terça-feira, 9 de novembro de 2010

[Conto] As Luas de Zemi (parte IV)


Pra quem está chegando agora: no final do ano passado (2009), uma colega da comunidade do orkut Escritores de Fantasia e FC sugeriu um amigo oculto diferente: os presentes seriam contos. Cada um pediria um tipo de história, e deveríamos escrever o conto para quem tirássemos. Bem, tirei a Strix, que pediu um conto onde deveria constar o nome dos membros da comunidade. O resultado foi este conto, onde fiz o possível para encaixar todo mundo que participou e mais um pouco.

Espero que gostem. A quarta de sete partes o/
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4. O Pólo

Cirilo era um exímio cavaleiro. Aprendera a cavalgar desde pequeno, na fazendo de seu pai, e crescera em habilidade tanto quanto crescera em idade. Tornou-se logo um mensageiro do exército da nação, um dos mais rápidos e definitivamente o mais confiável.

Diferente dos demais cavaleiros, Cirilo não aceitava trocar de montaria. Em suas missões, montava o mesmo michilizzi que montara desde a juventude, e pretendia montá-lo até o final de sua vida – já que os michilizzii vivem praticamente o mesmo tempo que um zeman. Para quem quer que perguntasse o motivo, ele respondia com sinceridade: Ricardo era seu melhor amigo.

Não são poucos os estudos sobre a inteligência dos michilizzii, e embora são raros os cientistas que os classificam como uma raça racional, nenhum nega que estejam próximos de serem. Tratam-se de coelhos de montaria, grandes o bastante para sustentar dois zemani adultos, com três pares de orelhas e três pares de pernas. Sua audição, sua velocidade e sua inteligência estão entre as mais altas dos animais de Zemi. E até dizem que compreendem a fala.

Ricardo era um michilizzi de pelo castanho, com uma cicatriz na terceira orelha direita – resultado do ataque de um javali-arame – e patas rajadas de pêlo pálido, como se estivessem constantemente sujas de lama branca. Fora dado de presente para Cirilo quando também era jovem, e cresceram juntos, e seguiria o dono por qualquer caminho sem hesitar.

Cirilo tinha trinta e três anos quando Ur apareceu para ele.

Era uma noite de trezentas luas, e o mensageiro caminhava distraído pelos campos de seu pai, descansando de sua última missão com Ricardo e seu flutuang. Havia névoa naquela hora da noite, embora não houvesse nuvens, e o deus-céu emergiu de dentro delas como se a elas pertencesse. Quando o viu, Cirilo soube quem ele era.

E o deus lhe contou a que viera. Fizera uma aposta com os quatro ventos, que se gabavam irritantemente de sua velocidade, que encontraria uma criatura tão ou mais veloz do que eles. E por isso convidava Cirilo para provar que estava certo.

Cirilo teve medo, medo de ser perseguido pelos ventos se ganhasse, e medo de ser punido se perdesse. Ur jurou pelas luas que os protegeria, e então, honrado com o pedido, o cavaleiro aceitou a tarefa.

A noite da corrida era uma noite de quinhentas luas. Cirilo guiou Ricardo para as planícies de Maranganha, onde encontrou quatro figuras de corpo de nuvens e asas nos pés. Ao nascer de Bruno, largaram.

Percorreram toda a extensão das planícies, até a borda da nação. Atravessaram a fronteira, cruzaram o deserto de Itatá, onde Ricardo chamuscou seu pêlo, e subiram e desceram as montanhas além. A corrida foi muita intensa, e durou toda a noite; exigiu muito de Cirilo e o dobro de Ricardo. Por fim, quando o sol nascia, chegaram às margens do mar.

Ricardo tombou exausto sobre as águas transparentes, enquanto Cirilo olhou preocupado para trás, procurando os ventos, mas eles já estavam do seu lado. O sol saudou o empate. Triste por não ter ganhado, mas contentíssimo por ter provado sua velocidade, Cirilo chamou pelo amigo, mas Ricardo não respondeu. O animal morrera para garantir o empate ao dono.

Ur ouviu o choro de dor e desespero de Cirilo – mesmo os quatro alegres ventos não ousaram se manifestar – e se sentiu em dívida. Tinha um juramento a cumprir, de que protegeria cavaleiro e montaria, e antes que a alma do michilizzi deixasse seu corpo, Ur a pendurou no céu. O destino dos amigos estava tão entrelaçado que Cirilo foi levado junto, erguido pelos ares até a imensidão púrpura, fulgurando no céu como o mais novo filho de Ur. Nesse dia nasceu Cirilo, a lua amarela, em cuja face até hoje se pode ver a silhueta de Ricardo, o coelho na lua.

