terça-feira, 16 de novembro de 2010

[Conto] As Luas de Zemi (parte V)


A quinta de sete partes!

Enquanto Adriana é tratada, Zero descobre parte da história perdida de Zemi. Os segredos do Pólo estão finalmente ao alcance dos dois, e a tão procurada cura para Alex nunca esteve tão próxima!
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5. A biblioteca de Ushan

Há seis milênios atrás, os zemani eram um povo primitivo. Viviam nas florestas e nos campos, em tribos e algumas poucas e raras cidades. E então vieram os homens da Terra.

Vieram em navios voadores, gigantes feitos de luz e metal, e ensinaram aos zemani muitas das coisas que sabiam. Ensinaram sua língua. Desceram em muitos lugares, por toda a Zemi, e mostraram aos zemani sua tecnologia e o seu conhecimento.

Os anos passaram, os zemani evoluíram. Possuíam uma deficiência natural na síntese de proteínas e certos nutrientes, então os homens da Terra construíram robôs para eles, simbiontes para completarem seu corpo, e esse foi o nascimento dos flutuanghi. A expectativa de vida zeman triplicou e a qualidade de sua saúde aumentou muito. Espalharam-se pelo planeta, organizaram-se em nações, culturas. Cresceram. Os homens continuaram ajudando, mas cada vez menos naves chegavam. O ambiente de Zemi era hostil para a raça humana, que não podia respirar de seu ar, e não podiam ter filhos; a água do planeta os tornara estéreis. E então, sem aviso prévio nem explicação alguma, as visitas cessaram. Todo o contato com a Terra foi perdido, e, sem poderem se reproduzir, ao fim de um século não havia mais humanos em Zemi.

Ushan, localizado no pólo do planeta, o único habitável – o outro era um grande oceano sem ilhas – foi a nação que mais cresceu. Foi ali que aterrissara a primeira nave humana, e ali se tornou o principal posto de aterrissagem terrestre. Quando as naves da Terra pararam de pousar no resto do planeta, continuaram ainda por longo tempo a pousar em Ushan, antes de cessarem de vez. A nação estava geologicamente isolada do resto de Zemi pelo grande recife de sal que circundava o oceano. Por isso, quando as demais nações foram, ao longo dos anos, perdendo o conhecimento de que dispunham em guerras e em registros ineficientes, Ushan ainda florescia em tecnologia, evoluindo separada do planeta.

Dois mil e quinhentos anos se passaram, e então Ushan não era mais do que uma lenda no resto de Zemi. Os ushanianos eram um povo reservado, desencorajavam a travessia do Recife e desfrutavam de seu isolamento para evoluir e crescer em conhecimento. Ergueram bibliotecas, sistemas de armazenamento de dados, abriram escolas e laboratórios. Desenvolveram a tecnologia da luz lunar muito antes do resto do planeta sonhar com ela, e usavam também a luz do sol de Zemi para gerar energia. Eram avançados em filosofia e ciência, e os poucos que decidiam conhecer o resto do planeta espalharam por lá histórias sobre suas descobertas e maravilhas.

Mais cinco séculos se passaram, e então veio a tragédia. A medicina de Ushan era avançada, desenvolveu curas para muitas de doenças através da manipulação genética. Mutavam vírus para atuarem como agentes curadores, mas a última pesquisa foi um desastre: os efeitos colaterais foram inesperados, e um simples vazamento no laboratório contaminou o ar de toda Ushan, infectando todos os zemani com um vírus sem cura. Milhões morreram. O vírus deteriorava o sistema nervoso com incrível rapidez e, em apenas dez dias, metade dos ushanianos havia perecido. Um mês depois do vazamento, Ushan era uma nação fantasma.

