A terceira de sete partes do conto de amigo oculto. Eu tirei a Strix, e deveria usar os nomes dos membros da comunidade do orkut Escritores de Fantasia e FC.
Boa leitura (:
_________________________________________________________________Boa leitura (:
3. O totem para Lum
Lucas estava à meio caminho de se pôr, quando Fabiano nasceu. A lua vermelho-metálica subiu devagar, manchando o mar de rubro, e Adriana sabia que muito atrás, nas árvores de Villa, os pássaros cantariam a hora mágica de seu nascimento. As fases de Fabiano possuem bastante influência sobre o comportamento animal em Zemi, e alguns diriam que até sobre os zemani.
O terceiro quarto da noite chegava ao fim.
Adriana estava muito cansada. Passara as últimas quinze horas navegando, desde às margens de sal até agora. Zero computou o cansaço cada vez mais evidente da zeman, e mandou ordens para que seu corpo sintetizasse energia extra. O efeito seria um cansaço extremo no final, mas pelo menos descansariam em terra, não no mar.
O motor de luz lunar continuava menos útil que as velas, mas o vento estava favorável. Quinan, que ia à frente guiando o barco, dava ordens de manobra muito inesperadas e repentinas, o que desgastava ainda mais Adriana. Ficaram nessa exasperante viagem pelas últimas horas, e viam passar ilhas e mais ilhas, preciosos abrigos desperdiçados.
_ Apen4s ma1s uma h0ra, Dr1 – sibilou Zero.
_ Eu sei, eu sei!
Mas Quinan ainda dava suas ordens de manobra, gritava por sobre o barulho das ondas enquanto nadava, e nem sinal da ilha de pedra.
Lucas estava preste a se pôr quando o flutuang a avistou, e transmitiu o que vira para zeman: uma grande elevação rochosa, de muitos recifes nas margens próximas, que se erguia do mar como uma coluna de pedra. As ondas batiam raivosas contra as rochas, elevando nuvens de gotículas de água salgada, e raras vezes, mesmo o oceano inferior era borrifado no ar, tingindo a vista com neblina rubra. Adriana temeu que não fosse possível atracar, mas as ordens de Quinan eram tão precisas, ainda que repentinas e aparentemente loucas, que ela confiou em sua sabedoria. Não tinha outra alternativa, de qualquer jeito.
Quinan os guiou por um labirinto de recifes escarpados, ziguezagueando perigosamente entre rochas e corais, até que por fim atingiram uma baía de águas tranqüilas. E já não era sem tempo; Lucas se pôs. Adriana usou finalmente o motor para aproximar o barco da margem, saltou nas águas rasas e puxou a embarcação com desespero para a praia, sendo ajudado por Zero e observado por Quinan. Quando o barco tocou a terra firme, o mukai saiu da água e então Rafael nasceu.
Foi questão de segundos.
A maré aumentou tésari de altura, e os ventos sopraram mais forte. Ao longe, as explosões de água salgada contra as pedras aumentaram de freqüência e altura, e agora era muito comum ver a neblina de água vermelha, como sangue tirado do mar. Logo o vento tornou-se uma tempestade, as ondas eram visíveis mesmo da baía, e o som do mar encheu o ambiente. Começou a chover.
Adriana atirou uma cápsula de mili-robôs sobre a rocha, gritando 'Ativar' sobre o barulho do céu e do mar. A nuvem cinzenta trabalhou com dificuldade sob a chuva que aumentava, mas por fim terminaram um abrigo tosco moldado na pedra, onde Adriana e Zero se acomodaram. Havia espaço para Quinan, mas o mukai preferiu ficar na chuva.
Uma tempestade violenta acompanhou o nascimento demorado de Rafael. A lua nebulosa da cor do vinho foi saudada pelos relâmpagos, pelas ondas e pelo vento.
Rafael foi o nome de um grande navegador catelão do milênio passado, que descobriu várias ilhas e foi quem encontrou a ilha-continente de Elôh. Por causa da traição de seu melhor amigo, perdeu seu posto na marinha catelã e se tornou um pirata, e finalmente senhor de seu próprio destino. Sua fama no conhecimento dos mares foi tão grande que mesmo depois de sua morte diziam que ele governava as marés e seus segredos, e a lua da tempestade foi batizada com seu nome.
Nuvens negras cobriram as luas, e lançavam raios e gritavam trovões na atmosfera zeman. Relâmpagos por sobre a floresta da ilha. Apesar do barulho, Adriana dormia um sono sem sonhos, com frio, sob o macacão de poli-tecido ao lado de Zero, o resultado da viagem cansativa e da síntese extra de energia. Quinan dançava na areia e na chuva.
A tempestade durou algumas horas da noite.
Agora Rafael subia os céus, e à medida que se aproximava do zênite a maré diminuía. O céu ainda não estava limpo, mas as nuvens já se dispersavam, e a chuva agora era apenas gotas grossas e esparsas. Zero mediu a disposição de Adriana, e embora não quisesse, a acordou.
_ Dr1, temos qu3 ir.
Ela resmungou de volta, ainda em sono; Zero insistiu, e ela despertou.
O flutuang sabia o quanto a viagem estava sendo desgastante para ela, e mesmo para ele, mas Adriana o havia feito jurar por Ae que colocaria o sucesso da viagem acima de suas preocupações pela dona. E quando um autômato jura por Ae, ele se compromete de verdade.
_ Onde está Quinan? – foi a primeira coisa que ela disse.
Realmente, o mukai havia desaparecido. A zeman e o flutuang gritaram seu nome, e o procuraram na praia, mas não havia nem sinal dele, nem no mar nem na terra.
Ela sentou, desamparada. O mukai se dispusera ele mesmo a mostrar o caminho, dissera que tinham que chegar primeiro em Namiishi, e de lá lhe ensinaria a prosseguir.
Estava sozinha agora.
Lembrou-se de Alex, da urgência de sua viagem, e teria chorado, a primeira vez que choraria desde que iniciou sua vida adulta, quando ouviu a voz metálica de Zero.
_ Adr1an4, v3nha aqui!
O flutuang apontava seu tentapode para o barco. Ele havia sido puxado mais para cima, e a marca da maré mostrava que, se isso não tivesse sido feito, o mar o teria tragado.
Ela correu para o veículo e checou se tudo estava em ordem. As velas, o leme, o motor; tudo intacto e, em cima do convés tombado, folhas ainda verdes forravam o chão para três peixes frescos.
Saciada a fome e tendo descansado – ainda que por poucas horas –, Adriana sentia-se revigorada. As ondas ainda eram poderosas, mas agora que a tempestade se fora, ela pôde perceber, não eram apenas relâmpagos que iluminavam o céu sobre a floresta da ilha. Mesmo agora havia uma pequena luminescência que vinha de cima das copas, em algum ponto dentro da floresta. Como ainda tinham algumas horas até que o mar se tornasse navegável novamente, decidiu averiguar.
A floresta de Namiishi era antiga, tão antiga quanto densa. Adriana usava seu facão elétrico para abrir caminho por entre os galhos e cipós ancestrais. Havia arbustos e plantas pequenas, mas a grande maioria eram árvores de copas altas e frondosas, umas retas como torres, outras ramificadas como o raio. Seguiam em linha reta, e não precisaram andar muito para encontrar a clareira de pedra.
Quinan estava lá.
E havia luz, luz elétrica. No centro da clareira, rodeada por poças de água da chuva que passou, erguia-se uma escultura de pedra, um totem zeman. Na base começava esculpida a ponta da calda de uma cobra, que se enrolava sobre si mesma, subindo. As escamas, que uma vez deveriam ter sido pontudas e afiadas como as garras de um raio, estavam desgastadas pelo vento e pela chuva. Na metade do totem, duas garras nasciam do corpo serpentino, uma de metal e outra de pedra, de unhas que um dia também deveriam ter sido polidas. Seguravam uma esfera de luz azul. A serpente continuava, até o topo do totem, à seis tésari de altura – uma vez e meia a altura de um zeman –, onde estava esculpido o rosto dracônico de Lum, a mãe da eletricidade e da luz. Um de seus olhos brilhava como a esfera de suas garras, e a escultura inteira emitia luminescência, embora mais fraca.
O totem parecia ter séculos de idade, e também parecia ter sido moldado com ferramentas primitivas. A mão de ferro de Lum fora feita com o pedaço do casco de um navio antigo, agora cheio de ferrugem, e a luz da escultura era gerada por musgos e algas lunares. Com exceção da esfera e dos olhos: essa era a luz de lâmpadas zemani.
