar o sonho final, o sonho da iluminação. Mereci cada palavra. Ainda agora ouço suas maldições e seus lamentos, chorando sua salvação perdida e prometendo-me mil torturas quando minha hora chegar. Sou amaldiçoada por eles e por vocês. Quando eu terminar essa história, façam o que vieram fazer, não os culpo, nem os impeço. Apenas lhes peço que me esperem terminar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“No dia da união, todos elevaram o punhal contra o próprio peito, assim devia ser, no momento em que o sol se pôs. Ouvi o grito de morte de dez colegas, e subitamente o medo congelou minha mente e imobilizou minha mão. Por isso eu fiquei para trás. Mais tarde, não encontrei os corpos de nenhum deles. Não faço idéia de onde estejam, nem se as palavras do Sábio eram verdadeiras, ou se eram apenas uma armadilha terrível cantada por um demônio. Sim, isso explica o sumiço de muitos de seus amigos, seus pais, seus irmãos. Aqueles que desapareceram no último dia do mundo, os quais nunca mais vocês viram: eram todos cultistas, todos seus algozes. Dizem que as trevas os engoliram. Eu mesma não sei. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Muitos outros caíram no Sono, mas estes não eram do culto. Não sei por que razão tantas e tantas pessoas nunca mais acordaram. Descobri mais tarde que assim foi por toda a cidade. Talvez por todo o mundo... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu saíra de casa naquele dia, disse à minha mãe que dormiria na casa de uma amiga, e fui ao templo. Quando a Sempre Noite desceu, eu tinha apenas vinte e um anos. Vinte e um anos – lágrimas escorreram pelo rosto da velha – Mas o ódio das almas que carrego esbranquiçou meus cabelos, enrugou minha pele e enfraqueceu meus ossos. Eles me querem. Assim como vocês, eles me querem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Isso foi há muito tempo, perdi a conta dos dias desde que o dia parou de nascer. Vocês se lembram, não? – na platéia, até agora impassível, uma mulher arremessou raivosa uma pedra contra seu rosto. A velha caiu com um gemido abafado, mas se levantou devagar, com um filete de sangue brotando da testa. Os outros nada fizeram. Desejavam matá-la, é verdade, mas desejavam antes ouvi-la – Vocês se lembram, claro – tentou sorrir, mas sentiu o ódio daqueles olhos iluminados pelo fogo e o riso morreu nas sombras – O sol se foi e levou consigo toda a luz. No começo, achei que fosse só ali no templo, só ali onde me escondi quando minha juventude foi roubada, mas com o tempo percebi, vocês também perceberam, a luz sumiu de todos os lugares. Nenhuma lâmpada acesa, poste, televisão, nada. No começo tive medo, assim como vocês. Voltei pra casa, desesperada, mas encontrei meus pais dormindo o Sono profundo. Nunca consegui acordá-los. Fui burra, muito burra e egoísta ao entrar para o culto... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então fugi. Fugi para longe e procurei abrigo, quando o céu lançou a grande chuva do início. Muitos de vocês imaginavam que era apenas um blecaute, e o que eu daria para que fosse! Um blecaute, como outro qualquer, e então o sol nasceria, e tudo não passaria de um devaneio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas com o passar das horas o pânico veio, como eu sabia que viria. O dia não nasceu, milhares sequer acordaram e, ilhados pela falta de energia e qualquer tipo de comunicação, afundamos no caos. A chuva cessou, e os saques começaram. A violência. Roubei o que pude de um supermercado velho e me escondi em um prédio abandonado. Por Deus, nunca me vi tão só! Aqueles primeiros dias, que eu ainda contava até que meu relógio parasse, foram terríveis. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“As plantas secaram. Agora até a chuva nos abandonou. Não me lembro de ver nuvens no céu há algum tempo. Vocês viram alguma?... Não, não adianta me perguntar sobre o que virá depois, eu não sei. O culto celebrava o momento em que seríamos libertos, nunca soubemos o que seria do que ficasse para trás. Os hinos falavam do roubo da luz, eu não imaginava que seria tão literal. Vocês com certeza já repararam. Não? Olhem para o céu da Sempre Noite – alguns arriscaram olhar para cima, outros mantiveram os olhos fixos nela. A multidão lotava desde a região ao redor da fogueira até o quintal, e talvez até as ruas mais além, o escuro não permitia dizer – A lua se foi há algum tempo, e cada vez mais as estrelas se apagam. Logo não haverá luz de espécie alguma, apenas o fogo que teima em iluminar essa escuridão dos infernos. E quem sabe até quando? Meus mantimentos estão acabando, não poderemos viver para sempre de biscoitos e cereais vencidos, agora que as plantas estão secas. Nosso culto levou a luz do mundo, e aos poucos está levando o próprio mundo! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ E se... – arriscou um jovem, de cabelos longos e olhar esperançoso, o primeiro a se manifestar desde que a velha começara a história. Os olhos dos demais se concentraram nele – E se separássemos os tais artefatos, ou os destruíssemos, não haveria esperança? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A velha baixou a cabeça. Também já pensara nisso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Os artefatos foram unidos na Índia, numa gruta escura, o local onde o Sábio teria recebido os preceitos da religião. Não sei onde fica, as pessoas que o sabem estão mortas, ou ascenderam, quem sabe, e mesmo que eu soubesse, não há meios para chegar lá. E, mesmo que houvesse, mesmo que eu me deparasse com o círculo formado pelos odiosos instrumentos e os destruísse, ainda assim nada garante que a Luz retorne. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Podemos tentar! – insistiu ele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A persistência e teimosia próprias da juventude. Ela também fora jovem, mas sua alma envelheceu junto com seu corpo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Não há tempo, não há... Olhem para o céu! Quantas estrelas vêem? Da última vez que olhei eu podia contá-las. Contar as estrelas! E agora, quantas há? – um burburinho passou pela multidão, alguns olharam para cima temerosos. O jovem estava mudo – Havia um verso... havia um verso no final de um dos poemas do culto – a velha se calou subitamente e pressionou a mão com força nos ouvidos, para abafar as vozes de sua cabeça que gritavam para que se calasse – Havia um verso no final de um dos poemas. Nem os imbecis dos sacerdotes devem tê-lo entendido, é o único verso que fala sobre isso aqui, sobre o que restou, sobre nós. O verso dizia: Então as estrelas, depois o nada. Então as estrelas, depois o nada! Quando a última estrela sumir, vai ser o fim, o fim deste mundo! Nossas almas apagarão, porque o culto roubou toda a esperança de uma pós-vida. Nunca mais encarnaremos, nem chegaremos ao outro lado. Nossas almas acabarão aqui! Aqui, nessa escuridão infernal que... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma outra pedra atingiu o rosto da velha. E outra, e então a multidão não mais se conteve, avançou. Paus e pedras contra a pele fina, e o sangue logo brotou, manchando o piso de mármore partido. O fogo dançava iluminando a cena. Ela chorou, mas não disse nada em sua defesa, sequer gritou. Abraçou a morte como dantes não tivera coragem, e entregou sua alma para o julgo daquelas que carregava. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre os gritos de fúria da multidão, restaram aqueles que preferiram apenas olhar o céu. A velha tinha razão. Pouquíssimas estrelas, nem mesmo dez, e não havia nuvem alguma. Uma delas então sumiu, faltava pouco. A multidão perseguira a bruxa que dizia ser a culpada pela Sempre Noite em busca de sangue, sangue e explicação, mas não puderam mais conter a ira de suas frustrações. Cada golpe que davam no corpo já sem vida era a vontade furiosa de se livrar daquele peso, o peso que foram obrigados a carregar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro os mais jovens, e então toda a multidão se voltou para cima. Outra estrela sumiu. O próprio fogo pareceu perder a intensidade. Mais duas estrelas deram lugar à escuridão. Estava próximo. O que quer que fosse acontecer, estava próximo. Alguns deram as mãos. Outros se abraçaram. Não sabiam se era verdade o que a bruxa disse, mas todos que vieram acreditavam um pouco. Mais três estrelas sumiram, uma depois da outra. O jovem de cabelos longos olhava atento para as duas únicas remanescentes do céu. Uma delas se precipitou, uma estrela cadente, riscando o céu escuro. Faltava uma. Seria ali, naquele momento. O que quer que fosse acontecer, seria agora. Seguraram a respiração. No resto do mundo, outras pessoas faziam o mesmo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não houve dor nem efeitos especiais. A estrela sumiu, e junto com ela, a quadragésima segunda versão do universo simplesmente desapareceu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&amp;lt;&amp;gt;&amp;lt;&amp;gt;&amp;lt;&amp;gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Brahma abriu os olhos. Seu dia ainda não findara, mas por alguma razão acordara de seu devaneio, o devaneio que deveria durar toda a jornada. Todos os seus pensamentos sumiram de repente, e mesmo que se esforçasse não conseguia retomá-los, tal quando acordamos e esquecemos o que sonhamos. Esqueceu como eram as nuvens, a luz, as estrelas, as plantas, as pessoas. Tudo se tornou uma lembrança que teimava em se manter esquecida. Piscou os olhos de cada uma de suas cabeças e se remexeu, sem entender. Os outros dois olhavam-no irados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Brahma, ó Brahma, que nasceu da flor de lótus que nasceu de meu umbigo! – bradou um grande homem, muito abaixo dele, por sua vez deitado sobre uma grande serpente – Kali Yuga vivia ainda seus últimos momentos, não era a hora, tu o sabes! Kalki sequer pôde cavalgar sobre o mundo! Não era a hora! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Grande Brahma, que houve? – clamou um outro, com o terceiro olho brilhando em sua testa – Sequer pude passar este mundo sob meu julgo, sequer era a hora para tal! De quem é a culpa, se tua, ou se de Vishnu, cuja tarefa foi e sempre será a de manter o funcionamento do mundo? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brahma nada falou. Observava um asura escuro, escondido nas espumas do mar onde nadava Shesha-naga, a serpente de Vishnu. O asura ria dos três deuses, e se deliciava com as almas dos cultistas que roubara do mundo pensado por Brahma. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2502613120236415342-448311483382016632?l=eisoptron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/448311483382016632/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/03/conto-sempre-noite.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/448311483382016632'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/448311483382016632'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2010/03/conto-sempre-noite.html' title='[Conto] Sempre noite'/><author><name>DanielFolador</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12052168755551551359</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sn2PcB1vKeI/AAAAAAAAAC8/_lEL3rRf5GY/S220/P1170002.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/S6ezeQO8oDI/AAAAAAAAAKo/4ODZUofmiDw/s72-c/Sem+T%C3%ADtulo-2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342.post-4169618419465598614</id><published>2009-11-15T08:31:00.000-08:00</published><updated>2010-09-08T14:20:00.518-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Resenhas'/><title type='text'>[Resenha] O Mistério da Estrela - Stardust</title><content type='html'>&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt; &lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2009/11/conto-bruxa.html"&gt;← Postagem anterior&lt;/a&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2010/03/conto-sempre-noite.html"&gt;Próxima postagem →&lt;/a&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://luciane.hagemeyer.zip.net/images/2517572.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="400" src="http://luciane.hagemeyer.zip.net/images/2517572.jpg" width="266" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Foi o nome Neil Gaiman (o célebre autor de Sandman) que me atraiu para comprar esse livro. Como sempre, Gaiman permeia sua história com o dueto fantasia e realidade, aqui representado como uma vila no nosso mundo, Muralha, que é o limite para o mundo mágico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muralha é uma pequena vila no interior da Inglaterra, de habitantes taciturnos e simples. Uma barreira de pedra (a que deu o nome ao lugarejo) separa esse do outro mundo, possuindo apenas uma passagem: uma pequena abertura constantemente guardada pelos habitantes. A vida é comum e pacata, mas de nove em nove anos ocorre a Feira, e somente nessa ocasião é permitido atravessar para o outro lado. Na feira se pode encontrar pessoas de todo o nosso mundo e do mundo de lá, onde se vê e se compra todo tipo de coisas, assombrosas e mágicas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, a história é sobre a viagem de Tristran, habitante de Muralha, ao mundo mágico. Um garoto apaixonado, que promete tudo e mais um pouco pra se casar com Victoria Forester, a garota mais bela da vila. Até aí nada muito original. Mas o que Tristran diz em seguida é que foge do comum. Ele promete trazer-lhe uma estrela cadente, que ambos viram cair no mundo encantado. Para isso, Tristan atravessa a passagem da Muralha e se lança na aventura da busca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas há conflito, outras pessoas estão atrás da estrela: Três herdeiros que devem encontrá-la para merecer a herança de seu reino, e uma bruxa, uma das três Rainhas das Bruxas, que busca juventude.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O livro não é infantil, a trama traz cenas violentas e certa vez picantes, mas sempre bem dosadas. Poderia ser uma história real, com todos os perigos e erros que acontecem na vida real. Gaiman criou um cenário rico e interessante, bastante convincente, agradável. E o desenrolar da história começa muito bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MAS, ele começa bem. Da metade em diante, o ritmo acelera sem motivo, como se o autor tivesse pressa em terminar. Ainda, fatos mal explicados como a Irmandade do Castelo e a ajuda de uma árvore (sem motivo condizente com a história) são realmente difíceis de engolir, deus ex machina forçados. Também, a identidade da mãe de Tristran poderia ter sido melhor explorada se Gaiman tivesse falado mais dela. Foi uma personagem citada uma única vez no meio do livro para ser utilizada somente no final. A jogada foi boa, mas quem deixou passar aquela única citação há de torcer o nariz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Concluindo, o livro é bom, mas poderia ter sido muito melhor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2502613120236415342-4169618419465598614?l=eisoptron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/4169618419465598614/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2009/11/resenha-o-misterio-da-estrela-stardust.html#comment-form' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/4169618419465598614'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/4169618419465598614'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2009/11/resenha-o-misterio-da-estrela-stardust.html' title='[Resenha] O Mistério da Estrela - Stardust'/><author><name>DanielFolador</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12052168755551551359</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sn2PcB1vKeI/AAAAAAAAAC8/_lEL3rRf5GY/S220/P1170002.JPG'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342.post-1834272832577889996</id><published>2009-11-02T20:27:00.000-08:00</published><updated>2010-09-08T14:19:00.231-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Universo: Outros'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos Reunidos'/><title type='text'>[Conto] Bruxa</title><content type='html'>&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt; &lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/sobre-licencas-e-permissoes.html"&gt;← Postagem anterior&lt;/a&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2009/11/resenha-o-misterio-da-estrela-stardust.html"&gt;Próxima postagem →&lt;/a&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Su-xC4-JwGI/AAAAAAAAAKU/Xb0RKVl4J1U/s1600-h/Sem+T%C3%ADtulo-1.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Su-xC4-JwGI/AAAAAAAAAKU/Xb0RKVl4J1U/s400/Sem+T%C3%ADtulo-1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A fumaça dança pela sala como uma convidada de honra, solene. E o líquido canta, víride, borbulhante. Vejo minha mão despejar o pó castanho que carrega, e o cheiro acre de árvores mortas inunda meus sentidos, eu distante, a vontade perdida entre as brumas espessas. Sem que eu mande, minha outra mão agita com vigor o caldeirão, enquanto a primeira, dormente, despeja mais um ingrediente: os pêlos de um gato sete vezes morto. Violáceas brumas agora sobem, a empurrar meu corpo, tempestuosas, tomando cada canto e espaço do recinto. Não estou em casa, mas imersa num mar lilás, perdida de mim. Não sou eu que, em seguida, mergulha um espelho partido nas bolhas agitadas. Não sou eu que agita e gira o líquido. Vejo meu corpo agir por outras vontades, e obediente, não luto, consinto. O líquido gira, e também giram meus sentidos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Palha, palha no fogo, e ele sobe, aumenta, esquenta meus pés. Remexo e giro o líquido, no outro sentido, e as bolhas tornam-se lentas, a estourar preguiçosas. Tornam-se grossas, azuis, e índigo também é a fumaça que agora se desprende, em espirais loucas, alucinadas, deixando a visão turvada, visão que não é minha, inflando o lugar em êxtase. Uma bolha estoura, minha pele sua, tremendo de gozo pelas carícias da fumaça, ansiando as delícias cantadas em seu aroma. Mas espero, me contenho, ou outras vontades o fazem, pois já não sou eu, mas instrumento. Meu braço treme, lento, envolvido pelas finas brumas, que devagar giram o líquido, perdido. O líquido gira, e também giram meus sentidos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, sem aviso, anúncio ou sinal, a fumaça muda, descolore para um negro sepulcral, escurece a sala. Tudo se apaga, as paredes, o fogo, os sons. Sou apenas eu, eu e o líquido, que gira. Já não há bolhas, mas uma camada lisa, fina, frágil qual espelho, a deslindar certeiro uma cena ao luar. Sim, vejo a Lua, a mãe, brilhando entre os prédios cinzentos, brigando com a luz dos postes um direito a iluminar. E numa viela escura, fedendo a sangue e urina – sim eu sinto – vejo uma menina, miúda, vítima do desejo do homem que a segura, que rasga suas vestes e procura seu corpo. Sinto o gosto de sangue na boca da menina, vejo o sangue escorrer de seu queixo. Ela grita, não há som mas a ouço, ela grita, mas só eu a ouço. Os braços fortes lutam contra o corpo frágil, ela chora, ele ri, animal afoito, ri e se esfrega nojento. As sombras a minha volta se agitam – ou seriam as brumas? – e sinto o cheiro de morte. Morte. A menina grita, o homem ri, ri satisfeito e finalmente a deixa. A garota morre, e a cena treme, turva e se desfaz, o passado é frágil na superfície de um caldeirão. Agito o líquido, ansiosa. E sinto a angústia que a menina deve ter vivido. O líquido gira, e também giram meus sentidos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sala escurece mais, se é possível. Vejo minha mão erguer o punhal, terrível, e estendo o outro braço. A pele chora o sangue que derrama, avermelhando o líquido. A dor é grande, mas não é sequer um traço, da que está por vir. O líquido desprende rubra fumaça, que inflama instintos assassinos, instintos tentadores, mas que renego. Ouço a bruma exigir mais sangue, meu corpo sua de raiva e ódio, minha mão ferida treme por vingança. Ouço a bruma que dança, mas nada faço, senhora que já não sou de mim. Enfaixo o braço ferido, e vejo nova cena na superfície carmesim, e na cena vejo um homem, o mesmo de antes, dormindo tranqüilo seu sono impune. Vejo minha mão – já não a minha – buscar um pequeno estojo num bolso do vestido. Sinto uma tontura. Dentro do estojo, um fio de cabelo, da mesma cor escura dos cabelos da menina, morta há sete dias, naquela noite fria, nas sombras da rua. O fio brilha na fumaça rubra, o cabelo da vítima. E dói meu braço. A dor é grande, mas não é sequer um traço, da que está por vir. O homem contrai o rosto, como se esperasse. E jogo o fio na cena rubra, e o líquido borbulha, e borbulha e borbulha. Mexo o caldeirão. Ouço enfim, claro, um grito, de dor acometido. O líquido gira, e também giram meus sentidos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com força eu giro, e a cada volta o grito aumenta, a dor aumenta, o desespero vem. Sinto o medo, o medo dele, o medo que sente, eu sinto também. Agora sou ele, ele eu, sinto os lençóis ásperos de sua cama, e o suor frio de seu corpo. O grito acaba, morre em minha garganta, e acordo assustada, tremendo ainda o sonho que tive. Ouço, ouço claro, um barulho à minha janela, e vejo a Lua, e sinto medo. Então, no vidro refletido, vejo meu rosto, o rosto dele, o pânico crescendo. Pois vejo, no reflexo, uma sombra se erguendo, atrás de mim, a sombra de uma menina, pálida. Ela me olha, me odeia, e eu sequer tenho coragem de voltar meu rosto. É ela, descubro, é ela, a menina da noite escura! A menina que feri, que invadi e abandonei, é ela, como pode? É ela! Eu a vejo andar, no reflexo da janela, devagar, sair das sombras à passos leves – não ouço passos, mas o roçar de tecido. Ela voltou, voltou pelo crime cometido, veio cobrar o sangue que lhe derramei. Sinto o colchão tornar-se morno, molhando minhas pernas e o lençol, encharcando a cama com urina. Ela estende o braço, vejo no reflexo, em minha direção. Desesperada, eu grito: &lt;i&gt;Não!, &lt;/i&gt;e&amp;nbsp; me viro finalmente. A dor é tremenda, o desespero, maior! Vejo o terror nunca antes visto, e ouço o grito que grito, terrível, perfurando meus ouvidos. E vejo enfim minhas mãos, minhas mãos que giram, giram o líquido, de tom verde agora, como era no início. E vejo as brumas se dispersarem, como se ali nunca estivessem, deixando a sala, o caldeirão, a mim. Sinto o cansaço pelo encantamento proferido, volto a ser eu, eu mesma, eu bruxa. E vejo minha mão que teima em girar o caldeirão.  A saudade da filha é menor, o culpado foi punido. O líquido gira, e ainda giram meus sentidos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2502613120236415342-1834272832577889996?l=eisoptron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/1834272832577889996/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2009/11/conto-bruxa.html#comment-form' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/1834272832577889996'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/1834272832577889996'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2009/11/conto-bruxa.html' title='[Conto] Bruxa'/><author><name>DanielFolador</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12052168755551551359</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sn2PcB1vKeI/AAAAAAAAAC8/_lEL3rRf5GY/S220/P1170002.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Su-xC4-JwGI/AAAAAAAAAKU/Xb0RKVl4J1U/s72-c/Sem+T%C3%ADtulo-1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342.post-5755619568432513961</id><published>2009-10-21T06:14:00.000-07:00</published><updated>2010-09-08T14:17:00.129-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Artigos'/><title type='text'>Sobre licenças e permissões...</title><content type='html'>&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt; &lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/lancamento-coletania-pacto-de-monstros.html"&gt;← Postagem anterior&lt;/a&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2009/11/conto-bruxa.html"&gt;Próxima postagem →&lt;/a&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://i.creativecommons.org/l/by-nc/3.0/88x31.png" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="69" src="http://i.creativecommons.org/l/by-nc/3.0/88x31.png" width="200" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;Esse blogue está licenciado pela &lt;a href="http://creativecommons.org/licenses/by-nc/2.5/br/"&gt;Creative Commons - Attribution Non-Commercial&lt;/a&gt;. Esta licença permite que outros misturem, alterem e construam sobre os trabalhos aqui publicados, desde que o autor seja creditado, e desde que os fins não sejam comerciais.