Havia aqueles que sobreviveram, que moravam nos limites da nação com o mar. Talvez a maresia do Mar Interno impedisse o vírus de agir, ou talvez alguns zemani fossem naturalmente imunes, mas a razão não importava: os que sobreviveram ao desastre de Ushan não permaneceram no continente. Cada um, com os meios de que dispunham, atravessou o Recife que limitava o mar, e conheceu o resto do planeta. Encontraram um povo pobre em conhecimento, e lhes ensinaram o pouco que guardaram de Ushan. Esses foram os Grandes Sábios de três mil anos atrás, que trouxeram sabedoria para as nações de Zemi. E o nome de Ushan foi esquecido.

Os anos passaram, e com eles passaram os últimos ushanianos, e agora não havia Ushan, mas sim o Pólo. E havia histórias maravilhosas do que existiria por lá, histórias trazidas pelas eras atrás pelos Sábios, de uma sociedade avançada, de máquinas voadoras e máquinas de tele-transporte, de uma saúde tão trabalhada que faria um zeman viver por duzentos anos. E de fato, muitos dos Sábios viveram por longo tempo.

E então começaram as expedições ao Pólo, mas a falta de tecnologia para atravessar os recifes foi o algoz de muitas viagens, e a falta de conhecimento do Mar Interno a desgraça de outras. Poucos exploradores puderam retornar, e todos sem êxito de chegar ao lendário continente. Mas, sim, houve aqueles que atingiram as praias de legendária Ushan. Foram vinte e sete ao todo, desde o desastre biológico, apenas vinte e sete que tocaram as praias frias do Pólo, desde três mil anos atrás.

Os oito primeiros foram os sobreviventes de uma expedição fracassada, que exploraram o continente sem nunca encontrar zemani algum, tentaram voltar para casa e encontram a morte nos recifes do Mar Interno.

O nono chegou ao Pólo e conheceu seus segredos, mas foi tomado por louco quando retornou para a sua nação, e hoje ninguém lembra o seu nome.

O décimo chegou num navio com outros doze. Eram guerreiros nômades, e quando desvendaram os segredos do Pólo, o líder assassinou seus seguidores, de modo a ser o único a retornar para Zemi. Tornou-se um grande guerreiro, líder de exércitos, e ficou tão famoso que até hoje se lembram do nome de Heitor, o Terrível.

O vigésimo terceiro chegou ao Pólo, conheceu seus segredos e decidiu ficar, levando a vida como um cientista, e ajudou a desenvolver grande parte dos projetos inacabados dos ushanianos.

O vigésimo quarto era um líder em sua nação, mas que perdeu seus tripulantes numa tempestade de Rafael. Chegou ao Pólo com a ajuda de um mukai, e quando retornou para Zemi, sua saúde e vigor o tornaram o soberano de duzentas nações. Esse foi Vinícius, o Rei-imperador.

O vigésimo quinto foi o mukai que o acompanhou, e na época seu nome era Takezo.

O vigésimo sexto foi Thiago, e o vigésimo sétimo o seu melhor amigo, enterrado nas praias do Pólo sem nunca saber que pisou no continente lendário. Thiago era um historiador-cientista cuja vontade de retornar morrera com seu amigo. Assim como o vigésimo terceiro, decidiu ficar. E isso foi há cento e trinta e um anos atrás.

***

Zero terminou de avaliar os dados que foram inseridos em seu disco rígido pelo zeman de óculos redondos. Uma parte importantíssima da história zeman, perdida no tempo e esquecida pelo povo, corria em seus circuitos. Então Zemi foi uma colônia de outro planeta? Colonizado por uma raça alienígena quando a civilização zeman era primitiva, quando os flutuanghi não eram mais do que projetos?