***

O pólo: a bússola interna de Zero não negava. Finalmente chegaram ao pólo do planeta, a terra separada do resto do mundo pelo grande Recife de Sal, e pelo desconhecido e perigoso Mar Interno. O Pólo, terra histórica e lendária entre os zemani.

O sol se pôs, e Adriana se jogou nas areias, exausta. Uma lua amarela nascia no horizonte, mas ela não a viu, cansada demais para levantar. Quando Cirilo nasceu, iluminou as íris castanhas de dezenas de olhos dentro da floresta próxima. Zero captou a cena. A praia dava para um bosque de árvores altas e antigas, e por entre os troncos, e por entre as sombras e folhas, dezenas de michilizzii observavam os recém-chegados.

E eram michilizzii selvagens.

Zero sabia, e também Adriana, não existiam michilizzii selvagens há pelo menos dois mil anos em Zemi. Eram montarias boas demais. Todos foram a caçados e domesticados, e desaprenderam a viver longe da sociedade zemani.

Os coelhos hexápodes os miravam com suspeita e cautela. Por um breve momento – muito breve – Adriana esqueceu a fome e o cansaço e se levantou. Mas quando deu um simples passo, o pequeno grupo debandou floresta adentro.

E então ela caiu novamente, quase inconsciente.

Zero correu por entre as árvores, trazendo nozes e pequenas frutas, de espécies desconhecidas mas saborosas. Adriana comeu tudo com voracidade, e bebeu o dobro de água de que seria capaz. E então, dormiu, dormiu profundamente, ali mesmo sobre a areia, ao lado das cascas de frutas. Foi Zero que ativou a cápsula de abrigo, resgatada do fundo da mochila da dona, e ficou contente em deixá-la dormir.

A noite passou, inteira.

Adriana acordou com o brilho do sol em seu rosto sujo de areia. Dormira todas as vinte e quatro horas da noite, e dormira bem, com a barriga cheia e a esperança renovada. Ainda estava longe de estar em pleno vigor, mas esse foi de longe o dia em que se sentiu mais disposta, de toda a exaustiva viagem.

Tentou puxar o barco margem acima, para protegê-lo da maré, mas o mono-ferro era pesado demais. Guardou o resto de frutas e nozes em sua mochila rasgada, armou-se com a pequena faca elétrica – o rifle se perdera no mar – e, seguida de Zero, se aventurou nas florestas do Pólo, talvez a primeira zemani a pisar aquelas terras em anos sem conta.

A selva era fechada e densa, o seu ar era gelado. Havia um filme fino de gelo sobre as folhas, e talvez houvesse neve ali nas estações mais frias. Adriana abria caminho com sua faca, seguida por Zero que escaneava a área ao redor, em busca de criaturas. Foram seguidos durante muito tempo pelos olhos castanhos dos michilizzii selvagens, dos quais nunca puderam se aproximar. O meio-dia veio, e ainda estavam na floresta.

Pararam para a refeição.

_ Zerinho – disse Adriana, entre uma mastigada e outra – não detectou nenhum sinal de civilização nas proximidades? Uma onda de rádio, alguma transmissão de qualquer tipo?

_ Nad4 4inda, Dri – respondeu o autômato – su9iro continu4rmo5 pr0curando.

_ Sim, sim.

Ouviram um grunhido vindo do mato atrás, e Adriana ergueu a faca imediatamente. Esperaram, mas não ouviram mais nada. Terminaram a refeição, e, com o dobro da cautela, continuaram.

Logo começaram a surgir ruínas de civilização, cobertas pelos arbustos, trepadeiras e terra. Primeiro eram apenas casas pequenas de tijolos e pedra – alguns utensílios de metal – e então grandes edifícios e torres.

Depois vieram as ruínas de metal. Construções de cobre, em cujas lascas abertas na parede viam-se circuitos velhos e corroídos, e fios, e lâmpadas quebradas. Mecanismos que Adriana nunca vira antes. Ferramentas eletrônicas estranhas, há muito estragadas, e tudo coberto de musgo e plantas, como se a floresta reivindicasse a terra da cidade. Logo havia ruas de pedra, e ruas de acrílico – como as ruas das grandes nações de Sicuro e Vianco – e grandes construções de metal e pedra, de circuito e tijolo, se erguendo pela floresta como a sombra gloriosa de uma grande nação.