_ O moji do manto púrpura já construíra esse totem quando Quinan o encontrou – disse o mukai – E Quinan teve medo dos olhos e da esfera de luz. Agora só um dos olhos funciona,... faz muito tempo que Quinan não vem para Namiishi.
Adriana se aproximou e se sentou perto do mukai, contemplando o totem. Era um autêntico totem para Lum, construído primitivamente por mãos zemani, sabe-se lá há quanto tempo.
Havia também, reparou Adriana, ao lado de Lum, uma escultura em ruínas, que poderia ter sido Zem algum dia.
_ No começo havia poucas algas para cobrir a escultura do moji, que ele mesmo raspara das pedras da baía, mas Quinan trouxe-lhe mais, e ambos cobriram a deusa do moji de luz. O amigo de metal do moji pedira um totem para o deus de metal, mas tudo o que restara do navio deles foram poucos pedaços de ferro, disse o moji. E o deus de metal só aceita metal. Quinan ouviu a história dos deuses do moji, e Quinan contou a história de seus próprios deuses, e quando você troca histórias sagradas com um mukai, você se torna seu amigo.
O mukai falava como se reverenciasse o totem tanto quanto Adriana, mas o que ele realmente reverenciava não era a deusa da eletricidade, mas o passado de memórias perdidas.
_ Há quanto tempo tudo isso aconteceu, Quinan? – perguntou Adriana.
_ Quando Quinan era jovem – disse – há muito tempo, quanto ainda não chamavam Quinan de louco.
Repentinamente o mukai deu um pulo, estando suas seis garras no chão de pedra molhada.
_ O presente de Quinan! O presente! – e correu para a base do totem. Escalou-a como uma árvore de água, até o topo.
Falava consigo enquanto andava. Perguntava-se se ainda estava lá, e se repreendia por tê-lo esquecido, e se desculpava com seu amigo, e se desculpava com a deusa. Alcançou a boca aberta de Lum, e enfiou uma de suas garras entre seus dentes. Tirou de lá um anel.
_ Está aqui! Ainda está aqui!
Desceu e começou a dançar, balançando suas garras no ar, esquecido de Adriana e Zero, do totem, de tudo.
_ Quinan, o que é isso? – perguntou Adriana.
O mukai ergueu o anel para a luz das luas, admirando-o, e só então se deu conta da zeman. Mostrou-o. Era um anel de metal com um símbolo gravado.
_ Esse é o presente que o amigo moji deu para Quinan, séculos atrás. Quinan disse que o buscaria na volta da terra do meio, mas se perdeu do amigo, e se esqueceu do presente. Faz muito tempo que Quinan não vem para Namiishi.
_ Posso vê-lo mais de perto? – pediu ela.
Zero se aproximou para ver também. Era um anel incrivelmente bem trabalhado, de mono-ouro – Zero informou – com desenhos em linha de cor púrpura e um sinete de metal: um heptagrama com uma esfera no meio. A zeman exclamou de surpresa, e Zero exclamaria se pudesse.
Havia uma lenda de que Vinícius, o rei-imperador que um dia unificou as duzentas nações, havia visitado o Pólo, antes de sua glória. Sua saúde era abençoada, seus ferimentos se curavam com facilidade, e ele conquistou praticamente todas as batalhas nas quais lutou. Diziam que era imortal, outros que seu sangue podia curar ferimentos. Vinícius ergueu o maior império da história zeman, que durou por várias e várias décadas, só terminando com as Guerras Nacionais, no governo do então Rei-imperador Luiz. Foi o império de Vinícius que implantou a língua geral, que unificou a astronomia e a história das luas, e que avançou a tecnologia em grande parte de Zemi. A cor púrpura era seu emblema, púrpura como a lua que foi batizada com seu nome, e seu símbolo era o heptagrama.
Adriana tomou o anel em suas mãos, era realmente o símbolo de Vinícius. O imperador de quase meio milênio atrás realmente estivera no Pólo, então, e fora Quinan quem o ajudara. Adriana olhou espantada para o mukai. Zero lhe informara que sua espécie vivia apenas três décadas, mas se Quinan realmente se encontrou com Vinícius, ele deveria ter mais de quatrocentos anos. Um tempo longo mesmo para um zeman, que vivia no máximo até os cento e dez.
_ Como se chamava o seu amigo moji, Quinan? – perguntou ela.
_ Vestia um manto roxo e falava sobre a terra de sua nação. Histórias bonitas. E falava com tristeza de sua tripulação, perdida para as ondas do mar daqui. Estava sozinho, o moji.
_ Quinan, como ele se chamava? Era Vinícius, ele se chamava Vinícius?
O mukai parou, olhando para ela, momentaneamente sem ação. Então, pulou tão alto que podia aterrissar sobre a zeman.
_ Vinícius! É o nome do moji, do amigo de Quinan! Vinícius! Vinícius!
E começou a dançar, andando em círculos e balançando suas garras no ar, cantando o nome do antigo rei-imperador.
_ M4s, iss0 não f4z sent1do! – sibilou Zero – um muk41 vive em m3d1a tr1nta an0s, e o cas0 mai5 longevo foi de c1nquent4 e um! Não pod3 ter s1do Quinan, é contra as pr0babil1dades!
_ Quinan, então, quantos anos você tem? Como você sobreviveu por tanto tempo? Você encontrou mesmo Vinícius, o Rei-imperador? – perguntou Adriana. Quinan ignorou-os, contente demais em lembrar o nome de seu amigo do passado. Continuou dançando à luz do totem de Lum, que iluminava seus órgãos azuis e suas artérias vermelhas.
O sol nasceu no horizonte do mar, tingindo tudo de índigo. O céu mudou do violeta noturno para o vermelho claro do dia, e as estrelas foram, uma a uma, desaparecendo. Rúbia, a estrela que traz a manhã, fulgiu escarlate com a chegada da aurora, despedindo-se do último quarto da noite. As luas em breve perderam a cor, o brilho, e tornando-se pálidas sombras do que realmente são. O céu estava limpo de nuvens.
Seguir na direção norte, durante toda a manhã. Graças a Zem, podiam usar os motores.
Despediram-se de Quinan ainda de noite, deixando Namiishi, Lum e o mistério da idade do mukai para trás. Ele ignorara qualquer pergunta referente à sua idade – sempre que a faziam ele se lembrava de Vinícius, e cantava e dançava com o anel presente – mas se mostrou bastante lúcido quando lhes explicou a rota para o Pólo, já que não os acompanharia. Estava velho, contou. E também contou muitas histórias, enquanto esperavam a maré se tornar favorável, histórias sobre uma lua que caiu do céu, sobre um eclipse que iluminou a noite, sobre uma tempestade que inverteu os oceanos, e sobre muitas coisas que disse ter visto e ouvido. Contou histórias de nações que eles não conheciam e a história de seus governantes; governantes como Enio, o rei que construíra para si não um, mas três flutuanghi, e Daniel, que usara todo o seu tesouro para construir a maior biblioteca do planeta. Algumas podiam realmente ter acontecido, outras eram com certeza delírios, mas todas foram agradáveis de se ouvir, e o tempo passou rápido.
Zero gravou as instruções da rota, e agora comandava o barco. Adriana dormia profundamente, exausta.
O sol subia o céu vermelho enquanto Zero atravessava os mares. Agora em todas as direções o horizonte encontrava o oceano, sem sinal de ilhas ou qualquer referencial que indicasse que se moviam. Tudo era mar, um imenso e gigantesco mar transparente por cima e vermelho por baixo. O barco cruzava o oceano, mas para o flutuang parecia que era o oceano que passava por eles. Ele observou, horas e horas, a mesma paisagem, mediu a mesma umidade do ar, fez e refez a previsão do tempo, e sintetizou proteínas para a zeman. A manhã terminava quando o dia escureceu e se tornou novamente violeta, quando o sol foi eclipsado por Douglas, mas isso não durou dois minutos. Eclipses solares são comuns em Zemi. E Zero passou o início da tarde guiando o barco, sem maiores preocupações do que vigiar Adriana e o caminho.
Duas horas depois do eclipse ele tomou a direção leste.