Thiago olhava para ele através de seus óculos grossos – sim, Zero sabia que aquele zeman encurvado e de caudas finas era Thiago, o último visitante do Pólo antes deles: vira sua foto no arquivo recém computado. Mas se isso fosse verdade ele deveria ter pelo menos cento e cinqüenta anos, uma idade absurda para um zeman; ao observá-lo, porém, não se diria que tivesse mais de cinqüenta, salvo pelos cabelos completamente brancos. Ele olhava para Zero, deixando que o flutuang absorvesse tudo antes de voltar a falar, que avaliasse cada dado, que questionasse. Atrás deles, Adriana jazia suspensa numa redoma de vidro preenchida com soro, ligada a fios e hastes metálicas. Pequenos braços robóticos operavam seu braço e suas costas, consertando os ossos, costurando a pele e fechando as feridas, numa velocidade que surpreenderia o melhor flutuang cirurgião. Estavam numa gigantesca sala de piso de metal, de paredes e teto de metal, com estantes cheias de livros e tubos de ensaios, e caixas de remédios e instrumentos cirúrgicos; a versão ultratecnológica de um hospital zeman. O flutuang de Thiago – uma pirâmide flutuante de muitos tentapodes, com um único monóculo por olho e uma superfície tão lustrosa que refletia com intensidade a luz forte das lâmpadas da sala – cuidava de Adriana, apertando botões e puxando alavancas, vez por outra voltando seu olho vítreo para o dono e para Zero. Seu nome era Delta.

_ El4 v4i ficar bem? – ecoou a voz de Zero no salão vazio, cujo único som até então era o dos robôs-médicos.

Thiago cruzou os braços atrás das costas, sua voz vigorosa como a de um adolescente.

_ Bem? Ela vai ficar melhor, meu caro flutuang, melhor. Um braço quebrado e um ferimento na pele são simples para a medicina ushaniana, e ainda vamos tratá-la com o segredo de Ushan, que tornou seus habitantes tão prósperos.

_ T1bi4 restaurada e fer1m3nto fech4do – informou Delta, numa agradável voz feminina, do fundo da sala – In1ciar 1njeçã0 de h3mo-autômatos.

Uma seringa surgiu nas mãos robóticas dentro da redoma de vidro, carregada com um líquido vermelho. Então, sem aviso, mergulharam a agulha no braço da zeman e esvaziaram seu conteúdo.

_ Não! Esp3rem! Que e5tão fazend0? – gritou Zero.

_ Ap3nas uma injeçã0 de sangue sintét1co, a obr4-pr1ma da med1cina ush4niana! – informou Delta.

_ Acalme-se, pequeno – Thiago colocou a mão sobre Zero – Juro por todo o conhecimento de Ushan, de que não vamos fazer-lhe mal algum – o timbre da voz era jovem, mas soou sereno como a de um senhor de idade – Venha, em poucos minutos ela estará acordada. Quero que conheça seu cirurgião.

E dizendo isso, conduziu Zero para um corredor bem iluminado, deixando a sala médica para trás. O flutuang vez por outra voltava os olhos para a dona, hesitante, até perdê-la de vista nos intricados corredores.

Chegaram a uma grande ala, com estantes cheias de livros, drivers de disquetes e CDs, e nas paredes entradas para todo tipo de cabos e fios. Livros de papel disputavam seu lugar com os armazenadores virtuais, com os bancos de dados de computadores e até com livros virtuais e holográficos. Atravessaram grandes alas como essa, que se conectavam umas as outra, até chegarem à maior de todas, onde não havia estantes, apenas uma grande coluna central cheia de luzes trabalhando, e um grande monitor que contornava toda a face da coluna. No monitor, números digitados em profusão, códigos e linguagem de programação, escrita compilada e apagada num tempo tão rápido que nem o computador de Zero pôde registrar. Ali, Thiago parou, voltou-se para o grande computador-coluna, e disse:

_ Este é Zero, A-L-C.

Alguns cálculos do monitor pausaram, outros ignoraram Thiago. Uma voz ecoou por toda a sala, grave e metálica, não alta, mas agradavelmente audível.

_ B3nvindo, Zer0, à Bi8liotec4 Central de Ush4n. Eu sou A-L-C, o c0mputador que gov3rna seus 4rquiv0s. Meu5 sensor3s j4 est4vam c1entes de sua pres3nça ante5 m3smo de atracarem, e pr3par3i a su4 estad1a par4 o cas0 de 4lc4nçar3m esse c0mplexo. Th1ago mant3m os ANA func1on4ndo, mas n3m tod0s os forasteiros conclu3m a rotina de 4tivação, que nã0 s0u 4utor1z4do a des4tiv4r. Parab3ns por alc4nçarem Ush4n.

