A segunda parte do conto presente para Strix, onde deveriam aparecer os nomes dos membros da comunidade Escritores de Fantasia e FC. Espero que gostem o/
_________________________________________________________________2. A floresta de água
O planeta Zemi possui a extraordinária quantia de mil luas, de tamanhos, cores e órbitas variadas, todas batizadas com o nome de um proeminente personagem da história zeman.
Douglas, a lua dourada, foi um grande cientista do século passado, inventor da tecnologia da luz lunar. Seus estudos permitiram a evolução dos flutuanghi, quando se gastava muito com suas baterias pouco eficientes, e elevou o padrão de vida zeman. O motor de Adriana usava a mesma tecnologia, absorvendo energia da luz da lua dourada.
Vinícius, a pequena lua púrpura, foi o rei-imperador que uma vez unificou as duzentas nações, e desenvolveu a arte, a ciência, a filosofia e a astronomia.
Felipe, a meia-lua cinzenta, foi o patriarca da nação Villa, quase mil anos atrás. E havia muitas e muitas outras. O céu da noite zeman nunca possuía menos de uma centena de luas, e havia dias, embora raros, em que metade do seu total ocupava o céu. As luas tinham um papel muito importante no planeta, afetando o clima, as marés e – no raro caso de Heitor – mesmo a tectonia zeman.
Lucas, a lua verde, finalmente atingiu o zênite, trazendo vento fresco. Uma onda passou gentilmente pelo fundo da embarcação, espirrando um pouco da água transparente do oceano superior de Zemi.
Adriana fixou o olhar em Rita e Maria. Dirigiam-se para nordeste, para onde Zero avistara a ilha, e de lá descobririam a melhor rota para o próximo passo. Não era a melhor maneira de se navegar, mas era a mais segura. Checou com Zero a previsão do tempo para as próximas horas, e a única ressalva era encontrarem terra firme antes do último quarto da noite, quando a fase crescente de Rafael nasceria. E então, Adriana não queria estar nem perto do mar.
O oceano inferior ondulava devagar, com suas águas rubras, quase dez tésari abaixo do primeiro. A diferença de densidade impedia que ambos os oceanos se misturassem, havendo um mar superior, límpido e transparente, e um mar inferior, de águas vermelhas, onde a verdadeira vida marinha se encontrava. Às vezes o dorso de um cetáceo podia ser visto na superfície escarlate, mais abaixo, ou pelo menos Adriana rezava para que fosse um cetáceo. A voz metálica de zero – monstr0s terr1v3is – ainda ecoava em sua mente.
Foi quando o barco deu uma guinada para a direita.
Adriana correu para o leme do motor e puxou, mas o barco não obedeceu. Foram pegos por uma corrente marinha.
_ Zero!
O flutuang captou sua linha de pensamento, enrolou rapidamente seu tentapode no cabo do leme e ajudou a puxar, mas a corrente era muito poderosa. Adriana viu, nervosa, quando a ilha passou por eles, como o casco de uma tartaruga gigante, fugindo, ficando para trás. E quase foi arremessada para o mar quando a corrente mudou de direção, e então Zero levantou o leme da água.
_ É inút1l, v4mos quebr4-l0 se con7inuarmo5 – disse.
O barco parou de balançar quando ele fez isso, e Adriana sentou-se, exausta.
_ Mas, e a ilha Zero? Para onde vamos agora?
Eram arrastados para o norte. O flutuang elevou-se no ar um tésar de altura e observou em volta. Em todo o horizonte atrás havia a linha branca do Recife; à esquerda deles e longe, a ilha; e na direção que tomavam, nada visível. Enviou o que via para a mente de Adriana.
_ Nad4 num r410 de dez kil0-tés4ri – disse ele – Poder3mos util1z4r os vento5.
_ Você acha que ele nos tiraria da corrente?
_ P0uco pr0vável – computou – Mas no55a al7ernat1va é esper4r...
_ Entendi.
Desdobraram as velas vermelhas – a cor de Villa – e uma lufada de ar inclinou o barco levemente. Agora se dirigiam um pouco mais para noroeste, mais precisamente a 35,1º à esquerda do Pólo – informou Zero. Adriana manobrava as velas, tentando não se manter muito longe da direção correta, enquanto o flutuang checava, a cada cinco minutos, a existência de ilhas. Encontrou algumas, mas foram incapazes de sair da corrente, e as viram ficar para trás. Já passava da metade do segundo quarto da noite, quando Zero transmitiu uma imagem curiosa.
Algo elevava-se acima da superfície do oceano superior, algo que cintilava na luz das luas. Uma análise mais minuciosa revelou serem vários corpos translúcidos, robustos como o tronco de uma árvore, com galhos que dançavam no ar em ritmos próprios. Eram membros tentaculóides, que ondulavam desde a base até a extremidade, variando de cores do azul ao violeta, nunca estáticos. Anêmonas. Zero transmitiu a informação para a mente de Adriana tão logo chegou a tal conclusão. O que viam era um pequeno bosque de anêmonas, árvores de água da superfície do mar. Fixavam seus troncos sobre colchões de bulbos de ar, que as mantinham flutuando enquanto suas raízes desciam fundo nas sombras vermelhas do mar inferior. Havia ainda um enxame de lucíolos sobre as copas, insetos luminescentes que indicavam haver vida sob os galhos translúcidos. Quando a floresta se tornou visível para o olho nu de Adriana, a corrente diminuiu, e desapareceu. Estavam livres para navegar novamente, mas não havia nada mais à vista. Até as grandes falésias do Recife se tornaram apenas uma pálida linha no horizonte atrás.
Lucas eclipsou parte de Douglas.
Desceram e ligaram o motor. Estavam há menos de seis tésari da floresta quando Adriana o desligou e deixou o barco deslizar. As anêmonas eram maiores do que imaginava. Já lera muito sobre elas, mas era a primeira vez que via as árvores de água ao vivo. Os bulbos de ar da base eram quase do tamanho de seu barco, como imensas rochas, e – embora houvessem anêmonas de variados tamanhos – o tronco de muitas delas exigiria cinco ou seis zemani para abraçá-lo completamente. Os galhos-tentáculos estavam muito acima de sua cabeça, irradiando do tronco azulado, e por toda parte haviam lucíolos, que fosforesciam nas sombras como poeira brilhante. O aglomerado não era intransponível, absolutamente: havia várias trilhas de água por entre os troncos e bulbos. Pequenos crustáceos vírides habitavam sobre os bulbos, mas sob seu próprio risco: Adriana sabia que as raízes das Anêmonas buscavam peixes lá embaixo, e não se importariam de almoçar uma pequena cloro-lagosta para variar.
_ E então?...
_ A corr3nte p4rec3 se dis5ipar ness4 re9ião, Dr1. É mu1to provav3l que por tod4 a fl0r3st4 não haja corren7e, ou entã0 nem m3smo haver1a uma flor3sta. Pod3rem0s usá-l4 como um p0nto neutr0, e checar a 3xistênc1a de ilhas de suas fr0nt31ras.
_ Certo, façamos isso. Algum risco?
_ Pequenos p31xes e crustác30s p0dem v1ver sob um4 flor3st4 de água, p0uc0 m41s que isso. Apena5 não toqu3 n05 galh0s-tent4cul0s: pod3m queim4r sua pele.
_ Entendido.