Dessa vez seus olhos agudos divisaram algo no horizonte, manchas escuras. Quinan falara sobre elas. Quando se aproximavam, Zero diminuiu o motor e arriou as velas. Pela segunda vez contra a sua vontade, acordou Adriana.
A zeman piscou três vezes os olhos cansados e espreguiçou seu corpo esverdeado. Esticou suas duas caudas e se levantou, se sentindo mais cansada do que se não tivesse dormido.
Chegaram ao Cemitério de Navios. Um aglomerado de recifes que se escondia na superfície escarlate do oceano inferior, coroados com as carcaças de dezenas de navios de metal. Alguns cascos tinham muitos tésari de altura, outros eram apenas restos menores e desgastados, como um recife de metal enferrujado, afiado, fosco.
Adriana respirou fundo. Se haviam tantas carcaças, tinha que haver um civilização próxima. Diziam que o Pólo era uma nação maravilhosa, mas muitos também diziam que era uma terra de ninguém, cuja única maravilha era não ter sido habitada por zeman algum. Mas aquele lugar, os cascos enferrujados de centenas de navios, provava que realmente houveram zemani naquelas águas.
Habitantes ou aventureiros? Preferiu não pensar a respeito.
Embrenharam-se nos recifes de metal com cuidado. Os destroços pontiagudos podiam facilmente perfurar o casco de seu barco, e, embora ela ainda tivesse uma carga dos mili-robôs barqueiros, não queria desperdiçá-la.
A água batia nas pedras e nos destroços, enchendo o ar com o som oco dos cascos. Passaram ao largo de grandes galeões, do tipo que Adriana nunca vira em Villa nem nas nações vizinhas, e barcos bem comuns em sua terra. O dia escureceu uma segunda vez quando contornavam um grande cargueiro – dessa vez um eclipse causado por Fabiano – e na escuridão Adriana viu luz vinda de cima da carcaça. Quando o sol voltou, decidiu atracar ali. Zero ativou o eletro-ímã ancorador e eles colaram no casco do grande navio com um baque grave, que reverberou pelo seu interior vazio. Zero flutuou até o convés tombado enquanto Adriana se içava para lá com a ajuda de uma corda com gancho. Procuraram o lugar de onde vinha a luz. O chão rangia por onde pisava – Zero a alertava para o perigo do chão ceder – e o vento assoviava pelas frestas de buracos e portas há muito não utilizadas. Não demorou muito para encontrarem lâmpadas lunares. Pela forma e confecção, não pareciam lâmpadas de nenhuma nação que conhecesse, tampouco Zero as viu em seus arquivos, mas ficaram impressionados com sua aparência antiga e o fato de ainda funcionarem. Tomou uma consigo e a cobriu com as mãos: o bi-neônio ainda emitia luz, a mesma tecnologia que utilizava a luz lunar de Douglas, e Adriana lembrou-se de Lum. A deusa a saudou com os trovões nas praias de sal, a saudou em Namiishi e a saudava agora. Era hora de lhe prestar as honras devidas.
Recolheu uma pequena quantidade dos musgos que cresciam pelo convés enferrujado e os amontoou perto do mastro partido. Numa sala aberta, ao abrigo do vento, ergueu um pequeno altar com lascas de madeira e ferro dos escombros, cobrindo-o com o musgo recolhido. Ele fluoresceu palidamente na penumbra do recinto, dando ao altar um ar sereno, mágico, e, quando viesse a luz da noite, brilharia e honraria a deusa da eletricidade. A zeman então depositou sobre o altar uma barra de ímã e um fio de mono-cobre, as garras de Lum, e no centro dos dois, o bulbo da lâmpada. O navio tremia devagar com o constante bater das ondas. Ela se ajoelhou e orou. O altar não chegava nem aos pés do totem que Vinícius construíra, mas era o máximo que Adriana podia fazer com o pouco tempo de que dispunha. Orou e agradeceu pela bênção da luz e orou para que Lum a protegesse na viagem.
Zero a observava à distância, reverente. Orou à sua maneira, por meio de números e códigos de programação, agradecendo pela eletricidade que era o sangue que o mantinha vivo.
Terminada a breve cerimônia, retornaram ao barco. Zero desativou o eletro-ímã e continuaram sua viagem serpentina pelo cemitério de metal.
O resto do dia seguiu tranqüilo e Adriana dormiu a maior parte dele. Zero manejou as velas e os motores – quando era possível – e o fim de tarde trouxe nuvens que nublaram toda a extensão do céu. O crepúsculo foi triste e sem graça, mas trouxe uma noite de nuvens coloridas pelas duas centenas de luas. Zero sempre gostou de noites nubladas, onde as cores dançam no céu como pedaços de arco-íris, e queria muito que Adriana visse o que ele via. Não ousou acordá-la, mas gravou a imagem em seu banco de dados.
A noite passou, e o dia passou, e o próximo, e o próximo. A paisagem só mudava no céu, onde as luas iam nascendo e se pondo, se substituindo a cada crepúsculo, mudando as cores da noite. Adriana, sempre tão animada e falante, passava os dias calada. Pensava em Alex. Sentia-se como se fizessem anos desde que vira a família, desde que visitara o irmão doente, desde que vira as árvores pardas de Villa pela última vez. Algumas noites sentia medo de que nunca mais voltasse a vê-los, mas então um medo maior, que se infiltrou em sua mente aos poucos, dia após dia, assombrava os seus sonhos. E se o irmão morresse enquanto ela ainda viajava? E se tivesse, com a idéia louca de viajar até o Pólo em busca de ajuda, perdido a chance de estar ao seu lado quando a doença finalmente vencer?
Havia já três anos. Três miseráveis anos em que a doença vinha definhando o corpo de Alex, secando-o por dentro. Um vírus raro, encontrado apenas nos meteoritos, que impedia que a pele dos zemani respirasse. O resultado era uma deficiência enorme de água, que fazia os órgãos murcharem terrivelmente, enfraquecendo os músculos e as funções vitais. E a sede. Agora Alex bebia galões de água por dia, sem nunca se sentir satisfeito, pois um zeman absorve pouco líquido por ingestão. A pele era a responsável, mas o vírus impedia que funcionasse.
Não havia cura para a doença da sede, como foi chamada. Quem fosse contaminado pelo meteorito, ou pelo sangue de um doente, morreria em no máximo quatro anos.
O horizonte continuava idêntico ao dos outros doze dias, desde que deixaram o cemitério de navios. As cápsulas de proteínas estavam acabando, e o fantasma da fome assombrava os dias que viriam. As luas iam e vinham.
Na noite do décimo quinto dia de viagem, foram surpreendidos por uma forte tempestade, que por algum motivo os sensores de Zero não puderam prever. A ondas cresceram altas, de todos os lados do mar, jogando o pequeno barco de um lado para o outro. Adriana lutou contra as velas, enquanto Zero tentava controlar o motor. Os ventos tornaram-se tão fortes que arrebentaram as amarras da vela secundária, fazendo a retranca dançar de um lado para o outro. Domá-la custou uma grande pancada no rosto de Adriana. A água do mar vermelho manchava os céus, enquanto trovões ecoavam pelo oceano. Só tiveram trégua durante a noite, quando Luiz nasceu, e então os ventos arrefeceram e o mar finalmente se acalmou. Zero procurou as estrelas, e quando encontrou Marina, a estrela azul, definiu a rota em sua direção.
Deu meia-noite quando avistaram ao longe duas ilhas.
_ Finalmente! – exclamou Adriana – terra!
_ P0demo5 atrac4r e r3por comida – soou a voz metálica – p0vavelm3n7e há peixes na baía e fru7os nas 4rvores. Poderemo5 repor energ14 por algun5 d145.
_ Por um quarto de noite, apenas – disse ela – Não temos tempo, Zero.
_ Ma5 voc3 precisa de5can5ar, Dr1!
_ Alex também precisa, mas a doença não permitiu ainda. Ele já sofre há três anos, nossa viagem não é nada comparada à dele.
Zero ia rebater, mas desistiu. Adriana podia ser muito teimosa, e no que se referia à Alex, ainda mais. Zero estava presente – sempre esteve presente – quando ela fugiu das restrições dos pais e, secretamente, jurou no templo de Zem que iniciaria e completaria a viagem. Estava muito preocupado com a saúde da dona, não acostumada com provações desse tipo, mas ele mesmo tinha seus próprios juramentos a cumprir. Pensou em Ae, e orou por proteção.
_ Algum4s h0ras, ent40.