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, o que vou falar não é nada novo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Todo mundo que cria tem medo de ter sua criação copiada. Isso vale pra filmes, música, pinturas, quadrinhos e, o interesse desse blogue, textos. E com isso surge a polêmica discussão sobre publicar seus escritos na net ou não. Se publicar você será lido, mas corre o risco de ter seu amado trabalho copiado descaradamente. Se não publicar, poderá cair no anonimato. Claro que todos nós que escrevemos preferimos ser lidos. Então publicamos. Mas então, o que fazer para impedir o pior?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pior virá, quer queira quer não. Se houver alguém disposto a te plagiar, ele o fará. Ponto. E haja dor de cabeça pra tomar as medidas cabíveis. Mas, há casos de pessoas bem intencionadas que, por gostarem do que você escreve, utilizam seu trabalho como referência, ou mesmo como base para outra criação. Um exemplo clássico são as &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Fanfic"&gt;fanfics&lt;/a&gt;. O que fazer, então?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, particularmente, sou adepto da livre troca de conteúdo na web. Então, não reprimo um fanfiqueiro por fazer o que gosta. Foi com esse pensamento que a Universidade de Stanford criou uma licença diferente da copyright que conhecemos, a &lt;a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Creative_commons"&gt;Creative Commons&lt;/a&gt;. Existem várias modalidades dessa licença, mas em geral ela serve para informar o leitor o que ele pode ou não fazer,&amp;nbsp;permitindo o uso e reprodução da obra licenciada, &lt;b&gt;desde que seja atribuído crédito ao autor&lt;/b&gt;. A forma dessa atribuição depende de cada licença.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;----------------------------------------------------------------------------------------------&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para maiores discussões sobre a Creative Commons e outras licenças na web, acesse: &lt;br /&gt;&lt;a href="http://dicasblogger.blogspot.com/2009/05/licenca-creative-commons-ou-nao.html"&gt;&lt;b&gt;Dicas Blogger&lt;/b&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Para saber como proteger o seu blogue ou página virtual, acesse: &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a href="http://www.icebreaker.com.br/2009/06/licenciando-seu-blog-com-o-creative.html"&gt;&lt;b&gt;Blogue Icebreaker&lt;/b&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Para se informar sobre outros tipos de licença Creative Commons, acesse:&lt;br /&gt;&lt;a href="http://creativecommons.org/about/licenses"&gt;&lt;strong&gt;Tipos de Creative Commons&lt;/strong&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2502613120236415342-5755619568432513961?l=eisoptron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/5755619568432513961/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/sobre-licencas-e-permissoes.html#comment-form' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/5755619568432513961'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/5755619568432513961'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/sobre-licencas-e-permissoes.html' title='Sobre licenças e permissões...'/><author><name>DanielFolador</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12052168755551551359</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sn2PcB1vKeI/AAAAAAAAAC8/_lEL3rRf5GY/S220/P1170002.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342.post-1430452298546364572</id><published>2009-10-17T15:17:00.000-07:00</published><updated>2010-09-08T14:17:52.534-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Artigos'/><title type='text'>Lançamento! Coletânea Pacto de Monstros</title><content type='html'>&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt; &lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/conto-jogo-de-facas.html"&gt;← Postagem anterior&lt;/a&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/sobre-licencas-e-permissoes.html"&gt;Próxima postagem →&lt;/a&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sto-QbfpX_I/AAAAAAAAAJA/4fNfHoRg5AI/s1600-h/capa.jpg" style="clear: right; float: right; font-family: Verdana,sans-serif; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img src="http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sto-QbfpX_I/AAAAAAAAAJA/4fNfHoRg5AI/s400/capa.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;A Editora MULTIFOCO, inaugurando seu selo ANTHOLOGY, promoveu a Antologia de Contos Sobrenaturais PACTO DE MONSTROS. Foram escolhidos 18 autores que terão um de seus contos publicados pela editora. Entre eles este que vos fala. &lt;/span&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Ao lado, a capa do livro.&lt;/span&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;É com grande satisfação que divulgo o lançamento do meu primeiro trabalho impresso. Gostaria de agradecer pela oportunidade ao editor Frodo Oliveira, e às organizadoras Monica Sicuro e Rúbia Cunha, principalmente pela paciência das duas na revisão e enxugamento do texto.&lt;/span&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;O lançameto será nesse sabádo d&lt;b&gt;ia 24 de outubro, às 18:00 h, na Editora Multifoco&lt;/b&gt; (Av. Mem de Sá, 126 - Lapa, Rio de Janeiro/RJ).  Vários colegas escritores - conhecidos na net - vão ao evento, e estou ansioso por encontrá-los ao vivo. Minhas passagens já estão compradas.&lt;/span&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Os demais autores do livro:&lt;/span&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Adriana Rodrigues&lt;/span&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt; &lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Andréa Cisne&lt;/span&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt; &lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Alex Lopes &lt;/span&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt; &lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Deborah Brandão &lt;/span&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt; &lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Duda Falcão&lt;/span&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt; &lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Félix Maranganha&lt;/span&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Frank Bacurau&lt;/span&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Frank Félix&lt;/span&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Ghad Arddhu &lt;/span&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Heitor V. Serra&lt;/span&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Jota Fox &amp;amp; Misael E. Santos&lt;/span&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Jones V. Gonçalves&lt;/span&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;José Roberto Vieira&lt;/span&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Luiz Hasse&lt;/span&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Monica Sicuro&lt;/span&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Mushi-san&lt;/span&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Rúbia Cunha&lt;/span&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;O convite:&lt;/span&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StpCpFFKmnI/AAAAAAAAAJI/hI91ARy3OYs/s1600-h/convite.jpg" style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;img src="http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StpCpFFKmnI/AAAAAAAAAJI/hI91ARy3OYs/s640/convite.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;br style="font-family: Verdana,sans-serif;" /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2502613120236415342-1430452298546364572?l=eisoptron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/1430452298546364572/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/lancamento-coletania-pacto-de-monstros.html#comment-form' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/1430452298546364572'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/1430452298546364572'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/lancamento-coletania-pacto-de-monstros.html' title='Lançamento! Coletânea Pacto de Monstros'/><author><name>DanielFolador</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12052168755551551359</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sn2PcB1vKeI/AAAAAAAAAC8/_lEL3rRf5GY/S220/P1170002.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sto-QbfpX_I/AAAAAAAAAJA/4fNfHoRg5AI/s72-c/capa.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342.post-6593469195459088114</id><published>2009-10-17T08:40:00.000-07:00</published><updated>2010-11-02T07:31:03.789-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos Reunidos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Universo: Kate Whitehill'/><title type='text'>[Conto] Cacos de Porcelana</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StnuE0_HfbI/AAAAAAAAAI4/CTwdBatyWCw/s1600-h/c%C3%B3pia+plate_porcelain.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StnuE0_HfbI/AAAAAAAAAI4/CTwdBatyWCw/s400/c%C3%B3pia+plate_porcelain.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;(do universo de Kate Whitehill)&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;O dia estava cinzento e frio. Ela se abraçava e apertava o casaco, enquanto se dirigia para a praça. É o fim do outono, e a partir de então o tempo só tende a piorar. Suspirou. Passaria outro inverno sozinha. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Atravessou a rua movimentada e alcançou a borda da grande praça onde costumava ir todos os dias. Caminhava a passos curtos, não por causa da idade, porque embora fosse velha, seu vigor sempre fora estranhamente inalterável. Seus passos são curtos porque ela está triste. Emily está sempre triste. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Atravessou a praça, quase vazia por causa do frio, e se sentou num banco solitário perto do lago. Meteu a mão dentro do casaco e tirou um pequeno saco com migalhas de pão, que passou a espalhar na superfície da água. Logo peixes apareceram. Fazia tempo... Fazia muito tempo que ela se levantava toda manhã para alimentar os peixes da praça. Fazia isso até o meio-dia, quando então ia para casa esquentar um pouco de comida, e assistia televisão ou lia um livro até o anoitecer. À noite, quando ia dormir, na escuridão de sua quitinete vazia, chorava. Chorava até cair no sono, para acordar no dia seguinte e repetir sua rotina sem graça. Assim têm sido sua vida há quase quinze anos. Sem sonhos, sem alegria. Apenas um buraco vazio, um sentimento inexplicável de que faltava algo. Mas o quê?, já se perguntou numerosas vezes. A resposta estava ali, encarando-a, ela sabia, só não sabia onde. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Mas não foi sempre assim. Antes, ela se lembra, antes ao menos havia George. George foi seu marido, homem decidido, entusiasmado, que queria fazer tudo ao mesmo tempo, e que de alguma maneira conseguia. Gostava de George, de estar por perto, e naqueles dias a sensação de vazio era menor. Menor, veja bem, porque Emily sempre se sentiu deslocada. Ele trabalhava muito, tinha um emprego bom, e adorava conversar, discutir seus planos e sonhos. Ela gostava de ouvir, às vezes até dividia uma opinião ou outra, e viviam contentes. Era uma vida feliz, hoje costuma se dizer, embora saiba que mesmo naquela época se sentia insatisfeita. Não com o marido, mas com algo. Com o quê? &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;O vento soprou mais forte, e se abraçou de novo. Os peixes brincavam na superfície da água, esperando mais pão. Olhou absorta para as pequenas ondas. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;E então George morreu. Foi num acidente de carro, há quinze anos, e desde então a empresa dele paga uma pequena pensão para a viúva. Por isso ela, que nunca fez faculdade nem trabalhou, pôde continuar vivendo na mesma quitinete e manter a vida, enquanto a solidão lhe apresentava a praça e os peixes do lago. Agora tinha mais tempo pra refletir, pra pensar na insatisfação que sempre a sufocou. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;A sua vida foi um pouco confusa. Não se lembra de nada de sua infância, e apenas um pouco de sua adolescência. Não tem memórias de sua casa nem de sua família, sua família sempre foi George. Eles se conheceram na juventude, casaram-se cedo. Os anos de casamento e os anos de viúva são tudo o que lhe resta para lembrar. Isso sempre a incomodou, e já chegou a achar que o vazio que sentia eram as memórias perdidas. O estranho é que sabia que tinha mais, algo mais a ser preenchido, do que simples lembranças de infância. George gostava de ouvi-la falar sobre isso, mas pouco podia ajudar. Nessas conversas, ela costumava se comparar a um vaso, o vaso de porcelana que eles mantinham na sala. Não era bonito nem feio, mas podia dizer que ele estava ali, que existia e fazia diferença na quitinete. Era um vaso incomum, bem trabalhado e cheio de desenhos e símbolos estranhos. George achava aquela porcelana bem esquisita, mas nunca disse isso à mulher, nem mandou analisarem. Afinal, Emily gostava do vaso, de olhá-lo, embora não soubesse bem o porquê. Gostava muito daquele vaso, dizia, mas no final das contas, era apenas um vaso vazio, vazio como ela. George sorria no final dessas conversas, e a beijava carinhosamente. Ele a tratava muito bem, e a ajudou a suportar o peso terrível desses anos todos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;De repente, uma confusão vindo dos limites da praça. Mas ali tudo era sempre tão tranqüilo... Emily olhou na direção do movimento, e viu pessoas correndo, algumas gritando de medo. Então se levantou assustada, e o saco espalhou migalhas no chão. Havia sentido algo... &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&amp;lt;&amp;gt;&amp;lt;&amp;gt;&amp;lt;&amp;gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Do outro lado da praça, pânico. Uma coisa cinzenta e verde, do tamanho de um jogador de basquete, andava devagar. Tinha duas pernas, uma cauda esguia, um tronco largo e ainda assim magro, e o que pareciam ser quatro braços. A cabeça era longa, longa como um ovo, e não tinha rosto. Ninguém sabia de onde tinha vindo nem como tinha aparecido ali, aquela coisa simplesmente surgiu de um momento para o outro, e as pessoas correram apavoradas. Andava devagar, mas seus passos eram longos, e sempre que alcançava alguém, estendia duas mãos. A pessoa parava com olhar vidrado, incapaz de se mover e fora de si, e então desmaiava com um grito. A coisa cinzenta perseguia, fez isso três ou quatro vezes, e então encontrou Emily. As pessoas passaram correndo durante todo o episódio, que não deve ter durado mais que alguns minutos, mas ela não se moveu um passo. Alguém de longe gritava para que fugisse, porque aquela coisa estava matando gente, mas Emily não ouvia. Eles pensaram que estava paralisada de medo, e pararam de se preocupar com ela para cuidarem de si mesmos. Mas não era medo o que Emily sentia. Era... saudade. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;A coisa cinzenta parou diante dela, mas não estendeu mais as mãos. Ficou encarando-a com seu rosto sem face, por alguns segundos, e não há palavras terrestres para descrever o que ele sentiu. Alegria, misturada ao êxito, à saudade, à tristeza, à satisfação, ao alívio. Um peso do tamanho do mundo foi tirado de suas costas verdes e ossudas, e ele teria sorrido se tivesse boca, e teria chorado se tivesse olhos. Ajoelhou-se e levantou as quatro mãos ao céu, em júbilo, para agradecer aos deuses, ou a qualquer coisa em que acreditasse, por tê-la finalmente encontrado. Há muito tempo que não via a irmã perdida, a irmã adorada, separados como foram durante a fuga de seu mundo. As pessoas que gritavam de medo e corriam podiam não saber, mas ele já não era jovem, e embora sua espécie tivesse um vigor abençoado que não se desgastava com o tempo, ele estava cansado. Quando os teocratas de seu mundo deram o golpe, todos que não seguiam a nova crença foram presos ou exterminados. Um êxodo em massa ocorreu, e muitos e muitos dos seus buscaram abrigo em outros mundos. Ele e sua irmã seguiram com os refugiados para longe, e após uma viagem cansativa, chegaram à Terra. Alguns puderam desembarcar e foram devidamente transmutados, porém, um caça teocrata os alcançou e o restante teve de fugir. Sua irmã foi a última a descer, anos terrestres atrás, levando consigo um vaso de porcelana de seu mundo e a promessa de voltarem a se encontrar. Ele conseguiu fugir do ataque, mas teve que se manter recluso até que fosse finalmente seguro viajar. Desde então, ele têm visitado a Terra para encontrá-la. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Porém, a urgência da transmutação pode ter sido traumática. Ele já ouviu casos assim, de perda completa da memória dentre outras conseqüências, quando a transmutação não era feita direito. Por isso foi tão difícil encontrá-la, por isso ele perdeu tanto e tanto tempo escaneando as mentes de terráqueos, em sua busca. Essa é a primeira vez que ele vem à Terra sem transmutação, mas porque ele sabia que seria a última. Os teocratas foram finalmente derrotados, e ele sabia quase exatamente a localização da irmã. Eles poderiam voltar pra casa outra vez. Outra vez irmãos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Tudo isso lhe passou pela mente em menos de um segundo, enquanto a velhinha o encarava admirada. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&amp;lt;&amp;gt;&amp;lt;&amp;gt;&amp;lt;&amp;gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Pela primeira vez em sua triste existência, Emily se sentiu contente, e sua alegria veio abraçada com uma grande saudade do passado, do passado de que nunca se lembrou, que sempre foi um mistério, e que agora parecia um segredo simples. Tudo o que tinha que fazer era perguntar. Tudo que ele tinha que fazer era transmutá-la de volta. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Um raio de fogo e um grito terrível. Emily foi jogada para trás com o susto, enquanto ele queimava em agonia. Levantou-se assustada, tentando se aproximar do que agora era uma grande fogueira, mas o calor a impedia. Ele queimou e queimou, e durante instantes ela pode ouvir alto e claro um grito de dor que não vinha de nenhum lugar, mas ecoava dentro de sua mente. Desesperada, lágrimas caíam copiosamente, enquanto ela se arrastava até o corpo em chamas. Em pouco tempo o fogo o transformou em cinzas. Do centro da praça, uma mulher de sobretudo cinzento apontava uma pistola estranha. Estava do lado de um homem alto, quase da mesma idade, e olhavam a cena como se nada estivesse acontecendo. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;_ Pronto, missão cumprida – sibilou Kate Whitehill. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;_ É, esse foi fácil – comentou Kenneth – Faz tempo que um desses alienígenas não aparece em Londres sem algum disfarce. O que será que ele queria? &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;_ E eu me importo? A aberração está exterminada, o mundo está mais seguro. Não é esse o nosso trabalho, Ken? – ela guarda a arma num bolso interno e acende um cigarro. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;_ É, acho que você tem razão... O quê aquela velhinha ‘tá fazendo? &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Kenneth McSmith aponta para Emily, que agora chorava como um bebê, segurando as cinzas com força. Não, não havia se lembrado, ainda não sabia quem realmente era, mas chorava porque nunca saberia, porque teria que viver o resto de sua vida miserável sem saber. De algum modo, entendeu que a resposta estivera ali, na sua frente, olhando para ela com seu rosto sem olhos. De algum modo não sentiu medo, mas alegria, uma alegria que buscou a vida inteira. E agora ele se foi, e ela sentiu a dor. Não somente a dor de algo morrendo, mas também a dor de um sonho agonizando, de uma promessa antiga que nunca mais poderia ser cumprida. E tudo estava tão perto... A resposta estava tão próxima... &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Kate deu três tiros. Emily caiu para frente, alvejada na cabeça. Lágrima, sangue e cinzas. Do outro lado da rua, numa quitinete escura e solitária, um vaso de porcelana escorrega da mesa onde sempre estivera, sem ter sido empurrado, e se parte em mil pedaços. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;_ Kate, O QUÊ QUE VOCÊ FEZ? &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Ken correu desesperado para o corpo da velhinha que havia pouco chorava. Analisou o corpo sem vida, e em seguida voltou-se exasperado para Kate, que vinha a passos lentos. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;_ Por que fez isso? – perguntou, horrorizado. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;_ Quer ficar calmo, Ken? O analisador portátil no meu corpo é bem mais preciso do que os de agentes comuns da organização – disse ela, cutucando o corpo da velha para se certificar de que estava morta – detectei DNA alienígena misturado com DNA humano, um trabalho muito bem feito, quase me passou despercebido – ela dá uma tragada – Peça para os agentes levarem-na, deve ser de alguma utilidade. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;_ Então, ela era uma alienígena também? – disse Ken, ainda perturbado. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;_ Você ‘tá dormindo? Eu disse que detectei DNA extraterreno nessa velha. Você acha que eu atiraria em seres humanos? &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;_ É, bem, desculpa Kate, é que me pegou de surpresa – disse, se levantando e ajeitando o terno. Queria passar tranqüilidade, mas a verdade é que estava abalado. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;_ Enfim, diga para levarem as pessoas que desmaiaram para o hospital, e anuncie no jornal que um artista fez uma fantasia estranha e acabou assustando as pessoas. Isso deve colar. Ainda bem que ninguém estava aqui quando atacamos, ia dar uma dor de cabeça... Bem, tenho que estudar uns arquivos pro próximo alvo, então vou indo. Ajude os agentes a encobrirem bem o caso, sei que você é um dos melhores pra fazer isso. Até, Ken. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Afastou-se apressada até um Bentley cinzento estacionado próximo, enquanto Ken ruborizava ligeiramente com o elogio. Logo, mais agentes chegaram, e começaram a pôr o trabalho em prática. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Aconteceu alguma coisa ruim, muito ruim, Kenneth pensa, porque não conseguia tirar o gosto amargo da boca. Ele cospe pra esquecer o caso, enquanto a alma do exilado alienígena o observa, gritando, mutilada, presa eternamente no limbo do desespero, impedido para sempre de encontrar sua amada irmã e de voltar para casa.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;__________________________________&lt;/div&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Nota do autor: Kate Whitehill e Kenneth McSmith são personagens emprestados pela autora e amiga Rita Maria Félix da Silva - &lt;a href="http://riteando.wordpress.com/%20"&gt;http://riteando.wordpress.com/ &lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2502613120236415342-6593469195459088114?l=eisoptron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/6593469195459088114/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/conto-cacos-de-porcelana.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/6593469195459088114'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/6593469195459088114'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/conto-cacos-de-porcelana.html' title='[Conto] Cacos de Porcelana'/><author><name>DanielFolador</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12052168755551551359</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sn2PcB1vKeI/AAAAAAAAAC8/_lEL3rRf5GY/S220/P1170002.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StnuE0_HfbI/AAAAAAAAAI4/CTwdBatyWCw/s72-c/c%C3%B3pia+plate_porcelain.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342.post-2673804111010046916</id><published>2009-10-17T08:17:00.000-07:00</published><updated>2010-09-08T14:15:01.213-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos Reunidos'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Universo: Kate Whitehill'/><title type='text'>[Conto] Jogo de Facas</title><content type='html'>&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt; &lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/conto-o-olho-de-jaguar.html"&gt;← Postagem anterior&lt;/a&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/lancamento-coletania-pacto-de-monstros.html"&gt;Próxima postagem →&lt;/a&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StnjmNquAWI/AAAAAAAAAIY/ievqKbjbUdk/s1600-h/Knives+c%C3%B3pia.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StnjmNquAWI/AAAAAAAAAIY/ievqKbjbUdk/s320/Knives+c%C3%B3pia.