Zero embrulhou as velas com seu tentapode, enquanto Adriana remava vagarosamente por entre os bulbos de ar. Era escuro dentro da floresta, apesar das copas translúcidas. Havia anêmonas pequenas sobre os grande bulbos, menores que Adriana, que balançavam seus galhos humildemente para cima. Os galhos servem para absorver nitrogênio do atmosfera, e se agitam para fazer correr o ar quando o vento é pouco. A zeman acariciou algumas com seu remo – eram pegajosos. Zero flutuava sobre os bulbos para encontrar trilhas, guiando Adriana. Logo a floresta ficou tão densa que as luas por trás das copas eram leves borrões coloridos.
Zero flutuou para longe do barco novamente, mas dessa vez demorou a voltar. Adriana recebeu seu sinal de alerta antes mesmo que ele retornasse.
_ Zero, que houve?
_ Há s3r3s na fl0resta! – sibilou ele, puxando ela para que se abaixasse.
Esperaram alguns segundos, quando ouviram o barulho de algo grande – grande! – se arrastando pelos bulbos. Adriana abraçou Zero, que chiava preocupado, ela mesma fazendo esforço para manter a respiração calma. Então, o tronco das anêmonas mais próximas vergaram – e elas eram imensas! – dando passagem a uma assombrosa criatura. Um longo rabo, largo como o tronco de uma anêmona, se estendia do corpo até muito atrás, se perdendo entre bulbos de ar e arbustos de água. Sustentava uma carapaça irregular, de sob a qual nasciam vários membros tentaculiformes. Tudo translúcido como água. Da carapaça nasciam seis tentáculos finos, que possuíam cada qual uma esfera negra na ponta, muito similares a olhos. Eram seguidos por quatro grandes garras crustáceas, duas de cada lado, igualmente translúcidas mas perigosamente sólidas. Balançavam no ar, recolhidas. A criatura lembrava uma lagosta distorcida pela imaginação de um contador de histórias, e ainda lembrava uma água-viva com garras. Seus órgãos pulsavam dentro de seu corpo transparente; via-se seu coração e seus vasos sanguíneos, e muitos de seus órgãos vitais, azuis ou sem cor, flutuando imersos em seu interior gelatinoso.
Os olhos rastrearam a região ao redor e se fixarem no barco de penta-alumínio. Avistaram Adriana, e houve um momento de tensão quando ele avançou um ou dois tésari. Suas garras eram do tamanho do barco, reparou a zeman. E ele rugiu devagar.
Adriana ergueu assustada um rifle securiano.
_ Não se a aproxime! – gritou, enquanto abraçava Zero com força.
A criatura rugiu de novo, e dessa vez, ela pode perceber, o som formava sílabas. Um terceiro rugido, e finalmente pôde ouvir:
_ S-e-t-t-a-i.
_ O quê? – exclamou, intrigada.
_ Settai – rugiu ele, pela quarta vez. Não era na verdade um rugido, mas uma voz demasiadamente rouca e arrastada, que lembrava uma onda se chocando contra as pedras do litoral.
_ Ele diz "bem vinda" – disse uma voz muito mais articulada, apesar do sotaque estranho, que usava o dialeto da nação Vianco.
_ Quem, quem está aí?
Surgiu então uma outra criatura, descendo pelo tronco de uma das grandes anêmonas. Tinha uma carapaça oval e achatada, da metade do tamanho do barco de Adriana, do qual nasciam seis garras de crustáceo de pouco mais de um tésar de comprimento. Na parte da frente, dois pequenos olhos negros. O corpo era rajado com diferentes tons de azul e também era translúcido. Também viam-se seus órgãos, mas, diferente da primeira criatura, seus vasos sanguíneos eram de um vermelho vivo, que se destacava do resto azulado do corpo. As garras beliscavam o tronco gelatinoso da anêmona conforme andava, o que o permitia que escalasse a árvore sem grande dificuldade.
Os dois animais eram muito diferentes, e ainda assim, muito parecidos.
_ Ele diz "bem-vinda", não em sua língua, mas na nossa. Nakamura-sama não fala sua língua, mas Quinan-san sim.
_ Quinan-san é o seu nome? – perguntou Adriana, abaixando a arma mas mantendo a posição defensiva.
_ Sim. Já fui outros, em outras épocas, mas hoje sou Quinan-san; amigos me chamam Quinan. Este é Nakamura-sama – disse, apontando para a grande lagosta-água-viva – Habitamos esta floresta, que chamamos de Uekigahara. Tu és moji?
_ Moji?
_ Moji, o povo de outros mares. Assim que nosso povo os chama.
_ Seu povo? O que vocês são?
Quinan calou-se por um tempo. Andou alguns passos para baixo e repousou sobre os bulbos de ar.
_ Houve um moji que foi parar em Namiishi, a ilha de pedra – disse ele – não muito longe daqui. Estava sozinho. Ofertou seu sangue aos deuses de aço e luz dos moji, mas não recebeu ajuda. Eu cheguei. Era um moji homem, de cabelos preto-azuis como os seus, mas curtos como os olhos de Quinan. Vestia um manto púrpura e uma lança bonita, e me ameaçou como tu me ameaças agora. Ele estava com fome e perdido. Cacei peixes para ele e ele me ensinou sua língua, a primeira vez que aprendi a língua moji. Houve outras vezes, é verdade, e cada vez a língua estava diferente, mas a memória de Quinan é boa. A língua moji muda muito.
"Quinan lhe trouxe comida mas exigiu pagamento, na nossa moeda. O moji então lhe contou sua história, de todos os moji que vieram com ele, e que agora era só ele. Gostei da história. Fomos amigos. Ajudei a construir seu barco, mas o moji não queria voltar para a terra dos moji, não, ele queria ir para frente. Para a terra do meio.
Fez uma pausa, como se lembrasse de algo que aconteceu há muito tempo atrás, ou como se procurasse com quais palavras continuaria.
_ Quinan conhece os mares daqui como conhece as luas do céu – continuou – era jovem e ajudou o moji a navegar. Houve grandes ondas, fortes ventos, e quando o gelo caiu do céu, Quinan achou que o moji morreria. Mas chegaram em segurança na terra do meio. E foi assim que e os dois voltaram de lá diferentes.
Levantou-se do bulbo de ar e deu a história por encerrada.
_ Terra do meio? – perguntou Adriana, temporariamente esquecida da situação atual, cercada por duas criaturas perigosas em uma floresta estranha. Quinan não pareceu ouvir.
_ Bonito amigo que a moji tem no braço. É seu? – a criatura tentou se aproximar alguns passos, mas Adriana ergueu seu rifle e ele parou. Nakamura também recuou um pouco, e Adriana se sentiu aliviada por descobrir que eles a temiam.
_ Sim, é meu. Eu o chamo de Zero – e uma esperança se abriu na mente dela – Você poderia me responder, senhor Quinan, onde fica essa terra do meio?
_ Que terra do meio?
_ A da história. Onde fica?
_ Que história? A moji fala engraçado, você tem o sotaque do povo de Villa.
_ Villa? Você conhece Villa? Já atravessou o Recife então!
_ Foi numa noite de Lucas também, como hoje. A lua verde brilhava nas ondas do mar.
_ A noite em que esteve em Villa?
_ A noite em que cheguei à terra do meio. O moji estava exausto, e Quinan também, mas eram amigos e continuaram em frente. Quinan seguiu o moji para onde ele queria ir, porque ele contou histórias incríveis sobre a terra do meio. Eu devia o moji pelas histórias, e o segui até o fim.
Nakamura falou alguma coisa na língua deles, mas Quinan retrucou na língua de Adriana. Depois voltou-se para ela e disse algo em sua própria língua, que ela não entendeu, e se calou.