Atracaram na ilha da esquerda, como Quinan havia dito que fizera com Vinícius. Ali havia frutas e nozes, com as quais Adriana encheu os compartimentos de comida do barco, e uns poucos peixes, que ela comeu ali mesmo. Luiz descrevia sua rota ziguezagueante no céu, às vezes eclipsando uma outra lua, às vezes sendo eclipsado, parecendo que se chocaria com algum dos outros satélites. Dizem que, apesar de ser tão grande quanto Lucas ou Fabiano, sua densidade era bastante inferior, o que fazia com sua órbita sofresse influência gravitacional das demais luas, tornando-a bastante irregular. Ficaria no céu por mais dois ou três dias, e manteria as tempestades longe enquanto brilhasse.
Consertaram o barco e Adriana finalmente poliu Zero, pois já não suportava mais aquela ferrugem laranja. Removeu a casca irregular com uma pedra-lixa e lustrou a superfície do flutuang o melhor que pôde. Ainda não pôde produzir o brilho azulado de que tanto gostava, mas a aparência ficara exponencialmente melhor.
Zarparam pouco antes do fim do terceiro quarto da noite, tendo descansado apenas por cinco horas e meia. Apesar das nuvens, podia-se ver que o grande Heitor se punha, afugentado pelo nascimento de uma pequena lua azul, no outro horizonte. Saudaram Davi, sinal de boa sorte. Havia poucas luas no céu – cento e três, segundo Zero – e não eram luas muito brilhantes. Uma noite escura.
Navegaram. As horas passaram por eles como passavam as águas do mar. Em certo momento, perto da aurora, uma leve cerração elevou-se das águas, uma neblina fria que mergulhou a noite zeman numa escuridão pouco habitual. Mesmo os olhos de Zero não podiam ver mais do que vinte tésari de distância, e então navegaram com calma.
Adriana tentava ler o céu, quando um vulto se ergueu nas neblinas. Um vulto esguio, serpentino, que se elevou do mar, há muitos tésari de altura acima da vela principal. Nesse momento a aurora manchava o céu, a luz entrava na noite, e por um breve momento, o jogo de luz e sombras e o cansaço enganaram a mente de Adriana.
_ Lum...? – sussurrou, admirada.
Um rugido agudo preencheu os ares. A claridade aumentava, e Zero emitiu o sinal de perigo pouco antes de sussurrar desesperado na mente de Adriana:
_ S1der-serpent3!
Os olhos zemani se arregalaram, a adrenalina elevou-se em seu sangue. Zero correu a desligar os motores, e ela correu a dobrar as velas.
Um outro rugido.
O sol nascia, mas a neblina ainda podia escondê-los, rezava Adriana. O vulto deslocou-se no mar, e teria passado por eles, e os teria ignorado, se o vento não dissipasse o que restava da cerração. Eles viram a sider-serpente, e ela os viu.
O corpo era de um cinza escuro, ainda assim brilhante no sol da manhã, com escamas finíssimas de mono-ferro. Emergia da superfície do mar superior, vindo das profundezas do oceano vermelho mais abaixo, e se elevava na direção ao céu. Seus olhos brilhavam como estrelas, e a carne metálica refulgiu nos primeiros raios do sol, cegando Adriana por um breve momento. Zero ainda olhava para cima quando a cabeça crocodiliana avançou, a boca aberta, os dentes de metal à mostra. Puxou a dona com toda a força de seu tentapode e se jogaram no mar. O som do impacto os seguiu.
Adriana caiu desajeitada nas águas transparentes, sendo empurrada pela onda que se formou quando a sider-serpente atacou. Nadou desesperada para voltar à superfície, pensando em sua vida, em Zero, no barco e em Alex. Emergiu junto com destroços da embarcação, seguida por grandes bolhas, pedaços de corda e cápsulas de proteína. Agarrou-se à retranca, que boiava próxima, e procurou desesperada pelo simbionte robótico. Não ousou gritar, mas seus pensamentos equivaliam a um, berrando o nome de Zero em sinais psico-cibernéticos. Havia névoa, e agora apenas o som de ondas e bolhas enchia o ar.
O flutuang pairava há alguns tésari, pouco acima da superfície do mar, fazendo força para se manter longe da água. Exauria suas reservas de energia para se manter flutuando – não fora projetado para atravessar líquidos – e logo cairia.
Adriana nadou veloz até onde ele estava, e se sua mochila não tivesse emergido naquele exato momento, sua viagem teria terminado ali. Com sua cauda ela a pescou e arrancou de lá o macacão de poli-tecido, e com ele fez uma bolsa impermeável para o flutuang; meteu-o lá dentro.
A conversa a seguir se deu em seus pensamentos:
_ E agora, Zero, e agora?
_ T3mos que encontr4r o recife onde a serp3n73 vive – respondeu ele – Voc3 4inda tem a c4psul4 de mili-r0bôs barque1ros?
_ Sim, tenho sim, claro! Mas, e se ela voltar, que faremos?
_ V0cê sab3, sid3r-serpent3s se alim3n7am de rochas ferru9inosas, não de c4rn3. El4 só queria o barc0.
_ Sim, eu sei, eu sei. Esses bichos colecionam metal em seus ninhos. Mas, não há nenhuma chance dela voltar? Nenhuma? E se... – Adriana hesitou antes de completar o pensamento – e se ela voltar pra te levar?
_ Qu3 Lum, Z3m, Ur e Ae nos pr0tejam, Dr1.
Avançaram como puderam pela névoa, Adriana usando suas caudas e pernas para nadar, enquanto se mantinha firme à Zero, à mochila e à retranca de penta-alumínio. Os minutos que passaram nadando, temendo que a sider-serpente retornasse, custaram a passar, quando finalmente Zero captou o som de ondas se chocando contra pedras. A neblina baixava à medida que o sol subia, e logo puderam ver os recifes de pedra vermelha escura, não tão distantes. Para não serem arremessados contra elas, Adriana meteu a mão no bolso de seu cinto, retirou a cápsula de mili-robôs, e a arremessou sobre o recife, gritando o comando de ativação. A nuvem granuliforme logo surgiu, cavando e trabalhando as pedras de mono-ferro. Logo uma réplica do barco anterior se ergueu, embora lhe faltasse o motor e o eletro-ímã ancorador, e seus mastros não tivessem vela alguma. E então a nuvem de robôs, ao invés de retornar para a cápsula, se dispersou, tornando-se estática, morta, e finalmente afundou no mar. O barco escorregou por sobre as pedras e caiu no água, mergulhando bastante o casco. Por um segundo pareceu que ia afundar, mas então o empuxo o sustentou. Adriana largou a retranca, nadou com Zero até a embarcação e a escalou. A neblina se dispersara, eram alvos fáceis caso a sider-serpente voltasse à superfície. Ela tirou uma faca elétrica da mochila e algumas cordas, e com o macacão confeccionou velas toscas. Zero a ajudou a amarrá-las nos mastros, e quando o vento soprou, viram com alegria que suportavam sua força. Deixaram aquelas águas, e a serpente não os incomodou mais.
O novo barco navegava devagar, quase se arrastava em comparação ao anterior. O mono-ferro era muito mais denso que o penta-alumínio, e a falta do motor retardava ainda mais a urgente viagem. Ainda assim, o encontro com a sider-serpente pôde ser considerado apenas um susto. Havia várias histórias de naufrágios terríveis causados pelas criaturas amantes de metal, que tragavam navios inteiros para o fundo do mar, juntamente com seus tripulantes. Sua carne metálica as tornavam bastante resistentes aos rifles e aos arpões, um perigo dos altos mares. Navegavam devagar, mas pelo menos ainda navegavam.
Mais dias passaram, e agora viam grandes montanhas de gelo boiando nas superfícies dos mares, os chamados criori, que nasciam desde muito abaixo do mar inferior até muito acima do superior. O ar tornou-se frio, fazendo a respiração de Adriana nublar. Passou frio e passou fome, quando as cápsulas de proteínas, as poucas que mantinha na mochila, acabaram. Os dias agora eram uma sucessão de nasceres do sol, cada vez mais longos, cada vez mais frios.
Na tarde do décimo sexto dia de viagem no barco de mono-ferro, o quarto dia sem comida, Zero avistou terra. Uma terra de florestas altas, campos largos e praias pardas, uma terra que se estendia no horizonte, muito mais larga que qualquer ilha. Quando atracaram, ambos souberam.