A seqüência de zeros e uns e códigos esmaeceu na tela por um breve momento, e então reapareceram. Os olhos do monitor-face de Zero piscaram por um momento.

_ Qu3m o con5truiu? – perguntou.

Thiago sorriu, por que esperava a pergunta, e se deliciaria com a perplexidade da reação à resposta.

_ Fu1 conc3bido dur4nte a construç4o da bibliot3ca, quand0 ainda havi4 ushanianos aqui. Op3ro à pr3cisamente tr3s m1l duz3ntos e tr1nta e se7e anos.

A boca de Zero, se ele tivesse uma, teria caído.

_ Voc3 está func1onando por m4is de tr3s milênios?!

_ Houv3ram atual1zações 3nquant0 hav1am ushan14nos vivos, emb0ra a e55ência não tenha s1do alter4da. P0r tr3s milêni0s venh0 operando a Bibli0teca Central, e p4rte da cidad3 s0b meu5 c1rcuitos. Organiz0 dad0s e des3nvolv0 o5 cálculos e proj3tos deixados in4cabados.

_ E o v1rus? – perguntou o flutuang – Não há m4is r15co algum?

_ O víru5 pereceu cerc4 de cem ano5 dep01s do d35astre, emb0ra tenha d3ixad0 a t3rr4 in4bitada. Mas n40 se pre0cupe, houve3r4m outro5 vis1tan7es e n3nhum apr3s3nt0u s1ntom4s.

_ E você di55e que e55a terra est4 inabitada... Nã0 há z3man algum m0rando n3sse cont1nente?

_ Tod4 a civil1zação z3man qu3 aqui v1v1a foi 3xtinta ou fugiu. Thiago e a 5ua d0na são 05 ún1cos zem4ni em tod0 o c0nt1nente, ou p3lo menos p0r tod4 a área que p0sso esc4near. O r3sto são ru1nas de c1dades e de l4borat0rios. M3smos os espécimes an1m4is for4m ab4nd0nados à pr0pr1a sorte.

_ 0s michilizzii selvagens!.. – chiou Zero.

_ Sim – respondeu Thiago – são os netos dos netos dos netos dos michilizzii domésticos de Ushan, que se readaptaram ao ambiente natural. São os únicos michilizzii selvagens já conhecidos – e sorriu – Há uma dúzia de trabalhos sobre o tema na biblioteca, desenvolvidos por A-L-C.

_ Um m0m3nt0... – disse o supercomputador, e após uma breve pausa, continuou – 5ua dona ser4 lib3rada em exato5 d0is m1nutos. Retorn3m à s4la cirúr9ica.

***

Houve um baque, e o som de alavancas mecânicas e água fluindo ecoou na cabeça de Adriana. Logo ela estava tossindo para respirar de novo, a água escorrendo por seu corpo até desaparecer sob seus pés. Sentiu seu corpo ser içado e deixado em chão seco, e a luz ardeu seus olhos. Ficara na câmara médica por quatro horas seguidas, e a desorientação a fez tropeçar e cair. Tentou aparar a queda com o braço direito, antes de se lembrar que estava ferido, e esperou pela dor do impacto.

Não houve dor. O braço que deveria estar quebrado segurou seu corpo com eficiência, mas o susto a fez cair sentada. Não havia mais o ferimento, tampouco nas costas, apenas a mais leve das cicatrizes que ela jamais vira. E não sentia o cansaço nem a tensão dos últimos dias, estava disposta para repetir toda a viagem, nadaria todo o caminho de volta se pudesse! Sim, estava no Pólo! Sua mente se iluminou quando se lembrou. O Pólo, a terra lendária, sua esperança, a esperança de seu irmão!

Alex!