Ela estava se cansando dessa conversa sem sentido, mas tinha ainda que perguntar algo, uma coisa que havia tocado fundo suas esperanças. Sabia-se por lendas que era no meio do Mar Interno, o mar limitado pelo Recife de Sal, onde ficava a maravilhosa terra do Pólo. Então tinha que perguntar:
_ Essa terra do meio é o Pólo do planeta?
Mas Quinan não respondeu. Ao invés disso, começou um diálogo com Nakamura em sua própria língua. Ela perguntou novamente, mas os dois a ignoraram.
_ A memória de Quinan-sama é como um ninho de sider-serpente: você pode encontrar coisas incríveis lá, mas nunca o que você procura.
A nova voz vinha de trás de um bulbo de ar, e dali veio nadando uma outra criatura como eles, mas de novo, diferente. Era maior que Quinan, grande como o barco, e também translúcido como uma água-viva. Tinha um casco redondo, como uma carapaça, de sob a qual nasciam seis tentáculos finos e inquietos, e uma cabeça escura, de onde brotavam duas antenas igualmente escuras. Poderia haver olhos ali, mas era impossível distinguir o rosto. E estava perto demais para deixar Adriana tranqüila.
_ Afaste-se! – gritou ela.
A nova criatura nadou ao redor do barco, deixando a zeman perigosamente encurralada entre os três. Nadou e se aproximou mais, erguendo-se da superfície da água.
_ Eu ser Mushi-san – disse ele, com o mesmo sotaque de Quinan, mas sem a mesma habilidade na língua – Nós três habitar essa floresta. Quinan-sama já habitava aqui antes de Nakamura e mim, e mesmo naquela época ele já ser louco.
_ Mushi-kun! – gritou Quinan, de repente – Conversávamos aqui, Nakamura e eu, e ele não concorda comigo. Quantas luas você acha que tem no céu de Zemi?
_ Sen – disse Mushi-san, sem nem pensar duas vezes.
_ Kure-ji, kure-ji! Você está louco! – respondeu Quinan – Louco. Não ouça Mushi-kun, moji-chan, ele está mais cego que um tubarão-morcego. Eu estou dizendo, filha, existem mil e uma luas, não apenas mil. Você pode me dizer que, se vigiarmos os céus por todo o ano e contarmos as luas todas as noites, contaremos mil luas. É o que todos dizem. Mas, é claro, a milésima primeira lua não brilha e é da cor do céu, e por isso ninguém pode vê-la. O que não quer dizer que não esteja lá, em todas as noites de inverno, escondida. Mas só no inverno. Acho que ela não gosta das outras estações, ou, talvez goste do frio. Ah, quem sabe – e ele passou a sussurrar, como se fosse contar um segredo – não é ela quem traz o inverno?
E rodou sobre si mesmo e voltou-se para Kamagura, com quem recomeçou seu diálogo.
Mushi deu uma gargalhada, que lembrava o grito das gaivotas.
_ Ah! Eu não disse? – falou – O velho Quinan-sama é louco, e muitas coisas que ele dizer são loucuras – e riu de novo, não um riso de deboche, mais um riso de contentamento – Eu gostar de Quinan-sama. Ele falar muitas loucuras, mas há coisas que ele saber – e coisas improváveis, moji-chan – que vão te deixar admirada. Foi ele quem me ensinou sua língua, e me ensinou a história de muitas luas, e sobre a terra dos moji. Tu ser a primeira moji que eu ver, não existem muitos de vocês desse lado do recife.
_ O que... o que vocês são? – perguntou por fim a zeman.
_ Somos mukai – respondeu Mushi-san – o povo dos mares.
Adriana já lera algo sobre eles, uma das poucas raças racionais de Zemi, mas nada realmente relevante lhe veio à memória. Em outras palavras, não se lembrava se eram perigosos. Precisava ganhar tempo.
_ Se todos vocês são mukai, porque são tão diferentes?
_ Essa ser a essência dos mukai – disse Mushi-san – Somos filhos do Mar e do Caos, nossos deuses. Cada mukai ser único, e ainda assim somos semelhantes. E vocês moji? Quais ser seus deuses? Diga, como ser a terra dos moji?
"Os muk4i sã0 cel3n7erados rac10nais de 4natom1a var1ável que hab1tam os mar3s. Po5suem linguagem e cultura pr0pr1as, se al1mentam de 4lg4s e inseto5 do mar e vivem c3rc4 de tr1nta e qu4tro an0s" – ecoou a voz de Zero na mente de Adriana, através da ligação psico-cibernética que havia entre os dois. A zeman respirou aliviada, não eram carnívoros, mas embora as criaturas não representassem perigo imediato, ainda assim o tamanho de Nakamura a intimidava. Abaixou a arma, mas não a desarmou.
_ Eu me chamo Adriana, e esse é Zero – disse, soltando o flutuang de seu braço – Que as luas brilhem sobre nosso encontro. Nossos deuses são Ae, o deus de ferro; Ur, o deus-céu, pai das luas e das estrelas; Lum, a deusa-serpente, mãe da eletricidade; e Zem, o progresso, nosso pai. Nossa terra está há dias de caminhada e navegação daqui, do outro lado do Recife de Sal, muito, muito longe.
"Bem... – continuou ela – Respondi a sua pergunta, Mushi-san, então por favor responda a minha: a terra do meio, o lugar que Quinan já visitou, é o Pólo do planeta?
_ Ele falar que sim – disse – mas eu duvidar, moji-chan. Oque suas histórias ter de fantásticas, ter de improváveis. Um mukai vê no máximo quarenta passagens de ano, mas ele afirma ter visto mais de uma centena. Não dê ouvidos a tudo o que ele falar. Quinan-sama é louco.
_ Tão louco quanto a órbita de Luiz, e que ainda assim traz bom tempo – Quinan emergiu de repente de seu diálogo com Nakamura, inesperadamente lúcido – O velho Quinan já encontrou muitos moji que tentaram ir para a terra do meio, mas nenhum deles ouviu Quinan. As correntes daqui são traiçoeiras, te prendem com garras de pedra e te fazem dançar para onde elas quiserem. Apenas o moji do manto púrpura, o primeiro amigo de Quinan, confiou nele, e ambos chegaram ao Pólo – concluiu, pinçando um lucíolo em pleno ar e levando-o à boca.
_ O Pólo? Então, você conhece o caminho? – perguntou a menina.
_ Para onde?
_ Para o Pólo!
_ Isso depende... – Quinan cruzou as garras, e franziu as sobrancelhas, como se pensasse – Você diz, o caminho para chegar lá?
_ E por acaso existe outro?
_ Existem muitos caminhos, e todos levam para algum lugar. Bem, alguns te levam para o fundo do mar, é verdade, mas esses com certeza moji-chan não gostaria de conhecer, não é verdade?
Parecia que a conversa não levaria a lugar nenhum, mas Adriana precisava extrair aquela informação do mukai.
_ É claro – resolveu respondeu.
_ Bem, existe o caminho que rodeia essa floresta e retorna ao Recife de Sal, existe o caminho que leva para a ilha submersa, e um muito parecido que leva para recifes perigosos. Existe um caminho que leva para a ilha Namiryu, e um que leva para Kasaishima. Um que visita duas grandes florestas de água de nomes há muito esquecidos, e um que termina no Mar Calmo, de onde é impossível navegar de volta. Existe o caminho que passa por monstros perigosos, mas esse Quinan nunca trilhou. Existe uma dúzia que não levam a lugar nenhum, e uma dezena que leva para muito, muito longe, onde Quinan nunca foi. Ainda, existem uns muitos que o deixam livre para navegar, e, por fim, existe um ou dois que levam para a Terra do Meio.