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;(do universo de Kate Whitehill)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Ela atende ao telefone. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Alô, Ken? Sim, diga. Não, eu não estava dormindo, estou na cozinha. É, é a merda de minha insônia, mas você não ligou pra falar disso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E Kenneth lhe contou sobre o trabalho que ela tinha que fazer. Kate Whitehill não gostava de ser importunada à noite, mesmo quando estava com insônia, mas se o motivo fosse o trabalho, não tem problema. Nenhum problema, ela adora o seu trabalho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela anota o endereço e desliga o telefone rapidamente. Corre para o quarto para trocar de roupa. Tira sua camisola, ainda nova pelas noites que não passa em casa, veste seu sobretudo cinzento e calça as botas, enquanto escolhe as armas que vai levar. Em menos de dez minutos, já estava abrindo a porta da garagem. Kate sabia ser eficiente. Ela dá a partida no seu Bentley prateado e ganha as ruas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três horas da manhã e Londres ainda mantém algum movimento, pessoas indo e voltando das boates. E é para uma boate que Kate está indo, mas não para dançar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela olha o endereço, pega uma rua lateral e escura. Nada de Soho, o bairro aonde ela se dirige é muito mais periférico. O Bentley sacoleja um pouco com uma curva mais fechada; Kate não diminui a velocidade. Sua noite estava um lixo até Ken ligar, agora ela estava ansiosa pra ver como poderia ajudar o mundo esta noite. Ela adentra algumas ruelas sujas e pequenas e freia, sem nem precisar conferir o endereço: alguns carros da organização já estavam ali, todos escuros, em frente a um prédio roxo e feio. Ela sai do carro e acende um cigarro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Você chegou rápido – disse-lhe Kenneth, saindo de um dos carros pretos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Você me conhece, Ken. Eficiência. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ É, sei. Venha, já isolamos o lugar. Aconteceu num dos quartos do último andar, o dono tentou esconder o ocorrido, mas não se esconde esse tipo de coisa da ONU, não é? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Claro. Temos rastreadores pela Europa inteira. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Venha, a equipe está lá dentro. A menina estava inconsciente, mas a gritaria do dono a acordou. Ela estava desmaiada ao lado de cinco corpos dilacerados – ele passa fotos para Kate, enquanto sobem as escadas da casa de strip – todos turistas americanos. A garota é brasileira, aqui estão as informações que conseguimos dela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kate pega o envelope, alaranjado pela parca luz ambiente. O cheiro de sexo e mofo invade suas narinas à medida que adentram mais aquele lugar imundo. Ela dá mais uma tragada e retira os papéis, enquanto Ken resumia os dados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menina se chamava Candy, ou pelo menos era conhecida assim naquela espelunca. Ela era dançarina de uma banda de forrór no Brasil, ou algo assim, e veio pra Londres há um ano com uma promessa de emprego. O que conseguiu foi a profissão de stripper, um cafetão que a entupiu de drogas e um segundo emprego como prostituta. Até então, nenhuma ocorrência antinatural. Acontece que dessa vez, exageraram. O dono do bar arranjou um programa para ela com cinco americanos, aficcionados por facas. A menina deve ter se assustado, entrado em pânico, e isso liberou seu primeiro fluxo de poder. Telecinésia. A primeira vez geralmente é traumática. Os corpos foram dilacerados pelas facas que eles mesmos trouxeram, e em meio ao sangue, a garota desmaiou. Uma prostituta do quarto ao lado ouviu os gritos e chamou o segurança. Conseguiram esconder o acontecido dos demais fregueses,  o que já é trabalho a menos – imagine controlar uma dezena de pessoas em pânico! – e já iam dar sumiço nos corpos quando os agentes da ONU chegaram. Fizeram a ligação urgente para a equipe de Kate. Ela devia cuidar disso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ken terminou o relato quando eles chegaram no último andar do prédio. O chão rangia sob as botas cinzentas de Kate, o carpete mal colado do corredor fedia. Manchas suspeitas povoavam o chão e o papel de parede de mau gosto. Ela olha tudo aquilo com repugnância. Dois agentes da ONU guardavam o quarto onde estava a menina, mas o barulho e gemidos de sexo vindo dos outros quartos indicavam que não haviam evacuado o andar. Tanto melhor; se Kate resolvesse o problema sem chamar a atenção, mais fácil seria encobrir tudo. Ela e Ken atravessam o corredor até a entrada do quarto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ E onde está ela? – perguntou Kate. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Chorando no fundo do cômodo. Parece meio fora de si, e ninguém mais se atreveu a se aproximar dela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ OK. Eu vou entrar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Kate, espera – Ken segurou-a pelo ombro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Sim? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Bem, só toma cuidado. Ela pode entrar em pânico e ter outro fluxo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Kenneth, você acha que sou uma iniciante? Já lidei com situações piores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ É, eu sei, só toma cuidado – e Kate entrou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O quarto fedia mais que o resto do prédio, cheiro de sangue se misturava ao fedor. Ele não era muito diferente, o mesmo carpete encardido no chão, o mesmo papel de parede rasgado. Cortinas limpas esvoaçavam na janela aberta, contrastando com o ambiente sujo. A cama estava tombada de lado, e uma garota seminua e suja de sangue chorava baixinho encolhida no canto do quarto. Ela não pareceu notar Kate, mas não parava de olhar para o centro do quarto: um amontoado de corpos e vísceras, com marcas de corte visíveis na pele e no chão de madeira. E, é claro, sangue, muito sangue. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kate põe a mão sobre o cabo de seu revólver e se aproxima devagar. Sua equipe teve o bom-senso de retirar as facas do local, e não havia nada de muito perigoso que a telecinese da garota pudesse usar “acidentalmente”. Ela chorava, e isso fez Kate mudar de idéia. Afastou a mão da arma e se aproximou mansamente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Q-quem é você? – perguntou a garota, e seu inglês era péssimo. Seu estado não melhorava muito sua pronúncia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;­_ Meu amor, você está bem? Seu nome é Candy, não é? Posso te chamar de Candy? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A garota engoliu um pouco o choro e parecia voltar a si. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Meu nome verdadeiro é Maria Aparecida. Me tira daqui, moça, por favor, por favor, me leva pra longe daqui! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Calma, calma, Maria... – Kate se aproximou, maternal – Está tudo bem, tudo vai ficar bem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Eu não sei o que aconteceu, não sei, eu estava ali, e de repente tudo apagou, eu não sei, e então eu acordei, e tinha sangue, e mais sangue, e pessoas gritando... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kate lhe sorriu de forma reconfortante e deu-lhe um forte abraço, e a menina começou a chorar, mais e mais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Eu não fiz nada, juro que não fiz nada... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Eu sei, eu sei, foi um acidente meu amor. Acidentes acontecem. Estamos aqui para ajudá-la. Chamaram-me especialmente para ajudá-la. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Eu estou cansada, moça, cansada dessa vida! Não agüento mais, me tratam como lixo, todo santo dia; eu só quero ir pra casa, e ver minha mãe, minha querida mãe, tão longe, tão longe! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Você deseja voltar pro Brasil? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Sim, desejo sim! Nunca mais quero entrar num lugar assim, nunca mais! Moça, eu só queria ser uma grande dançarina! Era meu sonho! Não queria machucar ninguém, acredita em mim, mas de repente as facas, as facas deles voaram e então... então – e desabou no choro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Calma, Maria, calma, nós vamos te ajudar. Confie em nós, vamos te mandar de volta pra casa, pra sua mãe, e você não precisa mais voltar pra esse lugar. É o nosso trabalho, sabe? Ajudar pessoas com problemas como o seu. Não, não chore mais, você precisa se acalmar. Não se preocupe com o que aconteceu, tudo será arranjado. Não, não fique triste, por favor. Está melhor? Ouça, você está em estado de choque e em pânico, desse jeito será impossível ajudá-la. Vou lhe dar um calmante para você dormir um pouco, tá OK? Você quer tomar um calmante? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Obrigada, obrigada moça, muito obrigada! – ela apertava forte os ombros de Kate, enquanto ela alisava seu cabelo devagar – Sim, eu tomo qualquer coisa pra isso tudo acabar, quero sair daqui, me ajudem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Não se preocupe, minha menina. Ouça, vamos te dar uma pequena injeção, nem vai doer, e então você dormirá profundamente, OK? Quando você acordar, vai estar finalmente longe daqui. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Sim, sim, obrigada! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kate fez um sinal para os homens, que vigiavam na porta entreaberta, e um deles trouxe uma seringa. Kate afastou carinhosamente a menina, levantou a manga de sua blusa e aplicou-lhe a injeção. Maria começou a parar de chorar, e repetia sempre um “obrigada, obrigada”, até que sua voz diminuiu e ela caiu no que parecia um sono profundo no colo de Kate. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kate deitou a menina no chão e esperou uns minutos. Então, checou o pulso da moça pulso para ver se a injeção havia realmente funcionado. Sorriu com satisfação. A garota estava morta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Enfim, terminou. – disse ela, enquanto homens de ternos pretos finalmente entravam no quarto – Ainda bem, tipos como o dela têm o metabolismo muito alto, nem sempre é fácil matá-los assim. Bem, missão cumprida, sigam o procedimento padrão. Retirem o cérebro dela e enviem para Paris, para Alphonse e François. Aqueles dois maníacos vão adorar, têm uma tara por cérebros de telecinéticos. Lembrem de incinerar o resto do corpo, e cubram a morte dos cinco turistas com uma história boa ou algo que o valha. E, por favor, não esqueçam dessa vez de subornar bem o dono dessa espelunca e quem mais souber do caso, ou então só “cuidem” deles, eu realmente não me importo, contanto que isso não vaze. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Sim, senhora – responderam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Kate saiu para fumar no corredor. Parecia nervosa. Kenneth, que havia acompanhado o evento dali, se aproxima dela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Ei, Kate, ce tá legal? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Que é, Ken? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Bem, eu só vim saber se você tá legal, depois de fazer o que teve que fazer lá dentro – ela faz cara de descaso, e isso o surpreendeu um pouco – Kate, você não se importou com o que fez? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Olha, Ken, se eu não tivesse agido daquela forma, a aberração podia ainda estar viva e Deus sabe o que poderia ter acontecido. Da forma como eu agi, pude me aproximar dela sem nenhum risco e a eliminei sem colocar qualquer agente em perigo. Não se esqueça, Ken, esse é nosso trabalho, a gente elimina aberrações como ela todo mês, em qualquer lugar do planeta. A gente é que mantém essa porcaria de mundo seguro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Mas você não teve pena da menina? Ela podia ter sido sua filha... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então Kate parou de fumar e olhou para ele. Poucas vezes Kenneth a havia visto com aquele olhar, e nunca era seguro estar por perto. Seus olhos estavam injetados, vermelhos de raiva; não poderia haver mais ódio no mundo do que o ódio que havia naqueles olhos. Sem perceber, ele recuou dois passos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Kenneth, você perdeu o juízo? Qual o seu problema? Qual a merda do seu problema?! Como se atreve a comparar minha filha a uma aberração daquelas?! Foi por causa de abominações como esta que Megan está morta. Morta!  Se não fossem estas aberrações eu ainda teria minha filha, e minha família! Ouça Kenneth, nós estamos numa guerra, minha, sua, da ONU, e de toda a equipe para limpar o mundo desses monstros. E eu vou fazer de tudo para que esta guerra seja ganha pelos humanos, qualquer coisa! Se você não tem estômago pra isso, se demita de uma vez – rosnou ela, e acrescentou, sorrindo – E lembre-se que é norma da organização não deixar agentes aposentados vivos, afinal não é bom pro negócio ex-operativos de consciência frouxa falando demais. Então, nunca, jamais ouse falar na minha filha de novo, está me entendendo? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela joga o cigarro no chão e sai pelo corredor, pisando forte, deixando pra trás um Kenneth bastante perturbado. Seus passos estalam a madeira velha do assoalho do corredor, e antes de descer pela escada, ela ainda diz: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ E não tente bancar a minha consciência, porque a última pessoa que tentou está no fundo do mar com uma bala no olho direito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi embora. Kenneth suspirou e apagou com o pé o cigarro que ela jogara no corredor, enquanto os agentes incineravam o que restou de Maria Aparecida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;__________________________________&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;Nota do autor: Kate Whitehill e Kenneth McSmith são personagens emprestados pela autora e amiga Rita Maria Félix da Silva - &lt;a href="http://riteando.wordpress.com/"&gt;http://riteando.wordpress.com/&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2502613120236415342-2673804111010046916?l=eisoptron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/2673804111010046916/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/conto-jogo-de-facas.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/2673804111010046916'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/2673804111010046916'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/conto-jogo-de-facas.html' title='[Conto] Jogo de Facas'/><author><name>DanielFolador</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12052168755551551359</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sn2PcB1vKeI/AAAAAAAAAC8/_lEL3rRf5GY/S220/P1170002.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StnjmNquAWI/AAAAAAAAAIY/ievqKbjbUdk/s72-c/Knives+c%C3%B3pia.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342.post-5873698141855626992</id><published>2009-10-16T17:31:00.000-07:00</published><updated>2010-09-08T14:13:59.095-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Universo: Grande Floresta'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos Reunidos'/><title type='text'>[Conto] O Olho de Jaguar</title><content type='html'>&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt; &lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/conto-cacadores-de-nuvens.html"&gt;← Postagem anterior&lt;/a&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/conto-jogo-de-facas.html"&gt;Próxima postagem →&lt;/a&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; font-family: Verdana,sans-serif; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StkQTubXP_I/AAAAAAAAAH4/vyKZv7UOlv0/s1600-h/blue_moon.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StkQTubXP_I/AAAAAAAAAH4/vyKZv7UOlv0/s320/blue_moon.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;O sol se punha. Jaí-Eá andava depressa, conduzindo o jovem neto do Chefe. Um de seus deveres, como o guardião da tradição, era passar as lendas da tribo adiante, recontá-las para que os costumes e valores não se perdessem. Ele devia fazê-lo sempre que um jovem da tribo vencesse o Embate, ou seja, enfrentar e vencer sozinho um dos tigres do bando que vivia próximo a aldeia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os Tigres são sagrados. Foram os Cinco Grandes Tigres que criaram o mundo e todos os seres, e foi aquela tribo de tigres que ensinou as coisas do mundo ao primeiro homem e à primeira mulher. Por conta disso, os homens construíram sua aldeia nas altas árvores da floresta, exatamente sobre o lar daqueles animais; ambos se protegem e nutrem respeito mútuo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Embate foi uma aliança ancestral entre um antigo Chefe da aldeia e o líder do bando: se o homem vencer o tigre, este empresta sua força ao homem; se o tigre vencer o homem, este empresta sua habilidade ao tigre. Foi assim e é assim há muito tempo, antes mesmo de Jaí-Eá ser o mestre da tradição. O guerreiro que perder o Embate se torna alimento para o oponente, e ninguém chora sua morte: a tribo dos homens-tigre o honra como a um herói e tem seu lugar entre os grandes. Sempre foi assim, desde que Jaí-Eá se lembra: qualquer que seja o resultado, a tribo não sente tristeza. Dessa vez foi o neto mais velho do Chefe, Jaí-Kaguá, quem venceu; por conta disso se tornará Jaê-Kaguá, um homem-tigre. A cerimônia de batismo ocorreria entre ele e Jaí-Eá, àquela noite, e entre ninguém mais. Tudo isso passava pela mente do velho guardião, enquanto levava o jovem guerreiro para a colina mais alta. O sol se punha, e eles tinham que se apressar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jaí-Kaguá estava eufórico. Trazia no pescoço uma presa branca, atada a um cordão de barbante, o símbolo da tribo. Hoje à noite, receberia a segunda presa de tigre e um nome novo, que indicasse que era um campeão do Embate, que possuía a força do tigre. Perdendo-se em devaneios, mal acompanhava Jaí-Eá, que se impacientava com sua demora. Mandava a tradição que o guardião dos costumes realizasse o novo batismo, a sós com o vencedor, e nenhuma outra pessoa poderia saber do que se trata, apenas os que já passaram pela cerimônia. Também na tribo dos tigres acontecia assim, e o seu batismo era um mistério para os homens da aldeia. Mas, onde está Jaí-Eá? – súbito, se pergunta – Estava aqui, mas não mais... Ouve um assobio, e ele vê o velho guardião subindo, já alto, uma escada cavada numa árvore robusta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ O jovem se atrasa! O sol se pôs, e tão logo devemos estar no lugar! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Espere por Jaí-Kaguá! – gritou o jovem preocupado – Não haverá mais demora! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Assim espero, pois a lua já nasce, e então seu batismo não será. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Àquelas palavras, o jovem se projetou com força sobre a escada na madeira, e subiu tão rápido que quase derrubou Jaí-Eá. Lá em cima, uma ponte firme ligava a árvore à outra, e à outra mais adiante. A terceira ponte dava para o topo de uma colina, que se erguia altaneira sobre todas as árvores ao redor, sobre toda a floresta. Ali chegando, disse o velho: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ É aqui. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jaí-Eá pegou duas esteiras e eles se sentaram de frente um para o outro. Depois, tirou uma pequena panela de pedra da bolsa que trazia, e logo fez fogo dentro dela. Tirou uma goma espessa de um pequeno pote de barro e começou a mascá-la. Após algum tempo, deu-a também a Jaí-Kaguá. A noite chegava: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Que o grande Jaguar te abençoe, Jaí-Kaguá – disse ele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Que o grande Jaguar te abençoe, Jaí-Eá – respondeu o jovem, como mandava o costume. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ O que venho te contar é a história contada a todos os guerreiros que vencem o Embate e se tornam dignos da força do tigre; que se tornam dignos do nome Jaê. Seu pai a ouviu de mim quando era jovem, e antes dele seu avô a ouviu de meu pai. Ouça-a com atenção, pois ela guarda um mistério de Jaguar, e não a conte para ninguém mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Jaí-Kaguá te escuta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Veja, a lua nasce – disse o velho, apontando para o horizonte – Veja a lua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jovem se voltou para o oriente. Um disco iluminado surgia no horizonte por cima das árvores infinitas da floresta. Era belo, uma jóia no céu noturno, redonda, cheia, plena. O nascimento da lua era sempre maravilhoso aos olhos de Jaí-Kaguá, mas hoje era especial: ao invés da típica cor laranja, a luz trazia um singular tom de azul. Hoje a lua era Syó, a lua azul. Jaí-Eá começou: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Syó nasce. Escuta:&lt;i&gt;&amp;nbsp;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;O Grande Jaguar e os quatro Grandes Tigres criaram o mundo e toda a vida, há primaveras sem conta. À Jaguar coube a criação do céu e tudo o que há nele. A lua é o olho esquerdo de Jaguar, que vigia o sono dos seres. O sol é o olho direito de Jaguar, que tudo observa durante o dia.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;O espírito do rio Y-Yê tinha uma filha, Y-Apô; era formosa e bela. Y-Yê, para proteger a filha, a proibiu de deixar o castelo onde viviam, no fundo da lagoa próxima à aldeia. E assim foi.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Mas um dia a bela quis ver o sol. Sabendo que o pai não deixaria, Y-Apô fugiu. Quando saiu da lagoa, todos os animais vieram contemplá-la, era linda a filha de Y-Yê. A chamaram Cabelos Bonitos, porque seus cabelos escorriam sobre seus ombros como a água limpa escorria sobre as pedras, e empoçavam ao redor de seus pés quando ela se sentava. Todos quiseram vê-la, e todos gostavam dela. Até o Sol.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;O Sol, que é o olho de Jaguar, viu a bela Y-Apô, e se apaixonou. Desceu dos céus para ficar com ela, e ela se assustou. Jaguar é o Grande entre os Grandes Tigres, criou o céu, e sua forma assustou Y-Apô. Então, Jaguar mudou-se em forte guerreiro homem, o mais belo e mais forte de todas as tribos de homens. Mas Y-Apô nunca vira um homem, e continuou a ter medo. Então Jaguar colheu uma pedra-de-luz das altas montanhas do Oeste, rara entre as jóias. Deu-a de presente à Y-Apô, ela gostou. Passaram a se ver, tornaram-se amantes, e foram felizes. O pai de Y-Apô sentiu-se honrado, e deixou que a filha saísse de casa.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Um dia, Y-Apô passeava na floresta. Um pequeno pássaro de olhos vermelhos pousou numa árvore perto, e curioso como todos os pássaros, perguntou:&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;_ É você a bela preferida de Jaguar?&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;_ Sim, sou Y-Apô – sorriu ela.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;_ E é verdade que Jaguar lhe dá muitos presentes?&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;_ Sim, é verdade – respondeu contente.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;_ Mas qual a vantagem de ser a preferida do Grande Jaguar, se os pássaros podem nadar no céu e você não?&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Y-Apô não conseguiu responder, e o pequeno pássaro foi embora. Naquele dia, Jaguar foi ter com ela, e ela repetiu a pergunta do pássaro:&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;_ Meu amor, qual a vantagem de ser a preferida do Grande Jaguar, se os pássaros podem nadar no céu e Y-Apô não?&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Na mesma hora, Jaguar pegou as pétalas do hibisco e com elas fez um par de asas, mais belas que as das borboletas, e deu-as para Y-Apô. A filha de Y-Yê nunca foi tão contente.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Outro dia, Y-Apô colhia frutas silvestres, quando um arbustos de folhas rubras lhe perguntou:&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;_ És tu a preferida do Grande Jaguar?&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;_ Sim, sou Y-Apô, pequeno arbusto – respondeu-lhe Y-Apô.