________________________
Imagem alterada do autor no-nox, no Deviantart
Lucas estava à meio caminho de se pôr, quando Fabiano nasceu. A lua vermelho-metálica subiu devagar, manchando o mar de rubro, e Adriana sabia que muito atrás, nas árvores de Villa, os pássaros cantariam a hora mágica de seu nascimento. As fases de Fabiano possuem bastante influência sobre o comportamento animal em Zemi, e alguns diriam que até sobre os zemani.
O terceiro quarto da noite chegava ao fim.
Adriana estava muito cansada. Passara as últimas quinze horas navegando, desde às margens de sal até agora. Zero computou o cansaço cada vez mais evidente da zeman, e mandou ordens para que seu corpo sintetizasse energia extra. O efeito seria um cansaço extremo no final, mas pelo menos descansariam em terra, não no mar.
O motor de luz lunar continuava menos útil que as velas, mas o vento estava favorável. Quinan, que ia à frente guiando o barco, dava ordens de manobra muito inesperadas e repentinas, o que desgastava ainda mais Adriana. Ficaram nessa exasperante viagem pelas últimas horas, e viam passar ilhas e mais ilhas, preciosos abrigos desperdiçados.
_ Apen4s ma1s uma h0ra, Dr1 – sibilou Zero.
_ Eu sei, eu sei!
Mas Quinan ainda dava suas ordens de manobra, gritava por sobre o barulho das ondas enquanto nadava, e nem sinal da ilha de pedra.
Lucas estava preste a se pôr quando o flutuang a avistou, e transmitiu o que vira para zeman: uma grande elevação rochosa, de muitos recifes nas margens próximas, que se erguia do mar como uma coluna de pedra. As ondas batiam raivosas contra as rochas, elevando nuvens de gotículas de água salgada, e raras vezes, mesmo o oceano inferior era borrifado no ar, tingindo a vista com neblina rubra. Adriana temeu que não fosse possível atracar, mas as ordens de Quinan eram tão precisas, ainda que repentinas e aparentemente loucas, que ela confiou em sua sabedoria. Não tinha outra alternativa, de qualquer jeito.
Quinan os guiou por um labirinto de recifes escarpados, ziguezagueando perigosamente entre rochas e corais, até que por fim atingiram uma baía de águas tranqüilas. E já não era sem tempo; Lucas se pôs. Adriana usou finalmente o motor para aproximar o barco da margem, saltou nas águas rasas e puxou a embarcação com desespero para a praia, sendo ajudado por Zero e observado por Quinan. Quando o barco tocou a terra firme, o mukai saiu da água e então Rafael nasceu.
Foi questão de segundos.
A maré aumentou tésari de altura, e os ventos sopraram mais forte. Ao longe, as explosões de água salgada contra as pedras aumentaram de freqüência e altura, e agora era muito comum ver a neblina de água vermelha, como sangue tirado do mar. Logo o vento tornou-se uma tempestade, as ondas eram visíveis mesmo da baía, e o som do mar encheu o ambiente. Começou a chover.
Adriana atirou uma cápsula de mili-robôs sobre a rocha, gritando 'Ativar' sobre o barulho do céu e do mar. A nuvem cinzenta trabalhou com dificuldade sob a chuva que aumentava, mas por fim terminaram um abrigo tosco moldado na pedra, onde Adriana e Zero se acomodaram. Havia espaço para Quinan, mas o mukai preferiu ficar na chuva.
Uma tempestade violenta acompanhou o nascimento demorado de Rafael. A lua nebulosa da cor do vinho foi saudada pelos relâmpagos, pelas ondas e pelo vento.
Rafael foi o nome de um grande navegador catelão do milênio passado, que descobriu várias ilhas e foi quem encontrou a ilha-continente de Elôh. Por causa da traição de seu melhor amigo, perdeu seu posto na marinha catelã e se tornou um pirata, e finalmente senhor de seu próprio destino. Sua fama no conhecimento dos mares foi tão grande que mesmo depois de sua morte diziam que ele governava as marés e seus segredos, e a lua da tempestade foi batizada com seu nome.
Nuvens negras cobriram as luas, e lançavam raios e gritavam trovões na atmosfera zeman. Relâmpagos por sobre a floresta da ilha. Apesar do barulho, Adriana dormia um sono sem sonhos, com frio, sob o macacão de poli-tecido ao lado de Zero, o resultado da viagem cansativa e da síntese extra de energia. Quinan dançava na areia e na chuva.
A tempestade durou algumas horas da noite.
Agora Rafael subia os céus, e à medida que se aproximava do zênite a maré diminuía. O céu ainda não estava limpo, mas as nuvens já se dispersavam, e a chuva agora era apenas gotas grossas e esparsas. Zero mediu a disposição de Adriana, e embora não quisesse, a acordou.
_ Dr1, temos qu3 ir.
Ela resmungou de volta, ainda em sono; Zero insistiu, e ela despertou.
O flutuang sabia o quanto a viagem estava sendo desgastante para ela, e mesmo para ele, mas Adriana o havia feito jurar por Ae que colocaria o sucesso da viagem acima de suas preocupações pela dona. E quando um autômato jura por Ae, ele se compromete de verdade.
_ Onde está Quinan? – foi a primeira coisa que ela disse.
Realmente, o mukai havia desaparecido. A zeman e o flutuang gritaram seu nome, e o procuraram na praia, mas não havia nem sinal dele, nem no mar nem na terra.
Ela sentou, desamparada. O mukai se dispusera ele mesmo a mostrar o caminho, dissera que tinham que chegar primeiro em Namiishi, e de lá lhe ensinaria a prosseguir.
Estava sozinha agora.
Lembrou-se de Alex, da urgência de sua viagem, e teria chorado, a primeira vez que choraria desde que iniciou sua vida adulta, quando ouviu a voz metálica de Zero.
_ Adr1an4, v3nha aqui!
O flutuang apontava seu tentapode para o barco. Ele havia sido puxado mais para cima, e a marca da maré mostrava que, se isso não tivesse sido feito, o mar o teria tragado.
Ela correu para o veículo e checou se tudo estava em ordem. As velas, o leme, o motor; tudo intacto e, em cima do convés tombado, folhas ainda verdes forravam o chão para três peixes frescos.
Saciada a fome e tendo descansado – ainda que por poucas horas –, Adriana sentia-se revigorada. As ondas ainda eram poderosas, mas agora que a tempestade se fora, ela pôde perceber, não eram apenas relâmpagos que iluminavam o céu sobre a floresta da ilha. Mesmo agora havia uma pequena luminescência que vinha de cima das copas, em algum ponto dentro da floresta. Como ainda tinham algumas horas até que o mar se tornasse navegável novamente, decidiu averiguar.
A floresta de Namiishi era antiga, tão antiga quanto densa. Adriana usava seu facão elétrico para abrir caminho por entre os galhos e cipós ancestrais. Havia arbustos e plantas pequenas, mas a grande maioria eram árvores de copas altas e frondosas, umas retas como torres, outras ramificadas como o raio. Seguiam em linha reta, e não precisaram andar muito para encontrar a clareira de pedra.
Quinan estava lá.
E havia luz, luz elétrica. No centro da clareira, rodeada por poças de água da chuva que passou, erguia-se uma escultura de pedra, um totem zeman. Na base começava esculpida a ponta da calda de uma cobra, que se enrolava sobre si mesma, subindo. As escamas, que uma vez deveriam ter sido pontudas e afiadas como as garras de um raio, estavam desgastadas pelo vento e pela chuva. Na metade do totem, duas garras nasciam do corpo serpentino, uma de metal e outra de pedra, de unhas que um dia também deveriam ter sido polidas. Seguravam uma esfera de luz azul. A serpente continuava, até o topo do totem, à seis tésari de altura – uma vez e meia a altura de um zeman –, onde estava esculpido o rosto dracônico de Lum, a mãe da eletricidade e da luz. Um de seus olhos brilhava como a esfera de suas garras, e a escultura inteira emitia luminescência, embora mais fraca.
O totem parecia ter séculos de idade, e também parecia ter sido moldado com ferramentas primitivas. A mão de ferro de Lum fora feita com o pedaço do casco de um navio antigo, agora cheio de ferrugem, e a luz da escultura era gerada por musgos e algas lunares. Com exceção da esfera e dos olhos: essa era a luz de lâmpadas zemani.