_ Esses! Você os conhece?
Mas, ao invés de responder, Quinan começou a cantarolar uma música baixinho, em sua própria língua, voltou-se para o lado, como se Adriana nem estivesse ali, e começou a caminhar em círculos e cantar mais alto, balançando suas garras. Nakurama-sama balançou e emitiu um som forte, que fez vibrar as anêmonas ao redor; a sua versão de uma risada.
Mushi-san se aproximou mais, ondulando seus tentáculos.
_ Como eu dizer, moji-chan, nunca achar o que se procura. Mas, por que você quer ir tanto para a terra do meio?
O rosto de Adriana tornou-se sombrio como uma noite de apenas cem luas. Por quê? Por que ela desejava ir tanto para o Pólo? A resposta morreu em sua garganta antes mesmo de pensar em dizê-la. Não queria dizer que era sua única alternativa, depois de ter tentado exaustivamente tantas outras. Não queria dizer que teve que usar sua liberdade de zeman adulta para ignorar o apelo desesperado dos pais. Por fim, não queria dizer que era a única esperança do seu irmão, porque era verdade. A triste verdade.
Ao invés disso, calou-se, e seu silêncio falou mais que seus pensamentos. Mesmo o mukai entendeu, e se calou.
_ Eu preciso muito encontrar o Pólo – disse ela, por fim, e sua voz saiu mais firme do que esperava.
_ Sinto muito, moji-chan, mas eu não saber o caminho, e dificilmente Quinan-sama vá dizê-lo.
Uma estrela morreu nos olhos da zeman, mas uma outra brilhou logo em seguida no rosto escuro de Mushi-san. Ele disse:
_ Eu saber como te ajudar! Conte-nos uma história, moji-chan. Essa é a moeda mukai. Quinan-sama te contou uma, você o deve. Conte-nos uma história para pagá-lo de volta!
O mukai disse aquilo com tanto entusiasmo que pareceu ser um tipo de esperança. Zero computou o aumento da ansiedade de Adriana, e vasculhou em seu banco de memória por uma boa história. Mas Adriana estava confiante, e antes que ele terminasse a pesquisa respondeu que já sabia o que contaria. A mesma que embalara seus sonhos de criança, transmitiu para Zero. O flutuang se censurou – à maneira dos flutuanghi – por não ter se lembrado antes.
_ Vou contar a história de Davi, a lua azul – disse ela.
Mushi-san afastou-se um pouco e repousou sobre um grande bulbo de ar. Ao ouvir o que Adriana disse, Quinan interrompeu seu diálogo com o grande mukai, disse alguma coisa em sua língua e sentou-se ao lado de Mushi-san. Mesmo Nakamura-sama se aproximou, envergando ainda mais as anêmonas, que ondularam seus galhos-tentáculos como se reclamassem. Adriana começou:
_ A pequena nação de Moricz foi atacada certa vez por Heitor, o Bárbaro. Dizem que ele era tão poderoso que cinqüenta guerreiros morreram apenas para lhe deixar uma cicatriz na testa, a mesma cicatriz que vemos na face de sua lua; e que ele venceu, sozinho, um exército de duzentos homens. Diziam que seus ferimentos fechavam tão logo fossem abertos, e que era tão forte que podia lutar o dia inteiro sem parar para descansar ou comer. Sua fama cresceu por toda Zemi, e ele reuniu muitos renegados como seus guerreiros. Formou um pequeno exército. Seu flutuang era gigantesco, do tamanho de um zeman adulto, com duas placas rotatórias do impenetrável tri-carbono acopladas. Era chamado Muralha, porque era o escudo impenetrável de Heitor. As nações o temiam.
"Dezenas de cidades foram destruídas por sua pilhagem, e então foi a vez das nações. Catelan foi a primeira. Disseram que a morte de seu regente foi tão terrível que nenhum poeta ousa falar sobre ela, nem nenhuma canção foi jamais composta, nem há detalhe algum nos arquivos. A nação simplesmente ruiu.
"Depois de Catelan, os reis e senhores fizeram acordos com o bárbaro, e ele cresceu em riqueza e poder.
"Um dia, Davi, o Senhor de Moricz, cansado dos altos tributos e do jugo de Heitor, desfez sua aliança e desafiou o bárbaro para a guerra. Muita gente fugiu daquela nação quando ouviram que Heitor marchava contra ela, e poucos restaram para lutar por seu senhor. Era tarde para voltar atrás.
"O Senhor de Moricz marchou com seus poucos homens, e nas fronteiras da nação, no fatídico dia da batalha, o pouco exército moricziano debandou à simples visão do estandarte laranja, deixando Davi sozinho, e os homens de Heitor riram, e gritaram, e exaltaram o poder de seu senhor.
"De um lado, Heitor e seus duzentos homens, do outro, Davi e seu flutuang, armado apenas com sua lança.
"Heitor sorriu e avançou, a espada elétrica em punho, sozinho. As placas de Muralha giravam incrivelmente velozes, protegendo o flanco e a vanguarda de seu dono. Seria uma vitória fácil. Davi ergueu sua lança, na posição do lanceiro, e esperou. Um século inteiro pareceu passar enquanto Heitor investia pelo campo de batalha, e durante todo esse tempo Davi esperou, sem mexer nem um músculo, nem um fio de cabelo.
Finalmente, quando o bárbaro estava a apenas três passos, o Senhor de Moricz largou sua arma e mergulhou fundo as mãos na areia. Puxou de lá um rifle moricziano poderoso, o que eles chamam de Cérberus, ignorou Heitor e cravou o cano no flutuang inimigo. Atirou.
"O Cérberus é um rifle de três canos, longo como as caudas de um zeman, que mesmo com o passar das décadas não precisou de grandes aprimoramentos. À distância sua bala pode penetrar uma placa de bi-carbono, mas à queima-roupa atravessa até o tetra-carbono. Muralha chiou, soltou fogo e fagulhas, e caiu inerte. Heitor cuspiu água e sangue, no mesmo instante que sua espada elétrica atravessava o corpo de Davi. O Senhor de Moricz caiu por terra, mas levou consigo parte da vida de Heitor. Um zeman não sobrevive muito tempo sem um flutuang.
"Então a corneta de batalha do exército moricziano soou, e surgiram de trás das colinas todos os guerreiros que a nação possuía. Eles honraram seu senhor, que planejara dar sua vida por uma chance de vitória. Caíram sobre os bárbaros e foram, finalmente, vitoriosos. Esse foi o fim de Heitor, o Terrível, mas seu nome será para sempre lembrado – e ainda temido – na forma da gigantesca lua laranja. Mas também, até hoje as nações se lembram do sacrifício de Davi, o Senhor de Moricz, que entregou sua vida por um tiro fatal no flutuang inimigo. Essa é a história do sacrifício de Davi, a lua azul.
"E toda vez que Davi nasce num horizonte, Heitor se põe no outro."
Houve um silêncio depois que Adriana terminou, um silêncio quebrado apenas pelo flutuar de Zero e pelo som do mar. A moeda dos mukai é uma história, mas quem decide o seu valor é o ouvinte. Quinan conhecia a história de muitas das mil luas, e as ensinou para Mushi-san e Nakamura-sama, mas a história de Davi ele não conhecia. E foi assim que Adriana deixou a floresta de água e partiu para Namiishi, a ilha de pedra.