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;_ E é verdade que Jaguar te dá muitos presentes, e foi ele quem te deu estas asas para que pudestes nadar no céu?&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;_ Sim, isto tudo é verdade – sorriu ela&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;_ Mas qual a vantagem de ser a preferida do Grande Jaguar, e poder nadar no céu, se para ter a doçura dos frutos precisas colhê-los junto ao chão?&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Y-Apô não conseguiu responder, e deixou o pequeno arbusto para trás. À tarde, Jaguar foi ter com ela, e ela repetiu a pergunta:&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;_ Amado meu, qual a vantagem de ser a preferida do Grande Jaguar, e poder nadar no céu, se para ter a doçura dos frutos Y-Apô precisa colhê-los junto ao chão?&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Jaguar sorriu para a bela Y-Apô, pegou um favo de mel de uma colméia e lhe deu. Os dedos de Y-Apô ficaram melados de mel, e desde então nunca mais deixaram de sê-lo. Assim, se Y-Apô quisesse doce, bastava lamber os dedos. E a filha de Y-Yê nunca foi tão contente.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Outro dia, Y-Apô nadava no céu junto aos pássaros, e uma nuvem vermelha se aproximou dela:&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;_ Ó formosa, és tu aquela que chamam a preferida de Jaguar?&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;_ Sim, esta é Y-Apô – sorriu ela.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;_ E é verdade que Jaguar te dá muitos presentes, e foi ele quem te deu estas asas para que pudestes nadar no céu, e foi ele quem fez teus dedos tão doces quanto o mel?&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;_ Sim, é verdade&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;_ Mas qual a vantagem de ser a preferida do Grande Jaguar, e poder nadar no céu, e ter a doçura do mel nos dedos, se não podes ter o conhecimento dos Céus e da grandeza dos Deuses?&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Y-Apô não conseguiu responder, e se despediu da nuvem vermelha. À noite, Jaguar foi ter com ela, e ela repetiu a pergunta:&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;_  Meu amor, qual a vantagem de ser a preferida do Grande Jaguar, e poder nadar no céu, e ter a doçura do mel nos dedos, se Y-Apô não pode ter o conhecimento dos Céus e da grandeza dos Deuses?&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Dessa vez, Jaguar não sorriu. Olhou para a bela, e disse:&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;_ Mas para que desejas isto, minha amada, se já tens o amor de Jaguar e tudo o resto o que ele pode dar?&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Y-Apô não respondeu.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;_ O conhecimento dos Céus e da grandeza dos Deuses não devem ser dados aos seres, não enquanto fizerem parte desta vida – replicou Jaguar – Isto é a lei desde o início do mundo e nem Jaguar pode quebrá-la.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Y-Apô não respondeu. Y-Apô o deixou sem dizer uma palavra. Estava magoada. Pegou a pedra-de-luz, o primeiro presente que recebera de Jaguar, e devolveu-a. Jaguar chorou, e aquela noite foi uma noite triste e sem lua para todo o mundo.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Na noite seguinte, Jaguar foi ter com Y-Apô. Estava triste como um rio sem peixes, e trazia a bela pedra-de-luz de volta:&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;_ Desejas realmente que Jaguar te dê o conhecimento dos Céus e da grandeza dos Deuses?&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;_ Sim, Y-Apô deseja – respondeu ela.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;_ Triste é o coração de Jaguar por isso, mas Jaguar vai dar esse presente.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Devolveu-lhe a pedra-de-luz, e Y-Apô nunca foi tão contente. Jaguar mudou-se em tigre novamente, como era e sempre fora, e pediu para que ela subisse em suas costas. Ela se agarrou em seu pêlo, e ele a levou para cima, para o alto, sobre toda a floresta. Y-Apô subia, e subia, rápida como uma flecha, e sua alma aumentava; tornava-se sábia. Via rios, árvores e seres, via tudo com a agudez dos olhos do falcão. Jaguar a levou mais para cima, e ela pôde ver o limite da Grande Floresta, o limite que ninguém nunca viu. Jaguar a levou mais para cima, e ela pôde entender o porquê de muitas e muitas coisas. Jaguar a levou mais para cima, e sua alma já brilhava como um segundo sol. Já estavam acima deste céu, muito acima de tudo, quando Y-Apô entendeu. Ela não podia ir além.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Tentou desesperadamente avisar ao amado que não queria prosseguir, mas o vento era tanto e a velocidade tamanha, que era impossível ouvir, ou mesmo parar. Y-Apô se segurou com força no corpo amarelo de seu amado, enquanto sua alma crescia e brilhava, enquanto deixavam tudo lá embaixo. Ela entendia tantas coisas, e quanto mais entendia, mais sua cabeça doía com o peso do conhecimento. Y-Apô sentiu-se sufocar com  o poder da Revelação, sentiu-se sufocar diante do peso do Mundo. Jaguar sentiu a angústia da amada, mas já era tarde. Uma lágrima brotou de seu olho esquerdo. Aquela noite, houve uma grande explosão de luz. Y-Apô já não era mais.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Vendo a grande luz, a nuvem vermelha se mudou em Bóiaçu, a Grande Serpente de Olhos de Fogo. Bóiaçu é o espírito da inveja, e desde o começo havia invejado o amor de Y-Apô. Bóiaçu se mudara em pássaro, depois em arbusto e por último naquela nuvem, para induzir a bela à inveja das coisas. Quando viu a grande luz, Bóiaçu sorriu insatisfeita –  porque a inveja nunca pode se satisfazer – e voltou para seu pântano.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Muito magoado ficou o espírito do outrora alegre rio Y-Yê; ele perdera sua bela e amada filha. A tristeza tornou suas águas tristes e escuras, e até hoje ele é assim. Agora o chamamos Y-Yú, o Rio Escuro.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Triste como o inverno, Jaguar pegou a pedra-de-luz que caíra da mão de Y-Apô. Decidido, reuniu a luz em que se transformou a amada e que se espalhava pelo céu, e a  moldou em várias pedras-de-luz. Pegou-as e as espalhou no céu escuro da noite, que então era negro como uma caverna; da luz de Y-Apô, Jaguar formou as estrelas. Da primeira pedra-de-luz, Jaguar fez a estrela que brilha mais que todas as outras: que é a última a brilhar antes do dia chegar e a primeira que brilha quando a noite vem. Por isso nós a chamamos de Poy, que significa “Primeiro Presente”. As pedras-de-luz das montanhas do Oeste ainda podem ser encontradas, e têm poderes místicos bastante procurados por nossas feiticeiras.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;O amor de Jaguar e Y-Apô durou duas primaveras, antes que a inveja destruísse tudo. Desde então, de duas em duas primaveras, Jaguar verte a mesma lágrima do olho esquerdo, a mesma lágrima que verteu na última vez que viu Y-Apô. Essa lágrima é a Lua Azul, essa lágrima é a Syó.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jaí-Eá calou-se. Syó já era alta no céu. Esperou um pouco, e continuou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Escuta Jaí-Kaguá: Jaguar é grande guerreiro e seu valor é a bravura. Mas o bravo também deve saber chorar. Jaguar amou Y-Apô e até hoje carrega a lembrança dela, no brilho azul de Syó. Hoje te tornarás merecedor da força do tigre, e lembra-te o que a inveja da Grande Serpente destruiu aquele dia. A inveja envenena o valor dos homens.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jaí-Eá se levantou. Pegou algumas cinzas da panela de pedra e estendeu a mão sobre a cabeça do jovem, no exato momento em que Syó passava no zênite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Estas são as cinzas desta história. Carrega-a sempre contigo – e soltou as cinzas na cabeça de Jaí-Kaguá – De hoje em diante, não serás mais Jaí, do clã do chefe, mas serás Jaê, do clã dos homens-tigre. Levanta-te, Jaê-Kaguá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O jovem levantou. Jaí-Eá se aproximou e amarrou a segunda presa de tigre no cordão de Jaê-Kaguá. Abraçaram-se. Jaê-Kaguá chorava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Vamos, filho, estás batizado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jaê-Kaguá ajudou o velho guardião das tradições a recolher a panela de pedra e as esteiras. Espalharam e apagaram as cinzas. Preparavam-se para partir, quando Jaê-Kaguá perguntou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Jaí-Eá também é um homem-tigre. Porque não traz o nome de Jaê?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Porque a tradição em mim é maior que a força. Meu lugar não é na guerra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, sob a luz azulada de Syó, os dois homens mudaram-se em tigres, e lentamente, seguiram o caminho de volta até a aldeia.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2502613120236415342-5873698141855626992?l=eisoptron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/5873698141855626992/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/conto-o-olho-de-jaguar.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/5873698141855626992'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/5873698141855626992'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/conto-o-olho-de-jaguar.html' title='[Conto] O Olho de Jaguar'/><author><name>DanielFolador</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12052168755551551359</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sn2PcB1vKeI/AAAAAAAAAC8/_lEL3rRf5GY/S220/P1170002.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StkQTubXP_I/AAAAAAAAAH4/vyKZv7UOlv0/s72-c/blue_moon.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342.post-1874679436324505589</id><published>2009-10-16T16:54:00.000-07:00</published><updated>2010-09-08T14:13:01.642-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Universo: Aera'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos Reunidos'/><title type='text'>[Conto] Caçadores de Nuvens</title><content type='html'>&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt; &lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/conto-metal-ceu-e-mar.html"&gt;← Postagem anterior&lt;/a&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/conto-o-olho-de-jaguar.html"&gt;Próxima postagem →&lt;/a&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StkHvsv_LfI/AAAAAAAAAHo/BZH7Y6i1pS0/s1600-h/horizonmoon_nasa.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StkHvsv_LfI/AAAAAAAAAHo/BZH7Y6i1pS0/s400/horizonmoon_nasa.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;(do universo de Aera, o mundo dos Deuses Ventos) &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– ...e foi assim que nosso barco sobreviveu ao Tornado, o monstro mais poderoso do povo-fera! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os demais aplaudiram a história, e ergueram suas canecas de mel-cerveja. Foi uma boa história, embora nem todos acreditassem nela, boa para aquela fria noite de outono. Eram todos aeronautas ali, todos presos naquela ilha enquanto o tempo não melhorasse. Seus aeronavios esperavam no porto, ancorados e protegidos pelo quebra-vento, sem poder zarpar enquanto seus capitães não permitissem. Ninguém enfrentaria os ares naquela tempestade, que já durava alguns dias, e enquanto isso os tripulantes se juntavam para beber, jogar e principalmente, contar as histórias de suas viagens. Aquele que acabara de falar se sentou, e então o lugar foi tomado pelo barulho de várias vozes. Somente os tripulantes do Fura-Nuvens nada falavam. Haviam chegado durante o dia, exaustos, com seu aeronavio praticamente morto. Provavelmente foram pegos pela tempestade, pensavam os outros, mas a verdadeira razão era terrível demais para que contassem. Perderam seu capitão, do qual não mais lembravam o nome, e muitos de seus companheiros. Apesar de felizes por estarem vivos, o terror ainda assombrava suas mentes. Não se impressionaram com a história recém contada, não; o que viveram nessa última viagem foi forte demais. Aquelas lembranças ficariam gravadas em suas mentes como os glifos de uma âncora rúnica, e ainda agora as cenas dos últimos dias dançavam em seus pensamentos... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&amp;lt;&amp;gt;&amp;lt;&amp;gt;&amp;lt;&amp;gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;O navio meneou contente com a brisa quente do leste. O sol nascia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As fadas-aurora tingiram o horizonte com suas asas de variados tons de vermelho, enquanto um bando de corujas-macaco passava próximo ao tombadilho do aeronavio. Omali já estava no convés, enquanto os outros ainda dormiam. Observava o nascente que tingia as nuvens de rubro, e suspirou preocupado; o dia traria chuva. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ka Omali! – a voz grave de Zalmaquin gritou do tombadilho – Acorde os homens! Haverá chuva, queiram os Ventos que não seja uma tempestade. Vamos, imediato, preciso que verifiquem as velas! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sim senhor, capitão! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Correu para os dormitórios, gritando para que levantassem. Uma tempestade nos céus é tão ou mais terrível que uma no mar, pois os ventos são tremendamente mais poderosos. Era necessário verificar as velas, checar as hélices e reforçar as amarras; todos os homens precisavam trabalhar, e o aeronavio logo se encheu de barulho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A tempestade os atingiu perto do meio dia. O timoneiro teve que lutar para segurar o barco, que foi arrastado de corrente de ar para corrente de ar, puxado ora para os recifes voadores, ora para as encostas rochosas das ilhas do céu. Com muito custo mantiveram as velas presas, e só depois de horas sufocantes, foram deixados em paz. O dia estava nublado e escuro, e o Fura-Nuvens se encontrava preso em uma corrente ascendente, de rumo incerto. Nada que o timoneiro fizesse conseguia tirá-los daquele curso, e ficaram assim por dois dias, quando finalmente caíram num grande vale entre duas ilhas do céu, onde a corrente se dispersava. O capitão chamou o imediato. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Omali encontrou um Zalmaquin preocupado, atrás de uma mesa cheia de mapas. Seu chapéu tricorne descansava na estante, e Maimune estava pousada em seu ombro. A pequena mulher-beija-flor sorriu cumprimentando-o, quando ele se sentou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não comente nada disso com os homens, imediato. Ouça... olhei nos mapas uma dúzias de vezes e não encontro, raios, nenhum ponto de referência... Chequei o altímetro e, veja só, ele indica que estamos a mais de 35 estádios de altura! Deve estar quebrado, com certeza... Por isso, não posso dizer onde estamos, por Eurus! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Perdidos, capitão? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sim, perdidos. Acima de nossa rota usual, e definitivamente longe dela. Ouça... Chame dois homens nos quais tenha confiança e façam uma pequena vistoria nos arredores. Descubra onde infernos nos metemos. E mais uma vez, não conte nada aos outros! Você bem sabe o que uma tripulação desorientada é capaz de fazer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sim senhor, capitão – e deixou a cabine. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltou ao convés e procurou por Belossab e Silvas. O primeiro era o melhor arpoador de nuvens do aeronavio, e o segundo era um estrangeiro do País do Sul, habituado às florestas e excelente guia. Prepararam um bote e se lançaram no ar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vento ali era ameno, um remanso causado pelas duas ilhas, e remaram tranqüilos. Era um lugar magnífico, cheio de pequenos rochedos flutuantes com densa vegetação e até com pequenos regatos, que escorriam céu abaixo. As ilhas também eram cheias de grandes árvores, que se projetavam das encostas, e variados tipos de aves desconhecidas revoavam com sua passagem. Omali procurava por indícios de presença humana. Seu olho era o melhor da tripulação, e assim que via algo, lançava mão da pequena luneta. Os ares nem sempre são seguros, principalmente em ilhas inabitadas, por isso Belossab carregava seu arpão, pronto para qualquer tipo de problema. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi quando uma revoada de fadas passou rente a eles. Pequenos como Maimune, mas de outra espécie. Pareciam humanos diminutos, com asas feitas de folhas e corpos de cores vivas, como azul e violeta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Povo eudaim! – gritou-lhes Omali – Povo eudaim! Por favor, peço sua atenção! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A nuvem violácea parou a alguma distância e se voltou para o pequeno bote. Dois deles se destacaram e se aproximaram, um ser-homem e um ser-mulher. Pararam à distância de um remo e meio, com uma expressão curiosa. Omali perguntou: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Onde estamos, fadas, se ao norte ou ao sul, do arquipélago de Talrrajar? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O casal real do ciano-povo pede um presente em troca das informações que os humanos lhes pedem – respondeu o ser-homem, numa voz inesperadamente alta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Um presente dos navegantes para o ciano-povo! – repetiu o ser-mulher. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os três aeronautas pouco tinham, então Omali teve de ofertar sua luneta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eis nosso presente ao casal real – disse. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A nuvem violácea se aproximou e tomou, à muitas mãos, o objeto. Afastaram-se o mais rápido possível, voltando para sua região segura. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Um belo presente, navegantes perdidos – disse o ser-homem – Ouçam nossa reposta: não conhecemos esse arquipélago, mas com certeza está muito abaixo daqui, pois não vemos humanos com freqüência. Essa ilha está muito acima de suas cidades. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E um aviso, destes que aqui moram – disse, por sua vez, o ser-mulher – Cuidado, ó filho, com o Pargarávio prisco! Os dentes que mordem, as garras que fincam! Evita o pássaro Júbaro e foge qual corisco do frumioso Capturandam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E dizendo isso, juntaram-se aos demais e partiram, sumindo rapidamente atrás de um pequeno bosque. Os três se entreolharam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Que era aquilo? Um poema? – perguntou Belossab. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não entendi muito bem, mas falaram para ter cuidado com alguma coisa, Ka Belossab. Fique atento ao seu arpão, seu cabeça de vento! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Remaram mais um pouco, e resolveram atracar. Amarraram o bote a uma frondosa castanheira, que nascia verticalmente à encosta, e por ela tentaram subir à ilha. Estavam realmente muito alto, observava Omali, pois mal divisavam o continente abaixo deles, coberto de nuvens. Seria uma queda e tanto, pensava, tratando de se agarrar com força ao tronco da árvore. Silvas se moveu agilmente, como se estivesse em terreno plano, e os ajudou a alcançar terra firme. A mesma habilidade que o povo do País do Leste tinha em galgar os ares, tinham os sulistas para cruzar as florestas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Belossab carregava seu arpão. Avançavam cautelosos por entre as árvores, guiados por Silvas, abrindo caminho com suas cimitarras. Andaram pouco até que caíram em uma cavidade no solo. Um grande ninho, onde caberiam dez homens, cheio de ossos! Ouviram então um bater de asas e um poderoso guincho, e o eco perpetuou a altivez daquele som. Lembraram-se das palavras do ser-mulher: o Pargarávio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Voltem, voltem, para o barco! Temos que sair daqui, rápido! – gritou Omali. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltaram velozes por onde vieram. O tamanho do ninho dizia que a criatura era grande! Alcançaram o bote aos trambolhos, e remaram com força até o aeronavio. Na metade do caminho, ouviram o guincho de novo. Os três suavam, remando o mais rápido possível, e a essa altura os outros tripulantes já tinham ouvido o poderoso som e exclamavam, preocupados. Omali virou-se para eles e gritou o mais alto que pôde: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Içar velas, seus cães! Rápido, trabalhem! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O desespero de sua voz foi tamanho que os aeronautas estavam prontos para zarpar antes mesmo de o bote os alcançar. Os três apenas pisaram no convés, o aeronavio meneou para o norte e partiu. Zalmaquin logo apareceu no tombadilho: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Imediato, que significa isso?! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Um monstro, capitão, quase tão grande quanto esse navio! As fadas nos avisaram, por isso dei ordens para partimos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Zalmaquin concordou, contrariado. Navegaram, enquanto os três olhavam preocupados para as árvores, temendo que o Pargarávio surgisse. Belossab se posicionara no arpão mecânico, mas foi em segurança que contornaram a ilha mais acima. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O capitão foi ter com eles, em particular. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Digam-me, homens, que puderam descobrir sobre nosso paradeiro? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– As ciano-fadas disseram que estamos muito acima de qualquer cidade humana, capitão, mas foi só isso – respondeu Silvas – Depois, ouvimos aquele monstro e tratamos de voltar sobre nossas próprias pegadas! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– A Brisa da Graça soprou sobre vocês lá atrás – respondeu o capitão – Uma sorte que não tenham sido vistos. Esses céus são desconhecidos, temos que redobrar a cautela... Ka Omali! Ordene aos homens do cesto da gávea que fiquem atentos e comuniquem ao menor acontecimento estranho, entendido? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Sim, capitão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E voltou para sua cabine, seguido por sua fada de ombro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Contornaram a ilha, na esperança de achar uma corrente descendente segura, mas não encontraram. O cair da noite também não trouxe novidade, então resolveram navegar para Oeste, ao sabor do vento. Havia uma ilha nesta direção, e foram para lá. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A lua nasceu, cheia, iluminando a noite. Hora da refeição. O capitão e os oficiais dirigiram-se ao refeitório; quando acabassem, seria a vez dos demais. A comida ainda estava sendo servida, quando a noite escureceu. Gritos do convés. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O que foi agora? – exclamou Omali, com uma coxa de auri-gaivota na mão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os tripulantes se reuniram e olhavam estupefatos para cima. A lua tinha sido encoberta por uma grande sombra, muitas vezes maior que o Fura-Nuvens, que se espalhava por todo o horizonte visível. Somente quando seus olhos se acostumaram à escuridão, puderam entender. E o aeronavio tremeu, amedrontado. À sua frente planava uma gigantesca criatura, com duas colossais asas castanhas e duas garras. A cabeça era de lagarto, mas tinha o bico dos gaviões. Seus olhos eram do tamanho da vela principal, e refletiam a noite quais gigantescos espelhos. Mirava o Norte. Povo-fera ou fada? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Aos arpões, arpoadores! Tire-nos daqui, timoneiro! – sibilou o capitão. Perigoso ou não, não seria sensato ficar pra descobrir. O aeronavio começou a manobrar, lentamente, quando a criatura se voltou devagar para eles. Ouviram um ronco de trovão, que pouco a pouco tomou semelhança com algo que pudessem entender: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Humanos... Que fazem tão alto? O dragão-roca pergunta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio. Um dragão-roca?! Todos os tripulantes já tinham ouvido falar da lendária criatura, um ser de asas tão grandes que podiam encobrir o sol por horas quando voava. Um dragão-roca! Dizia a lenda que conheciam todos os Quatros Céus, e quem lhe ofertasse um nome, podia perguntá-lo sobre qualquer segredo dos ares. Vários navegantes sonhavam em encontrá-lo, para descobrir a localização de tesouros perdidos. Estavam diante de uma lenda viva dos céus! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os homens não se atreviam a falar, maravilhados demais. Omali acariciava o mastro principal, tentando acalmar o aeronavio, que tremia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Dragão-roca! – gritou o capitão, subitamente motivado, subindo por uma das escadas de corda – Que a Brisa da Graça abençoe nosso encontro! Grande dragão-roca! Ajuda-nos, ó dragão! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A colossal criatura aproximou sua gigantesca cabeça. Seus olhos refletiram o aeronavio e todos os seus tripulantes, mas quando estes os miraram mais profundamente, o que viram foram rostos de outras pessoas, e palavras flutuantes; os nomes perdidos de muito tempo atrás. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Diga seu nome e o que deseja, ó viajante. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Meu nome... – o capitão hesitou por um breve momento, mas em seu ombro Maimune exultava, motivando-o – Eu sou o Capitão Zalmaquin, líder desse aeronavio. Somos caçadores de nuvens, grande dragão, e estamos perdidos – Um burburinho preocupado dos aeronautas se fez ouvir – É verdade o que diz a lenda sobre sua espécie? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É verdade, Zalmaquin. Um nome por um segredo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro burburinho, agora exaltado. Todos os olhares convergiram para o capitão. Mas... Zalmaquin realmente desistiria de seu nome, famoso nos céus do leste? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Grande dragão-roca! – seus olhos brilhavam – Pergunto-lhe o caminho para descermos aos níveis mais baixos, mas um caminho que seja a rota de uma nuvem-tesouro, uma tão grande quanto esse aeronavio! Por esse segredo, dou-lhe de bom grado meu nome, Muktar Zalmaquin tou-Nautir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Que assim seja. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grande dragão ergueu sua garra na direção dele, e s fechou sobre o ar acima de sua cabeça. O capitão ficou estático, e somente quando a criatura levou o que quer que tenha agarrado ao bico e engoliu, voltou ao normal. Então, ninguém mais pôde se lembrar como se chamava aquele homem, nem nunca se lembraria. O dragão-roca falou: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ouça, Sem-nome. Quando raiar o dia, siga para o sul, até uma corrente transversal, e tome-a. Navegue todo o dia e você encontrará a nuvem que procura. Mas cuidado! Tome a corrente vizinha antes do cair da noite, para descer, ou então subirá tão alto quanto nenhum humano jamais subiu, até o grande Terror! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizendo isso, o dragão abriu ainda mais suas asas e se afastou, tão velozmente que o ar fez o aeronavio dançar. Voou para longe, mas mesmo depois de horas ainda era possível ver sua sombra no horizonte. O capitão exultava. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vocês ouviram, seus cães! Travem a âncora rúnica aqui, e se prepararem para navegar amanhã o dia inteiro! A partir de hoje, chamem-me Capitão. Partiremos bem cedo. Um tesouro nos aguarda! – e um grito de alegria partiu da tripulação. A âncora foi travada no espaço, e naquela noite mal puderam dormir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amanheceu, mas nem bem o sol nascera o Fura-Nuvens alongou suas membro-asas e iniciou viagem. Navegaram animados o dia inteiro, sonhando com ouro. A tripulação nunca esteve tão empenhada! No final da tarde, gritaram do cesto da gávea: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Altocumulos à vista! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos se alvoroçaram, e até o capitão surgiu no convés. Afinal, o Fura-Nuvens era um caçador de nuvens, um aeronavio pirata que vivia do espólio de tesouros. As altocumulos são nuvens peculiares, usadas por reis e regentes para o feitiço das Nuvens Mensageiras. Carregam ouro em seu bojo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vamos, seus cães do céu! É a nossa nuvem! Vejam como é grande! Arpoadores, em posição; homens, manobrar velas; timoneiro, mantenha o curso! – sorriu e se voltou para o navio – Veja, Fura-nuvens, finalmente uma caçada! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele balançou em resposta, satisfeito, arqueando suas membro-asas, animado. Seu espírito sempre fora aventureiro, desde o momento de sua construção; era aquela tensão e expectativa que o tornava tão vivo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os três arpoadores se posicionaram em seus lançadores mecânicos. Os demais correram para as amarras das velas, enquanto os homens da gávea desceram de seu perigoso posto. A nuvem vinha rápido, e precisavam se preparar para o choque do feitiço. Quando a altocumulos se aproximou há poucas braças da proa da grande embarcação, os arpões voaram. Somente o de Belossab atingiu o alvo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um deslocamento de ar empurrou o Fura-nuvens para traz, e todos tiveram que se segurar. Era o choque do feitiço, uma prevenção contra ladrões. Logo, outro e mais outro os atingiram como ondas, mas eram apenas uma amostra do que estava por vir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Subir velas! O grande choque vai arrebentá-las! – gritou o capitão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E a nuvem passou por eles, veloz, ferida. Logo a corda do arpão retesou, e os tripulantes sentiram o verdadeiro tranco. Dois foram lançados no espaço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Homens em queda! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Omali e um outro correram para os ganchos salva-vidas, que caem mais rápido do que qualquer coisa, e os lançaram para baixo. Enquanto isso, o Fura-nuvens era arrastado pela altocumulos, e os demais arpoadores se preparavam para outro disparo. Logo, mais dois arpões feriram o dorso branco. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vamos, timoneiro, segure essa maldita! – berrou o capitão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– É muito forte, capitão! Vai arrebentar o leme! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Faça o que eu mandei, seu rato de convés! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um outro homem correu para ajudar no timão, e outro choque de feitiço sacudiu o barco. O movimento brusco lançou para fora barris de mel-cerveja e caixotes de provisões, e homens correram para amarrar os restantes. Os ventos tornaram-se fortíssimos então, pois deixavam a região de remanso, mas a velocidade da nuvem parecia finalmente diminuir. Agora, ficaram apreensivos e procuraram onde se segurar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Preparar para o grande choque! – gritou Omali, ao içar o homem que caíra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o choque veio, mais poderoso do que todos os outros. A corda de um arpão arrebentou, o leme se espatifou, a retranca se soltou e arremessou um homem para fora. Um outro correu para salvá-lo, mas a retranca ricocheteou e acertou-lhe a cabeça, lançando-o inconsciente no espaço. Ninguém mais ousou se mover enquanto a verga não se estabilizasse. Então, os ventos diminuíram, a nuvem parou. O feitiço se quebrara! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Puxaram a nuvem, muito contentes, pois nunca viram uma tão grande. Todos se juntaram para trazê-la a bordo, e quando conseguiram, o Capitão foi abri-la. Subiu sobre a superfície branca, e com sua cimitarra de prata, abriu-lhe o bojo com um rasgo. Toda a tripulação gritou de alegria. Em seu interior, seis grandes arcas de ouro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ka Omali! Ka Omali, venha cá, seu maldito! – ele gargalhava – Organize os homens, ajudem-me a tirar nosso tesouro! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os aeronautas amarraram a altocumulos, outros ajudaram a carregar as arcas. O capitão supervisionava tudo, contentíssimo, ignorando o sol que descia. Mas o timoneiro se aproximou, preocupado, e disse-lhe a última coisa que queria ouvir: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O leme se partiu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma sombra escureceu o rosto do capitão. Seria impossível consertá-lo antes do cair da noite, o sol já se punha. Era preciso fazer alguma coisa! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Travar âncora! – berrou – Amarrem bem essas velas! Rápido, seus animais! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas, nem bem o sol desapareceu no horizonte, os ventos ficaram mais fortes. Todas as seis arcas haviam sido levadas para o convés inferior, e todas as velas haviam sido recolhidas, mas mesmo assim o barco estava sendo puxado. A âncora rúnica, travada no espaço, era a única coisa que impedia o aeronavio de ser arrastado corrente acima. E os ventos não paravam de piorar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Vai arrebentar! – gritou alguém. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O estalo seguiu ao aviso, e a força dos ventos separou o Fura-nuvens de sua própria âncora, lançando-o mais e mais para frente, para cima. O timão rodava no tombadilho, inútil, e sem o leme o aeronavio rodopiava em seu curso. Um homem caiu do convés, empurrado pelo ar, e ninguém se atreveu a correr aos ganchos para salvá-lo. Agarravam-se, procurando abrigo no convés inferior. A corrente era poderosa demais, e sem leme ou âncora, seriam levados até que se dispersasse. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram arrastados por muito e muito tempo. Dias pareciam ter se passado, mas o sol não nascia, era sempre noite, e cada vez mais escura. De certa feita, o mastro principal se partiu, e então tudo o que puderam fazer era rezar aos ventos... E subiam. A comida começou a acabar e o ar ficava rarefeito. Homens facilmente desmaiavam, e três morreram por inanição, entre eles Belossab. O desespero. Fizeram de sua carne comida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No que seria o terceiro dia naquela corrente fatal, os ventos acalmaram um pouco. O capitão e Omali puderam subir ao convés. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Que frio invernal! Veja, imediato, as estrelas estão diferentes, e a lua está tão próxima! Não vejo nuvens aqui em cima, e o continente está tão longe que vemos as bordas do mar! Céus, como está difícil respirar... Será que subiremos mais? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não sei... Veja o desastre no mastro, capitão... Não temos como controlar o Fura-nuvens, só nos resta orar por uma corrente descendente. E o dia que não nasce? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Uma noite eterna... Mas, o que foi, Maimune? – a fada de ombro esvoaçava preocupada, apontando exasperada para uma região escura mais acima. Ali não havia estrelas – Diga, o que foi? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela apontava para a mancha escura, e sua voz fina sussurrou uma palavra que ele não esperava ouvir, nem em seus sonhos mais terríveis. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Meskotos?! – exclamou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grande reino do povo-fera, fora do alcance do mundo, o reino escuro, nos limites do céu. Próximo a ele, os ventos são tão terríveis e tão intensos que dobram a própria realidade sobre si mesma, criando incontáveis vórtices e turbilhões de muitas dimensões. Aquele que ousar se aproximar será destroçado em mil pedaços, e mesmo quem lograr sobreviver, ficará para sempre preso a mil existências, sem consciência e sem jamais poder retornar ao que era. E estavam indo para lá. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Que o grande Éolo nos proteja! – gritou – Estamos na borda do inferno! Omali! – seu olho então adquiriu o brilho da loucura – Conte isso aos homens, para que preparem seu caminho para o outro mundo. Meskostos! Estamos condenados, condenados! Solte-me, já disse, deixe-me! Estarei em minha cabine, minha preciosa cabine... Estamos condenados... – e ele e Maimune se foram. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Omali, desesperado, desceu as escadas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A notícia enlouqueceu mais cinco homens, que correram para o tombadilho e de lá se precipitaram para o espaço. Omali e mais alguns entoaram a canção da morte de Kaikias, enquanto outros oravam, e outros ainda dormiram, já sem forças para nada. Então, um poderoso solavanco sacudiu a todos, e o aeronavio girou com extrema violência. Rodaram, subiram e desceram, e então o espaço se comprimiu terrivelmente, já não havia navio ou homens, mas uma turbulência dos sentidos. Todos imploravam pela morte. A luz sumiu, o barulho tornou-se ensurdecedor, e seus corpos voavam. Dor e escuridão, dor e escuridão, até que sobrou apenas o escuro, e então mais nada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&amp;lt;&amp;gt;&amp;lt;&amp;gt;&amp;lt;&amp;gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Omali se lembra que acordou envolto em sangue seco, e membros decepados, sem saber por que milagre estava vivo. O Fura-Nuvens navegava suave, embora despedaçado, e a luz do dia entrava pelas frestas. Restava apenas uma das arcas de ouro, aberta e quase vazia, ao lado de um grande rasgo no casco. Outros sobreviveram também, e correram todos para o convés superior. Desciam. O aeronavio não tinha mais nenhum mastro ou vela, mas suas membro-asas o conduziam. O tombadilho havia sido arrancado do convés, juntamente com a cabine. Nem sinal do Capitão. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Mas desciam. Era uma sorte o Fura-nuvens ainda estar vivo, se era. Foi o olho de Omali que avistou, então, o porto onde desatracaram. O dia estava nublado, traria chuva. Eram agora apenas sete homens, mas estavam vivos. Pagaram hospedagem e comida com o pouco ouro que sobrou, e ao cair da noite, quando a tempestade atingiu o porto, decidiram tomar mel-cerveja na estalagem central. Tentariam esquecer aquela viagem, nem que fosse por uma noite. Nunca conseguiram. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2502613120236415342-1874679436324505589?l=eisoptron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/1874679436324505589/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/conto-cacadores-de-nuvens.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/1874679436324505589'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/1874679436324505589'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/conto-cacadores-de-nuvens.html' title='[Conto] Caçadores de Nuvens'/><author><name>DanielFolador</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12052168755551551359</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sn2PcB1vKeI/AAAAAAAAAC8/_lEL3rRf5GY/S220/P1170002.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StkHvsv_LfI/AAAAAAAAAHo/BZH7Y6i1pS0/s72-c/horizonmoon_nasa.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342.post-8916171741950274762</id><published>2009-10-16T14:53:00.000-07:00</published><updated>2010-09-08T14:11:55.538-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Universo: Aera'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos Reunidos'/><title type='text'>[Conto] Metal, Céu e Mar</title><content type='html'>&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt; &lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/conto-princesa-da-cupula-de-vidro_16.html"&gt;← Postagem anterior&lt;/a&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/conto-cacadores-de-nuvens.html"&gt;Próxima postagem →&lt;/a&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StjrVrcKJUI/AAAAAAAAAHI/FhlKPuNcHcI/s1600-h/o.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StjrVrcKJUI/AAAAAAAAAHI/FhlKPuNcHcI/s400/o.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&amp;nbsp;(do universo de Aera, o mundo dos Deuses Ventos) &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Não sou escravo de ninguém. Fui construído por um feiticeiro solitário, que sucumbiu sozinho em seu próprio castelo, e desde então conheço a liberdade.  Fiz o que fiz e segui até aqui por minha própria vontade, por isso não trago qualquer arrependimento, nem deixo nada para trás. Meus amigos estão mortos, e logo também estarei. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto o vento forte em meu rosto quente, na mão direita a espada quebrada, na mão esquerda o tesouro de meu capitão e amigo. O sonho que buscamos por tantos anos, o sonho que nos uniu como companheiros! Estou caindo, e levarei este tesouro comigo. Atravesso veloz as nuvens da noite, em direção ao grande Mar, aos seus profundos abismos. Mesmo que eu resista à queda, nem meu corpo de ferro suportaria a pressão das profundezas abissais. Serei destruído, e o tesouro se perderá para sempre. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me juntei à tripulação do Castelo do Céu há cinco anos. Pelos Ventos, como era solitário antes dele! Fiz amigos verdadeiros ali, amigos que poucas pessoas podem se gabar de terem tido. Meus amigos... Viajamos muito e juntos conhecemos muitos lugares, sobrevoamos as florestas do País do Sul e visitamos quase todas as ilhas voadoras. O Castelo do Céu era um aeronavio explorador, buscávamos um sonho, e esquadrinhamos os céus em sua procura. Foi Im Onarhais quem nos uniu nessa viagem, quem deu um propósito para nossas vidas. Foi um bom capitão, o melhor pra quem trabalhei como aeronauta. Todos os tripulantes do Castelo lhe eram gratos. Muitos de nós sequer tinham mais do que a roupa do corpo, nem família; alguns até eram criminosos. Ele acolheu a todos e nos deu um novo rumo. Fez-nos abraçar seu sonho, algo que mudaria nossas vidas para sempre: a busca pela Trimiftah! Eu nunca antes tivera um propósito, perambulara anos por aeronavios, mas Im Onarhais me deu um sonho. Fiz dessa a minha busca. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aperto com força a pequena chave de ouro e prata em minha mão. E, lágrimas? Eu não sabia que podia chorar. Cinco décadas de vida e é a primeira vez que choro! As lágrimas escorrem para cima, para onde o Castelo jaz em chamas... Porque as coisas tiveram que ser desse jeito? A própria fé em nosso companheiro destruiu tudo. Nosso próprio companheiro! Quem imaginaria que Ha Kakazar fosse um traidor? E fingiu nossa amizade por tantos anos... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trimiftah, a chave dos três reis, em minha mão esquerda! Cinco anos em sua busca, cinco anos de luta e determinação, para terminar aqui, caindo para o mar, para a morte. A Trimiftah... Mesmo eu já ouvira falar dela antes de ingressar no Castelo; uma lenda famosa. Dizia que três poderosos reis guardaram todos os seus tesouros em um único salão, separado desse mundo. O único caminho para lá era um portal de pedra, trancado por sua vez por uma chave mágica. A própria chave era um tesouro, forjada em ouro e prata e incrustada de diamantes. A Trimiftah. O portal era conhecido de todos, um atrativo de nobres e peregrinos, mas a localização da chave era um mistério lendário. Cinco anos em sua busca, para Ha Kakazar destruir tudo! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tento me voltar para cima, e o vento atinge meus olhos. Vejo a lua e as estrelas. E ali, atrás das nuvens escuras, ainda vejo os restos flamejantes do Castelo, o túmulo de meus amigos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de tantos anos, estávamos exultantes, finalmente a encontramos! Um sonho realizado, a riqueza de três reis! Quase acreditei em Ha Kakazar – porque ainda o chamo de amigo? – Bem, quase acreditei em Kakazar. Não sei porque, mas estranhei quando pediu que todos esperássemos no convés inferior, para um comunicado do capitão. Intuição de golem, talvez. Tive vontade de ver a chave antes do comunicado, mas quando abri o baú de pedra, ela havia sumido! Senti o cheiro da traição, e corri para avisar os outros. Tomei minha espada e entrei no convés. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas era tarde demais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando desci a escada, as chamas engolfaram todo o lugar. O grito de meus companheiros e amigos! Ainda ouço o eco de suas dores, acima do zumbido do vento. Kakazar, um feiticeiro vermelho? Escondera muito bem a sua identidade, muito bem! E agora usava um dos encantamentos mais terríveis de sua casta: o sopro do dragão. O fogo destruidor mergulhou o convés em rubro e engoliu nossos corpos. O corpo humano é tão frágil. Com meus olhos de golem pude ver por entre as chamas, vi meus companheiros caindo em estertores de agonia. Vi meu capitão gritar de ódio e desespero, seu chapéu se incinerar e seu corpo murchar como uma mariposa no fogo. Vi os demais morrerem também, um a um. A cena me paralisou, a estupidez e ganância de Kakazar destruíram tudo, tudo; meu sonho se fora com a vida de todos eles. Mas, eu podia avançar. Ergui minha espada de ferro e investi contra o traidor. Ele me viu, entoou um encantamento de guerra e criou lanças de fogo, que atacaram meu corpo por todos os lados, barrando-me o caminho. Meu ferro começou a arder, minha mão fundia-se ao cabo da espada. Usei toda a força que tinha e baixei minha arma sobre o chão. Madeira e ferro se partiram, fragilizadas pelo fogo, e o navio deu um poderoso solavanco. Isso fez meu inimigo cair para trás, e uma coisa dourada fugiu de sua mão. A Trimiftah! Pulei para a frente e a agarrei, triunfante. Entretanto, embora o encantamento houvesse cessado, o navio já se incendiara. Outro solavanco, e caí de joelhos. Não foi meu golpe, mas o fogo que fazia o Castelo agonizar! Quando voltei minha atenção para Kakazar, porém, o maldito cantava para outro sopro do dragão. Meu corpo estava fundente, não agüentaria. Minha mão soldara-se ao cabo da espada partida; eu não teria tempo de alcançá-lo, tampouco de fugir convés acima. Era meu fim, de qualquer jeito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não deixaria que ele tivesse a chave. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobrevoávamos o mar, então me arremessei com força contra o casco frágil do navio. A madeira cedeu e meu corpo mergulhou no espaço vazio do céu noturno. Ouvi o grito de ódio do traidor, do ladrão, do assassino, e pude sorrir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um golem atravessando os céus. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estão todos mortos; eu mesmo morrerei ao atingir o oceano. Minha mão fundiu-se em volta da Trimiftah, nosso tesouro. Meu capitão nunca descansaria em paz se Kakazar a tivesse obtido, cumpri meu último dever. Ela agora se perderá para sempre nos abismos do mar. Junto comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;__________________________________&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Comentário do Autor: no folclore judaico, o &lt;/i&gt;golem &lt;i&gt;(גולם) é um ser animado que é feito de material inanimado, muitas vezes visto como um gigante de pedra. O nome é uma derivação da palavra &lt;/i&gt;gelem &lt;i&gt;(גלם), que significa "matéria prima".&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;O conto foi escrito em cima de uma canção muito conhecida da Legião Urbana, "Metal contra as nuvens". Aliás, esse poderia ser o título do conto.&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2502613120236415342-8916171741950274762?l=eisoptron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/8916171741950274762/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/conto-metal-ceu-e-mar.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/8916171741950274762'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2502613120236415342/posts/default/8916171741950274762'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/conto-metal-ceu-e-mar.html' title='[Conto] Metal, Céu e Mar'/><author><name>DanielFolador</name><uri>http://www.blogger.com/profile/12052168755551551359</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='24' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Sn2PcB1vKeI/AAAAAAAAAC8/_lEL3rRf5GY/S220/P1170002.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StjrVrcKJUI/AAAAAAAAAHI/FhlKPuNcHcI/s72-c/o.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2502613120236415342.post-259261637396085486</id><published>2009-10-16T11:16:00.000-07:00</published><updated>2010-09-08T14:10:32.709-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Universo: Aera'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos Reunidos'/><title type='text'>[Conto] A Princesa da Cúpula de Vidro</title><content type='html'>&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt; &lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/conto-pena-da-fenix-parte-2.html"&gt;← Postagem anterior&lt;/a&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;&lt;a href="http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/conto-metal-ceu-e-mar.html"&gt;Próxima postagem →&lt;/a&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StjwtvDJUvI/AAAAAAAAAHQ/kfTbAp_-seY/s1600-h/arvores-floresta.