Ela se levantou com a urgência de sua missão, no mesmo momento em que entravam na sala Zero, um zeman de cabelos brancos e seu flutuang.

_ Zero! Zerinho! – tentou andar, e quase caiu de novo. Havia alguma diferente em seu corpo, formigando em seu sangue. O flutuang voou para seus braços – Onde você esteve?

Ele estava polido novamente, com o mesmo brilho de quando deixaram Villa, e as avarias da viagem haviam sido reparadas.

_ Olá, Adriana, eu sou Thiago – disse o zeman, que embora tivesse cabelos totalmente brancos, não parecia de todo velho – Gostaria de saber como está se sentindo.

_ ...olá – respondeu ela, depois de um tempo e finalmente se levantando – Eu conheço você. Você esteve em meu sonho, você e seu amigo. Você era mais jovem e... – e então ela se lembrou de tudo o que sonhara, que era o vídeo-arquivo inserido no disco rígido de Zero. Lembrou-se do nome de Ushan, do desastre biológico, das naves terrestres. Lembrou-se do arquivo com os dados de cada um dos vinte e sete únicos visitantes do continente desde o desastre, lembrou-se do rosto terrível de Heitor, do manto púrpura de Vinícius e do corpo jovem de Quinan, que era Takezo, e de como notou a falta do seu sistema circulatório vermelho. E tudo o que aconteceu nas últimas quatro horas, ali na biblioteca, Adriana de repente soube, à medida que Zero transmitia seus arquivos de memória.

E tudo não durou dois segundos.

_ Vocês injetaram alguma coisa em mim! – gritou ela, repentinamente – Sim, eu sinto agora, meu corpo formigando por dentro. O que vocês fizeram comigo? O que era aquele líquido vermelho?!

_ Calma, calma, criança – disse Thiago – O que colocamos em seu sangue é a obra-prima da tecnologia e medicina de Ushan, o segredo que tornou Heitor e Vinícius tão famosos, o mesmo que fizeram os Grandes Sábios tão vigorosos, e o mesmo que me permitiu viver por cento e sessenta e três anos, quando nossa raça mal sobrevive aos cem. Os ushanianos eram tão avançados que já tinham desenvolvido essa tecnologia há três milênios, e A-L-C a atualizou com o passar do tempo, com o avanço de suas próprias pesquisas. O que injetamos em você foram hemo-autômatos, robôs cujas peças medem no máximo um milionésimo de mili-tésar. Nano-robôs. Eles interagem com as células sanguíneas, aumentando nossa capacidade de cicatrização e regeneração, aumentando nossa distribuição de energia e nutrientes, e assim nosso vigor físico. Funcionam também como anticorpos poderosos, eliminando muitas doenças, e ainda, operam nas demais células do corpo impedindo que envelheçam normalmente, o que permite dobrar nossa expectativa de vida! O que injetamos em você foi muito mais que um remédio, foi um presente de reis!

Adriana ergueu a mão contra a luz, e viu seus vasos sanguíneos, agora levemente rubros, por sobre sua pele esverdeada.

_ E vocês injetaram a mesma coisa em Vinícius, e Heitor? E em Quinan?

_ Quinan? – perguntou Thiago.

_ Digo, Takezo.

_ S1m – respondeu uma voz que ecoou por toda a sala, a voz de A-L-C – Eu e os autôm4tos qu3 a1nda op3ram nes54 cidade cuidamos d3l35, e injetamos n4no-robôs em suas artéri4s. Heit0r as5a55inou seus companheiros dep01s dis50, para ser o ún1c0 a p055uir o s3gr3do, ante5 de p4rtir. E anos depois inj3tam0s os nano-r0bôs em V1nícius e 3m seu companh3iro mukai, o prim31ro teste em cr1atur4s nã0-zem4ni. Inf3lizmente ele part1u com Vin1ciu5 n4 ép0ca, e não s4b3mos 4s c0nsequ3ncias da 0peraçã0.