Zero tentou se conectar em cada circuito, e cada máquina encontrada, mas tudo estava inativo. Adriana procurava por inscrições, arquivos, palavras de qualquer tipo, em vão.

Chegaram a uma pequena praça nas ruínas da cidade, e Zero captou finalmente algum sinal. Flutuou mais alto, vasculhando a área ao redor, e por isso não viu o vulto escondido atrás de um muro de pedra.

O javali atacou Adriana por trás, investindo com fúria, cravando suas presas nas costas da zeman. Ela foi arremessada para cima com um grito de dor e susto, muitos tésari à frente, sobre uma calçada de pedra. Usou o braço para aparar a queda, e sentiu sua tíbia se rompendo com o impacto.

Zero ouviu o grito e sentiu a dor de Adriana.

O javali voltava para uma segunda investida, mas o flutuang desceu e se prostrou entre ele e a zeman, e eletrificou seu tentapode. O pequeno cabo de metal fulgiu em centelhas brancas e azuis, fazendo o animal hesitar e parar à menos de um tésar de distância, o que foi o bastante para Adriana. Ela ergueu sua faca elétrica e a enfiou no dorso musculoso do animal, ferindo o couro escuro, fazendo o sangue brotar e queimar. Logo em seguida Zero chicoteou seu tentapode eletrificado, e o javali ganiu de raiva e dor; quando foi atingido novamente, disparou para as sombras da floresta e dos edifícios, e desapareceu.

Dor. Adriana pressionava com força o braço ferido, latejante. Havia também um grande rasgo em suas costas, por onde sangue brotava em profusão, e a dor a deixou incapaz de tomar qualquer decisão.

Zero emitiu comandos para seu corpo produzir plaquetas para a cicatrização, morfina para a dor, adrenalina para mantê-la acordada. Não seria o suficiente, ela precisava de cuidados médicos de verdade.

Captou novamente um sinal eletro-magnético, vindo do centro da praça.

_ Dr1, Dri! Estou capt4nd0 algum4 c01sa, pod3 signif1car 4juda! Você pode v1r comig0, só até o centr0 d4 pr4ç4?

O rosto contraído de dor disse que não, mas que tentaria. Ela arrastou-se alguns tésari, mas tombou, segurando o braço ferido.

_ Vai, vai você, Zero! Descobre alguma coisa!

O flutuang pairou indeciso, mas Adriana ainda tinha a faca elétrica para se proteger. Tinha que tentar.

Flutuou o mais rápido que pôde para o centro da praça, onde havia um círculo formado por três monolitos de metal. Havia musgo e hera sobre eles, mas havia também eletricidade fluindo por seus circuitos, Zero pôde computar.

O diálogo a seguir se deu em exatamente doze segundos, nos computadores dos quatro autômatos:

<t1tulo: Zer0> Ajud4, 4juda! Cód1go 505, neces5ito de a7endiment0 méd1co!

<t1tulo: Cri5tina> Saudaç0e, flutu4ng. Seja b3nvindo ao ANA-42, dest1no 8iblioteca C3ntr4l.

<t1tulo: Lúc1a> P3lo braç0 m3cânic0 de Ae! Voc3 é o pr1meiro visit4nte em ex4tament3 duzento5 e tr1nta e tr3s anos, c1nco m3s3s, qu4torz3 dias, uma h0ra e vint3 e nov3 minut0s.

<t1tulo: C4r0l> D3sculpem-n05, m45 nã0 p0d3m05 s39uir o c0di90 505 e pr0v3r 47end1m3nt0 m3d1c0, m4s na 8i8li0t3c4 p0d3m.

<t1tulo: Zer0> E c0mo po5so cheg4r na bibl1oteca? É ur9ente!

<t1tulo: Cri5tina> Nó5 s0mo5 o por7ão. Já inf0rme1: s0mos um ANA.

<t1tulo: Zer0> Então...

             <4brir: b1bliot3ca 1nterna>

             <pr0cur4r: ANA>

             < ANA (Ár3a de N4vegação Avançad4) - Mec4nismo de tr4nsporte mol3cular capaz de tranp0rt4r c0rpos sólidos atr4vés do espaç0 tridim3ncional a até tr3s kil0-tés4ri de dist4ncia. M3canism0 antigo, inc4paz de ser r3produz1do pel4 t3cnologia 4tual. Ex1st3m ao tod0 trint4 e qu4tro ANA re9istrados em Z3mi, e apen45 metade está 0p3r4nte. P3squisas indicam que dat4m de tr3s mil an0s atrás, a mesma 3poca dos Gr4ndes Sáb10s>

             <A int3rfac3 de us0 pode v4ri4r, pod3ndo possuir ch4ve de 4tiv4ção, senh4s de ac3sso ou mesmo nenhum4 interf4ce. Não há c4sos confirm4d0s de ANA guard4dos por aut0matos>

             <fechar: biblioteca int3rn4>

<t1tulo: Zer0> ...qual a su4 interf4ce de ativaç4o?