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="250" src="http://2.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StjwtvDJUvI/AAAAAAAAAHQ/kfTbAp_-seY/s640/arvores-floresta.jpg" width="401" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: x-small;"&gt;(Enfim, um dos muitos contos que virão sobre o universo de Aera, o mundo dos Deuses Ventos)&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;I &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;_ Me diz outra vez: ela é mesmo bonita?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;_ Muito! Ela é tão bonita que um dia a Primavera parou de viajar só pra ver ela, e fez até florzinhas nascerem nas pedras!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;_ Ah, isso sim deve ser mentira! – riu a garota.&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Verdana,sans-serif; margin-bottom: 12pt; text-align: justify;"&gt;O menino fez um bico pra chacota da amiga, mas não insistiu. Ele sabia que era verdade, ele mesmo vira as flores de pedra nascendo do chão e as árvores de bronze florindo pétalas de cobre; disso ele nunca esqueceria. Tinha então apenas seis verões de idade, mas aquilo o impressionou tanto que mesmo quatro anos depois guardava a lembrança, como a um tesouro: flores nascendo em todos os lugares imagináveis, belas, e no centro das três árvores de metal, a Princesa do Vale. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Verdana,sans-serif; margin-bottom: 12pt; text-align: justify;"&gt;_ Mas agora deixe de histórias: como ela era?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Verdana,sans-serif; margin-bottom: 12pt; text-align: justify;"&gt;_ Muito bonita! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Isso você já me disse, mas como ela se parecia? &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Verdana,sans-serif; margin-bottom: 12pt; text-align: justify;"&gt;_ Ah... ela tinha cabelo grande e encaracolado, cor-de-terra. A pele dela era morena, queimada, mais ou menos como a sua. Ela ficava dentro dum grande vidro cheio de água, que fazia o cabelo dela ficar dançando, assim, parecia que ela tava dormindo... Muito bonito! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Hum... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thuga balançou os pés, pensativa, do alto do galho onde estavam. Queria saber como era ser uma princesa, ser filha de um rei. Um rei, ora essa. Ser amada e ter tudo o que quisesse, quando quisesse e como quisesse. Um rei não deixaria sua filha para trás. Definitivamente, seria muito bom ser uma princesa. Passou a mão pelos cabelos curtos, pensativa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Eu tinha cabelo comprido... Gostava deles. Pena que tiveram que cortá-los. Será... será que eu sou tão bonita quanto a Princesa? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Mas é claro que não! – disse o menino, sem pensar – Quer dizer, você é bonita, Thuga, mas ela é uma princesa, e tinha um vestido e também, ela tinha, sabe... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A garota riu da falta de jeito do amigo. Filo não tinha irmãos mais velhos, e os jovens da pequena vila não deviam dar atenção ao menino. Isso fazia de Thuga a primeira garota mais velha com quem ele conversava, e várias vezes ele ficava sem jeito. A diferença de idade não era grande, é verdade, ele com dez e ela com quinze, mas para ele parecia uma vida inteira. E Thuga ria, até Filo desistir de se explicar. Adorava o pequeno amigo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Tá bom, não tenho chance contra sua Princesa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um vento frio farfalhou as folhas da alta árvore onde estavam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Vamos descer, Filo? Escureceu cedo... Seus pais podem estar preocupados. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Escureceu cedo porque é inverno – disse o menino – E daqui a alguns dias vai começar a Temporada dos Furacões. Ainda bem que a Princesa protege o vale!... Vamos, duvido que você desce a árvore mais rápido do que eu! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Há! Você vai é ficar para trás! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E entre risos, voltaram para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;II &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;A noite caía no Vale de Altasávores, e ao som das cigarras as lamporquídeas começavam a iluminar os pequenos povoados. Os cidadãos se recolhiam em suas casas-árvores, fugindo da brisa fria das noites de inverno, e preparavam o jantar. Os feiticeiros azuis recolhiam as oferendas do povo, enquanto compunham encantamentos para uma noite tranqüila. Comeriam frutas silvestres, porque mesmo no frio mais rigoroso haveria árvores no País do Sul para prover frutas. A refeição não seria das mais fartas – estocavam – mas ainda assim se podia dormir satisfeito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na casa de Filo, havia cinco à mesa. As flores iluminavam as paredes de madeira branca, e havia peles grossas sobre as janelas redondas para barrar o frio. Os cinco também vestiam peles, apesar da pequena fogueira de madeira-das-fadas aquecer o interior. O fogo não desprendia fumaça, mas um aroma doce, deixando a sala de jantar aquecida e perfumada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Therão, o pai, sujeito forte e de traços duros, comia com gosto uma fruta-pão e bebia suco de glipoma, uma frutinha vermelha em forma de oito, muito doce e popular em Altasávores. Acácia, a mãe, mulher pequena e de rosto rosado, bebia o sumo de uma grande melancia, enquanto Filo dividia gomos de laranja com Thuga. Melesio, o visitante de vestes azuis, apenas bebia do suco vermelho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Por todos os Ventos, coma alguma coisa, Mel, ou será que feiticeiros não comem? – riu o anfitrião. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Comemos sim, velho amigo, mas hoje estou sem fome. Beberei apenas suco. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Desculpa a pouca comida, Mel, você sabe que não temos muito – desculpou-se a mãe – Mas não se acanhe em nos acompanhar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Realmente não tenho fome, muito obrigado, Cácia. A Casa dos Mais Velhos está cheia de comida, oferendas do povo, mas hoje quero jantar com meus amigos – sorriu, ajeitando as tranças de seus cabelos grisalhos. Como qualquer habitante do País do Sul, não tinha barba. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Mas nosso vilarejo é tão longe do seu, não precisava ter se incomodado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Não foi incômodo, gosto de viajar entre as vilas. E também, daqui a alguns dias Thuga terá que voltar pra casa, e não poderei mais vê-la. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Na verdade, ela passará o inverno conosco, Mel – explicou a mãe – A estação já vai alta, não seria seguro viajar tão perto da Temporada dos Furacões. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Além disso, eu fugi de casa, não pretendo voltar – respondeu a menina. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mesa ficou em silêncio, restando apenas o barulho dos insetos lá fora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já se passavam duas semanas desde que Therão havia encontrado a jovem caída em meio aos arbustos, perto da Floresta Escura, e deu graças ao Vento Sul por tê-la achado antes dos perigosos Ladrões de Ar. Estava desacordada e muito machucada, com galhos e folhas presos nos cabelos, seu vestido estava rasgado e sujo. Levou-a para casa e Acácia cuidou dela. Tiveram de cortar seus cabelos, tão emaranhados que estavam, e lhes dar roupas novas. Em dois dias ela acordou, ainda fraca, e o casal de camponeses decidiu hospedá-la até que se recuperasse. Ela não saía muito dos arredores da casa, e mesmo porque Therão e Acácia moravam longe do restante da vila. Logo, logo ela e Filo se tornaram amigos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thuga não era do Vale, mas das colinas mais além. Fugira de casa, onde morava com o tio, para procurar o pai. O pai de quem pouco se lembrava, mas que amava, e que sonhava um dia reencontrar; seu sonho desde pequena. Foi numa noite chuvosa de outono, após uma grande discussão, que decidiu fugir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Procuraria pelo pai. Partiu antes mesmo de raiar o dia, levando consigo apenas sua própria roupa, um saco de água, sementes de casa-árvore, frutas e o espelhinho de prata, presente do pai em seu aniversário de sete verões, seu tesouro. Viajou alguns dias até atingir os limites de Altasárvores e se perder nas encostas. Andou dois dias inteiros por entre as árvores do vale, acabando por cair num barranco e desmaiar. Ou alguma coisa assim... Thuga não se lembrava direito. Quando Therão contou onde a encontrara, Acácia beijou a costa das mãos para espantar o azar, agradecendo à Brisa da Graça, porque a menina tinha caído muito perto do território dos Ladrões de Ar. As feras temidas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo isto Melesio sabia, Therão lhe contara dias atrás sobre a pequena hóspede de sua casa, e ele tornou-se amigo da jovem Thuga. Admirava-lhe, porém, que ela ainda não tivesse desistido de sua viagem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Thuga – disse ele – seu tio já deve estar bastante preocupado... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Tio Mel, eu já me decidi: vou encontrar meu pai. Sei onde ele mora, e me lembro de pequena da nossa casa. Foi exatamente por isso que briguei com titio, não vou desistir de procurá-lo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Tudo bem, Thuga, tudo bem. Deixemos isso para o fim do inverno – disse o feiticeiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menina calou-se, pensativa, mastigando seus gomos. Outra coisa ia-lhe na alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;_ Tio Mel, conta a história da Princesa do Vale? – disse, de súbito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Mas é claro, Thuga, é claro – o feiticeiro olhou para o casal – Therão, Acácia?... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Sem problemas, Mel, vá em frente – respondeu Therão. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;_ E você, Filo, não cansou da história? – perguntou, sorridente, ao filho do casal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Nunca! Conta ela outra vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Então, ouçam... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Melesio fechou os olhos, e a luz da lamporquídea diminuiu, deixando os cinco na penumbra. Tirou do cinto pequenos frascos de ferro, e os pôs sobre a mesa. Destampou-os, e começou a desenhar no ar. As tintas fosforescentes deixaram os fracos e elevaram-se, acompanhando os movimentos do feiticeiro, dançando. Uma paisagem se formava, uma paisagem pintada no escuro. Melesio começou:&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Ss6sqQJ8wuI/AAAAAAAAAFA/3JaCm_WLIR8/s1600-h/tinta-1-custom+c%C3%B3pia.jpg" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img src="http://2.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Ss6sqQJ8wuI/AAAAAAAAAFA/3JaCm_WLIR8/s200/tinta-1-custom+c%C3%B3pia.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;Há muito tempo atrás, antes ainda dessa casa ser plantada, havia um Senhor poderoso que governava com sabedoria todas as tribos. Era amado pelas aldeias, dos vales e das colinas, e muito respeitado. Tornou-se Rei, e seu reino foi próspero e poderoso. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt; Mas sempre há inveja. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era possível invadir o reino, tampouco incitar a revolta; mas um poderoso Feiticeiro da Praga descobriu o ponto fraco, algo tão simples e ao mesmo tempo tão poderoso: a vida de sua filha. Fez alianças com o povo-fera em troca de mais poder, e caçou tesouros em vales profundos e esquecidos. Mais forte, compôs um encantamento para acabar com a vida da pequena princesa. A menina caiu no sono dos doentes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Rei desconfiou de magia, e chamou o mais poderoso feiticeiro azul do reino para curá-la. Exultou quando a vida de sua filha foi salva, mas a maldição era forte demais: a princesa dormiria para sempre. Foram dias de luto aqueles, para todo o povo. Vários feiticeiros azuis foram convocados para libertar a menina de seu sono perpétuo, mas nada conseguiram. Vários foram mandados para caçar o feiticeiro da praga; também não tiveram êxito. E os anos passaram. &lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;Foi numa manhã de outono que, já resignado, o Rei decidiu construir o mausoléu para sua filha amada. Foi então que Huali, o Herói das Asas de Vidro, trouxe a cabeça do feiticeiro. O Rei chorou de felicidade, e ofereceu ao herói o que ele desejasse. Huali sorriu e pediu: dê-me a beleza de sua filha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Desde o primeiro dia que a vi, a amei profundamente. Foi por ela que passei dois anos caçando esse maldito, e por ela que vim aqui. Peço que me dê sua filha para ser a Filacteria do vale de meu pai. Construa o seu mausoléu em nosso vale”. &lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt; Em Aera, nosso mundo, todo inverno traz a terrível Temporada dos Furacões, quando ventos poderosos rasgam a terra e o povo-fera anda livre, por dois longos meses. Por isso que cada vila, povoado ou cidade tem uma filacteria para protegê-los, um artefato abençoado pelos Quatro Ventos para manter aquela região intacta. Sem uma filacteria, não pode haver povoado. Há homens que aprenderam a viver sem elas, sim, mas são povos bárbaros ou nômades, e devem fugir ou se refugiar sempre que a Brisa do Inverno começa a soprar. Somente um Herói pode criar uma, porque somente um Herói tem a bênção dos deuses. E, o requisito maior e mais caro, o Herói deve amar o objeto que se tornará a filacteria. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Huali cumpria todos os requisitos para o ritual, e tinha o débito do Rei. Sua proposta foi aceita. Construiriam um mausoléu magnífico no ponto mais alto do vale. Para isso, o Rei chamou um feiticeiro de cada casta para construí-lo, para que fosse tão belo que seria lembrado por muitos e muitos anos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O feiticeiro azul compôs o poderoso encantamento para protegê-la eternamente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O feiticeiro pardo retirou o bronze mais puro dos veios da terra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O feiticeiro vermelho moldou o bronze em três belas e magníficas árvores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O feiticeiro branco congelou sua juventude: ela dormiria para sempre, mas não envelheceria um dia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O herói construiu uma cúpula com suas asas de vidro, que encheram de água e onde repousaram a princesa. Ele lhe deu a bênção dos heróis, e então foi criado o Vale de Altasárvores. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E isso foi há muito e muito tempo, quando ainda não havia casas plantadas no vale, quando apenas os animais e o povo-fera aqui habitavam. Então, tribos migraram e aqui se estabeleceram. Dizem que a própria Brisa da Primavera parou sobre a montanha e presenteou a princesa com suas flores, e dizem ainda que quem orar a prece do sul ao pé da cúpula de vidro, terá seu sonho realizado. A cada solstício de verão, o povo sobe as altas montanhas para agradecer à Princesa do Vale por suas casas e por sua terra, e dizem que ela já realizou muitos sonhos. &lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A imagem da princesa desenhada dentro da cúpula de vidro ainda pairou por alguns segundos no ar, antes de Melesio, com um gesto suave, apagá-la. A sala então voltou a sua luminosidade normal, as tintas voltaram aos seus frascos, e Melesio sorriu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Que acharam da história? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os outros agradeceram e elogiaram, mas Thuga nada disse. Não que não tenha gostado, achou a história linda, mas uma idéia se formava em sua cabeça. Orar a prece do sul e ter seu sonho realizado. Seu sonho. Encontrar seu pai. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Quando eu crescer, vou viajar e me tornar um herói igual o Huali! – disse Filo, subindo no banco e quase caindo em cima da mesa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos riram. O jantar terminava. Melesio se levantou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Tio Mel, antes de ir, me explica: porque as pessoas só vão até a princesa no solstício de verão? – perguntou Thuga. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Ora, o caminho é longo e perigoso. As pessoas só viajam até lá com um feiticeiro da Casa dos Mais Velhos, porque a trilha passa pelo território dos Ladrões de Ar, e o guardião da princesa – toda filacteria tem um guardião, você sabe – não permite que se aproximem sem cantarem a canção secreta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ E como é essa canção? – perguntou ela, com curiosidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Melesio olhou um pouco desconfiado para a pequena. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Sinto muito, Thuga, não posso dizê-las, servem para proteger a Princesa de ladrões e pessoas menos decentes. Mas eu mesmo nunca fui até a princesa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Nunca? Por quê? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Isso já seria história demais por uma noite – riu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menina fez um uma careta de desaprovação para o velho feiticeiro, mas logo deu um sorriso e começou a arrumar a mesa. Melesio sorriu para a curiosidade da menina, ajudando também. Era hora de partir. Agradeceu o suco, abençoou-os e se despediu. Teria ainda que caminhar bastante para chegar em casa, mas não haveria perigo para um feiticeiro azul, mesmo à noite, mesmo no inverno. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Acácia e Therão foram para seu quarto e armaram suas redes. Thuga dormiria com eles e Filo iria para o seu próprio quarto. Antes de ir, porém, ela chamou o pequeno amigo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Filo, vem cá. Me diz, você sabe como são os ladrões de ar? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O menino arregalou os olhos de medo antes de responder. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Não, eu nunca vi um não. Mas papai disse que são iguais a pessoas altas, com pele escura como a de um lobo, garras nas mãos, sem boca e sem nariz, e olhos que brilham no escuro. Do cabelo e das costas dele sai fumaça preta, como se fossem pêlos. Eles roubam o ar dos pulmões das pessoas, até elas morrerem – disse o menino – Por isso que quem mora perto deles sempre dorme com um pedaço de pano em cima do rosto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;_ É pra onde que eles moram? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Você ta querendo ir lá?! – disse Filo, quase gritando. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Shh! Faz silêncio! Tio Mel disse que a trilha pra ir pra princesa passa por lá, então eu tenho que saber onde é. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;_ Você vai ver a princesa?! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Shh! Já disse pra fazer silêncio! Como você quer ser um herói se morre de medo assim? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;_ Eu não tenho medo... – resmungou o pequeno – Mas o quê que você vai fazer lá? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Você é tonto ou tá com sono? Tio Mel disse que quem orar no pé da cúpula de vidro vai ter seu sonho realizado. Eu quero encontrar meu pai. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;_ Mas você disse que sabia onde ele morava! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Eu... – a menina corou – eu não sei. Por isso preciso da ajuda da Princesa. Mas e você? Não quer se tornar um herói? Não quer ver a princesa? A última vez que você a viu você tinha o quê, seis verões de idade? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Eu quero ser um herói sim! – então ele olhou para os lados, falando em voz baixa – mas o que vamos fazer? Ir até lá? &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;_ Eu vou. Se eu pedir, seus pais não vão deixar, e Tio Mel não sobe a trilha. Olha, vou amanhã de manhã, depois que seu pai sair pra caçar. Só me diz qual é o caminho. Você sabe, não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Sei sim... Mas ele é perigoso! Quê que você vai fazer com os ladrões de ar? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Seu pai me disse mais cedo que eles só aparecem de noite. Por isso vou de manhã. Você vem comigo ou não? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Eu... mas é muito longe! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menina soltou um suspiro de impaciência. Não tinha medo. Seu pai lhe ensinou que não se devia ter medo. Iria nem que fosse sozinha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Pode ficar então, Filo – disse, nervosa – Eu vou de manhã, chego antes da hora do jantar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E se foi para sua rede. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Thuga, espera! – ele chamou, e em seguida correu para seu quarto. Voltou trazendo um saco de peles cheio – Leva essas coisas com você. Ouve só, não esquece: glipomas pro homens-besouro, em troca de informação. Quando você encontrar as árvores-de-pedra, dá esses pedaços de carvão pra elas te deixarem passar; logo depois, não esquece, você tem que fazer uma tocha: leva esses gravetos secos e essa palha. E então, você tem que tomar muito cuidado, você vai estar no território dos ladrões de ar. Eles são os mais perigosos, são do povo-fera. Usa o lenço pra proteger seu rosto e... – o menino fez uma pausa, olhando para o fundo do saco – e leva minha espada – disse ele, corando. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E entregou a espada. Era um facão velho, de um metro de comprimento, com cabo de madeira podre onde algumas tiras de algodão tentavam lhe dar um ar mais nobre. Havia trincas no fio da lâmina, mas estava tão polida quanto as mãos do pequeno Filo podiam ter trabalhado. Thuga se impressionou com aquilo tudo, e então entendeu o que se passava: o pequeno amigo devia estar planejando sua viagem até a Princesa há muito tempo, colhendo informações sobre a trilha, mas talvez a coragem lhe faltasse. Sorriu para ele, e agradeceu muito tudo aquilo. Já não estava com raiva do amigo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Mas, e o Guardião? – Thuga fez um bico desanimado – como vou passar por ele?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Filo olhou para o quarto dos pais, pra se certificar de que eles não ouviriam, e começou a cantar baixinho: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Vítreo vidro que vi &lt;br /&gt;Vívido é o viço daqui&lt;br /&gt;Do verde vale que vim&lt;br /&gt;das vias, sou volatim &lt;br /&gt;Víride visgo que vejo&lt;br /&gt;Ventos! À vera desejo&lt;br /&gt;ver vedro vidro qu’encerra &lt;br /&gt;a Princesa do alto da serra &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Mas, que é isso? – perguntou Thuga &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ A canção do Guardião! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menina ficou espantada. Como o menino conhecia a canção que nem mesmo Melesio queria cantar? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Eu lembro dela de pequeno – explicou Filo – quando subi o vale. Papai e mamãe não foram, acho que eles nunca subiram, mas me deixaram ir com um feiticeiro da Casa dos Mais Velhos. Lembro que ouvi ela quando era bem pequeno, mas eu não esqueci!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Filo, você é demais! Tem mesmo certeza de que não quer vir comigo? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Eu... – ele baixou os olhos – Não, não vou não. Pede pra Princesa me transformar num herói quando eu crescer?