_ Eu encontrei Takezo – disse Adriana – Ele me ajudou a chegar aqui. Trouxe-me parte do caminho e nos ensinou o restante. Não estava plenamente são, louco eu diria, mas sabia de inúmeras coisas e parece ter viajado por muitos lugares.

_ Takezo está vivo! – gritou Thiago, erguendo as mãos em surpresa – É verdade, Adriana? É verdade? Se é verdade... quantos anos ele tinha na época em que chegou aqui, A-L-C?

_ Era um e5péc1me muk4i de quinze an05 – respondeu o supercomputador.

_ E o império de Vinícius foi erguido há exatamente 491, então... Takezo tem hoje 506 anos! Cinco séculos! Isso é mais do que qualquer zeman tratado com nano-robôs jamais viveu!

_ Prov4velmente algum4 reaç40 inesperada 3ntr3 os hemo-au7ômatos e 45 células muk41 – respondeu A-L-C – V0u abr1r um4 0bserv4ção sobre o c4so, par4 futuras pesqu1sas.

_ E a loucura? – exclamou Thiago – Você acha que é um efeito colateral dos hemo-robôs, ou foi causado por sua idade excessivamente avançada? A-L-C, se conseguirmos descobrir a causa dessa longevidade, e produzi-la experimentalmente, poderemos elevar a eficiência do sangue sintético exponencialmente!

_ Af1rmativo! Os dad0s f0ram anot4dos para fu7ura refer3ncia.

E iniciaram um debate científico sobre as implicâncias da descoberta, esquecidos de Adriana e Zero. Delta, a flutuang de Thiago, disse-lhes:

_ A bibl1ot3ca possui inúm3r45 pesqu1sas em andament0, e Thi4g0 participa de mut1tas d3l4s. Faz c3nt0 e trinta e um anos que v1v3mos c0m0 pesquisadores aqu1. V0cês não tem idé14 do quanto d3sc0nhecem. A-L-C e Thiago prepararam su4s acomod4çõe5, v0cês t3rã0 b4stante tempo par4 c0nhecer a bibliotec4, 4s p3squisa5 3m and4ment0, a floresta de Us, os c4mpo5 de Shumi, as ru1nas das c1dad3s...

_ Não! – gritou repentinamente Adriana, e Delta, A-L-C e Thiago se calaram – Quer dizer, desculpem, desculpem mesmo, mas não temos tempo. Viemos ao Pólo com uma missão muito importante, urgente, e devemos partir logo. Eu realmente estou admirada com o quanto esse lugar pode oferecer, e ainda não consigo acreditar que grande parte da história perdida do planeta está arquivada no banco de memória do meu flutuang, mas eu vim com um único objetivo, e preciso concluí-lo.

O autômato e o supercomputador nada disseram.

_ Mas – perguntou Thiago – Então o que a fez atravessar os Recifes e viajar todo o Mar Interno até Ushan? Depois de tantos dias de viagem, chegando aqui ferida e cansada, já quer partir?

_ Meu irmão – disse a zeman – está morrendo. Os médicos de minha cidade não lhe dão mais que alguns meses de vida, um ano se tivermos sorte. Ele contraiu uma doença ainda sem cura, e as lendas da tecnologia e da medicina super avançada do Pólo me lançaram nessa viagem. Só vim por isso, e é por isso que preciso voltar. Vocês desenvolveram os nano-robôs há mais de três mil anos, quando nossas nações só foram dominar parte dessa tecnologia há um século atrás, e que mesmo assim, esse conhecimento se perdeu nos escombros das nações de Sicuro e Radrak. Vocês com certeza tem a cura para o meu irmão – e dizendo isso, ajoelhou-se e cruzou uma mão sobre a outra, na atitude villana de total súplica – Por favor, me ajudem a salvar Alex.

Delta olhou com seu único olho para Thiago, que estava desconcertado. Os anos que passara sozinho o fizeram se esquecer como se portar com pessoas, e agora não sabia o que dizer. Adriana continuou ajoelhada, esperando uma resposta, e Zero flutuava ao seu lado, em atitude reverente.