_ O moji do manto púrpura já construíra esse totem quando Quinan o encontrou – disse o mukai – E Quinan teve medo dos olhos e da esfera de luz. Agora só um dos olhos funciona,... faz muito tempo que Quinan não vem para Namiishi.
Adriana se aproximou e se sentou perto do mukai, contemplando o totem. Era um autêntico totem para Lum, construído primitivamente por mãos zemani, sabe-se lá há quanto tempo.
Havia também, reparou Adriana, ao lado de Lum, uma escultura em ruínas, que poderia ter sido Zem algum dia.
_ No começo havia poucas algas para cobrir a escultura do moji, que ele mesmo raspara das pedras da baía, mas Quinan trouxe-lhe mais, e ambos cobriram a deusa do moji de luz. O amigo de metal do moji pedira um totem para o deus de metal, mas tudo o que restara do navio deles foram poucos pedaços de ferro, disse o moji. E o deus de metal só aceita metal. Quinan ouviu a história dos deuses do moji, e Quinan contou a história de seus próprios deuses, e quando você troca histórias sagradas com um mukai, você se torna seu amigo.
O mukai falava como se reverenciasse o totem tanto quanto Adriana, mas o que ele realmente reverenciava não era a deusa da eletricidade, mas o passado de memórias perdidas.
_ Há quanto tempo tudo isso aconteceu, Quinan? – perguntou Adriana.
_ Quando Quinan era jovem – disse – há muito tempo, quanto ainda não chamavam Quinan de louco.
Repentinamente o mukai deu um pulo, estando suas seis garras no chão de pedra molhada.
_ O presente de Quinan! O presente! – e correu para a base do totem. Escalou-a como uma árvore de água, até o topo.
Falava consigo enquanto andava. Perguntava-se se ainda estava lá, e se repreendia por tê-lo esquecido, e se desculpava com seu amigo, e se desculpava com a deusa. Alcançou a boca aberta de Lum, e enfiou uma de suas garras entre seus dentes. Tirou de lá um anel.
_ Está aqui! Ainda está aqui!
Desceu e começou a dançar, balançando suas garras no ar, esquecido de Adriana e Zero, do totem, de tudo.
_ Quinan, o que é isso? – perguntou Adriana.
O mukai ergueu o anel para a luz das luas, admirando-o, e só então se deu conta da zeman. Mostrou-o. Era um anel de metal com um símbolo gravado.
_ Esse é o presente que o amigo moji deu para Quinan, séculos atrás. Quinan disse que o buscaria na volta da terra do meio, mas se perdeu do amigo, e se esqueceu do presente. Faz muito tempo que Quinan não vem para Namiishi.
_ Posso vê-lo mais de perto? – pediu ela.
Zero se aproximou para ver também. Era um anel incrivelmente bem trabalhado, de mono-ouro – Zero informou – com desenhos em linha de cor púrpura e um sinete de metal: um heptagrama com uma esfera no meio. A zeman exclamou de surpresa, e Zero exclamaria se pudesse.
Havia uma lenda de que Vinícius, o rei-imperador que um dia unificou as duzentas nações, havia visitado o Pólo, antes de sua glória. Sua saúde era abençoada, seus ferimentos se curavam com facilidade, e ele conquistou praticamente todas as batalhas nas quais lutou. Diziam que era imortal, outros que seu sangue podia curar ferimentos. Vinícius ergueu o maior império da história zeman, que durou por várias e várias décadas, só terminando com as Guerras Nacionais, no governo do então Rei-imperador Luiz. Foi o império de Vinícius que implantou a língua geral, que unificou a astronomia e a história das luas, e que avançou a tecnologia em grande parte de Zemi. A cor púrpura era seu emblema, púrpura como a lua que foi batizada com seu nome, e seu símbolo era o heptagrama.
Adriana tomou o anel em suas mãos, era realmente o símbolo de Vinícius. O imperador de quase meio milênio atrás realmente estivera no Pólo, então, e fora Quinan quem o ajudara. Adriana olhou espantada para o mukai. Zero lhe informara que sua espécie vivia apenas três décadas, mas se Quinan realmente se encontrou com Vinícius, ele deveria ter mais de quatrocentos anos. Um tempo longo mesmo para um zeman, que vivia no máximo até os cento e dez.
_ Como se chamava o seu amigo moji, Quinan? – perguntou ela.
_ Vestia um manto roxo e falava sobre a terra de sua nação. Histórias bonitas. E falava com tristeza de sua tripulação, perdida para as ondas do mar daqui. Estava sozinho, o moji.
_ Quinan, como ele se chamava? Era Vinícius, ele se chamava Vinícius?
O mukai parou, olhando para ela, momentaneamente sem ação. Então, pulou tão alto que podia aterrissar sobre a zeman.
_ Vinícius! É o nome do moji, do amigo de Quinan! Vinícius! Vinícius!
E começou a dançar, andando em círculos e balançando suas garras no ar, cantando o nome do antigo rei-imperador.
_ M4s, iss0 não f4z sent1do! – sibilou Zero – um muk41 vive em m3d1a tr1nta an0s, e o cas0 mai5 longevo foi de c1nquent4 e um! Não pod3 ter s1do Quinan, é contra as pr0babil1dades!
_ Quinan, então, quantos anos você tem? Como você sobreviveu por tanto tempo? Você encontrou mesmo Vinícius, o Rei-imperador? – perguntou Adriana. Quinan ignorou-os, contente demais em lembrar o nome de seu amigo do passado. Continuou dançando à luz do totem de Lum, que iluminava seus órgãos azuis e suas artérias vermelhas.
O sol nasceu no horizonte do mar, tingindo tudo de índigo. O céu mudou do violeta noturno para o vermelho claro do dia, e as estrelas foram, uma a uma, desaparecendo. Rúbia, a estrela que traz a manhã, fulgiu escarlate com a chegada da aurora, despedindo-se do último quarto da noite. As luas em breve perderam a cor, o brilho, e tornando-se pálidas sombras do que realmente são. O céu estava limpo de nuvens.
Seguir na direção norte, durante toda a manhã. Graças a Zem, podiam usar os motores.
Despediram-se de Quinan ainda de noite, deixando Namiishi, Lum e o mistério da idade do mukai para trás. Ele ignorara qualquer pergunta referente à sua idade – sempre que a faziam ele se lembrava de Vinícius, e cantava e dançava com o anel presente – mas se mostrou bastante lúcido quando lhes explicou a rota para o Pólo, já que não os acompanharia. Estava velho, contou. E também contou muitas histórias, enquanto esperavam a maré se tornar favorável, histórias sobre uma lua que caiu do céu, sobre um eclipse que iluminou a noite, sobre uma tempestade que inverteu os oceanos, e sobre muitas coisas que disse ter visto e ouvido. Contou histórias de nações que eles não conheciam e a história de seus governantes; governantes como Enio, o rei que construíra para si não um, mas três flutuanghi, e Daniel, que usara todo o seu tesouro para construir a maior biblioteca do planeta. Algumas podiam realmente ter acontecido, outras eram com certeza delírios, mas todas foram agradáveis de se ouvir, e o tempo passou rápido.
Zero gravou as instruções da rota, e agora comandava o barco. Adriana dormia profundamente, exausta.
O sol subia o céu vermelho enquanto Zero atravessava os mares. Agora em todas as direções o horizonte encontrava o oceano, sem sinal de ilhas ou qualquer referencial que indicasse que se moviam. Tudo era mar, um imenso e gigantesco mar transparente por cima e vermelho por baixo. O barco cruzava o oceano, mas para o flutuang parecia que era o oceano que passava por eles. Ele observou, horas e horas, a mesma paisagem, mediu a mesma umidade do ar, fez e refez a previsão do tempo, e sintetizou proteínas para a zeman. A manhã terminava quando o dia escureceu e se tornou novamente violeta, quando o sol foi eclipsado por Douglas, mas isso não durou dois minutos. Eclipses solares são comuns em Zemi. E Zero passou o início da tarde guiando o barco, sem maiores preocupações do que vigiar Adriana e o caminho.
Duas horas depois do eclipse ele tomou a direção leste.
Dessa vez seus olhos agudos divisaram algo no horizonte, manchas escuras. Quinan falara sobre elas. Quando se aproximavam, Zero diminuiu o motor e arriou as velas. Pela segunda vez contra a sua vontade, acordou Adriana.
A zeman piscou três vezes os olhos cansados e espreguiçou seu corpo esverdeado. Esticou suas duas caudas e se levantou, se sentindo mais cansada do que se não tivesse dormido.
Chegaram ao Cemitério de Navios. Um aglomerado de recifes que se escondia na superfície escarlate do oceano inferior, coroados com as carcaças de dezenas de navios de metal. Alguns cascos tinham muitos tésari de altura, outros eram apenas restos menores e desgastados, como um recife de metal enferrujado, afiado, fosco.
Adriana respirou fundo. Se haviam tantas carcaças, tinha que haver um civilização próxima. Diziam que o Pólo era uma nação maravilhosa, mas muitos também diziam que era uma terra de ninguém, cuja única maravilha era não ter sido habitada por zeman algum. Mas aquele lugar, os cascos enferrujados de centenas de navios, provava que realmente houveram zemani naquelas águas.
Habitantes ou aventureiros? Preferiu não pensar a respeito.
Embrenharam-se nos recifes de metal com cuidado. Os destroços pontiagudos podiam facilmente perfurar o casco de seu barco, e, embora ela ainda tivesse uma carga dos mili-robôs barqueiros, não queria desperdiçá-la.
A água batia nas pedras e nos destroços, enchendo o ar com o som oco dos cascos. Passaram ao largo de grandes galeões, do tipo que Adriana nunca vira em Villa nem nas nações vizinhas, e barcos bem comuns em sua terra. O dia escureceu uma segunda vez quando contornavam um grande cargueiro – dessa vez um eclipse causado por Fabiano – e na escuridão Adriana viu luz vinda de cima da carcaça. Quando o sol voltou, decidiu atracar ali. Zero ativou o eletro-ímã ancorador e eles colaram no casco do grande navio com um baque grave, que reverberou pelo seu interior vazio. Zero flutuou até o convés tombado enquanto Adriana se içava para lá com a ajuda de uma corda com gancho. Procuraram o lugar de onde vinha a luz. O chão rangia por onde pisava – Zero a alertava para o perigo do chão ceder – e o vento assoviava pelas frestas de buracos e portas há muito não utilizadas. Não demorou muito para encontrarem lâmpadas lunares. Pela forma e confecção, não pareciam lâmpadas de nenhuma nação que conhecesse, tampouco Zero as viu em seus arquivos, mas ficaram impressionados com sua aparência antiga e o fato de ainda funcionarem. Tomou uma consigo e a cobriu com as mãos: o bi-neônio ainda emitia luz, a mesma tecnologia que utilizava a luz lunar de Douglas, e Adriana lembrou-se de Lum. A deusa a saudou com os trovões nas praias de sal, a saudou em Namiishi e a saudava agora. Era hora de lhe prestar as honras devidas.
Recolheu uma pequena quantidade dos musgos que cresciam pelo convés enferrujado e os amontoou perto do mastro partido. Numa sala aberta, ao abrigo do vento, ergueu um pequeno altar com lascas de madeira e ferro dos escombros, cobrindo-o com o musgo recolhido. Ele fluoresceu palidamente na penumbra do recinto, dando ao altar um ar sereno, mágico, e, quando viesse a luz da noite, brilharia e honraria a deusa da eletricidade. A zeman então depositou sobre o altar uma barra de ímã e um fio de mono-cobre, as garras de Lum, e no centro dos dois, o bulbo da lâmpada. O navio tremia devagar com o constante bater das ondas. Ela se ajoelhou e orou. O altar não chegava nem aos pés do totem que Vinícius construíra, mas era o máximo que Adriana podia fazer com o pouco tempo de que dispunha. Orou e agradeceu pela bênção da luz e orou para que Lum a protegesse na viagem.
Zero a observava à distância, reverente. Orou à sua maneira, por meio de números e códigos de programação, agradecendo pela eletricidade que era o sangue que o mantinha vivo.
Terminada a breve cerimônia, retornaram ao barco. Zero desativou o eletro-ímã e continuaram sua viagem serpentina pelo cemitério de metal.
O resto do dia seguiu tranqüilo e Adriana dormiu a maior parte dele. Zero manejou as velas e os motores – quando era possível – e o fim de tarde trouxe nuvens que nublaram toda a extensão do céu. O crepúsculo foi triste e sem graça, mas trouxe uma noite de nuvens coloridas pelas duas centenas de luas. Zero sempre gostou de noites nubladas, onde as cores dançam no céu como pedaços de arco-íris, e queria muito que Adriana visse o que ele via. Não ousou acordá-la, mas gravou a imagem em seu banco de dados.
A noite passou, e o dia passou, e o próximo, e o próximo. A paisagem só mudava no céu, onde as luas iam nascendo e se pondo, se substituindo a cada crepúsculo, mudando as cores da noite. Adriana, sempre tão animada e falante, passava os dias calada. Pensava em Alex. Sentia-se como se fizessem anos desde que vira a família, desde que visitara o irmão doente, desde que vira as árvores pardas de Villa pela última vez. Algumas noites sentia medo de que nunca mais voltasse a vê-los, mas então um medo maior, que se infiltrou em sua mente aos poucos, dia após dia, assombrava os seus sonhos. E se o irmão morresse enquanto ela ainda viajava? E se tivesse, com a idéia louca de viajar até o Pólo em busca de ajuda, perdido a chance de estar ao seu lado quando a doença finalmente vencer?
Havia já três anos. Três miseráveis anos em que a doença vinha definhando o corpo de Alex, secando-o por dentro. Um vírus raro, encontrado apenas nos meteoritos, que impedia que a pele dos zemani respirasse. O resultado era uma deficiência enorme de água, que fazia os órgãos murcharem terrivelmente, enfraquecendo os músculos e as funções vitais. E a sede. Agora Alex bebia galões de água por dia, sem nunca se sentir satisfeito, pois um zeman absorve pouco líquido por ingestão. A pele era a responsável, mas o vírus impedia que funcionasse.
Não havia cura para a doença da sede, como foi chamada. Quem fosse contaminado pelo meteorito, ou pelo sangue de um doente, morreria em no máximo quatro anos.
O horizonte continuava idêntico ao dos outros doze dias, desde que deixaram o cemitério de navios. As cápsulas de proteínas estavam acabando, e o fantasma da fome assombrava os dias que viriam. As luas iam e vinham.
Na noite do décimo quinto dia de viagem, foram surpreendidos por uma forte tempestade, que por algum motivo os sensores de Zero não puderam prever. A ondas cresceram altas, de todos os lados do mar, jogando o pequeno barco de um lado para o outro. Adriana lutou contra as velas, enquanto Zero tentava controlar o motor. Os ventos tornaram-se tão fortes que arrebentaram as amarras da vela secundária, fazendo a retranca dançar de um lado para o outro. Domá-la custou uma grande pancada no rosto de Adriana. A água do mar vermelho manchava os céus, enquanto trovões ecoavam pelo oceano. Só tiveram trégua durante a noite, quando Luiz nasceu, e então os ventos arrefeceram e o mar finalmente se acalmou. Zero procurou as estrelas, e quando encontrou Marina, a estrela azul, definiu a rota em sua direção.
Deu meia-noite quando avistaram ao longe duas ilhas.
_ Finalmente! – exclamou Adriana – terra!
_ P0demo5 atrac4r e r3por comida – soou a voz metálica – p0vavelm3n7e há peixes na baía e fru7os nas 4rvores. Poderemo5 repor energ14 por algun5 d145.
_ Por um quarto de noite, apenas – disse ela – Não temos tempo, Zero.
_ Ma5 voc3 precisa de5can5ar, Dr1!
_ Alex também precisa, mas a doença não permitiu ainda. Ele já sofre há três anos, nossa viagem não é nada comparada à dele.
Zero ia rebater, mas desistiu. Adriana podia ser muito teimosa, e no que se referia à Alex, ainda mais. Zero estava presente – sempre esteve presente – quando ela fugiu das restrições dos pais e, secretamente, jurou no templo de Zem que iniciaria e completaria a viagem. Estava muito preocupado com a saúde da dona, não acostumada com provações desse tipo, mas ele mesmo tinha seus próprios juramentos a cumprir. Pensou em Ae, e orou por proteção.
_ Algum4s h0ras, ent40.