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Peço sim, Filo, peço sim – respondeu Thuga, passando a mão nos cabelos cacheados dele – Muito obrigado pela ajuda. Mas não fala nada pros seus pais antes de eu chegar, senão eles vão atrás de mim e não vão deixar eu ir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Não falo nada! Prometo! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Brigado, Filo. Você é um amor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Só mais um coisa, Thuga: toma muito, mas muito cuidado mesmo com a minha espada, tá?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menina olhou para o facão trincado e velho, mas lembrou-se de que também tinha um tesouro, que amava acima de muitas coisas. Pôs a mão sobre o busto, para sentir o espelhinho de prata que ganhara do pai. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;_ Você tem minha palavra, Filo. Juro por todos os Ventos. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Abraçaram-se e foram cada qual dormir. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;III&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;“Glipomas pros besouros, carvão pras árvores, depois fazer uma tocha, e proteger o rosto”. Thuga repetia mentalmente as instruções que recebera na noite anterior, como um mantra. Em seguida, cantava a canção secreta em voz baixa, para ter certeza de que não a esqueceria. Sentiu um pouco de pena por ter deixado Filo para trás, mas nada podia fazer, não podia obrigá-lo a vir. Olhou para a espada que trazia à cintura, perguntando se ela seria realmente útil. Andava agora por uma colina de pequenos arbustos, o caminho que o menino indicou, antes de entrar na floresta fechada. O sol ainda não atingira o fundo do vale onde estava a pequena vila de casas-árvore, e havia neblina. Ela se agasalhara o melhor que podia, levando frutas e suco para se alimentar no caminho. O céu clareava acima dela, as lamporquídeas já se apagaram junto com as estrelas, e as flores se abriam para a chegada do sol. Seria um dia bonito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Ss6r3MU1QYI/AAAAAAAAAE4/GF8qH2fWfkQ/s1600-h/floresta.jpg" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img height="291" src="http://2.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Ss6r3MU1QYI/AAAAAAAAAE4/GF8qH2fWfkQ/s400/floresta.jpg" width="388" /&gt;&lt;/a&gt;O vestido de Thuga não a atrapalhava a caminhar. Era justo ao corpo, sem babados, de algodão resistente que não se rasga facilmente. Peles de coelho branco adornavam as mangas, protegendo os ombros e o braço, e um capuz das mesmas peles protegia a cabeça. Além dos agasalhos de peles, não havia outros adereços, e o tecido era todo bordado com desenhos de animais e árvores. As peles não se sujavam com facilidade, o tecido tampouco; as botas eram de couro resistente. As roupas do povo do sul eram as melhores para se andar na floresta, e ninguém dentre os quatro países se embrenhava na mata fechada com mais naturalidade nem com tanta agilidade. Eram o povo das selvas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cruzando a colina de arbustos, Thuga usou o facão para abrir as folhas e entrar sob as árvores. Pelo menos para limpar o caminho ele serviria. A noite parecia não ter deixado ainda a floresta, se escondendo sob as folhas das árvores, teimosa com a chegada do sol. A menina tirou da bolsa uma pequena flor de lamporquídea. Na escuridão, as pétalas da pequena planta se abriram e seu centro passou a emitir uma fraca luz amarelada. O caminho subia, subia sempre, entre árvores a princípio pequenas e finas, até que então começaram a aparecer as gigantes do vale. Árvores tão altas que não era possível ver o fim de sua copa, e tão grossas que dez homens não conseguiriam abraçá-las. Várias outras árvores cresciam à sombra dessas, fechando o caminho mais e mais. Mas Thuga era nativa do país do sul, e se esgueirava e circundava os obstáculos com tanta graciosidade que quase não precisava recorrer ao facão. Caminhou assim por algum tempo, até o sol lograr tocar o fundo do vale, embora sob as árvores ainda houvesse penumbra. Caminhou e caminhou, mas chegou a uma parte da trilha que não podia mais seguir em pé. Guardou o facão, agachou-se, cravando as mãos na terra fofa e fértil, em busca de apoio, e começou a escalar, lentamente. Ganhou apenas poucos metros, quando teve que desviar muito para o lado para contornar o barranco. Após alguns minutos, já não sabia a direção que devia seguir. Encontrou um pequeno nicho nas grandes raízes de um colossal jatobá e resolveu descansar ali. Sentou-se, bebeu suco de glipoma do seu cantil feito de coco, e descansou a cabeça nos joelhos. Fechou um pouco os olhos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Ouviu um tilintar de gravetos e alguma coisa passando perto de sua perna; levantou a cabeça assustada. Pequenos vultos correram de sua visão, escondendo-se atrás das raízes, e nos buracos da terra. Pareciam insetos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Desculpe assustá-los, mas estou perdida e preciso de ajuda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um momento de silêncio, antes de alguns deles se reaproximarem. Eram os homens-besouro, que Thuga nunca tinha visto. Tinham o tamanho de um punho fechado, alguns eram menores, todos de pele escura e brilhante. Da cintura para cima, eram homens, com lanças feitas de espinhos de palmeira e com capas de pele de rato. Da cintura para baixo, besouros, grandes como escaravelhos, de quatro patas. Olhavam desconfiados para a menina, e com desejo para o suco de glipoma que escorria de seu cantil. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Que quer a humana na floresta, sozinha? – disse um musculoso homem-besouro, gesticulando seus minúsculos braços para Thuga. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Quero encontrar a trilha para a Princesa, a filacteria que protege esse vale na Temporada dos Furacões. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Conhecemos o poder da Princesa; nunca subimos sua trilha, mas sabemos sua direção. O que você pode oferecer para O’degq, Senhor dos Castelos de Esterco? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thuga ficou imaginando como seriam os tais castelos de esterco, mas achou indelicado perguntar e se apressou logo e&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;m responder:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; _ Trago glipomas para O’degq. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; Os demais começaram a bater as pernas no chão, fazendo o som de pequenos gravetos se quebrando. Pareciam contentes. Ela mergulhou a mão na bolsa e tirou um punhado das frutinhas, e as colocou no chão. Os homens-besouro correram para a pilha e cada um, de costas, começaram a empurrar as pequenas frutas para seus esconderijos sob a terra e desapareceram. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;_ O sumo da glipoma é doce, mas ela brota muito alto e longe de nossa casa – disse O’degq, o único que sobrou – Obrigado pelo presente, humana. Siga essa direção, contornando a pedra deste barranco, e a subida ficará mais tranqüila. Siga até ouvir o barulho de água correndo. Quando encontrar o Grande Rio que limita nossa terra, siga seu curso para cima. Depois a trilha fica mais clara. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;_ Ora, muito obrigada – agradeceu Thuga, sem coragem de se mexer muito para não esmagar acidentalmente alguns deles – Que a Brisa da Graça te acompanhe, O’degq, Senhor dos Castelos de Esterco. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;_ E que ela sopre sobre ti, humana – disse ele, também sumindo numa reentrância da terra. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; Thuga esperou mais um pouco, com medo de ainda machucar algum deles, e então se levantou. Cravou novamente a mão na terra e seguiu a direção que o pequeno ser lhe indicara. Realmente, após ela contornar a pedra, a subida se tornava menos íngreme, com mais apoios para os pés e as mãos. Logo já podia caminhar de pé. Andou algum tempo até ouvir o barulho de água, e se dirigiu para lá. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; Thuga não pôde conter o riso. O Grande Rio era um córrego de no máximo um palmo de largura, que corria entre raízes e pedras. Ela pôs a mão em conchas e bebeu da água pura, lavou o rosto suado. Olhou para cima, mas o caminho ainda parecia longo. Começou a seguir o curso do pequeno riacho.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;IV&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Já se passara uma hora desde que Thuga parara para almoçar. Comeu quase todo o seu estoque de comida, e ainda tinha um pouco de fome. Já passara da nascente do Grande Rio, o fim do caminho indicado, e depois dali uma leve trilha recortava o chão da mata, fácil de ser identificada, e seguiu por ela. O próximo passo seriam as árvores-de-pedra.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StICMO9jl9I/AAAAAAAAAF4/QTXR1cM6d8E/s1600-h/pedra.jpg" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img src="http://4.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StICMO9jl9I/AAAAAAAAAF4/QTXR1cM6d8E/s400/pedra.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;Pedregulhos começaram a despontar no chão, e o solo se tornou mais raso. Não havia arbustos nessa parte da floresta, tampouco árvores menores, apenas os grande troncos das árvores gigantes e pedras. Um pouco à frente, porém, a menina divisou um pequeno bosque, um tanto estranho. O tronco das árvores era coberto de musgo, mas em alguns cantos via-se a face limpa da rocha. As folhas tinham uma coloração metálica, brilhantes com o pouco sol que atingia o chão, pareciam esmeraldas. As frutas eram seixos amarelos, e havia muitos no chão, eram as árvores-de-pedra. As primeiras eram pequenas, quando muito tinham o tamanho de Thuga, mas adiante elas cresciam alto, tão alto que atingiam vinte, trinta metros. Seixos maiores pendiam dessas, uma armadilha perigosa para quem andasse por baixo. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;A menina parou no limite do bosque, ajeitou as roupas um pouco sujas de terra, pigarreou e disse: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Com licença, árvores-de-pedra, gostaria de passar para ver a Princesa do Vale. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nenhuma resposta. Thuga repetiu a pergunta, sem muito êxito. Temerosa, deu um passo, fazendo menção de entrar no bosque. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Com licença... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ela deu um pulo para trás. Um grande seixo rolado, do tamanho de um coco, caiu poucos metros à sua frente, como se tivesse sido arremessado pelas árvores atrás. Começou a ventar, e ela ouviu então um farfalhar de folhas e um tilintar de pedras. Mas não, não estava ventando. As árvores estavam de movendo sozinhas, fechando a entrada com seus galhos. E nada diziam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Impaciente, Thuga tirou da bolsa os pedaços de carvão, e os mostrou para o bosque, nervosa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Eu trouxe um presente para vocês, mas como me destratam assim sem nem ao menos me darem satisfação, vou-me embora agora mesmo, árvores mal-educadas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E girou nos calcanhares para ir embora. Antes de dar um passo, entretanto, ouviu novo farfalhar e tilintar. Sorriu, seu plano funcionara. Um som de pedras se chocando fez-se ouvir, imitando um tambor agudo. Ouviu então uma voz. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;_ Pequena, pequena, que fazes aqui?&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;Que trazes pra nós, que há pouco eu vi?&lt;br /&gt;É pedra, é pedra? É pedra, é sim?&lt;br /&gt;Ou é pedra preta, que trazes pra mim? &lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thuga olhou para o bosque, mas não sabia quem cantava, nem sabia como responder a canção. Resolveu perguntar normalmente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;_ Vocês também são do povo das fadas? Conseguem falar? &lt;br /&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;_Das fadas, das fadas? Sim, nós somos sim&lt;br /&gt;Nós somos das fadas, do povo eudaim&lt;br /&gt;Falamos, falamos, podemos ouvir&lt;br /&gt;Mas peço, não fujas, não queiras fugir &lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;Presente, presente, que trazes pra nós?&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;Não fujas, não fujas, não nos deixes sós&lt;br /&gt;É pedra, é pedra? É pedra, é sim?&lt;br /&gt;Ou é pedra preta, que trazes pra mim? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thuga achou graça e beleza naquela canção, marcada pelo bater rítmico das pedras. Queria poder responder igualmente, mas nunca fora boa com improvisos. Lembrou-se das poucas aulas de poesia que seu tio lhe ensinara, ensaiou alguns versos na cabeça e respondeu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ É pedra, é preta, que trago, é sim&lt;br /&gt;É pedra bem preta que entregar eu vim&lt;br /&gt;Mas peço, me dize, e sê complacente&lt;br /&gt;Se posso, se deixas, eu seguir em frente? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;_ É pedra, é preta, se for, dá-nos cá&lt;br /&gt;É pedra carvão, que tu trazes de lá?&lt;br /&gt;Se for pedra preta, carvão, olha lá!&lt;br /&gt;Se for o carvão, te deixamos passar &lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thuga sorriu para o bosque, fez um pequeno agradecimento e depositou o carvão nas raízes das primeiras ávores-de-pedra. Elas rangeram, rocha atritando rocha, e recolheram o presente. De novo o som de vento sem vento, e as árvore abriram caminho para a menina entrar. Ela inspirou fundo, beijou as costas da mão para espantar o azar, e entrou no bosque de pedra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; font-family: Verdana,sans-serif; text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Ss6uGQorJMI/AAAAAAAAAFQ/xg9PVY-WiFY/s1600-h/carvao.jpg" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img src="http://1.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/Ss6uGQorJMI/AAAAAAAAAFQ/xg9PVY-WiFY/s320/carvao.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;V&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;O bosque era realmente bonito visto de dentro, não havia apenas folhas cor de esmeralda, mas flores de rubis e outras de safiras. Temerosa dos perigosos seixos que pendiam sobre sua cabeça, Thuga não tocou em nada. Colheu apenas alguns pequenos no chão como lembrança, e colocou-os na bolsa.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt; Ao sair do bosque, ela agradeceu muito às árvores-fadas, e se despediu. O sol já ia muito adiantado, ela perdera muito tempo admirando o bosque, e se não se apressasse a noite a surpreenderia na floresta. Na pressa, esqueceu de acender a tocha. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Caminhou por uma trilha um tanto fechada, várias vezes a perdeu e só com alguma dificuldade a reencontrou. Havia arbustos agora por todos os lados, de folhas altas e largas, e árvores de todos os portes. Ela olhou para baixo, para trás. Já estava muito acima do vale, não deveria estar longe do topo. Olhou para cima, mas as grandes árvores com suas copas enormes bloqueavam a &lt;span style="font-size: small;"&gt;visão. Continuou seguindo.&lt;/span&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ouviu um barulho atrás de si. &lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StIuDoyNO9I/AAAAAAAAAGA/0PsPU3wFRww/s1600-h/kortos2.jpg" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img height="226" src="http://4.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StIuDoyNO9I/AAAAAAAAAGA/0PsPU3wFRww/s320/kortos2.jpg" width="310" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Virou-se, apreensiva, com a espada de Filo na mão. Não havia nada. Nem animal nem planta, nem fada nem fera. Começou a ficar preocupada. Outro barulho, agora mais perto, vindo de suas costas. Ela rodou sobre si mesma, mas nada viu. Os arbustos se mexiam. Havia alguma coisa ali.&lt;/span&gt; _ Quem está aí? Xô, xô, me deixa em paz. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Agora ela teve certeza de que ouvira risos. De um grande tufo de grama, ergueu-se um ser-homem das sombras, da metade do tamanho de Thuga, magro, todo feito de grama. Seus olhos eram verdes como as folhas das árvores-de-pedra, e seus dentes eram amarelados como capim no outono. Não tinha pés, sua perna nascia do chão como se ele próprio fosse um arbusto que brotasse. Seu cabelo era um emaranhado feito de raízes verde-escuras e úmidas. Ele sorriu o sorriso dos duendes, e se aproximou de Thuga. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;_ Ora vejam, ora vejam, uma humana aqui. Veio sozinha, eu vejo, ora vejam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Não se aproxime, eu não sei seu nome, e tenho pressa – respondeu ela, levantando o facão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Ora vejam, calma criança. É uma criança, não é? Mesmo uma humana criança é maior do que eu, ora vejam! – e riu alto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No segundo seguinte ele desapareceu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Bu! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thuga deu um pulo tão alto que quase arremessou a espada de Filo para longe. A criatura havia surgido exatamente do seu lado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Pare com isso, já disse – gritou, se afastando – Tenho pressa. Não se aproxime mais, senão vou te cortar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Me cortar, ela disse, ora vejam. Não se corta Kkortos, o senhor da trilha! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ K-kortos? Você é uma fada?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Uma fada, sim, Kkortos. Eu sou Kkortos, qual o nome da pequena? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Agathugata, mas meu apelido é Thuga. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse ponto, Kkortos deu uma sonora risada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Oh Céus, oh Ventos! Mas que nome! Não saia daqui, não saia, Kkortos já volta – e se fundiu ao mato, como fizera antes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thuga ficou preocupada. Fadas não são realmente más, pelo menos a grande maioria é boa. Kkortos devia ser um brincalhão, estava brincando com ela. Mas o senso de humor de uma fada pode ser perigoso. E se... e se ele fosse do povo-fera, e a tivesse enganado? Diferente das fadas, o povo-fera é ruim, atacam as pessoas, as devoram. Se ele fosse do povo-fera, estava em apuros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrou-se de acender a tocha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rapidamente, antes que Kkortos voltasse, arrancou a palha e a madeira seca de sua bolsa. Mas nem bem a fumaça começou a aparecer, ouviu um barulho próximo. Além de Kkortos, havia quatro iguais a eles. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Ora vejam, ora vejam. Esta á Agathugata, meus amigos, Agathugata! Que nome! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ O que tem meu nome? – perguntou a menina, sem parar de atritar os gravetos, disfarçadamente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Um nome curioso, oh sim – riu um homem-grama menor que Kkortos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Muito, muito! – concordou outro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ E o que veio fazer aqui, oh Agathugata?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Eu vim ver a princesa... &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ A princesa! – exclamou Kkortos – Interessante, mas porque veio sozinha? A trilha até a Princesa é perigosa, perigosa! Por que veio sozinha? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Não me deixariam vir, e não me trariam, e não posso esperar até o solstício de verão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Oh, não, não pode, não pode – concordou Kkortos, fazendo gestos de que compreendia – O vale inteiro não pode esperar até o Solstício, não pode. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Oh não, claro que não! – riu outro – Não pode mais! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E todos riram e caíram no chão, e se fundiram à grama e reapareceram mais próximos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Esquece a princesa, vem com a gente! – exclamou o maior dos cinco, puxando a manga de seu vestido – Vai ser divertido! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Vem, vem – outro puxava-a para o outro lado – Vem, menina, vem! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Não machuquem Agathugata, não, não! – Kkortos gritava, fazendo pose de herói, mas então todos caíam no chão, rolando e rindo, fundindo-se à vegetação e reaparecendo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desesperada, preocupada com a noite que vinha e com a verdadeira intenção dos seres-grama, ela atritou com força os gravetos secos. Não entendia o humor deles, e tinha medo de que a raptassem. Kkortos enfim entendeu o que ela fazia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Oh, não, ora vejam! Pare, Agathugata, pare! – e correu ameaçador para cima da menina. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma fagulha, e já era sem tempo: o fogo pegou. Thuga ergueu a tocha à frente e Kkortos por muito pouco não se queimou. Os demais pararam de rir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Fogo não, fogo não! Kkortos não teme os ventos, não os furacões, mas fogo não! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Saiam do meu caminho, vocês, saiam! Não gostei de vocês, mesmo, não ligo se se queimarem ou não. Até as árvores foram mais simpáticas. Saiam! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos se fundiram com o mato e se foram, sobrando apenas Kkortos. Ele olhou nervoso para a menina, o fogo brilhando em seus olhos verdes. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Pode ir, pode ir menina. Não quis brincar conosco, pode ir. Os ladrões te esperam, te esperam, oh sim! – e se foi. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thuga se ajoelhou e achou que fosse chorar. Essa foi por muito pouco. Tinha que continuar a andar, não podia parar agora. A luz do sol já deixara o interior do vale, mas faltava ainda muito para a noite. Sentiu-se uma burra por não ter lembrado da tocha antes. Mas agora não esqueceria de nada. Entraria no território dos Ladrões de Ar, então amarrou o pano tampando o rosto. Ergueu a tocha e o facão, bebeu o resto de suco que tinha e foi em frente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;VI &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Andava há algum tempo. Andava não, corria. Morria de medo da noite a surpreender no território dos ladrões. Por duas vezes quase perdeu a trilha, que agora era uma trilha fraca, escondida entre arbustos escuros. Até o chão era mais escuro. E o sol descia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha que correr. Perdeu a conta de quantas vezes tropeçou, e sua roupa, mesmo resistente, não suportava, estava rasgada e suja. Mas custasse o que custasse, não tirava o lenço do rosto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faltava ainda para o sol se pôr, mas o interior da floresta já estava escuro. Até as cigarras já cantavam! Mesmo sua lamporquídea se abriu e começou a emitir luz. Estava escuro, e Thuga sentia muito medo. Qualquer barulho, o vento nas árvores ou o pio de uma coruja-macaco a fazia se sobressaltar, e correr muito antes de parar para tomar fôlego. E escurecia. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No alto das árvores, um vulto acordava. Piscou duas vezes os olhos brilhantes, duas estrelas no escuro, e sem nariz, sentiu o cheiro de medo. Cheiro de ar, ar dos vivos. Pulou de sua alta árvore, e começou a farejar. Adorava a caçada, o terror. Não tinha pressa, estava em casa. Alcançaria a presa. Mas outro vulto acordou, e ambos trocaram olhares nervosos. O prêmio ao melhor.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; font-family: Verdana,sans-serif; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StI0Mq6k6lI/AAAAAAAAAGw/9CNtnQaixQk/s1600-h/dark+forest4.jpg"&gt;&lt;span style="text-decoration: none;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StI0Mq6k6lI/AAAAAAAAAGw/9CNtnQaixQk/s1600-h/dark+forest4.jpg" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img height="358" src="http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StI0Mq6k6lI/AAAAAAAAAGw/9CNtnQaixQk/s400/dark+forest4.jpg" width="520" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Thuga corria desesperada. Já não via trilha alguma, apenas corria, para cima, para longe daquela floresta escura. Sabia que o caminho era subindo sempre, que era ali que a princesa estava. Se a encontrasse, pediria para que nada acontecesse com ela. Estava morrendo de medo. Se tivesse olhado uma vez para traz, ou se prestasse mais atenção, ouviria os passos rápidos que iam atrás dela. O caçador a encontrara. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora ela viu a luz, viu o fim da floresta sombria. Lá fora já era noite, mas mesmo a noite era mais clara do que as sombras daquelas árvores. A luz, fora dali, longe do medo. A luz! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele caiu sobre ela tão rápido que ela não entendeu o que lhe ocorrera. Algo lhe segurava. Algo. Tentou correr e se soltar com todas as forças, mas garras negras a mantinham no chão, e ela chutava, esperneava. A espada de Filo na mão imobilizada, inútil. E ele permitiu que ela o olhasse. Ela viu. Um vulto com rosto humano, mas sem rosto, apenas os olhos brilhantes, e o cabelo de fumaça que parecia sufocá-la, mesmo com o pano protegendo-lhe o rosto. Era enorme, maior do que o maior dos homens, com garras tão grandes quanto ela própria e pele da cor das sombras. Ele a imobilizou no chão, e então de seu rosto surgiu uma boca em fenda vertical, vermelha. Inspirou. Ela sentiu a pressão do ar a sua volta sendo sugado para dentro daqueles pulmões de sombra, mas o tecido em seu rosto a protegia. Ele tentou duas outras vezes, sem nada conseguir, e só então pareceu perceber o pano sobre o rosto dela. Moveu as garras para tirá-lo, mas parou. Ele ouvira alguma coisa vindo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thuga sentiu um alívio tremendo quando o corpo enorme do ladrão de ar foi arremessado para lado. Levantou-se rápido, puxou a espada de Filo, mas sua tocha estava fora do alcance. Correu. Correu e só então olhou para trás. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois vultos negros lutavam, batalhavam pelo ar da pequena. E veio outro, mas os dois primeiros o impediram, e começaram a lutar com fúria. Foi a luta dos três que permitiu à menina chegar até o santuário da Princesa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thuga estava suja, maltrapilha, sangrando e cansada, mas com o pano ainda sobre o rosto, o pano salvador. Caiu de joelhos diante do santuário. Ali estava ele, as três árvores de bronze iluminadas pela luz da lua, as flores nascendo das pedras e da grama, e no centro de tudo, no centro do triângulo de pedra, a cúpula de vidro. Mas algo estava errado. A cúpula estava partida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E vazia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;VII&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Havia uma razão para Melesio nunca ter visitado a princesa. A história verdadeira não era tão bonita quanto a que era contada pelo povo. A pobre menina nunca soube que era uma princesa, vivera sob proteção, distante do pai, até cair vítima da maldição. Um ano depois do sepultamento de sua filha, o Rei morreu de desgosto. Seu reino se despedaçou em milhares, houve guerras, e até que a paz fosse novamente alcançada quase uma década havia se passado. Huali, o herói, viveu bem apenas por um ano, acabando por sucumbir a uma febre comum, sem resistência, sem luta. Sem glória. Dizem que ele se entregou nos braços da morte, pois não suportou o amor que nunca poderia ser correspondido. Ninguém pode dizer com certeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, uma pessoa podia, sim. Quase ninguém se lembra que Huali tinha um irmão caçula, apenas uma criança quando tudo isso ocorreu. Um garotinho de olhos escuros e vivos, que se chamava Melome, mas todos chamavam de Mel. Ele sim, ainda se lembra da tristeza do irmão, outrora um grande herói, de repente apenas um camponês triste, que toda semana ia ao topo da montanha para depositar flores para a princesa da cúpula de vidro. Mel sabia que devia gratidão à princesa, porque ela protegia o vale, e sentia simpatia pela garota aprisionada. Mas não agüentava ver seu irmão naquele estado. Quando Huali faleceu, sua família lhe deixou aos cuidados da Casa dos Mais Velhos, e o pequeno Melome jurou pelo Vento Sul que nunca subiria até a cúpula de vidro. Iniciou-se no caminho azul da feitiçaria, a casta de feiticeiros com o maior poder de proteção. Ajudaria a proteger o vale que seu irmão criou, o vale de sua família. Quando se tornou um mestre feiticeiro, mudou seu nome para Melesio, o Atencioso. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;E tudo isso foi há muito, muito tempo; os feiticeiros são abençoados com uma vida longa. Essa parte da história se perdeu das memórias das pessoas comuns, e os feiticeiros pouco fizeram para mantê-la. Muito mais de cem verões se passaram, e Mel desaprendeu a contar sua idade. Porém, sua promessa de nunca subir até a cúpula ainda era firme como no dia que chorou a morte de Huali. Iria quebrá-la pela primeira vez essa noite. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O feiticeiro corria apressado, carregando Filo no colo. Estava velho, mas sua magia lhe dava o vigor de um animal selvagem. Com uma mão abraçava o menino, com a outra gesticulava com vigor para o caminho à frente. Os galhos, as folhas, as raízes e os troncos se moviam para deixá-lo passar, abriam caminho ante a vontade poderosa do feiticeiro azul. O sol já havia se posto, mas ele tinha os olhos treinados para o escuro. Galgava os barrancos com velocidade, já contornara a grande pedra da encosta e atravessara o Grande Rio dos homens-besouro. Agora, acabava de deixar o bosque de pedra, nervoso com o tempo precioso que perdera ali. Ele não dobrava a pedra, as árvores-fada não se moviam com sua vontade, apenas a madeira, então teve que se desviar e diminuir muito seu passo veloz, desperdiçando tempo. Os homens-grama não o incomodaram, mas o seguiram de longe, curiosos com o desfecho do pequeno drama a que assistiam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fora Filo que se impacientou com a demora de Thuga. Ela disse que voltaria para o jantar, mas o sol se punha e nem sinal da amiga. Preocupado, acabou contando aos pais onde ela tinha ido, e os camponeses correram para pedir ajuda ao amigo feiticeiro. A Casa dos Mais Velhos era longe, e Therão usou toda sua velocidade de caçador para alcançá-la rápido. Quando encontrou Melesio, cuspiu as informações com pressa: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Agathugata... a menina Thuga subiu a montanha sozinha! Os ladrões de ar! Pelos Ventos, Mel! &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;_ Agathugata?! &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O feiticeiro sobressaltou-se tanto que assustou o caçador, e partiu sem nada explicar. Ao passar pela casa-árvore de Therão, Filo pulou sobre Melesio implorando para levá-lo com ele. Sem tempo, ele carregou o menino floresta acima. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;VIII &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Os três ladrões de ar lutavam ferozmente entre si, e já um quarto surgia na orla da floresta. O vento do topo da montanha estava frio, mas graças ao Vento Sul a lua iluminava bem. Ainda caída no chão, Thuga ergueu assustada a espada de Filo em direção às criaturas. Onde estava a princesa? Onde estava? Que faria agora? Sua esperança era pedir para ela desesperadamente por ajuda, mas agora estava perdida, não sabia o que fazer. Um quarto ladrão de ar surgiu, e então os três primeiros pararam de lutar. Voltavam-se para a pequena humana, indefesa a poucos metros. Alguns estavam feridos, sangravam fumaça, arfavam, mas não deixariam que os demais ganhassem o prêmio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Thuga deu um grito. Todas as criaturas se moveram juntas para frente, para ela, mas deram apenas cinco passos e pararam sobressaltados. Havia alguma coisa atrás da menina. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sentiu a hesitação das criaturas, e se voltou instintivamente para trás. Do centro do triângulo de pedra, cercado pelas três árvores de bronze, e um pouco à frente da cúpula partida, ergueu-se alguma coisa. Nascia do chão como nascem as neblinas, mas seu corpo reluzia a luz da lua, um brilho forte, vítreo. Ergueu-se alto e tomou forma: um golem de vidro. O guardião do santuário. Duas vezes maior do que os vultos escuros, com dois poderosos braços e duas pernas largas de vidro brilhante. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os ladrões de ar esperaram pelo movimento do guardião. Apressadamente, Thuga iniciou a canção secreta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Vítreo vidro que vi &lt;br /&gt;Vívido é o viço daqui!&lt;br /&gt;Do verde vale que vim...&lt;br /&gt;...mas ele não a deixou terminar. O golem desceu a mão pesada sobre seu corpo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um estrondo do chão sendo esmagado ensurdeceu Thuga por um breve instante. Rolara para o lado no último momento, salvando-se. As flores se ergueram com o impacto e o tremor de terra jogou-a para o lado. O lenço de seu rosto se desprendeu e se perdeu em meio às flores. A canção! Ela não funcionou, o golem nem sequer deixou terminá-la! Mais um inimigo, mais um – a menina estava perdida. Abraçou a si mesma, caída, desesperada, e seus braços sentiram o espelhinho de prata do pai, sob o busto. &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;O pai. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda tinha que encontrá-lo; nunca ter medo, ele dizia. Nunca. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arrastou-se rápido para frente, escapando de outro golpe do golem. Ergueu-se, desafiadoramente, apontando a espada de Filo. Para sua sorte os ladrões de ar apenas observavam, não desejavam enfrentar o guardião, e aguardavam. Expulsando todo o medo com as lágrimas, Thuga encarou o inimigo de vidro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ele parou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela ofegava, com olhos marejados, com a lâmina do facão em riste, determinada a lutar. O golem ainda não se movia. Aproveitando esse momento de inatividade, um dos vultos negros circulou o guardião, veloz como uma ventania, mirando Thuga. Roubaria a presa antes de todos. Sairia vitorioso!... E esses foram seus últimos pensamentos. O golem agiu rápido, tão veloz quanto o próprio ladrão de ar, esmagando-o contra o chão cheio de flores. Seu corpo tornou-se sombra e perdeu a vida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O guardião deu as cotas para Thuga e começou a atacar as criaturas escuras. A menina não sabia o que fazer, nem o motivo que lhe dera o novo aliado. Estaria salva? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinham sido pegos despreparados, mas passaram a lutar com fúria. Outros chegaram. Eram muitos, eram tantos, que logo o corpo do golem se partiu, sua perna rachou e caiu sobre si mesmo. Ainda deu mais um golpe, antes de ficar finalmente inerte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voaram todos para cima de Thuga, feridos, e por isso mesmo mais famintos. O primeiro que a alcançou a arremessou para trás, e ela aterrissou em cima da cúpula rachada. As pontas do vidro perfuraram suas costas fazendo o sangue cair sobre o triângulo de pedra. Thuga desfaleceu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;IX &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Os ladrões de ar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Melesio e Filo haviam alcançado o topo da montanha, e agora o menino olhava assustado os vultos escuros sob a luz da lua. Havia pelo menos oito deles, e brigavam entre si para alcançar o centro das árvores de cobre. O feiticeiro viu os restos do golem de vidro, viu o sangue-fumaça das feridas das criaturas, e viu a menina dependurada nas estacas de vidro. Rasgou um pedaço de sua manga, protegeu a boca de Filo e depois a própria. Colocou-o no chão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Encontre abrigo, Filo. Melesio vai lutar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem tempo de Filo dar um passo, o feiticeiro ergueu os braços e as flores e grama elevaram-se até dois metros e desceram sobre as criaturas, como uma onda. Os primeiros desapareceram sob o volume de plantas, mas os demais saltaram para longe do alcance do novo inimigo. Ele entoou uma canção de guerra e ergueu mais uma vez os braços, acima da cabeça, e as raízes das plantas subiram como estacas pontiagudas, perfurando mais alguns. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As criaturas agora revidariam. Saltaram por sobre aquele mar de flores e aterrissaram bem próximo ao mago. Ele entoou uma nota grave e a água do ar congelou em suas mãos, criando uma lança de gelo. Atacou em círculo, mantendo as feras longe, enquanto fazia mais e mais plantas tentarem atingi-los. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Filo pulara para dentro de um buraco. Ouviu o estrondo da canção mágica de Melésio, e subiu a cabeça para observar a luta. Viu que o jardim do santuário havia se tornado um mar revolto, que se erguia em ondas de plantas e tentava engolir os vultos escuros. Mas o próprio feiticeiro sangrava. Olhou então para a cúpula de vidro, que, pelos ventos, estava partida! A princesa estava dependurada nas estacas de vidro, inerte, e também sangrava. Mas, não era a princesa, era Thuga! Sem pensar no que fazia, Filo correu até a amiga. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três ou quatro ladrões de ar jaziam presos sob as vinhas, dois haviam sido destruídos, e o restante fugiu. Só restou um, o maior de todos, e ele encarava o mago. O feiticeiro sangrava copiosamente, empunhando com fúria sua lança de gelo para a criatura, que também tinha feridas por todo o corpo. Seu sangue-fumaça esvaía-se, aumentando sua silhueta. Ambos não se moviam, estudavam-se, o primeiro que fraquejasse cairia. A criatura já não agüentaria muito tempo, e o feiticeiro guardava as energias para manter os demais presos; desfaleceria se compusesse outro encantamento. Foi nesse momento que Filo deixou seu esconderijo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois olharam rápido para o menino, e a criatura saltou. Não ganharia muito se enfrentasse o feiticeiro, a menina estava longe para alcançar num pulo, mas o garoto, este sim estava ao alcance. Partiria com ele, seria seu troféu pela luta, sua presa. Aterrissou ao seu lado, e com uma das garras abraçou seu corpo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Melesio tentou correr, mas cambaleou e caiu com um joelho no chão. A grama estremeceu, quase libertando os demais. Não, se ele tentasse correr estariam todos perdidos. Arremessou a lança de gelo contra o vulto, mas ele se desviou com facilidade. Se tivesse boca teria sorrido. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Filo gritava, esperneava, mas era impossível se soltar daquela garra negra. A criatura estava faminta, desistiu de fugir para roubar o ar do menino ali mesmo. Com a outra garra, arrancou a tira de pano do rosto do garoto. Filo sentiu o ar faltar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ TIRA AS MÃOS DO MEU AMIGO!&lt;span style="font-size: small;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StIyERABeYI/AAAAAAAAAGg/qlLH8rQGzE4/s1600-h/flores.bmp" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img src="http://3.bp.blogspot.com/_0Oob-G_8MUs/StIyERABeYI/AAAAAAAAAGg/qlLH8rQGzE4/s320/flores.bmp" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;A realidade vacilou. Uma forte corrente de vento começou a arrastar tudo, um &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;vento poderoso, ameaçando lançar a criatura no abismo da montanha. O vento vinha da menina, vinha de Thuga.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Ela se erguia acima das cabeças de todos, seus olhos brilhavam como lamporquídeas no escuro, e do sangue de suas costas brotavam vinhas floridas, que a seguravam no ar. A criatura negra abriu a boca em fenda e rugiu para ela. As vinhas de flores enroscaram-se no facão que ela ainda segurava, e numa onda muito maior do que a de Melesio, precipitaram-se sobre o ladrão de ar, cravando a espada de Filo no peito do monstro. Ele urrou outra vez, antes de seu corpo ser erguido do chão e se esvair em sombras. Outro ramo de vinhas aparou a queda do menino, e deitou-o no chão. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="font-family: Verdana,sans-serif; text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; O vento não cessou. Melesio teve que se segurar com força no chão para não ser arrastado, e isso lhe custou as últimas forças: suas vinhas liberaram as criaturas. Mas elas não atacaram, não, fugiram para as sombras de sua floresta, temendo a menina de olhos de fogo. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; O vento amenizou, mas Thuga começou a gritar para o feiticeiro: &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;_ Onde está a princesa? Onde está ela! Filo quase morreu porque eu quis vê-la, então onde ela está?! &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;As vinhas agitavam-se, retorciam-se de ódio. A garota parecia finalmente entender, pensou Melesio, e essa seria a sua pior experiência. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; _ Onde ela está? – bradou outra vez, e o vento recomeçou forte. Filo estava desacordado e as vinhas já não o seguravam; ele podia ser arremessado ao abismo. Melesio tinha que acelerar as coisas. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; _ Onde está quem, Thuga? – precisava gritar para se fazer ouvir – Quem você procura, menina? Ainda não entendeu?&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; _ Não! Não é verdade! Onde está meu pai? Onde está! &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; _ Seu pai morreu há mais de cento e cinqüenta anos, menina. Eu o conheci, era um rei bom que não agüentou a perda da filha. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; _ Não... – o vento finalmente enfraqueceu, até parar. Havia lágrimas nos olhos da menina – Não... Meu pai! &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; _ Você é a princesa, menina, a princesa que por tantos anos protegeu nosso vale! &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; As vinhas a desceram e seus olhos se apagaram. Ela ficou de joelhos, chorando com as mãos entre o rosto. Melesio se aproximou.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; _ Eu nunca subi a montanha, pequena, nunca vi seu rosto; não podia te reconhecer. A família de Filo também nunca subiu, e Filo o fez quando era muito pequeno para se lembrar direito. Eu só entendi quando Therão me disse seu verdadeiro nome: Agathugata, a Princesa do Vale! &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; A menina nada mais dizia, apenas chorava. O feiticeiro a abraçou. Sabia que seria traumático.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; Filo acordara, e se aproximou dos dois. Havia ouvido a conversa, mas não sabia o que dizer. Sua amiga não era sua amiga, era a princesa de seus sonhos. A princesa. Abriu a boca, mas nenhum som saiu. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; _ Está tudo bem, criança, está tudo bem – disse Melesio para a menina – É preciso tempo para você entender. Então a maldição do feiticeiro da praga não foi tão poderosa assim, depois de duzentos anos você finalmente acordou. Você deve ter andado, em sonhos, ainda dormindo, até cair perto de onde Therão te encontrou. Entenda, a filha do rei, digo, você, nunca soube que era uma princesa. Não é incomum os reis mandarem seus filhos para serem criados em segredo, temendo por sua segurança. Seu pai queria protegê-la. Estava consciente do perigo que você corria, por isso lhe mandou para morar com seu tio. A região onde vocês viviam era protegida magicamente por uma dúzia de feiticeiros azuis. A maldição só surtiu efeito quando você fugiu de casa... Eu sinto muito, pequena. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; As lágrimas já paravam, mas Thuga não tirava o rosto do peito do velho. Era agora apenas uma menina indefesa. Queria voltar pra casa, para o tio, para o pai. Mas sua casa já secara há muito e muito tempo. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; _ Filo me contou sobre a canção. Era um embuste, claro, criado para ladrões... O guardião deve tê-la atacado, não é pequena? Eu sinto muito – a menina soluçava – Não, não fique triste, Thuga, fique orgulhosa. Foi você quem salvou Filo. Foi você quem fez aquela onda de flores. Foi você, menina, não eu. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;_ M-mas, como? – ela conseguiu dizer. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;_ As vinhas que te ergueram são suas asas, princesa. Suas novas asas. Veja que belas asas, asas feitas de flores! Os heróis nascem das vontades mais poderosas, e a sua, pra salvar Filo, germinou hoje. Os Deuses-Ventos te abençoaram com essas asas, princesa. Você é agora uma Heroína. A Heroína do Vale. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; E Thuga não tirava a cabeça do peito de Melesio. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; X&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;Filo correu para ajudar o pai a trazer a madeira-de-fada para dentro de casa. Era alto inverno, a Temporada dos Furacões começaria ao cair da noite. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; Melesio estava sentado à mesa, bebericando seu suco de glipoma. O menino, agora um rapaz de dezesseis verões de idade, aproximou-se do feiticeiro. Mel estava cego e muito cansado, mas ainda tinha alguma magia. Sentiu o garoto. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;_ Diga, Filo, que te inquietas tanto? &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;_ Mel – começou ele, hesitante – porque ela partiu? &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; O velho feiticeiro descansou o copo sobre a mesa de madeira. Olhou sem ver para a janela redonda, ainda aberta para o dia que findava. Estava velho... &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt;_ Filo, você tem que entender que foi um choque para ela. Um grande e doloroso choque. Todos os amigos, parentes, tudo o que conhecia agora já passou. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; _ Eu sei, mas a gente era amigo! Ela podia muito bem ficar com a gente. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; _ Ela tinha um sonho, lembra? Mas a vida matou esse sonho. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; O rapaz se sentou.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; _ Nem se ela visitasse o Outro Mundo teria chance de encontrar o pai lá. O corpo de sombra dele já deve ter partido há muito tempo. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; _ Mas então, para onde ela foi? Vocês nunca me contaram. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; O feiticeiro sorriu, contente que ainda houvesse no mundo pessoas para sonhar assim. E para lutar por seus sonhos.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; _ Você não entenderia na época. Ela foi em busca da memória dele, Filo, da memória do pai. Ela quer descobrir onde fica a entrada dos lendários Salões de Aulestuline, a filha do Tempo, onde estão escritas todas as memórias de todos os seres de todo o mundo, que vivem e que viveram. Nem que tenha que rodar o mundo para descobrir, nem que tenha que pedir aos Quatro Deuses Ventos, ela vai procurá-la. Esse é o sonho dela agora. E isso, veja bem, é só uma lenda, meu filho, só uma lenda. Realmente – ele parou, antes de concluir – somos todos feitos de sonhos. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; Filo concordou, olhando para o facão trincado, exposto no meio da parede da sala como um troféu. Ele ainda se tornaria o herói que sempre sonhou ser. E ainda ouviria muito falar de Thuga das Asas de Flor, sua princesa, sua heroína, mas acima de tudo, sua amiga. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size: small;"&gt; E no ponto mais alto do vale, sobre os cacos da antiga cúpula de vidro, flutuava um espelhinho de prata, o guardião de todo vale contra a fúria dos ventos que chegavam.&lt;/span&gt;   &lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family: Verdana,sans-serif;"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2502613120236415342-259261637396085486?l=eisoptron.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://eisoptron.blogspot.com/feeds/259261637396085486/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://eisoptron.blogspot.com/2009/10/conto-princesa-da-cupula-de-vidro_16.html#comment-form' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger