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Imagem retirada do site shiftedreality.com
O planeta Zemi possui a extraordinária quantia de mil luas, de tamanhos, cores e órbitas variadas, todas batizadas com o nome de um proeminente personagem da história zeman.
Douglas, a lua dourada, foi um grande cientista do século passado, inventor da tecnologia da luz lunar. Seus estudos permitiram a evolução dos flutuanghi, quando se gastava muito com suas baterias pouco eficientes, e elevou o padrão de vida zeman. O motor de Adriana usava a mesma tecnologia, absorvendo energia da luz da lua dourada.
Vinícius, a pequena lua púrpura, foi o rei-imperador que uma vez unificou as duzentas nações, e desenvolveu a arte, a ciência, a filosofia e a astronomia.
Felipe, a meia-lua cinzenta, foi o patriarca da nação Villa, quase mil anos atrás. E havia muitas e muitas outras. O céu da noite zeman nunca possuía menos de uma centena de luas, e havia dias, embora raros, em que metade do seu total ocupava o céu. As luas tinham um papel muito importante no planeta, afetando o clima, as marés e – no raro caso de Heitor – mesmo a tectonia zeman.
Lucas, a lua verde, finalmente atingiu o zênite, trazendo vento fresco. Uma onda passou gentilmente pelo fundo da embarcação, espirrando um pouco da água transparente do oceano superior de Zemi.
Adriana fixou o olhar em Rita e Maria. Dirigiam-se para nordeste, para onde Zero avistara a ilha, e de lá descobririam a melhor rota para o próximo passo. Não era a melhor maneira de se navegar, mas era a mais segura. Checou com Zero a previsão do tempo para as próximas horas, e a única ressalva era encontrarem terra firme antes do último quarto da noite, quando a fase crescente de Rafael nasceria. E então, Adriana não queria estar nem perto do mar.
O oceano inferior ondulava devagar, com suas águas rubras, quase dez tésari abaixo do primeiro. A diferença de densidade impedia que ambos os oceanos se misturassem, havendo um mar superior, límpido e transparente, e um mar inferior, de águas vermelhas, onde a verdadeira vida marinha se encontrava. Às vezes o dorso de um cetáceo podia ser visto na superfície escarlate, mais abaixo, ou pelo menos Adriana rezava para que fosse um cetáceo. A voz metálica de zero – monstr0s terr1v3is – ainda ecoava em sua mente.
Foi quando o barco deu uma guinada para a direita.
Adriana correu para o leme do motor e puxou, mas o barco não obedeceu. Foram pegos por uma corrente marinha.
_ Zero!
O flutuang captou sua linha de pensamento, enrolou rapidamente seu tentapode no cabo do leme e ajudou a puxar, mas a corrente era muito poderosa. Adriana viu, nervosa, quando a ilha passou por eles, como o casco de uma tartaruga gigante, fugindo, ficando para trás. E quase foi arremessada para o mar quando a corrente mudou de direção, e então Zero levantou o leme da água.
_ É inút1l, v4mos quebr4-l0 se con7inuarmo5 – disse.
O barco parou de balançar quando ele fez isso, e Adriana sentou-se, exausta.
_ Mas, e a ilha Zero? Para onde vamos agora?
Eram arrastados para o norte. O flutuang elevou-se no ar um tésar de altura e observou em volta. Em todo o horizonte atrás havia a linha branca do Recife; à esquerda deles e longe, a ilha; e na direção que tomavam, nada visível. Enviou o que via para a mente de Adriana.
_ Nad4 num r410 de dez kil0-tés4ri – disse ele – Poder3mos util1z4r os vento5.
_ Você acha que ele nos tiraria da corrente?
_ P0uco pr0vável – computou – Mas no55a al7ernat1va é esper4r...
_ Entendi.
Desdobraram as velas vermelhas – a cor de Villa – e uma lufada de ar inclinou o barco levemente. Agora se dirigiam um pouco mais para noroeste, mais precisamente a 35,1º à esquerda do Pólo – informou Zero. Adriana manobrava as velas, tentando não se manter muito longe da direção correta, enquanto o flutuang checava, a cada cinco minutos, a existência de ilhas. Encontrou algumas, mas foram incapazes de sair da corrente, e as viram ficar para trás. Já passava da metade do segundo quarto da noite, quando Zero transmitiu uma imagem curiosa.
Algo elevava-se acima da superfície do oceano superior, algo que cintilava na luz das luas. Uma análise mais minuciosa revelou serem vários corpos translúcidos, robustos como o tronco de uma árvore, com galhos que dançavam no ar em ritmos próprios. Eram membros tentaculóides, que ondulavam desde a base até a extremidade, variando de cores do azul ao violeta, nunca estáticos. Anêmonas. Zero transmitiu a informação para a mente de Adriana tão logo chegou a tal conclusão. O que viam era um pequeno bosque de anêmonas, árvores de água da superfície do mar. Fixavam seus troncos sobre colchões de bulbos de ar, que as mantinham flutuando enquanto suas raízes desciam fundo nas sombras vermelhas do mar inferior. Havia ainda um enxame de lucíolos sobre as copas, insetos luminescentes que indicavam haver vida sob os galhos translúcidos. Quando a floresta se tornou visível para o olho nu de Adriana, a corrente diminuiu, e desapareceu. Estavam livres para navegar novamente, mas não havia nada mais à vista. Até as grandes falésias do Recife se tornaram apenas uma pálida linha no horizonte atrás.
Lucas eclipsou parte de Douglas.
Desceram e ligaram o motor. Estavam há menos de seis tésari da floresta quando Adriana o desligou e deixou o barco deslizar. As anêmonas eram maiores do que imaginava. Já lera muito sobre elas, mas era a primeira vez que via as árvores de água ao vivo. Os bulbos de ar da base eram quase do tamanho de seu barco, como imensas rochas, e – embora houvessem anêmonas de variados tamanhos – o tronco de muitas delas exigiria cinco ou seis zemani para abraçá-lo completamente. Os galhos-tentáculos estavam muito acima de sua cabeça, irradiando do tronco azulado, e por toda parte haviam lucíolos, que fosforesciam nas sombras como poeira brilhante. O aglomerado não era intransponível, absolutamente: havia várias trilhas de água por entre os troncos e bulbos. Pequenos crustáceos vírides habitavam sobre os bulbos, mas sob seu próprio risco: Adriana sabia que as raízes das Anêmonas buscavam peixes lá embaixo, e não se importariam de almoçar uma pequena cloro-lagosta para variar.
_ E então?...
_ A corr3nte p4rec3 se dis5ipar ness4 re9ião, Dr1. É mu1to provav3l que por tod4 a fl0r3st4 não haja corren7e, ou entã0 nem m3smo haver1a uma flor3sta. Pod3rem0s usá-l4 como um p0nto neutr0, e checar a 3xistênc1a de ilhas de suas fr0nt31ras.
_ Certo, façamos isso. Algum risco?
_ Pequenos p31xes e crustác30s p0dem v1ver sob um4 flor3st4 de água, p0uc0 m41s que isso. Apena5 não toqu3 n05 galh0s-tent4cul0s: pod3m queim4r sua pele.
_ Entendido.