Atracaram na ilha da esquerda, como Quinan havia dito que fizera com Vinícius. Ali havia frutas e nozes, com as quais Adriana encheu os compartimentos de comida do barco, e uns poucos peixes, que ela comeu ali mesmo. Luiz descrevia sua rota ziguezagueante no céu, às vezes eclipsando uma outra lua, às vezes sendo eclipsado, parecendo que se chocaria com algum dos outros satélites. Dizem que, apesar de ser tão grande quanto Lucas ou Fabiano, sua densidade era bastante inferior, o que fazia com sua órbita sofresse influência gravitacional das demais luas, tornando-a bastante irregular. Ficaria no céu por mais dois ou três dias, e manteria as tempestades longe enquanto brilhasse.
Consertaram o barco e Adriana finalmente poliu Zero, pois já não suportava mais aquela ferrugem laranja. Removeu a casca irregular com uma pedra-lixa e lustrou a superfície do flutuang o melhor que pôde. Ainda não pôde produzir o brilho azulado de que tanto gostava, mas a aparência ficara exponencialmente melhor.
Zarparam pouco antes do fim do terceiro quarto da noite, tendo descansado apenas por cinco horas e meia. Apesar das nuvens, podia-se ver que o grande Heitor se punha, afugentado pelo nascimento de uma pequena lua azul, no outro horizonte. Saudaram Davi, sinal de boa sorte. Havia poucas luas no céu – cento e três, segundo Zero – e não eram luas muito brilhantes. Uma noite escura.
Navegaram. As horas passaram por eles como passavam as águas do mar. Em certo momento, perto da aurora, uma leve cerração elevou-se das águas, uma neblina fria que mergulhou a noite zeman numa escuridão pouco habitual. Mesmo os olhos de Zero não podiam ver mais do que vinte tésari de distância, e então navegaram com calma.
Adriana tentava ler o céu, quando um vulto se ergueu nas neblinas. Um vulto esguio, serpentino, que se elevou do mar, há muitos tésari de altura acima da vela principal. Nesse momento a aurora manchava o céu, a luz entrava na noite, e por um breve momento, o jogo de luz e sombras e o cansaço enganaram a mente de Adriana.
_ Lum...? – sussurrou, admirada.
Um rugido agudo preencheu os ares. A claridade aumentava, e Zero emitiu o sinal de perigo pouco antes de sussurrar desesperado na mente de Adriana:
_ S1der-serpent3!
Os olhos zemani se arregalaram, a adrenalina elevou-se em seu sangue. Zero correu a desligar os motores, e ela correu a dobrar as velas.
Um outro rugido.
O sol nascia, mas a neblina ainda podia escondê-los, rezava Adriana. O vulto deslocou-se no mar, e teria passado por eles, e os teria ignorado, se o vento não dissipasse o que restava da cerração. Eles viram a sider-serpente, e ela os viu.
O corpo era de um cinza escuro, ainda assim brilhante no sol da manhã, com escamas finíssimas de mono-ferro. Emergia da superfície do mar superior, vindo das profundezas do oceano vermelho mais abaixo, e se elevava na direção ao céu. Seus olhos brilhavam como estrelas, e a carne metálica refulgiu nos primeiros raios do sol, cegando Adriana por um breve momento. Zero ainda olhava para cima quando a cabeça crocodiliana avançou, a boca aberta, os dentes de metal à mostra. Puxou a dona com toda a força de seu tentapode e se jogaram no mar. O som do impacto os seguiu.
Adriana caiu desajeitada nas águas transparentes, sendo empurrada pela onda que se formou quando a sider-serpente atacou. Nadou desesperada para voltar à superfície, pensando em sua vida, em Zero, no barco e em Alex. Emergiu junto com destroços da embarcação, seguida por grandes bolhas, pedaços de corda e cápsulas de proteína. Agarrou-se à retranca, que boiava próxima, e procurou desesperada pelo simbionte robótico. Não ousou gritar, mas seus pensamentos equivaliam a um, berrando o nome de Zero em sinais psico-cibernéticos. Havia névoa, e agora apenas o som de ondas e bolhas enchia o ar.
O flutuang pairava há alguns tésari, pouco acima da superfície do mar, fazendo força para se manter longe da água. Exauria suas reservas de energia para se manter flutuando – não fora projetado para atravessar líquidos – e logo cairia.
Adriana nadou veloz até onde ele estava, e se sua mochila não tivesse emergido naquele exato momento, sua viagem teria terminado ali. Com sua cauda ela a pescou e arrancou de lá o macacão de poli-tecido, e com ele fez uma bolsa impermeável para o flutuang; meteu-o lá dentro.
A conversa a seguir se deu em seus pensamentos:
_ E agora, Zero, e agora?
_ T3mos que encontr4r o recife onde a serp3n73 vive – respondeu ele – Voc3 4inda tem a c4psul4 de mili-r0bôs barque1ros?
_ Sim, tenho sim, claro! Mas, e se ela voltar, que faremos?
_ V0cê sab3, sid3r-serpent3s se alim3n7am de rochas ferru9inosas, não de c4rn3. El4 só queria o barc0.
_ Sim, eu sei, eu sei. Esses bichos colecionam metal em seus ninhos. Mas, não há nenhuma chance dela voltar? Nenhuma? E se... – Adriana hesitou antes de completar o pensamento – e se ela voltar pra te levar?
_ Qu3 Lum, Z3m, Ur e Ae nos pr0tejam, Dr1.
Avançaram como puderam pela névoa, Adriana usando suas caudas e pernas para nadar, enquanto se mantinha firme à Zero, à mochila e à retranca de penta-alumínio. Os minutos que passaram nadando, temendo que a sider-serpente retornasse, custaram a passar, quando finalmente Zero captou o som de ondas se chocando contra pedras. A neblina baixava à medida que o sol subia, e logo puderam ver os recifes de pedra vermelha escura, não tão distantes. Para não serem arremessados contra elas, Adriana meteu a mão no bolso de seu cinto, retirou a cápsula de mili-robôs, e a arremessou sobre o recife, gritando o comando de ativação. A nuvem granuliforme logo surgiu, cavando e trabalhando as pedras de mono-ferro. Logo uma réplica do barco anterior se ergueu, embora lhe faltasse o motor e o eletro-ímã ancorador, e seus mastros não tivessem vela alguma. E então a nuvem de robôs, ao invés de retornar para a cápsula, se dispersou, tornando-se estática, morta, e finalmente afundou no mar. O barco escorregou por sobre as pedras e caiu no água, mergulhando bastante o casco. Por um segundo pareceu que ia afundar, mas então o empuxo o sustentou. Adriana largou a retranca, nadou com Zero até a embarcação e a escalou. A neblina se dispersara, eram alvos fáceis caso a sider-serpente voltasse à superfície. Ela tirou uma faca elétrica da mochila e algumas cordas, e com o macacão confeccionou velas toscas. Zero a ajudou a amarrá-las nos mastros, e quando o vento soprou, viram com alegria que suportavam sua força. Deixaram aquelas águas, e a serpente não os incomodou mais.
O novo barco navegava devagar, quase se arrastava em comparação ao anterior. O mono-ferro era muito mais denso que o penta-alumínio, e a falta do motor retardava ainda mais a urgente viagem. Ainda assim, o encontro com a sider-serpente pôde ser considerado apenas um susto. Havia várias histórias de naufrágios terríveis causados pelas criaturas amantes de metal, que tragavam navios inteiros para o fundo do mar, juntamente com seus tripulantes. Sua carne metálica as tornavam bastante resistentes aos rifles e aos arpões, um perigo dos altos mares. Navegavam devagar, mas pelo menos ainda navegavam.
Mais dias passaram, e agora viam grandes montanhas de gelo boiando nas superfícies dos mares, os chamados criori, que nasciam desde muito abaixo do mar inferior até muito acima do superior. O ar tornou-se frio, fazendo a respiração de Adriana nublar. Passou frio e passou fome, quando as cápsulas de proteínas, as poucas que mantinha na mochila, acabaram. Os dias agora eram uma sucessão de nasceres do sol, cada vez mais longos, cada vez mais frios.
Na tarde do décimo sexto dia de viagem no barco de mono-ferro, o quarto dia sem comida, Zero avistou terra. Uma terra de florestas altas, campos largos e praias pardas, uma terra que se estendia no horizonte, muito mais larga que qualquer ilha. Quando atracaram, ambos souberam.
________________________
Imagem alterada do autor no-nox, no Deviantart


0 comentários:
Postar um comentário