_ Bem, é, tudo bem – disse por fim, corando suas bochechas levemente enrugadas – Vamos ver o que o seu irmão tem. Encontraremos alguma coisa na biblioteca.

***

A doença da sede não era desconhecida pelos vastos arquivos médicos da grande biblioteca, apesar de demorarem a encontrá-la por esse nome: os cientistas ushanianos a chamavam de xirodermose. E o remédio não foi surpresa: os eficientes hemo-autômatos também atuavam como a cura perfeita. Funcionavam como antivírus potentes, destruindo as cápsulas protéicas do vírus, impedindo que se reproduzisse. Logo o corpo produziria novas células epidérmicas, e em menos de uma semana voltaria a se hidratar sozinho.

Adriana e Zero passariam a noite na biblioteca, e partiriam cedo. A-L-C preparara uma embarcação para eles, do levíssimo hexa-alumínio, com motores lunar e solar. Podia viajar muito mais rápido que a embarcação na qual vieram, e era prática para um zeman e flutuang manejarem. Ainda, levariam dezenas de cápsulas de proteínas, e pão fresco, e roupas para atravessar os Recifes – para ela e para Zero. Não podiam estar mais preparados.

Thiago usou todos os argumentos disponíveis para fazê-la esperar mais alguns dias, havia tanta coisa que ela podia aprender, conhecer, e levar para as demais nações. Ele era um amante do conhecimento, um historiador-cientista, e sabia o quanto o conhecimento de Ushan avançaria Zemi. Mas Adriana simplesmente se recusava a gastar uma hora a mais. Partiria com o nascer do sol, e não mudaria de opinião.

A-L-C explicou-lhes a rota que deveriam tomar. Seguiriam ao sul, durante toda a manhã, e quando chegasse o meio-dia, avistariam uma ilha. Deveriam tomar a direita dela – e nesse ponto, Zero não tinha certeza se foi um erro de armazenamento, se seu arquivo de memória se corrompeu, ou se A-L-C tinha a informação errada. Ele só sabe que, se tivessem tomado a esquerda, se tivessem escolhido essa direção, todo o desastre seria evitado. Ele releria a informação de A-L-C centenas e centenas de vezes mais tarde, culpando a si mesmo pelo que aconteceu. Talvez ainda estivessem todos bem, se não tivessem tomado a direita – e então atracar na ilha até o dia seguinte, quando a maré estiver favorável, e continuar até o sul, para os mares navegáveis, até o Recife.

E a noite veio. Adriana ganhara roupas novas, um vestido ushaniano que lhe caía tão bem que Thiago corava apenas em olhar para ela. Conversavam numa sacada de pedra e metal, sob o vento fresco do início da noite e sobre as copas das árvores na grande planície lá embaixo. Estrelas brilhavam entre as muitas luas – duzentas e oito aquela noite, contou Zero – e Adriana via Rita e Maria brilhando bem acima deles. As luas ali tinham uma órbita diferente, algumas passando bem ao largo do céu, longe do zênite. A gigantesca lua laranja de Heitor acabara de nascer, e Vinícius fulgia já a meio caminho. Os dois que um dia estiveram no Pólo, senhores do segredo do sangue milagroso. Agora ela também era uma, e quase não acreditava que o poder de Heitor e Vinícius corria em seu sangue.

Thiago estava encurvado em sua cadeira, com um manto grosso de frio. O ar de sua boca soltava uma pequena neblina. Falavam de deuses.

_ Eu vi o arquivo da história perdida de Zemi – dizia Adriana – É realmente tudo verdade? Digo, somos mesmo uma colônia de uma raça alienígena? Foram os humanos quem conceberam os flutuanghi e não o engenho do poderoso Zem?