Zero embrulhou as velas com seu tentapode, enquanto Adriana remava vagarosamente por entre os bulbos de ar. Era escuro dentro da floresta, apesar das copas translúcidas. Havia anêmonas pequenas sobre os grande bulbos, menores que Adriana, que balançavam seus galhos humildemente para cima. Os galhos servem para absorver nitrogênio do atmosfera, e se agitam para fazer correr o ar quando o vento é pouco. A zeman acariciou algumas com seu remo – eram pegajosos. Zero flutuava sobre os bulbos para encontrar trilhas, guiando Adriana. Logo a floresta ficou tão densa que as luas por trás das copas eram leves borrões coloridos.
Zero flutuou para longe do barco novamente, mas dessa vez demorou a voltar. Adriana recebeu seu sinal de alerta antes mesmo que ele retornasse.
_ Zero, que houve?
_ Há s3r3s na fl0resta! – sibilou ele, puxando ela para que se abaixasse.
Esperaram alguns segundos, quando ouviram o barulho de algo grande – grande! – se arrastando pelos bulbos. Adriana abraçou Zero, que chiava preocupado, ela mesma fazendo esforço para manter a respiração calma. Então, o tronco das anêmonas mais próximas vergaram – e elas eram imensas! – dando passagem a uma assombrosa criatura. Um longo rabo, largo como o tronco de uma anêmona, se estendia do corpo até muito atrás, se perdendo entre bulbos de ar e arbustos de água. Sustentava uma carapaça irregular, de sob a qual nasciam vários membros tentaculiformes. Tudo translúcido como água. Da carapaça nasciam seis tentáculos finos, que possuíam cada qual uma esfera negra na ponta, muito similares a olhos. Eram seguidos por quatro grandes garras crustáceas, duas de cada lado, igualmente translúcidas mas perigosamente sólidas. Balançavam no ar, recolhidas. A criatura lembrava uma lagosta distorcida pela imaginação de um contador de histórias, e ainda lembrava uma água-viva com garras. Seus órgãos pulsavam dentro de seu corpo transparente; via-se seu coração e seus vasos sanguíneos, e muitos de seus órgãos vitais, azuis ou sem cor, flutuando imersos em seu interior gelatinoso.
Os olhos rastrearam a região ao redor e se fixarem no barco de penta-alumínio. Avistaram Adriana, e houve um momento de tensão quando ele avançou um ou dois tésari. Suas garras eram do tamanho do barco, reparou a zeman. E ele rugiu devagar.
Adriana ergueu assustada um rifle securiano.
_ Não se a aproxime! – gritou, enquanto abraçava Zero com força.
A criatura rugiu de novo, e dessa vez, ela pode perceber, o som formava sílabas. Um terceiro rugido, e finalmente pôde ouvir:
_ S-e-t-t-a-i.
_ O quê? – exclamou, intrigada.
_ Settai – rugiu ele, pela quarta vez. Não era na verdade um rugido, mas uma voz demasiadamente rouca e arrastada, que lembrava uma onda se chocando contra as pedras do litoral.
_ Ele diz "bem vinda" – disse uma voz muito mais articulada, apesar do sotaque estranho, que usava o dialeto da nação Vianco.
_ Quem, quem está aí?
Surgiu então uma outra criatura, descendo pelo tronco de uma das grandes anêmonas. Tinha uma carapaça oval e achatada, da metade do tamanho do barco de Adriana, do qual nasciam seis garras de crustáceo de pouco mais de um tésar de comprimento. Na parte da frente, dois pequenos olhos negros. O corpo era rajado com diferentes tons de azul e também era translúcido. Também viam-se seus órgãos, mas, diferente da primeira criatura, seus vasos sanguíneos eram de um vermelho vivo, que se destacava do resto azulado do corpo. As garras beliscavam o tronco gelatinoso da anêmona conforme andava, o que o permitia que escalasse a árvore sem grande dificuldade.
Os dois animais eram muito diferentes, e ainda assim, muito parecidos.
_ Ele diz "bem-vinda", não em sua língua, mas na nossa. Nakamura-sama não fala sua língua, mas Quinan-san sim.
_ Quinan-san é o seu nome? – perguntou Adriana, abaixando a arma mas mantendo a posição defensiva.
_ Sim. Já fui outros, em outras épocas, mas hoje sou Quinan-san; amigos me chamam Quinan. Este é Nakamura-sama – disse, apontando para a grande lagosta-água-viva – Habitamos esta floresta, que chamamos de Uekigahara. Tu és moji?
_ Moji?
_ Moji, o povo de outros mares. Assim que nosso povo os chama.
_ Seu povo? O que vocês são?
Quinan calou-se por um tempo. Andou alguns passos para baixo e repousou sobre os bulbos de ar.
_ Houve um moji que foi parar em Namiishi, a ilha de pedra – disse ele – não muito longe daqui. Estava sozinho. Ofertou seu sangue aos deuses de aço e luz dos moji, mas não recebeu ajuda. Eu cheguei. Era um moji homem, de cabelos preto-azuis como os seus, mas curtos como os olhos de Quinan. Vestia um manto púrpura e uma lança bonita, e me ameaçou como tu me ameaças agora. Ele estava com fome e perdido. Cacei peixes para ele e ele me ensinou sua língua, a primeira vez que aprendi a língua moji. Houve outras vezes, é verdade, e cada vez a língua estava diferente, mas a memória de Quinan é boa. A língua moji muda muito.
"Quinan lhe trouxe comida mas exigiu pagamento, na nossa moeda. O moji então lhe contou sua história, de todos os moji que vieram com ele, e que agora era só ele. Gostei da história. Fomos amigos. Ajudei a construir seu barco, mas o moji não queria voltar para a terra dos moji, não, ele queria ir para frente. Para a terra do meio.
Fez uma pausa, como se lembrasse de algo que aconteceu há muito tempo atrás, ou como se procurasse com quais palavras continuaria.
_ Quinan conhece os mares daqui como conhece as luas do céu – continuou – era jovem e ajudou o moji a navegar. Houve grandes ondas, fortes ventos, e quando o gelo caiu do céu, Quinan achou que o moji morreria. Mas chegaram em segurança na terra do meio. E foi assim que e os dois voltaram de lá diferentes.
Levantou-se do bulbo de ar e deu a história por encerrada.
_ Terra do meio? – perguntou Adriana, temporariamente esquecida da situação atual, cercada por duas criaturas perigosas em uma floresta estranha. Quinan não pareceu ouvir.
_ Bonito amigo que a moji tem no braço. É seu? – a criatura tentou se aproximar alguns passos, mas Adriana ergueu seu rifle e ele parou. Nakamura também recuou um pouco, e Adriana se sentiu aliviada por descobrir que eles a temiam.
_ Sim, é meu. Eu o chamo de Zero – e uma esperança se abriu na mente dela – Você poderia me responder, senhor Quinan, onde fica essa terra do meio?
_ Que terra do meio?
_ A da história. Onde fica?
_ Que história? A moji fala engraçado, você tem o sotaque do povo de Villa.
_ Villa? Você conhece Villa? Já atravessou o Recife então!
_ Foi numa noite de Lucas também, como hoje. A lua verde brilhava nas ondas do mar.
_ A noite em que esteve em Villa?
_ A noite em que cheguei à terra do meio. O moji estava exausto, e Quinan também, mas eram amigos e continuaram em frente. Quinan seguiu o moji para onde ele queria ir, porque ele contou histórias incríveis sobre a terra do meio. Eu devia o moji pelas histórias, e o segui até o fim.
Nakamura falou alguma coisa na língua deles, mas Quinan retrucou na língua de Adriana. Depois voltou-se para ela e disse algo em sua própria língua, que ela não entendeu, e se calou.