<t1tulo: Cri5tina> Qu4tro senh4s. Cada um4 de nó5 guard4 uma, e a qu4rta nã0 é 9uard4da por n1nguém.

<t1tulo: Zer0> Nã0 t3nho tempo. Ignor3m a r0tina de 4tivação!

<t1tulo: Lúc1a> Nã0 t3mos p3rmis5ã0 para ignorá-la.

<t1tulo: C4r0l> D3scu8ra a5 s3nh45.

<t1tulo: Zer0> C0mputad0... 1niciar r0tina.

<t1tulo: Cri5tina> R0tina inici4da.



Os três monolitos de metal emitiram um leve ruído – com ocasionais faíscas – e seus circuitos fosforesceram de leve.


<t1tulo: Cri5tina> Eu 9uardo a pr1meri4 senha:

             "Sou a c4b3ça d3 um homem de muitas m3nte5,

             S0u a pal4vr4 de um hom3m d3 muit4s boc4s,

             e um4 cole1ra a0 meu d3ver m3 prende.

             Eu S0u?”

<t1tulo: Zer0>

             <proc3s5ando...>

<t1tulo: Zer0> O hom3m é a nação, as b0cas e as ment3s sã0 o pov0 e a c0leira é o diadema real, s1mbolo do pod3r do r31. A pr1meira s3nha é REI.

<t1tulo: Cri5tina> Est4 corret0.

<t1tulo: Luc1a> Eu gu4d0 a se9und4 senha:

             0; 1; __; 5; 9; 11; 15; 17; 21; 27

<t1tulo: Zer0>

             <proc3s5ando...>

<t1tulo: Zer0> Trata-s3 da sequ3ncia dos núm3ros pr1mos, subtr4ídos p0r dois. A s3gunda senha é TRÊS..

<t1tulo: Luc1a> 3stá c0rreto.

<t1tulo: C4r0l> 3u gu4rd0 a t3rc31ra 53nh4:

             "19-9-13-2-9-15-20-1

             18-15-2-15-20-9-3-15"

<t1tulo: Zer0>

             <proc3s5ando...>

             <proc3s5ando...>

             <proc3s5ando...>

<t1tulo: Zer0> Sub5titu1u-se as l3tras pelo num3ro de su4 pos1ção no alfabet0. A t3rceira senh4 é FLUTUANG.

<t1tulo: C4r0l> 35t4 c0rr370

<t1tulo: Cri5tina> N1ngu3m guarda a qu4rta senha.

<t1tulo: Cri5tina> Qu4l é ela?

<t1tulo: Luc1a> Qual é 3la?

<t1tulo: C4r0l> Qu4l é 3l4?



Zero não tinha qualquer pista. Avaliou as outras três repostas e não encontrou um padrão que pudesse ajudá-lo, e de fato as outras senhas eram a única informação de que dispunha. Trabalhou com elas, e quando as alinhou na ordem em que apareceram, formou uma frase que seu banco de memória recente acusava como familiar. Pesquisou as gravações dos últimos dias e encontrou a resposta, no som da voz aguda de Quinan.


<t1tulo: Zer0> As senh4s formam REI TRÊS FLUTUANG. A qu4rta senha é ENIO, o rei qu3 c0nstru1u tr3s flutuang p4ra si.

<t1tulo: Cri5tina> Est4 c0rreto.

<t1tulo: Luc1a> Está corr3t0.

<t1tulo: C4r0l> 3574 c0rre7o.



Houve uma forte luz, e o chão sob os três monolitos brilhou. Zero correu para ajudar Adriana a caminhar. Ele sentia a dor da zeman pulsando em seus sensores, e o sangue manchou sua superfície polida, e após muitos minutos atingiram o centro do ANA, que graças a Ae ainda brilhava. Cristina, Lúcia e Carol lhe desejaram boa viagem, e então a luz aumentou, e a realidade derreteu.

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Imagem retirada do deviantart, autor Panuniverse


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