_ Histórias... – disse Thiago – Os deuses foram criados para preencher o que os zemani não lembram, e explicar o que não entendem. Há pesquisas aqui sobre a origem dos deuses, atualizadas por cada visitante. Há indícios de que Zem foi na verdade o primeiro zeman bem sucedido em interagir com um flutuang, que Ae era na verdade um grande supercomputador. Que Lum era uma deusa antiga da tempestade, anterior à chegada dos humanos, inspirada nas sider-serpentes elétricas que habitam o oceano Índigo. Que Ur era um deus menor dos céus e das nuvens, que evoluiu para o pai de todas as luas quando a astronomia se tornou uma ciência reconhecidamente importante pelas nações. Que o deus-animal Iuam nasceu entre as nações das florestas, pois representava o equilíbrio entre o progresso e o ambiente, matéria vital para a sobrevivência daquelas nações. Que Yr surgiu quando os exércitos precisavam de um deus a quem orar pedindo vitórias. E posso listar muitas outras das prováveis origens para os muitos dos outros deuses.

Ela baixou os olhos.

_ Eles não existem, então – sua voz soava frustrada, como uma criança que descobre as mentiras dos pais – As histórias da criação, das invenções de Zem, das viagens de Ur, das metamorfoses de Iuam, são apenas histórias, não são? Então... em que acreditar?

_ Acredite na mente zeman – respondeu Thiago – Você não sabe o quanto de conhecimento temos armazenado aqui, Adriana. Podemos reconstruir todas as nações, revolucionar a vida de todos os zemani. Alguém precisa espalhar esse conhecimento, mas não posso deixar Ushan. Você realmente não quer ficar mais uns dias? O tanto que você pode ajudar sua nação!

_ Desculpa – ela ergueu os olhos para ele, convicta – Preciso mesmo ir. Preciso entregar isso aqui para meu irmão – disse ela, mostrando uma ampola cheia do sangue sintético.

Thiago não sabia argumentar contra aquilo.

_ Sim, é, desculpe. Então... você ainda acredita nos deuses?

_ Não sei. A idéia do deuses é reconfortante, enquanto pensar que somos apenas o fruto de uma colonização tecnológica me assusta, e me frustra. O que você segue?

_ O conhecimento. Quero conhecer tudo o que puder ser conhecido, aprender tudo o que puder ser aprendido. Estou muito interessado na longevidade do mukai tratado com sangue sintético, preciso estudar isso mais a fundo, aumentar meu tempo por aqui – e sorriu, consciente de sua própria idade – Não devo viver muitos anos mais, talvez uma ou duas décadas. Por isso vou pesquisar o efeito dos hemo-autômatos nas células mukai, e fico muito grato pela informação que você me trouxe.

_ E estou muito contente com a cura do meu irmão, você não faz idéia. O Pólo era apenas uma lenda, mal acredito que realmente encontrei esse continente. Gostaria de voltar aqui outra vez, quando tudo estiver resolvido – e sorriu – Alex vai gostar daqui. Bem, acho que vou agora, para acordar cedo amanhã. Acho que essa noite não orarei para lua alguma – disse ela, com um sorriso triste.

Thiago se sentiu mal por roubar os deuses da jovem, mas sentia que era seu dever instruir, esclarecer. Despediu-se dela com um sorriso bobo, e talvez ele nunca saiba que a verdadeira razão que o fazia insistir para que ela ficasse era a companhia; ficara tempo demais sozinho. O frio espetava suas juntas, e decidiu ir dormir também. Estava velho.

O dia raiou com uma aurora azul espetacular, pintando o céu até o zênite, empalidecendo as luas e apagando as estrelas. Thiago, Delta e um avatar de A-L-C os acompanharam até a embarcação. Zero carregou as informações de como manejá-la e pilotá-la, e as passaria para Adriana. Ela levou alguns dos vestidos ushanianos – presente de Thiago – e agora estava bela em um traje de viagem, que a protegia do frio e da insolação. Ainda, A-L-C dera um traje aquático para Zero, que permitia que o flutuang imergisse e nadasse sem dificuldade. Agradeceram e se despediram dos três, e zarparam para a viagem de volta, para o desastre.

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Imagem retirada e alterada do deviantart, autor: gregmks


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