Ela estava se cansando dessa conversa sem sentido, mas tinha ainda que perguntar algo, uma coisa que havia tocado fundo suas esperanças. Sabia-se por lendas que era no meio do Mar Interno, o mar limitado pelo Recife de Sal, onde ficava a maravilhosa terra do Pólo. Então tinha que perguntar:
_ Essa terra do meio é o Pólo do planeta?
Mas Quinan não respondeu. Ao invés disso, começou um diálogo com Nakamura em sua própria língua. Ela perguntou novamente, mas os dois a ignoraram.
_ A memória de Quinan-sama é como um ninho de sider-serpente: você pode encontrar coisas incríveis lá, mas nunca o que você procura.
A nova voz vinha de trás de um bulbo de ar, e dali veio nadando uma outra criatura como eles, mas de novo, diferente. Era maior que Quinan, grande como o barco, e também translúcido como uma água-viva. Tinha um casco redondo, como uma carapaça, de sob a qual nasciam seis tentáculos finos e inquietos, e uma cabeça escura, de onde brotavam duas antenas igualmente escuras. Poderia haver olhos ali, mas era impossível distinguir o rosto. E estava perto demais para deixar Adriana tranqüila.
_ Afaste-se! – gritou ela.
A nova criatura nadou ao redor do barco, deixando a zeman perigosamente encurralada entre os três. Nadou e se aproximou mais, erguendo-se da superfície da água.
_ Eu ser Mushi-san – disse ele, com o mesmo sotaque de Quinan, mas sem a mesma habilidade na língua – Nós três habitar essa floresta. Quinan-sama já habitava aqui antes de Nakamura e mim, e mesmo naquela época ele já ser louco.
_ Mushi-kun! – gritou Quinan, de repente – Conversávamos aqui, Nakamura e eu, e ele não concorda comigo. Quantas luas você acha que tem no céu de Zemi?
_ Sen – disse Mushi-san, sem nem pensar duas vezes.
_ Kure-ji, kure-ji! Você está louco! – respondeu Quinan – Louco. Não ouça Mushi-kun, moji-chan, ele está mais cego que um tubarão-morcego. Eu estou dizendo, filha, existem mil e uma luas, não apenas mil. Você pode me dizer que, se vigiarmos os céus por todo o ano e contarmos as luas todas as noites, contaremos mil luas. É o que todos dizem. Mas, é claro, a milésima primeira lua não brilha e é da cor do céu, e por isso ninguém pode vê-la. O que não quer dizer que não esteja lá, em todas as noites de inverno, escondida. Mas só no inverno. Acho que ela não gosta das outras estações, ou, talvez goste do frio. Ah, quem sabe – e ele passou a sussurrar, como se fosse contar um segredo – não é ela quem traz o inverno?
E rodou sobre si mesmo e voltou-se para Kamagura, com quem recomeçou seu diálogo.
Mushi deu uma gargalhada, que lembrava o grito das gaivotas.
_ Ah! Eu não disse? – falou – O velho Quinan-sama é louco, e muitas coisas que ele dizer são loucuras – e riu de novo, não um riso de deboche, mais um riso de contentamento – Eu gostar de Quinan-sama. Ele falar muitas loucuras, mas há coisas que ele saber – e coisas improváveis, moji-chan – que vão te deixar admirada. Foi ele quem me ensinou sua língua, e me ensinou a história de muitas luas, e sobre a terra dos moji. Tu ser a primeira moji que eu ver, não existem muitos de vocês desse lado do recife.
_ O que... o que vocês são? – perguntou por fim a zeman.
_ Somos mukai – respondeu Mushi-san – o povo dos mares.
Adriana já lera algo sobre eles, uma das poucas raças racionais de Zemi, mas nada realmente relevante lhe veio à memória. Em outras palavras, não se lembrava se eram perigosos. Precisava ganhar tempo.
_ Se todos vocês são mukai, porque são tão diferentes?
_ Essa ser a essência dos mukai – disse Mushi-san – Somos filhos do Mar e do Caos, nossos deuses. Cada mukai ser único, e ainda assim somos semelhantes. E vocês moji? Quais ser seus deuses? Diga, como ser a terra dos moji?
"Os muk4i sã0 cel3n7erados rac10nais de 4natom1a var1ável que hab1tam os mar3s. Po5suem linguagem e cultura pr0pr1as, se al1mentam de 4lg4s e inseto5 do mar e vivem c3rc4 de tr1nta e qu4tro an0s" – ecoou a voz de Zero na mente de Adriana, através da ligação psico-cibernética que havia entre os dois. A zeman respirou aliviada, não eram carnívoros, mas embora as criaturas não representassem perigo imediato, ainda assim o tamanho de Nakamura a intimidava. Abaixou a arma, mas não a desarmou.
_ Eu me chamo Adriana, e esse é Zero – disse, soltando o flutuang de seu braço – Que as luas brilhem sobre nosso encontro. Nossos deuses são Ae, o deus de ferro; Ur, o deus-céu, pai das luas e das estrelas; Lum, a deusa-serpente, mãe da eletricidade; e Zem, o progresso, nosso pai. Nossa terra está há dias de caminhada e navegação daqui, do outro lado do Recife de Sal, muito, muito longe.
"Bem... – continuou ela – Respondi a sua pergunta, Mushi-san, então por favor responda a minha: a terra do meio, o lugar que Quinan já visitou, é o Pólo do planeta?
_ Ele falar que sim – disse – mas eu duvidar, moji-chan. Oque suas histórias ter de fantásticas, ter de improváveis. Um mukai vê no máximo quarenta passagens de ano, mas ele afirma ter visto mais de uma centena. Não dê ouvidos a tudo o que ele falar. Quinan-sama é louco.
_ Tão louco quanto a órbita de Luiz, e que ainda assim traz bom tempo – Quinan emergiu de repente de seu diálogo com Nakamura, inesperadamente lúcido – O velho Quinan já encontrou muitos moji que tentaram ir para a terra do meio, mas nenhum deles ouviu Quinan. As correntes daqui são traiçoeiras, te prendem com garras de pedra e te fazem dançar para onde elas quiserem. Apenas o moji do manto púrpura, o primeiro amigo de Quinan, confiou nele, e ambos chegaram ao Pólo – concluiu, pinçando um lucíolo em pleno ar e levando-o à boca.
_ O Pólo? Então, você conhece o caminho? – perguntou a menina.
_ Para onde?
_ Para o Pólo!
_ Isso depende... – Quinan cruzou as garras, e franziu as sobrancelhas, como se pensasse – Você diz, o caminho para chegar lá?
_ E por acaso existe outro?
_ Existem muitos caminhos, e todos levam para algum lugar. Bem, alguns te levam para o fundo do mar, é verdade, mas esses com certeza moji-chan não gostaria de conhecer, não é verdade?
Parecia que a conversa não levaria a lugar nenhum, mas Adriana precisava extrair aquela informação do mukai.
_ É claro – resolveu respondeu.
_ Bem, existe o caminho que rodeia essa floresta e retorna ao Recife de Sal, existe o caminho que leva para a ilha submersa, e um muito parecido que leva para recifes perigosos. Existe um caminho que leva para a ilha Namiryu, e um que leva para Kasaishima. Um que visita duas grandes florestas de água de nomes há muito esquecidos, e um que termina no Mar Calmo, de onde é impossível navegar de volta. Existe o caminho que passa por monstros perigosos, mas esse Quinan nunca trilhou. Existe uma dúzia que não levam a lugar nenhum, e uma dezena que leva para muito, muito longe, onde Quinan nunca foi. Ainda, existem uns muitos que o deixam livre para navegar, e, por fim, existe um ou dois que levam para a Terra do Meio.
_ Esses! Você os conhece?
Mas, ao invés de responder, Quinan começou a cantarolar uma música baixinho, em sua própria língua, voltou-se para o lado, como se Adriana nem estivesse ali, e começou a caminhar em círculos e cantar mais alto, balançando suas garras. Nakurama-sama balançou e emitiu um som forte, que fez vibrar as anêmonas ao redor; a sua versão de uma risada.
Mushi-san se aproximou mais, ondulando seus tentáculos.
_ Como eu dizer, moji-chan, nunca achar o que se procura. Mas, por que você quer ir tanto para a terra do meio?
O rosto de Adriana tornou-se sombrio como uma noite de apenas cem luas. Por quê? Por que ela desejava ir tanto para o Pólo? A resposta morreu em sua garganta antes mesmo de pensar em dizê-la. Não queria dizer que era sua única alternativa, depois de ter tentado exaustivamente tantas outras. Não queria dizer que teve que usar sua liberdade de zeman adulta para ignorar o apelo desesperado dos pais. Por fim, não queria dizer que era a única esperança do seu irmão, porque era verdade. A triste verdade.
Ao invés disso, calou-se, e seu silêncio falou mais que seus pensamentos. Mesmo o mukai entendeu, e se calou.
_ Eu preciso muito encontrar o Pólo – disse ela, por fim, e sua voz saiu mais firme do que esperava.
_ Sinto muito, moji-chan, mas eu não saber o caminho, e dificilmente Quinan-sama vá dizê-lo.
Uma estrela morreu nos olhos da zeman, mas uma outra brilhou logo em seguida no rosto escuro de Mushi-san. Ele disse:
_ Eu saber como te ajudar! Conte-nos uma história, moji-chan. Essa é a moeda mukai. Quinan-sama te contou uma, você o deve. Conte-nos uma história para pagá-lo de volta!
O mukai disse aquilo com tanto entusiasmo que pareceu ser um tipo de esperança. Zero computou o aumento da ansiedade de Adriana, e vasculhou em seu banco de memória por uma boa história. Mas Adriana estava confiante, e antes que ele terminasse a pesquisa respondeu que já sabia o que contaria. A mesma que embalara seus sonhos de criança, transmitiu para Zero. O flutuang se censurou – à maneira dos flutuanghi – por não ter se lembrado antes.
_ Vou contar a história de Davi, a lua azul – disse ela.
Mushi-san afastou-se um pouco e repousou sobre um grande bulbo de ar. Ao ouvir o que Adriana disse, Quinan interrompeu seu diálogo com o grande mukai, disse alguma coisa em sua língua e sentou-se ao lado de Mushi-san. Mesmo Nakamura-sama se aproximou, envergando ainda mais as anêmonas, que ondularam seus galhos-tentáculos como se reclamassem. Adriana começou:
_ A pequena nação de Moricz foi atacada certa vez por Heitor, o Bárbaro. Dizem que ele era tão poderoso que cinqüenta guerreiros morreram apenas para lhe deixar uma cicatriz na testa, a mesma cicatriz que vemos na face de sua lua; e que ele venceu, sozinho, um exército de duzentos homens. Diziam que seus ferimentos fechavam tão logo fossem abertos, e que era tão forte que podia lutar o dia inteiro sem parar para descansar ou comer. Sua fama cresceu por toda Zemi, e ele reuniu muitos renegados como seus guerreiros. Formou um pequeno exército. Seu flutuang era gigantesco, do tamanho de um zeman adulto, com duas placas rotatórias do impenetrável tri-carbono acopladas. Era chamado Muralha, porque era o escudo impenetrável de Heitor. As nações o temiam.
"Dezenas de cidades foram destruídas por sua pilhagem, e então foi a vez das nações. Catelan foi a primeira. Disseram que a morte de seu regente foi tão terrível que nenhum poeta ousa falar sobre ela, nem nenhuma canção foi jamais composta, nem há detalhe algum nos arquivos. A nação simplesmente ruiu.
"Depois de Catelan, os reis e senhores fizeram acordos com o bárbaro, e ele cresceu em riqueza e poder.
"Um dia, Davi, o Senhor de Moricz, cansado dos altos tributos e do jugo de Heitor, desfez sua aliança e desafiou o bárbaro para a guerra. Muita gente fugiu daquela nação quando ouviram que Heitor marchava contra ela, e poucos restaram para lutar por seu senhor. Era tarde para voltar atrás.
"O Senhor de Moricz marchou com seus poucos homens, e nas fronteiras da nação, no fatídico dia da batalha, o pouco exército moricziano debandou à simples visão do estandarte laranja, deixando Davi sozinho, e os homens de Heitor riram, e gritaram, e exaltaram o poder de seu senhor.
"De um lado, Heitor e seus duzentos homens, do outro, Davi e seu flutuang, armado apenas com sua lança.
"Heitor sorriu e avançou, a espada elétrica em punho, sozinho. As placas de Muralha giravam incrivelmente velozes, protegendo o flanco e a vanguarda de seu dono. Seria uma vitória fácil. Davi ergueu sua lança, na posição do lanceiro, e esperou. Um século inteiro pareceu passar enquanto Heitor investia pelo campo de batalha, e durante todo esse tempo Davi esperou, sem mexer nem um músculo, nem um fio de cabelo.
Finalmente, quando o bárbaro estava a apenas três passos, o Senhor de Moricz largou sua arma e mergulhou fundo as mãos na areia. Puxou de lá um rifle moricziano poderoso, o que eles chamam de Cérberus, ignorou Heitor e cravou o cano no flutuang inimigo. Atirou.
"O Cérberus é um rifle de três canos, longo como as caudas de um zeman, que mesmo com o passar das décadas não precisou de grandes aprimoramentos. À distância sua bala pode penetrar uma placa de bi-carbono, mas à queima-roupa atravessa até o tetra-carbono. Muralha chiou, soltou fogo e fagulhas, e caiu inerte. Heitor cuspiu água e sangue, no mesmo instante que sua espada elétrica atravessava o corpo de Davi. O Senhor de Moricz caiu por terra, mas levou consigo parte da vida de Heitor. Um zeman não sobrevive muito tempo sem um flutuang.
"Então a corneta de batalha do exército moricziano soou, e surgiram de trás das colinas todos os guerreiros que a nação possuía. Eles honraram seu senhor, que planejara dar sua vida por uma chance de vitória. Caíram sobre os bárbaros e foram, finalmente, vitoriosos. Esse foi o fim de Heitor, o Terrível, mas seu nome será para sempre lembrado – e ainda temido – na forma da gigantesca lua laranja. Mas também, até hoje as nações se lembram do sacrifício de Davi, o Senhor de Moricz, que entregou sua vida por um tiro fatal no flutuang inimigo. Essa é a história do sacrifício de Davi, a lua azul.
"E toda vez que Davi nasce num horizonte, Heitor se põe no outro."
Houve um silêncio depois que Adriana terminou, um silêncio quebrado apenas pelo flutuar de Zero e pelo som do mar. A moeda dos mukai é uma história, mas quem decide o seu valor é o ouvinte. Quinan conhecia a história de muitas das mil luas, e as ensinou para Mushi-san e Nakamura-sama, mas a história de Davi ele não conhecia. E foi assim que Adriana deixou a floresta de água e partiu para Namiishi, a ilha de pedra.
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Imagem retirada do site shiftedreality.com


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